segunda-feira, 20 de março de 2017

O Poço e o Pêndulo - Edgar Allan Poe



Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença – a terrível sentença de morte – foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho. O ruído despertava em minha alma a idéia de rotação, talvez devido à sua associação, em minha mente, com o ruído característico de uma roda de moinho. Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi. Não obstante, durante alguns momentos, pude ver, mas com que terrível exagero! Via os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me brancos, mais brancos do que a folha de papel em que traço estas palavras, e grotescamente finos – finos pela intensidade de sua expressão de firmeza, pela sua inflexível resolução, pelo severo desprezo ao sofrimento humano. Via que os decretos daquilo que para mim representava o destino saíam ainda daqueles lábios. Vi-os contorcerem-se numa frase mortal; vi-os pronunciarem as sílabas de meu nome – e estremeci, pois nenhum som lhes acompanhava os movimentos. 


Vi, também, durante alguns momentos de delírio e terror, a suave quase imperceptível ondulação das negras tapeçarias que cobriam as paredes da sala, e o meu olhar caiu então sobre as sete grandes velas que estavam em cima da mesa. A princípio, tiveram para mim o aspecto de uma claridade, e pareceram-me anjos brancos e esguios que deveriam salvar-me. Mas, de repente, uma náusea mortal invadiu-me a alma, e senti que cada fibra de meu corpo estremecia como se houvesse tocado os fios de uma bateria galvânica. As formas angélicas se converteram em inexpressivos espectros com cabeças de chama, e vi que não poderia esperar delas auxílio algum. Então, como magnífica nota musical, insinuou-se em minha imaginação a idéia do doce repouso que me aguardava no túmulo. Chegou suave, furtivamente – e penso que precisei de muito tempo para apreciá-la devidamente. Mas, no instante preciso em que meu espírito começava a sentir e alimentar essa idéia, as figuras dos juízes se dissiparam, como por arte de mágica, ante os meus olhos. As grandes velas reduziram-se a nada; suas chamas se apagaram por completo e sobreveio o negror das trevas; todas as sensações pareceram desaparecer como numa queda louca da alma até o Hades. E o universo transformou-se em noite, silêncio, imobilidade.

Eu desmaiara; mas, não obstante, não posso dizer que houvesse perdido de todo a consciência. Não procurarei definir, nem descrever sequer, o que dela me restava. Nem tudo, porém, estava perdido. Em meio do mais profundo sono… não! Em meio do delírio… não! Em meio do desfalecimento. . . não! Em meio da morte… não! Nem mesmo na morte tudo está perdido. Do contrário, não haveria imortalidade para o homem. Quando despertamos do mais profundo sono, desfazemos as teias de aranha de algum sonho. E, não obstante, um segundo depois não nos lembramos de haver sonhado, por mais delicada que tenha sido a teia. Na volta a vida, depois do desmaio, há duas fases: o sentimento da existência moral ou espiritual e o da existência física. Parece provável que, se ao chegar à segunda fase tivéssemos de evocar as impressões da primeira, tornaríamos a encontrar todas as lembranças eloqüentes do abismo do outro mundo. E qual é esse abismo? Como, ao menos, poderemos distinguir suas sombras das do túmulo?

Mas, se as impressões do que chamamos primeira fase não nos acodem de novo ao chamado da vontade, acaso não nos aparecem depois de longo intervalo, sem ser solicitadas, enquanto, maravilhados, perguntamos a nós mesmos de onde provêm? Quem nunca perdeu os sentidos não descobrirá jamais estranhos palácios e rostos singularmente familiares entre as chamas ardentes; não contemplará, flutuante no ar, as melancólicas visões que muitos talvez jamais contemplem; não meditará nunca sobre o perfume de alguma flor desconhecida, nem mergulhará no mistério de alguma melodia que jamais lhe chamou antes a atenção.

Em meio de meus freqüentes e profundos esforços para recordar, em meio de minha luta tenaz para apreender algum vestígio desse estado de vácuo aparente em que minha alma mergulhara, houve breves, brevíssimos instantes em que julguei triunfar, momentos fugidios em que cheguei a reunir lembranças que, em ocasiões posteriores, meu raciocínio, lúcido, me afirmou não poderem referir-se senão a esse estado em que a consciência parece aniquilada. Essas sombras de lembranças apresentavam, indistintamente, grandes figuras que me carregavam, transportando-me, silenciosamente, para baixo… para baixo… ainda mais para baixo… até que uma vertigem horrível me oprimia, ante a idéia de que não tinha mais fim tal descida. Também me lembro de que despertavam um vago horror no fundo de meu coração, devido precisamente à tranqüilidade sobrenatural desse mesmo coração. Depois, o sentimento de uma súbita imobilidade em tudo o que me cercava, como se aqueles que me carregavam (espantosa comitiva!) ultrapassassem, em sua descida, os limites do ilimitado, e fizessem uma pausa, vencidos pelo cansaço de seu esforço. Depois disso, lembro-me de uma sensação de monotonia e de umidade. Depois, tudo é loucura – a loucura da memória que se agita entre coisas proibidas.

Súbito, voltam à minha alma o movimento e o som – o movimento tumultuoso do coração e, em meus ouvidos, o som de suas batidas. Em seguida, uma pausa, em que tudo é vazio. Depois, de novo, o som, o movimento e o tato, como uma sensação vibrante que penetra em meu ser. Logo após, a simples consciência da minha existência, sem pensamento – estado que durou muito tempo. Depois, de maneira extremamente súbita, o pensamento, e um trêmulo terror – o esforço enorme para compreender o meu verdadeiro estado. Logo após, vivo desejo de mergulhar na insensibilidade. Depois, um brusco renascer da alma e um esforço bem sucedido para mover-me. E, então, a lembrança completa do que acontecera, dos juízes, das tapeçarias negras, da sentença, da fraqueza, do desmaio. Esquecimento completo de tudo o que acontecera – e que somente mais tarde, graças aos mais vivos esforços, consegui recordar vagamente.

Até então, não abrira ainda os olhos. Sentia que me achava deitado de costas, sem que estivesse atado. Estendi a mão e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa úmida e dura. Deixei que ela lá ficasse durante muitos minutos, enquanto me esforçava por imaginar onde é que eu estava e o que é que poderia ter acontecido comigo. Desejava, mas não me atrevia a fazer uso dos olhos. Receava o primeiro olhar sobre as coisas que me cercavam. Não que me aterrorizasse contemplar coisas terríveis, mas tinha medo de que não houvesse nada para ver. Por fim, experimentando horrível desespero em meu coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. Envolviam-me as trevas da noite eterna. Esforcei-me por respirar. A intensidade da escuridão parecia oprimir-me, asfixiar-me. O ar era intoleravelmente pesado. Continuei ainda imóvel, e esforcei-me por fazer uso da razão. Lembrei-me dos procedimentos inquisitoriais e, partindo daí, procurei deduzir qual a minha situação real.

A sentença fora proferida, e parecia-me que, desde então, transcorrera longo espaço de tempo. Não obstante, não imaginei um momento sequer que estivesse realmente morto. Tal suposição, pese o que lemos nos livros de ficção, é absolutamente incompatível com a existência real. Mas onde me encontrava e qual era o meu estado? Sabia que os condenados à morte pereciam, com freqüência, nos autos-de-fé – e um desses autos havia-se realizado na noite do dia em que eu fora julgado. Teria eu permanecido em meu calabouço, à espera do sacrifício seguinte, que não se realizaria senão dentro de muitos meses? Vi, imediatamente, que isso não poderia ser. As vítimas eram exigidas sem cessar. Além disso, meu calabouço, bem como as celas de todos os condenados, em Toledo, tinha piso de pedra e a luz não era inteiramente excluída.

De repente, uma idéia terrível acelerou violentamente o sangue em meu coração e, durante breve espaço, mergulhei de novo na insensibilidade. Ao recobrar os sentidos, pus-me logo de pé, a tremer convulsivamente. Alucinado, estendi os braços para o alto e em torno de mim, em todas as direções. Não senti nada. Não obstante, receava dar um passo, com medo de ver os meus movimentos impedidos pelos muros de um túmulo. O suor brotava-me de todos os poros e grossas gotas frias me salpicavam a testa. A angústia da incerteza tornou-se, por fim, insuportável e avancei com cautela, os braços estendidos, os olhos a saltar-me das órbitas, na esperança de descobrir algum tênue raio de luz. Dei muitos passos, mas, não obstante, tudo era treva e vácuo. Sentia a respiração mais livre. Parecia-me evidente que o meu destino não era, afinal de contas, o mais espantoso de todos.

Continuei a avançar cautelosamente e, enquanto isso, me vieram à memória mil vagos rumores dos horrores de Toledo. Sobre calabouços, contavam-se coisas estranhas – fábulas, como eu sempre as considerara; coisas, contudo, estranhas, e demasiado horríveis para que a gente as narrasse a não ser num sussurro. Acaso fora eu ali deixado para morrer de fome naquele subterrâneo mundo de trevas, ou

quem sabe um destino ainda mais terrível me aguardava? Conhecia demasiado bem o caráter de meus juízes para duvidar de que o resultado de tudo aquilo seria a morte, e uma morte mais amarga do que a habitual. Como seria ela e a hora de sua execução eram os únicos pensamentos que me ocupavam o espírito, causando-me angústia.

Minhas mãos estendidas encontraram, afinal, um obstáculo sólido. Era uma parede que parecia de pedra, muito lisa, úmida e fria. Segui junto a ela, caminhando com a cautelosa desconfiança que certas narrações antigas me haviam inspirado. Porém, essa operação não me proporcionava meio algum de averiguar as dimensões de meu calabouço; podia dar a volta e tornar ao ponto de partida sem perceber exatamente o lugar em que me encontrava, pois a parede me parecia perfeitamente uniforme. Por isso, procurei um canivete que tinha num dos bolsos quando fui levado ao tribunal, mas havia desaparecido. Minhas roupas tinham sido substituídas por uma vestimenta de sarja grosseira. A fim de identificar o ponto de partida, pensara em enfiar a lâmina em alguma minúscula fenda da parede. A dificuldade, apesar de tudo, não era insuperável, embora, em meio à desordem de meus pensamentos, me parecesse, a princípio, uma coisa insuperável. Rasguei uma tira da barra de minha roupa e coloquei-a ao comprido no chão. formando um ângulo reto com a parede. Percorrendo as palpadelas o caminho em torno de meu calabouço, ao terminar o circuito teria de encontrar o pedaço de fazenda. Foi, pelo menos, o que pensei; mas não levara em conta as dimensões do calabouço, nem a minha fraqueza. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleante, dei alguns passos, quando, de repente, tropecei e caí. Meu grande cansaço fez com que permanecesse caído e, naquela posição, o sono não tardou em apoderar-se de mim.

Ao acordar e estender o braço, encontrei ao meu lado um pedaço de pão e um púcaro com água. Estava demasiado exausto para pensar em tais circunstâncias, e bebi e comi avidamente. Pouco depois, reiniciei minha viagem em torno do calabouço e, com muito esforço, consegui chegar ao pedaço de sarja. Até o momento em que caí, já havia contado cinqüenta e dois passos e, ao recomeçar a andar até chegar ao pedaço de pano, mais quarenta e oito. Portanto, havia ao todo cem passos e, supondo que dois deles fossem uma jarda, calculei em cerca de cinqüenta jardas a circunferência de meu calabouço. No entanto, deparara com numerosos ângulos na parede, e isso me impedia de conjeturar qual a forma da caverna, pois não havia dúvida alguma de que se tratava de uma caverna.

Tais pesquisas não tinham objetivo algum e, certamente, eu não alimentava nenhuma esperança; mas uma vaga curiosidade me Ievava a continuá-las. Deixando a parede, resolvi atravessar a área de minha prisão. A princípio, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente revestido de material sólido, era traiçoeiro, devido ao limo. Por fim, ganhei coragem e não hesitei em pisar com firmeza, procurando seguir cm linha tão reta quanto possível. Avancei, dessa maneira, uns dez ou doze passos, quando o que restava da barra de minhas vestes se emaranhou em minhas pernas. Pisei num pedaço da fazenda e caí violentamente de bruços.

Na confusão causada pela minha queda, não reparei imediatamente numa circunstância um tanto surpreendente, a qual, no entanto, decorridos alguns instantes, enquanto me encontrava ainda estirado, me chamou a atenção. Era que o meu queixo estava apoiado sobre o chão da prisão, mas os meus lábios e a parte superior de minha cabeça, embora me parecessem colocados numa posição menos elevada do que o queixo, não tocavam em nada. Por outro lado, minha testa parecia banhada por um vapor pegajoso, e um cheiro característico de cogumelos em decomposição me chegou às narinas. Estendi o braço para a frente e tive um estremecimento, ao verificar que caíra bem junto às bordas de um poço circular cuja circunferência, naturalmente, não me era possível verificar no momento. Apalpando os tijolos, pouco abaixo da boca do poço, consegui deslocar um pequeno fragmento e deixei-o cair no abismo. Durante alguns segundos, fiquei atento aos seus ruídos, enquanto, na queda, batia de encontro às paredes do poço; por fim, ouvi um mergulho surdo na água, seguido de ecos fortes. No mesmo momento, ouvi um som que se assemelhava a um abrir e fechar de porta. acima de minha cabeça, enquanto um débil raio de luz irrompeu subitamente através da escuridão e se extinguiu de pronto.

Percebi claramente a armadilha que me estava preparada, e congratulei-me comigo mesmo pelo oportuno acidente que me fizera escapar de tal destino. Outro passo antes de minha queda, e o mundo jamais me veria de novo. E a morte de que escapara por pouco era daquelas que eu sempre considerara como fabulosas e frívolas nas narrações que diziam respeito à Inquisição. Para as vítimas de sua tirania, havia a escolha entre a morte com as suas angústias físicas imediatas e a morte com os seus espantosos horrores morais. Eu estava destinado a esta última. Devido aos longos sofrimentos, meus nervos estavam à flor da pele, a ponto de tremer ao som de minha própria voz, de modo que era, sob todos os aspectos, uma vítima adequada para a espécie de tortura que me aguardava.

Tremendo dos pés à cabeça, voltei, às apalpadelas, até a parede, resolvido antes a ali perecer do que a arrostar os terrores dos poços, que a minha imaginação agora pintava. em vários lugares do calabouço. Em outras condições de espírito, poderia ter tido a coragem de acabar de vez com a minha miséria, mergulhando num daqueles poços; mas eu era, então, o maior dos covardes. Tampouco podia esquecer o que lera a respeito daqueles poços: que a súbita extinção da vida não fazia parte dos planos de meus algozes.

A agitação em que se debatia o meu espírito fez-me permanecer acordado durante longas horas; contudo, acabei por adormecer de novo. Ao acordar, encontrei ao meu lado, como antes, um pão e um púcaro com água. Consumia-me uma sede abrasadora, e esvaziei o recipiente de um gole só. A água devia conter alguma droga, pois, mal acabara de beber, tornei-me irresistivelmente sonolento. Invadiu-me profundo sono – um sono como o da morte. Quanto tempo aquilo durou, certamente, não posso dizer; mas, quando tornei a abrir os olhos, os objetos em torno eram visíveis. Um forte clarão cor de enxofre, cuja origem não pude a princípio determinar, permitia-me ver a extensão e o aspecto da prisão.

Quanto ao seu tamanho, enganara-me completamente. A extensão das paredes, em toda a sua. volta, não passava. de vinte e cinco jardas. Durante alguns minutos, tal fato me causou um mundo de preocupações inúteis. Inúteis, de fato, pois o que poderia ser menos importante, nas circunstâncias em que me encontrava, do que as simples dimensões de minha cela? Mas minha alma se interessava vivamente por coisas insignificantes, e eu me empenhava em explicar a mim mesmo o erro cometido em meus cálculos. Por fim, a verdade fez-se-me subitamente clara. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinqüenta e dois passos até o momento em que caí; devia estar, então, a um ou dois passos do pedaço de sarja; na verdade, havia quase completado toda a volta do calabouço. Nessa altura, adormeci e, ao despertar, devo ter voltado sobre meus próprios passos – supondo, assim, que o circuito do calabouço era quase o dobro do que realmente era. A confusão de espírito em que me encontrava impediu-me de notar que começara a volta seguindo a parede pela esquerda, e que a terminara seguindo-a para a direita.

Enganara-me, também, quanto ao formato da cela. Ao seguir o meu caminho, deparara com muitos ângulos, o que me deu idéia de grande irregularidade, tão poderoso é o efeito da escuridão total sobre alguém que desperta do sono ou de um estado de torpor! Os ângulos não passavam de umas poucas reentrâncias, ou nichos, situadas em intervalos iguais. A forma geral da prisão era retangular. O que me parecera alvenaria, parecia-me, agora, ferro, ou algum outro metal, disposto em enormes pranchas, cujas suturas ou juntas produziam as depressões. Toda a superfície daquela construção metálica era revestida grosseiramente de vários emblemas horrorosos e repulsivos nascidos das superstições sepulcrais dos monges. Figuras de demônios de aspectos ameaçadores, com formas de esqueleto, bem como outras imagens ainda mais terríveis, enchiam e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos de tais monstruosidades eram bastante nítidos, mas que as cores pareciam desbotadas e apagadas, como por efeito da umidade. Notei, então, que o piso era de pedra. Ao centro, abria-se o poço circular de cujas fauces eu escapara – mas era o único existente no calabouço.

Vi tudo isso confusamente e com muito esforço, pois minha condição física mudara bastante durante o sono. Estava agora estendido de costas numa espécie de andaime de madeira muito baixo, ao qual me achava fortemente atado por uma longa tira de couro. Esta dava muitas voltas em torno de meus membros e de meu corpo, deixando apenas livre a minha cabeça e o meu braço esquerdo, de modo a permitir que eu, com muito esforço, me servisse do aumento que se achava sobre um prato de barro, colocado no chão. Vi, horrorizado, que o púcaro havia sido retirado, pois uma sede intolerável me consumia. Pareceu-me que a intenção de meus verdugos era exasperar essa sede, já que o alimento que o prato continha consistia de carne muita salgada.

Levantei os olhos e examinei o teto de minha prisão. Tinha de nove a doze metros de altura e o material de sua construção assemelhava-se ao das paredes laterais. Chamou-me a atenção uma de suas figuras, bastante singular. Era a figura do Tempo, tal como é comumente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava algo que me pareceu ser, ao primeiro olhar, um imenso pêndulo, como esses que vemos nos relógios antigos. Havia alguma coisa, porém, na aparência desse objeto, que me fez olhá-lo com mais atenção.

Enquanto a observava diretamente, olhando para cima, pois se achava colocada exatamente sobre minha cabeça, tive a impressão de que o pêndulo se movia. Um instante depois, vi que minha impressão se confirmava. Seu oscilar era curto e, por conseguinte, lento. Observei-o, durante alguns minutos, com certo receio, mas, principalmente, com espanto. Cansado, por fim, de observar o seu monótono movimento, voltei o olhar para outros objetos existentes na cela.

Um ligeiro ruído atraiu-me a atenção e, olhando para o chão, vi que enormes ratos o atravessavam. Tinham saído do poço, que ficava a direita. bem diante de meus olhos. Enquanto os olhava, saíam do poço em grande número, apressadamente, com olhos vorazes, atraídos pelo cheiro da carne. Foi preciso muito esforço e atenção de minha parte para afugentá-los.

Talvez houvesse transcorrido meia hora, ou mesmo uma hora – pois não me era possível perceber bem a passagem do tempo -, quando levantei de novo os olhos para o teto. O que então vi me deixou atônito, perplexo. O oscilar do pêndulo havia aumentado muito, chegando quase a uma jarda. Como consequência natural, sua velocidade era também muito maior. Mas o que me perturbou, principal-mente, foi a ideia de que havia, imperceptivelmente, descido. Observei, então – tomado de um horror que bem se pode imaginar -, que a sua extremidade inferior era formada de uma lua crescente feita de aço brilhante, de cerca de um pé de comprimento de ponta a ponta. As pontas estavam voltadas para cima e o fio inferior era, evidentemente, afiado como uma navalha. Também como uma navalha, parecia pesada e maciça, alargando-se, desde o fio, numa estrutura larga e sólida. Presa a cela havia um grosso cano de cobre, e tudo isso assobiava, ao mover-se no ar.

Já não me era possível alimentar qualquer dúvida quanto à sorte que me reservara o terrível engenho monacal de torturas. Os agentes da Inquisição tinham conhecimento de que eu descobrira o poço – o poço cujos horrores haviam sido destinados a um herege tão temerário quanto eu -, o poço, imagem do inferno, considerado como a Última Tule de todos os seus castigos. Um simples acaso me impedira de cair no poço, e eu sabia que a surpresa, ou uma armadilha que levasse ao suplício constituíam uma parte importante de tudo o que havia de grotesco naqueles calabouços de morte. Ao que parecia, tendo fracassado a minha queda no poço, não fazia parte do plano demoníaco o meu lançamento no abismo e, assim, não havendo outra alternativa, aguardava-me uma forma mais suave de destruição. Mais suave! Em minha angústia, esbocei um sorriso ao pensar no emprego dessas palavras.

Para que falar das longas, longas horas de horror mais do que mortal, durante as quais contei as rápidas oscilações do aço? Polegada a polegada, linha a linha, descia aos poucos, de um modo só perceptível a intervalos que para mim pareciam séculos. E cada vez descia mais, descia mais!…

Passaram-se dias, talvez muitos dias, antes que chegasse a oscilar tão perto de mim a ponto de me ser possível sentir o ar acre que deslocava. Penetrava-me as narinas o cheiro do aço afiado. Rezei – cansando o céu com as minhas preces – para que a sua descida fosse mais rápida. Tomado de frenética loucura, esforcei-me para erguer o corpo e ir ao encontro daquela espantosa e oscilante cimitarra. Depois, de repente, apoderou-se de mim uma grande calma e permaneci sorrindo diante daquela morte cintilante, como uma criança diante de um brinquedo raro.

Seguiu-se outro intervalo de completa insensibilidade -um intervalo muito curto, pois, ao voltar de novo à vida, não me pareceu que o pêndulo houvesse descido de maneira perceptível. Mas é possível que haja decorrido muito tempo; sabia que existiam seres infernais que tomavam nota de meus desfalecimentos e podiam deter, à vontade, o movimento do pêndulo. Ao voltar a mim, senti um mal-estar é uma fraqueza indescritíveis, como se estivesse a morrer de inanição. Mesmo entre todas as angústias por que estava passando, a natureza humana ansiava por alimento. Com penoso esforço, estendi o braço esquerdo tanto quanto me permitiam as ataduras e apanhei um resto de comida que conseguira evitar que os ratos comessem. Ao levar um bocado à boca, passou-me pelo espírito um vago pensamento de alegria… de esperança. Não obstante, .que é que tinha com a ver com a esperança? Era, como digo, um pensamento vago – desses que ocorrem a todos com freqüência, mas que não se completam. Mas senti que era de alegria, de esperança. Como senti, também, que se extinguira antes de formar-se. Esforcei-me em vão por completá-lo… por reconquistá-lo. Meus longos sofrimentos haviam quase aniquilado todas as Faculdades de meu espírito. Eu era um imbecil, um idiota.

A oscilação do pêndulo se processava num plano que tornava um ângulo reto com o meu corpo. Vi que a lâmina fora colocada de modo a atravessar-me a região do coração. Rasgaria a minha roupa, voltaria e repetiria a operação… de novo, de novo. Apesar da grande extensão do espaço percorrido – uns trinta pés, mais ou menos – e da sibilante energia de sua oscilação, suficiente para partir ao meio aquelas próprias paredes de ferro, tudo o que podia fazer, durante vários minutos, seria apenas rasgar as minhas roupas. E, ao pensar nisso, detive-me. Não ousava ir além de tal reflexão. Insisti sobre ela com toda atenção, como se com essa insistência pudesse parar ali a descida da lâmina. Comecei a pensar no som que produziria ao passar pelas minhas roupas, bem como na estranha e arrepiante sensação que o rasgar de uma fazenda produz sobre os nervos. Pensei em todas essas coisas fazendo os dentes rangerem, de tão contraídos.

Descia… cada vez descia mais a lâmina. Sentia um prazer frenético ao comparar sua velocidade de cima a baixo com a sua velocidade lateral. Para a direita… para a esquerda… num amplo oscilar… com o grito agudo de uma alma penada; para o meu coração, com o passo furtivo de um tigre! Eu ora ria, ora uivava, quando esta ou aquela idéia se tornava predominante.

Sempre para baixo… certa e inevitavelmente! Movia-se, agora, a três polegadas do meu peito! Eu lutava violentamente, furiosamente. para livrar o braço esquerdo. Este estava livre apenas desde o cotovelo até a mão. Podia mover a mão, com grande esforço, apenas desde o prato, que haviam colocado ao meu lado, até a boca. Nada mais. Se houvesse podido romper as ligaduras acima do cotovelo, teria apanhado o pêndulo e tentado detê-lo. Mas isso seria o mesmo que tentar deter uma avalancha!

Sempre mais baixo, incessantemente, inevitavelmente mais baixo! Arquejava e me debatia a cada vibração. Encolhia-me convulsivamente a cada oscilação. Meus olhos seguiam as subidas e descidas da lâmina com a ansiedade do mais completo desespero; fechavam-se espasmodicamente a cada descida, como se a morte houvesse sido um alívio… oh, que alívio indizível! Não obstante, todos os meus nervos tremiam. à idéia de que bastaria que a máquina descesse um pouco mais para que aquele machado afiado e reluzente se precipitasse sobre o meu peito. Era a esperança que fazia com que meus nervos estremecessem, com que todo o meu corpo se encolhesse. Era a esperança – a esperança que triunfa mesmo sobre o suplício -, a que sussurrava aos ouvidos dos condenados à morte, mesmo nos calabouços da Inquisição.

Vi que mais umas dez ou doze oscilações poriam o aço em contato imediato com as minhas roupas e, com essa observação, invadiu-me o espírito toda a calma condensada e viva do desespero. Pela primeira vez durante muitas horas – ou, talvez dias – consegui pensar. Ocorreu-me, então, que a tira ou correia que me envolvia o corpo era inteiriça. Não estava amarrada por meio de cordas isoladas.

O primeiro golpe da lâmina em forma. de meia lua sobre qualquer lugar da correia a desataria, de modo a permitir que minha mão a desenrolasse de meu corpo. Mas como era terrível, nesse caso, a sua proximidade. O resultado do mais leve movimento, de minha parte, seria mortal! Por outro lado, acaso os sequazes do verdugo não teriam previsto e impedido tal possibilidade? E seria provável que a correia que me atava atravessasse o meu peito justamente no lugar em. que o pêndulo passaria? Temendo ver frustrada essa minha fraca e, ao que parecia, última esperança, levantei a cabeça o bastante par ver bem o meu peito. A correia, envolvia-me os membros e o corpo fortemente em todas as direções, menos no lugar em que deveria passar a lâmina assassina.

Mal deixei cair a cabeça em sua posição anterior, quando senti brilhar em meu espírito algo que só poderia descrever aproximadamente, dizendo que era como que a metade não formada da idéia de liberdade a que aludi anteriormente, e da qual apenas uma parte flutuou vaga-mente em meu espírito quando levei o alimento aos meus lábios febris. Agora, todo o pensamento estava ali presente – débil, quase insensato, quase indefinido -, mas, de qualquer maneira, completo. Procurei imediatamente, com toda a energia nervosa do desespero, pô-lo em execução.

Havia várias horas, um número enorme de ratos se agitava junto do catre em que me achava estendido. Eram temerários, ousados, vorazes; fitavam sobre mim os olhos vermelhos, como se esperassem apenas minha imobilidade para fazer-me sua presa. “A que espécie de alimento”, pensei, “estão eles habituados no poço?” Haviam devorado, apesar de todos os meus esforços para o impedir, quase tudo o alimento que se encontrava no prato, salvo uma pequena parte. Minha mão se acostumara a um movimento oscilatório sobre o prato e, no fim, a uniformidade inconsciente de tal movimento deixou de produzir efeito. Em sua veracidade, cravavam freqüentemente em meus dedos os dentes agudos. Com o resto da carne oleosa e picante que ainda sobrava. esfreguei fortemente, até o ponto em que podia alcançá-la, a correia com que me haviam atado. Depois, erguendo a mão do chão, permaneci imóvel, quase sem respirar.

A princípio, os vorazes animais ficaram surpresos c aterrorizados com a mudança verificada – com a cessação de qualquer movimento. Mas isso apenas durante um momento. Não fora em vão que eu contara com a sua voracidade. Vendo que eu permanecia imóvel, dois ou três dos mais ousados soltaram sobre o catre e puseram-se a cheirar a correia. Disse-ia que isso foi o sinal para a investida geral. Vindos da parede, arremeteram em novos bandos. Agarraram-se ao estrado, galgaram-no e pularam. as centenas sobre o meu corpo. O movimento rítmico do pêndulo não os perturbava de maneira alguma. Evitando seus golpes, atiraram-se à correia besuntada. Apertavam-se, amontoavam-se sobre mim. Contorciam-se sobre meu pescoço; seus focinhos, frios. procuravam meus lábios. Sentia-me quase sufocado sob o seu peso. Um asco espantoso, para o qual não existe nome, enchia-me o peito e gelava-me, com pegajosa umidade, o coração. Mais um minuto, e percebia que a operação estaria terminada. Sentia claramente que a correia afrouxava. Sabia que, em mais de um lugar, já devia estar completamente partida. Com uma determinação sobre-humana continuei imóvel.

Não errei em meus cálculos; todos esses sofrimentos não foram em vão. Senti, afinal, que estava livre. A correia pendia, em pedaços, de meu corpo. Mas o movimento do pêndulo já se realizava sobre o meu peito. Tanto a sarja da minha roupa, como a camisa que vestia já haviam sido cortadas. O pêndulo oscilou ainda por duas vezes, e uma dor aguda me penetrou todos os nervos. Mas chegara o momento da salvação. A um gesto de minha mão, meus libertadores fugiram tumultuosamente. Com um movimento decidido, mas cauteloso, deslizei encolhido, lentamente, para o lado, livrando-me das correias e da lâmina da cimitarra. Pelo menos naquele momento, estava livre.

Livre! E nas garras da Inquisição! Mal havia escapado daquele meu leito de horror e dado uns passos pelo piso de pedra da prisão, quando cessou o movimento da má-quina infernal e eu a vi subir, como que atraída por alguma força invisível, para o teto. Aquela foi uma lição que guardei desesperadamente no coração. Não havia dúvida de que os meus menores gestos eram observados. Livre! Escapara por pouco à morte numa determinada forma de agonia, apenas para ser entregue a uma outra, pior do que a morte. Com este pensamento, volvi os olhos, nervosamente, para as paredes de ferro que me cercavam. Algo estranho – uma mudança que, a princípio, não pude apreciar claramente – havia ocorrido, evidentemente, em minha cela. Durante muitos minutos de trêmula abstração, perdi-me em conjeturas vãs e incoerentes. Pela primeira vez percebi a origem da luz sulfurosa que alumiava a cela. Procedia de uma fenda, de cerca de meia polegada de largura, que se estendia em torno do calabouço, junto a base das paredes, que pareciam, assim, e, na verdade estavam, completamente separadas do solo. Procurei, inutilmente, olhar através dessa abertura.

Ao levantar-me, depois dessa tentativa, o mistério da modificação verificada tornou-se-me, subitamente, claro. Já observara que, embora os contornos dos desenhos das paredes fossem bastante nítidos, suas cores, não obstante, pareciam apagadas e indefinidas. Essas cores, agora, haviam adquirido, e estavam ainda adquirindo, um brilho intenso e surpreendente, que dava às imagens fantásticas e diabólicas um aspecto que teria arrepiado nervos mais firmes do que os meus. Olhos demoníacos, de uma vivacidade sinistra e feroz, cravavam-se em mim de todos os lados, de lugares onde antes nenhum deles era visível, com um brilho ameaçador que eu, em vão, procurei considerar como irreal.

Irreal! Bastava-me respirar para que me chegasse às narinas o vapor de ferros em brasa! Um cheiro sufocante invadia a prisão! Um brilho cada vez mais profundo se fixava nos olhos cravados em minha agonia! Um vermelho mais vivo estendia-se sobre aquelas pinturas horrorosas e sangrentas. Eu arquejava. Respirava com dificuldade. Não poderia haver dúvida quanto à intenção de meus verdugos, os mais implacáveis, os mais demoníacos de todos os homens! Afastei-me do metal incandescente,colocando-me ao centro da cela. Ante a perspectiva da morte pelo fogo,que me aguardava, a idéia da frescura do poço chegou à minha alma como um bálsamo. Precipitei-me para as suas bordas mortais. Lancei o olhar para o fundo. O resplendor da abóbada iluminava as suas cavidades mais profundas. Não obstante, durante um minuto de desvario, meu espírito se recusou a compreender o significado daquilo que eu via. Por fim, aquilo penetrou, à força, em minha alma, gravando-se a fogo em minha trêmula razão. Oh, indescritível! Oh, horror dos horrores! Com um grito, afastei-me do poço e afundei o rosto nas mãos, a soluçar amargamente.

O calor aumentava rapidamente e, mais uma vez, olhei para cima, sentindo um calafrio. Operara-se uma grande mudança na cela – e, dessa vez, a mudança era, evidentemente, de forma. Como acontecera antes, procurei inutilmente apreciar ou compreender o que ocorria. Mas não me deixaram muito tempo em dúvida. A vingança da Inquisição se exacerbara por eu a haver frustrado por duas vezes – e não mais permitiria que zombasse dela! A cela, antes, era quadrada. Notava, agora, que dois de seus ângulos de ferro eram agudos, sendo os dois outros, por conseguinte, obtusos. Com um ruído surdo, gemente, aumentava rapidamente o terrível contraste. Num instante, a cela adquirira a forma de um losango. Mas a modificação não parou aí – nem eu esperava ou desejava que parasse. Poderia haver apertado as paredes incandescentes de encontro ao peito, como se fossem uma vestimenta de eterna paz. “A morte”, disse de mim para comigo. “Qualquer morte, menos a do poço!” Insensato! Como não pude compreender que era para o poço que o ferro em brasa me conduzia? Resistiria eu ao seu calor? E, mesmo que resistisse, suportaria sua pressão? E cada vez o losango se aproximava mais, com uma rapidez que não me deixava tempo para pensar. Seu centro e, naturalmente, a sua parte mais larga chegaram até bem junto do abismo aberto. Recuei, mas as paredes, que avançavam, me empurravam, irresistivelmente, para a frente. 

Por fim, já não existia, para o meu corpo chamuscado e contorcido, senão um exíguo lugar para firmar os pés, no solo da prisão. Deixei de lutar, mas a angústia de minha alma se extravasou em forte e prolongado grito de desespero. Senti que vacilava à boca do poço, e desviei os olhos… Mas ouvi, então, um ruído confuso de vozes humanas! O som vibrante de muitas trombetas! E um rugido poderoso, como de mil trovões, atroou os ares! As paredes de fogo recuaram precipitadamente! Um braço estendido agarrou o meu, quando eu, já quase desfalecido, caía no abismo. Era o braço do General Lassalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição estava nas mãos de seus inimigos.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/o-poco-e-o-pendulo-edgar-allan-poe.html

sexta-feira, 17 de março de 2017

O Pesadelo

Era mais de meia-noite, a garota Laura estava deitada em sua cama, com os olhos bem abertos ela encarava o teto, não queria dormir, tinha medo. Era horrível saber que depois que fechasse seus olhos o inferno começaria. A menina sofria muito, todas as noites ela tinha o mesmo pesadelo, um pesadelo que fazia sua vida parecer sem sentido, que a impedia de ser feliz. Essa era a realidade da pobre garota.

Como em todas as noites, Laura rezou, pedindo a Deus que desse vez ela tivesse uma boa noite de sono, que o pesadelo que lhe impedia de seguir em frente não lhe atormentasse. A garota terminou de rezar e fechou seus olhos. Dormiu e sonhou.

Laura estava na mesa jantando, acompanhada de sua mãe Márcia e sua única irmã, Maria. Maria era 5 anos mais velha que Laura, tinha 17 anos e era uma garota muito inteligente e responsável. A mãe de Laura, Márcia, tinha 34 anos e nos últimos 5 vinha se esforçando muito para cuidar das filhas, sempre fora uma mãe boa e sentia-se uma mulher realizada com sua família, até que seu marido, Olavo, começara a beber todos os dias e assim fazer muita confusão quando chegava em casa.


Sentados na mesa os três pareciam uma família normal, mas o clima só estava tranquilo por que ainda eram 20:30 da noite e Olavo ainda não havia chegado.

Não demorou muito para que a porta do apartamento se abrisse e o homem entrasse com uma cara de louco, totalmente possuído pela bebida. Olavo era um desses homens que bebe e não fica exatamente bêbado, mas sim agressivo, chegando ao ponto de fazer coisas sem sentido. Em muitas brigas as garotas escutavam a mãe falando que o pai agia como se estivesse possuído pelo Diabo, Laura odiava ouvir isso, morria de medo.

Olavo entrou, foi para o quarto, voltou até a cozinha e sentou-se do lado da esposa para jantar, Laura e sua irmã permaneceram quietas, já fazia muito tempo que elas passaram a ter medo do pai. O homem começou a comer, mas depois de quatro colheres de comida pegou o prato e o jogou no chão, quebrando todo o clima que havia na casa á poucos minutos atrás.

– Maria vá para o seu quarto... Você e sua irmã. Falou Márcia.

– Isso, vão mesmo, por que ninguém aguenta comer esse lixo! Disse o homem que já nem parecia Olavo, o carinhoso pai que as meninas tiveram um dia.

Laura foi abraçada pela irmã e levada para o seu quarto. As meninas encostaram a porta, sentaram-se na cama e Maria disse a irmã.

– Fique tranquila, ta tudo bem, ok? Daqui a pouco o pai dorme e tudo vai passar!

– Ta bom. Respondeu Laura com um rosto triste, a menina estava cansada daquela situação, sem contar que tinha medo de que uma tragédia um dia acontecesse.

As coisas não melhoraram, o tempo foi passando e a discussão do casal só foi piorando. Laura começou a chorar, não aguentava ver os pais brigando, Maria abraçava a irmã cada vez mais forte. De repente as garotas ouviram Márcia gritando de dor, um grito longo carregado não só de dor, mas também de raiva e medo. Maria não sabia o que fazer, eles nunca se agrediam, brigavam quase todos os dias, mas o pai nunca havia levantado a mão para a esposa.

Na cozinha o barulho era alto, Maria agora tinha certeza uma luta estava acontecendo, mas o tumulto não durou muito tempo, depois de ouvir barulhos de cadeiras sendo derrubadas e mais um grito de Márcia o silêncio tomou conta da casa.

Laura estava confusa, ela só tinha 12 anos, mas sabia que havia algo errado, ela sentia isso.

– Fica aqui, eu vou dar uma olhada, mamãe deve ter arrumado as coisas, decerto ele foi dormir agora. Fica aqui, sentadinha. Falou Maria tentando acalmar sua irmã caçula.

Laura tentou ficar mais calma, com o olhar acompanhou sua irmã até a porta depois viu que a irmã abriu uma fresta e tentou sondar o que estava acontecendo na cozinha. A  garotinha então notou que sua irmã não se mexia, parecia estar em choque. Laura levantou da cama e foi em direção a porta, se agachou em baixo da irmã e contemplou a cena que tinha deixado Maria sem movimentos.

O pai, Olavo, estava debruçado em cima de Márcia, que não reagia, o homem serrava o pescoço da esposa com uma faca, faca que provavelmente era uma das que a mãe havia colocado na mesa juntamente com os garfos e pratos para o jantar. Olavo parecia estar concentrado no trabalho pois nem se importava com o sangue que era jorrado da garganta da esposa. Laura não aguentou a cena e acabou expressando uma reação que interviu no monstruoso ato do pai. A menina gritou, um grito agudo e baixo, quase sem voz, mas que chegou aos ouvidos de Olavo, o homem se virou em direção ao som e viu as duas filhas paradas na porta do quarto.

Laura olhou para o monstro que estava tomando conta do corpo de seu pai e ficou ainda mais assutada quando o mesmo a fitou com um olhar carregado de maldade, Olavo naquele momento era um demônio em pessoa. O homem levantou com a faca na mão, o rosto e camisa cobertos de sangue e com um sorriso no rosto avançou em direção à suas filhas.

Com o grito de Laura, Maria saiu do transe e ao ver o pai vindo em sua direção fechou com pressa a porta do quarto, a garota trancou a porta.

Laura olhou para a irmã mais velha e sentiu-se segura, Maria era uma garota que pensava rápido. A filha mais velha de Olavo pegou seu celular e ligou para sua tia Renata, que era irmã de Márcia e ao mesmo tempo uma segunda mãe para as meninas.

– Tia, venha pra cá agora, o pai bateu na mãe... ele ta com uma faca e quer pegar eu e a Laura, a gente ta trancada no quarto, eu não sei mais o que fazer! – Disse a garota desesperada.

Quando ela desligou o celular o demônio já batia na porta, cada vez com mais força! E a porta já dava sinais de que não ia aguentar mais ser forçada.

– Laura se esconde, entra em baixo da cama, vai!

A pequena menina fez isso e Maria foi até a porta para impedir a entrada do pai. Mas o monstro era mais forte, a porta balançou e a fechadura estourou.

Debaixo da cama o pesadelo da pobre Laura continuou, ela viu mais uma cena horrível, o pai agredindo a irmã, puxando seus cabelos, a jogando no chão. O monstro então subiu em cima de Maria e se preparou para destroça-la, mas antes que a lamina descesse a atingisse Maria, a garota olhando para a irmã caçula que estava embaixo da cama, gritou:

– Fuja Laura! Fuja!

Laura então saiu debaixo da cama e se preparou para correr para porta, enquanto isso seu pai rasgava o pescoço sua querida irmã. A garotinha tentou avançar para a saída do quarto mas seu pai foi mais rápido, quando Laura tentou fugir pela porta acabou dando de frente com Olavo, o homem a encarava sorrindo.

– Ainda não é hora de ir minha pequena. Venha, eu tenho um coisa para você. Falou o homem totalmente alterado.

A menina entendeu que por ali não havia escapatória, então correu para a janela do quarto, sua única chance. Chegando lá encarou a queda. A família morava no terceiro andar.

– Não, não Laurinha... você não vai fugir do papai sua vagabunda!

Disse o demônio correndo em direção a menina, para terminar o que havia começado.

Mas agora Laura já havia subido na janela e antes de pular pedido a Deus que tudo aquilo fosse apenas um pesadelo, pois a vida não faria sentido se aquilo fosse real. Como ela viveria sabendo que o pai matou a mãe e a irmã e que estava atrás dela?

Não, não fazia sentido mesmo! A vida não seria justa se tudo aquilo fosse verdade!

Laura fechou os olhos e pulou.

 Sentiu que a mão de seu pai quase a agarrou, mas o monstro não havia conseguido, agora ela estava livre, caia de pé e enquanto seu corpo era levado até o chão, lembrou de quantas vezes tinha olhado para aquela janela e ficado com medo de cair de um lugar tão alto. Chegará até a lembrar de uma conversa que teve com a irmã:

– Se eu pular daqui eu posso sair voando Maria? 
– Acho não Laura, você ainda não tem asas. – Lhe respondeu Maria, sorrindo.

Mas agora ela tentava imaginar que a queda era pequena, que não seria preciso assas e que quando seus pés atingissem o chão, ela se afirmaria na terra, estaria a salvo.

Só que em pesadelos as coisas nunca são como nós queremos, quando Laura atingiu o solo, sentiu a maior dor de sua vida, o impacto foi tão forte que a garota berrou de dor ao sentir os ossos das pernas se espremendo, sendo despedaçados pela força da gravidade. Era como se suas pernas tivesse sido arrancadas. Gritou e nesse momento teve a certeza de que a morte havia lhe alcançado. Gritou e abriu os olhos para ver como era o céu, pois no fundo do seu coração sabia que era esse seu destino. O paraíso, junto de sua mãe e de sua irmã.

Ao abrir os olhos Laura não estava no céu, mas sim no seu quarto, estava deitada na cama, suando muito, apavorada, o pesadelo novamente atormentara a garota. A luz do quarto se acendeu e Laura ouviu alguém dizer:

– Foi o pesadelo de novo minha filha?
– Uhum. Confirmou a menina.
– Não se preocupe, nós vamos superar isso, você vai ver, eu vou dar um jeito de resolver isso.

Mas Laura no fundo sabia que seria muito difícil alguém resolver seu problema.

– Eu posso ir dormir com você? Perguntou Laura.
– É claro minha linda. Disse sua tia Renata, enquanto se aproximava da cama da sobrinha.

A mulher se perguntava até quando a pobre Laura ia ficar revivendo aquela horrível memória. Até quando a garota iria ficar revivendo o pior momento de sua vida.

Não sabia... Mas ela iria ajudar a sobrinha, depois de tudo o que ela havia passado, depois de perder a mãe e a irmã.

Renata não deixaria Laura sozinha, ainda mais sabendo que Olavo estava preso não muito distante dali.

- Vamos Laura, quem sabe lá no quarto você durma mais um pouco minha filha.

Renata beijou a testa de Laura e ajudou a garotinha que agora tinha 14 anos a subir em sua cadeira de rodas. Levou a pequena para o seu quarto e enquanto empurrava a cadeira de Laura a tia também chorava, chorava por que seus pedidos a Deus não se realizam, já fazia mais de dois anos que Laura era atormentada por aquela horrível memória, chorava por que não entendia o motivo de a vida ser tão injusta com uma inocente criança.

Fonte:http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/08/o-pesadelo.html

quinta-feira, 16 de março de 2017

O Noivado Infeliz De Aurélia

Os fatos que se seguem foram narrados numa carta que me escreveu uma jovem da bela cidade de San José.

Devo esclarecer que não conheço, em absoluto, a signatária do referido documento, que se assina simplesmente Aurélia-Maria – provavelmente um pseudônimo.

A pobre garota tem o coração transtornado pelos infortúnios que vem sofrendo. E sente-se tão perturbada pelos conselhos, uns diferentes dos outros, de amigos ignorantes e inimigos insidiosos, que não sabe mais o que fazer mais para se ver livre da teia do destino, na qual parece encontrar-se presa para sempre.





Nervosa, recorre a mim, suplicando-me que lhe dirija os meus conselhos, falando-me com uma eloqüência extraordinária, que tocaria o coração de uma estátua.

Ouçamos a sua triste história.

Aurélia tinha dezesseis anos – diz ela – quando encontrou e amou, com todo o ardor de uma alma apaixonada, um rapaz de New Jersey, chamado Wilhamson Brockinrid-ge Caruthers, quase seis anos mais velho que ela.

Com o consentimento de seus pais, ficaram noivos, e durante um largo período tudo correu muito bem, como se os noivos estivessem imunizados contra os instantes de desgraça que sempre tocam à humanidade.

Um dia, entretanto, a face da realidade transformou-se. O jovem Caruthers caiu de cama com varíola, e da espécie mais virulenta e terrível. Quando ficou bom, tinho o rosto desfigurado, a pele marcada pelas bexigas. Já não era o mesmo, porque a sua beleza desaparecera para sempre.

Aurélia pensou logo em romper o seu compromisso, mas, por uma questão de piedade para com o infeliz, limitou-se a transferir o casamento para depois, como que dando uma oportunidade ao pobre rapaz.

Acontece que na véspera do casamento, Caruthers, quando acompanhava com os olhos um balão que subia aos céus, caiu, dis-traído, num poço, e quebrou uma perna. Tiveram de amputá-la acima do joelho.

Novamente Aurélia teve a intenção de acabar com o noivado e novamente o amor triunfou. O casamento foi transferido e ela dei-xou que o tempo corresse.

Outra infelicidade aguardava o noivo cai-pora. Caruthers perdeu um braço quando de uma descarga imprevista de um canhão, numa festa cívica. Ainda na convalescença. três me-ses depois, teve o outro esmagado numa pren-sa agrícola.

O coração da pobre Aurélia foi horrivelmente machucado por essas verdadeiras cala-midades. Era enorme a sua aflição, por ver seu jovem noivo abandoná-la pedaço por pe-daço e imaginar que, com esse sistema de progressiva redação, com pouco nada mais restaria do rapaz. E doía-lhe verificar que nada podia fazer por ele.

Em seu desespero, coitada, como um negociante que teima num negócio e tem prejuízo regularmente, todos os dias, Aurélia sentia um grande e profundo arrependimento por não haver casado logo de início com Caruthers. antes que ele sofresse tão alarmante de-preciação. Mas, encarando a situação com ânimo firme, resolveu pôr à prova, ainda uma vez, as lamentáveis disposições do seu noivo.

Foi marcado o dia do casório e de novo turvou-se o céu com as nuvens da desilusão. É que Caruthers caiu doente com um acesso de erisipela e foi então que perdeu um dos olhos.

Os pais e os amigos da moça, tendo em vista que a sua generosa obstinação já excedia os limites normais, novamente intervieram e insistiram para que se considerasse nulo o seu noivado.

Aurélia chegou a hesitar, apesar da sua imensa bondade de sentimentos, porém respondeu a todos que, refletindo direito sobre o assunto, verificara que não tinha nenhuma razão de queixa contra o noivo.

Foi transferida a data do casamento, e eis que Caruthers quebra a outra perna.

Para a pobre noiva foi bem triste o dia em que, no hospital. viu os cirurgiões mandarem arrastar para um canto o saco que continha mais uma parte do corpo do seu amado.

Aurélia sentiu uma emoção cruel, perce-bendo que mais um pedaço do homem que iria ser seu esposo ia desaparecer. Sentiu, sobretudo, que o campo de suas afeições mais puras diminuía a olhos vistos. Contudo, não atendeu aos rogos dos seus, quanto à anulação do seu compromisso, e só fez mesmo transferir o casamento.

Enfim, poucos dias antes da data fixada, aconteceu outra desgraça. Foi o seguinte: durante o ano, os índios de Owen River arrancaram o couro cabeludo de um só homem, e este homem foi Wilhiamson Brockiridge Caruthers, de New Jersey.

Ainda assim, o pobre-diabo fez-se trans-portar imediatamente para a casa de sua noiva, o coração transbordante de alegria, embora tivesse perdido os cabelos para sempre. Apesar de todo o seu desgosto, ainda deu graças a Deus por haver-se salvo, mesmo por esse preço exorbitante.

A esta altura, Aurélia está indecisa quanto à atitude que deve tomar. Ainda ama o noivo – é o que ela me escreve em sua carta. O noivo ou o pedaço de noivo que lhe resta. Ama-o de todo o coração, porém sua família se opõe terminantemente ao casamento.

Caruthers é pobre e não pode mais trabalhar. Por sua vez, Aurélia não temo necessário para que possam viver os dois juntos, com relativo conforto.

- Que devo fazer? – eis o que ela me pergunta, numa indecisão cruel.

Esta é, com efeito, uma questão delicada. Questão cuja resposta deve decidir sobre o destino de uma mulher e de um pedaço de homem.

Estou certo de que seria assumir uma grande responsabilidade responder indo além de uma simples sugestão.

Quanto custaria a reconstituição de um Caruthers completo? Se Aurélia tem algum recurso, deve comprar para o seu noivo muti-lado umas pernas artificiais, um olho de vidro e uma cabeleira postiça, para torná-lo apresentável. Feito isto, seria conveniente que lhe desse um prazo improrrogável de noventa dias, ao fim do qual, se o rapaz não torcer o pescoço, poderá arriscar-se a casar com ele.

Não creio que assim procedendo Aurélia se aventure a grande risco, de qualquer maneira. Se Caruthers ainda uma vez cede à tentação estranha de quebrar alguma coisa sempre que se lhe apresenta a ocasião propícia, sua próxima experiência na certa será fatal, e então a pobre noiva poderá ficar tranqüila, casada ou não. Casada, as pernas de pau e outros objetos, propriedade do defunto, ficarão como herança para a viúva, e assim Aurélia não perderá nada, a não ser, na realidade, o último pedaço vivo dum esposo honesto e infeliz, que durante a vida toda não fez outra coisa senão contentar os seus extraordinários instintos de autodestruição.

É tentar a sorte, portanto. Refleti bastante sobre o assunto, e este me parece o melhor partido a tomar no caso.

Decerto, Caruthers teria agido com acerto se houvesse tentado quebrar o o pescoço logo da primeira vez, tratando de fazer coisa definitiva. Já que escolheu outro método, dispondo-se a prolongar o sacrifício o mais possível, não se pode criticá-lo, por haver feito o que lhe pareceu melhor. Deve-se é procurar tirar o melhor proveito das circunstâncias, sem o menor ressentimento.

fonte:http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/o-noivado-infeliz-de-aurelia.html

quarta-feira, 15 de março de 2017

O Mágico e o Mago



Praça da Sé, São Paulo. O jovem de roupas pretas, camisa aberta e maquiagem negra nos olhos sabe que, naquele momento, a multidão à sua volta está torcendo para que tudo dê errado e eles tenham uma bela história de desgraça para contar, sobre um idiota aveadado metido a mágico que foi parar no hospital.

Ele respira fundo e se concentra no truque que vai executar. Afinal, se der errado, ele realmente pode acabar no hospital.

A imensa cruz em X está deitada no chão. Ele caminha e se deita sobre ela. Seus assistentes se aproximam e, com auxilio de pesadas marretas, começam a pregá-lo na cruz, com grossos pregos, que fazem jorrar sangue de suas mãos.

Seu rosto se cotorce como se suportasse uma dor lancinante em silêncio. A platéia se admira, pois a visão de alguém sendo crucificado tem sempre um apelo muito forte.



Seus assistentes levantam a cruz do chão e a colocam de pé. Ato contínuo, a cobrem com um grosso e enorme pano negro.

Alguns instantes depois, eles removem o pano e pronto - não há mais ninguém pregado na cruz.

A platéia se admira com o truque e fica ainda mais admirada quando, educadamente, o jovem pede licença e abre passagem entre a atônita platéia, voltando ao lado da cruz e exibindo as mãos, com um ferimento em cada palma.

A multidão explode em aplausos.

Com excessão de um homem de expressão séria, que observa tudo sem se emocionar com o truque.

De certa forma, ele lamenta a má sorte do jovem mágico.

****

A fama era cada vez mais inebriante, a mais deliciosa das drogas.

O aplauso do público, fascinado com os truques, incapaz de conceber como aquele rapaz era capaz de realizar todos aqueles prodígios.

Aquilo era melhor do que sexo!

E foi com aquela sensação orgástica que ele entrou no camarim e se jogou num pequeno sofá, exausto.

Aliás, precisava lembrar sua secretária de comprar mais daqueles suplementos vitamínicos. Estava cada dia mais e mais cansado.

Talvez devesse ir ao médico...

- Está começando. Você está cada dia mais cansado, não é?

Ele sentiu o coração quase pular pela boca com o susto.

O velho surgira por detrás de uma das araras onde suas fantasias ficavam penduradas.

- A cada dia o ídolo vai cobrar um pouco mais pelo que lhe deu, ate que ele corroa completamente a sua alma.

"Merda" - ele pensou - "Como esse velho entrou aqui? E como ele sabe da estátua?"

- E ele não pode ser dado ou jogado fora. Ele só aceita ser roubado. Que, aliás, foi o jeito que você o retirou de mim.

A expressão do jovem foi se enchendo de ódio.

- Saia daqui, velho filho da puta. Não roubei merda nenhuma nem de você, nem de ninguém!

O velho sorriu.

- Fique tranquilo. Eu não vim para tentar recuperar o ídolo.

E se dirigiu para a porta do camarim. Ao sair, disse para o jovem:

- Eu só vim agradecer.

E se foi.

****

Na verdade, ele não mentiu para o velho quando disse que não roubara nada. Ele receptara o que um de seus assistentes roubara.

Ser mágico de rua não é uma carreira que pague bem e, ao contrário do que os Beatles diziam, amor não é tudo que você precisa.

Então eles roubavam, receptavam e revendiam coisas roubadas.

Ele mesmo não sabia porque mantivera aquela estatueta horrorosa consigo. Tem sempre um imbecil disposto a comprar objetos de arte, por mais impossível que seja enxergar arte numa estátua que mais parecia um hipopótamo sentado, com a boca aberta numa gargalhada cheia de dentes pontiagudos.

Fato é que não apenas ficou com o ídolo, como ainda tratou de escondê-lo o melhor que pode.

Coincidência ou não, foi nessa época que a boa sorte começou a soprar para o seu lado.

Ele viu num aparelho de TV que estava exposto numa loja das casas Bahia: o tal americano que fazia mágica no meio da rua, mas não truques bobos, truques elaborados.

Ele pirou no visual do cara, nada daquela coisa de capa e cartola. Uma roupa preta tipo  emo, maquiagem preta no rosto.

Ele tinha certeza que ninguém no Brasil estava fazendo nada parecido e que iam adorar se alguém fizesse.

E foi o que ele fez.

Dois anos depois, lá estava ele. Não dormia mais em quartos de pensão, muito menos em banco de praça, quando o dinheiro faltava.

Morava num flat na região dos Jardins, em São Paulo. Estava rico e famoso. Recebera até um convite para visitar a Ilha de Caras.

Mas fora obrigado a recusar o convite. Seu físico estava cada dia pior. Tivera de começar a se apresentar de camisa fechada.

Estava cada dia mais magro. Mais cansado.

Precisava fazer alguma coisa...

****

O velho não se surpreendeu ao olhar a tela do porteiro eletrônico e ver que o rapaz estava em sua porta.

Era normal, um padrão que se repetia, mostrando que a Humanidade sabia como insistir nos seus erros.

Apertou o botão que destravou a tranca eletrônica e deixou seu visitante subir.

O rapaz foi bastante direto:

- O ídolo: é ele que está me matando?

O velho apenas balançou a cabeça.

- Eu lhe avisei. Ele irá consumí-lo aos poucos, não só seu corpo, mas principalmente sua alma.

Vendo o olhar de desespero do mais jovem, o velho foi direto:

- Eu já respondi sua pergunta na primeira vez que nos vimos: você só pode se livrar dele se alguém roubá-lo de você.

O jovem encolheu-se em desespero mudo sobre o sofá da sala do velho.

- Pelo seu desespero, vejo que já procurou os médicos. E eles não acharam nada errado com você...

O jovem continuou mudo, olhando fixamente para a frente. Estava morrendo e não sabia o que dizer.

- Não posso fazer mais nada por você, meu jovem. A não ser lhe desejar que tenha a mesma sorte que eu e alguém o roube de você.

O jovem nessa hora levantou-se de supetão: já sabia o que fazer. Dirigiu-se para a porta, sem sequer despedir-se do velho, que limitou-se a apertar o botão que abria o portão.

****

O jovem saiu e o velho ficou sozinho com seus pensamentos.

Estava realmente feliz. Seus planos estavam muito próximos de sua conclusão. E ele sairia vitorioso.

Havia muitas coisas que ele não contara ao jovem mágico.

A primeira delas era que enquanto o mágico nada sabia, perdido num labirinto de sombras, ele era um mago e o conhecimento era sua maior arma.

Ele estudara a história do ídolo profundamente.

Osteogoroth, o mercador de almas, fora adorado como um deus quando a humanidade ainda era jovem.

Mas Osteogoroth, como todo mercador, só trabalhava com trocas. Ele trazia boa sorte, mas exigia em troca coisas preciosas. Nos tempos e lugares onde era cultuado, sacrifícios de sangue eram realizados em seu nome.

Com o tempo, a civilização deixou para trás os sacrifícios e o ídolo passou por várias mãos e trouxe muita sorte, sempre paga com desgraças e tristezas. Mas o ser humano sempre acredita que o mal só acontece para os outros, então lá ia o ídolo para novas mãos, repetir a mesma história.

Osteogoroth, como toda força maligna, trapaceia em suas negociações. O velho soube disso ao estudar sua história e, quando o roubou de seu dono anterior, sabia o que pedir para ser bem sucedido naquele jogo.

Onde muitos pediam riqueza, ele pediu conhecimento. E usou esse conhecimento para fazer sua riqueza.

Claro que logo o ídolo começou a se alimentar dele, mas ele já estava pronto para aquilo e já havia preparado o caminho de quem roubaria o ídolo dele muito antes de se envolver com o mercador de almas.

Anos antes de roubar o ídolo, ele hipnotizou uma criança, um menino morador de rua, para que viesse procurá-lo no futuro. Para que viesse roubá-lo.

Fez isso porque sabia que, se tentasse qualquer coisa para desfazer o pacto depois de selado, a fúria de Osteogoroth cairia sobre ele.

Era um detalhe importante, que o jovem mágico não sabia.

****

Não há honra entre ladrões.

O jovem mágico colocou o ídolo bem à vista, sobre um aparador da sala de jantar do hotel onde estava hospedado e que possuía uma casa de shows onde ele estava se apresentando.

Ato seguinte, foi conversar com um de seus assistentes, o mesmo que roubara o ídolo anos antes.

- Olha, você sempre foi muito gente fina comigo, então também vou ser legal com você: naquela estatueta tem um papel escondido, com os números e senhas das minhas contas no Brasil e no exterior. Se acontecer alguma coisa comigo, fique com ele para você. É melhor do que um testamento, porque aí você não vai ter que dividir nada com o governo, certo?

Enquanto seu assistente se desmanchava em agradecimentos, o jovem mágico sabia que o outro assistente ouvia tudo atrás da porta. Algum dos dois não resistiria a tentação de roubá-lo. Um, porque com certeza estava se sentindo traído; o outro, porque com certeza não iria esperar que algo acontecesse para se apossar da fortuna.

E toda esta cena se desenrolou perante os atentos olhos e ouvidos de Osteogoroth.

****

O final do show era uma variação mais assustadora do truque da crucificação.

O início foi igual: ele deitou-se sobre a cruz em forma de X e os grandes cravos foram martelados em suas mãos. A seguir, o grosso pano preto foi colocado sobre  a cruz e o crucificado.

O assistente se aproximou com a surpresa final: ele também teria uma estaca cravada no peito.

O apelo visual do truque era enorme, pois a enorme estaca atravessava completamente o corpo do mágico e a cruz, fazendo com que grossos filetes de sangue escorressem para o chão. Da última vez que haviam apresentado o truque, houve duas senhoras que passaram mal ao ver a cena.

Ao final, o grosso pano negro seria puxado, deixando cair cravos e estacas e revelando que o mágico fora novamente bem sucedido em seu truque.

Seguindo o script, o pano foi puxado e lá estava o corpo de um homem crucificado e com uma grossa estaca cravada no peito.

****

O velho não resistira a curiosidade e fora ver o show do jovem mágico. E seu instinto não falhara. Sem saber, o jovem tentara desfazer o pacto que sequer sabia que havia feito, e pagara com a vida por isso. Pelos estudos do velho mago, não apenas com a vida: quem faz tratos com um demônio, paga com a própria alma.

Mas não ele. Ele era um dos poucos no mundo que trapaceara um demônio e vivera para contar a história.

****

Os dois assistentes tiveram a mesma idéia e correram de volta para a suíte do jovem mágico.

Ambos tentavam desesperadamente se apossar do ídolo que o jovem mágico dissera conter as senhas de suas contas bancárias. Claro que a disputa degenerou em briga. Agarrados ao ídolo de pedra, acabaram por disputá-lo na sacada do prédio.

Agarra daqui, puxa de lá, o ídolo despencou da cobertura.

Uma queda de vinte e oito andares.

É claro que a polícia não permitiu a saída de ninguém da casa de espetáculos, e estavam revirando o hotel em busca dos dois assistentes do jovem mágico.

Mas para quem dominava os segredos da magia como ele, furar o bloqueio da polícia foi brincadeira de criança.

Estava feliz, já que o sacrifício do tolo mágico indicava que seus planos haviam dado perfeitamente certo, só lhe restava agora aproveitar a vida, sem medo da vingança de Osteogoroth.

Foi nesse clima de felicidade interior que o ídolo atingiu-lhe após cair de vinte e oito andares. Sua morte foi instantânea.

O mago se esquecera de que um dos muitos títulos que os antigos adoradores de Osteogoroth lhe davam era o de "senhor da vingança."

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/o-magico-e-o-mago.html