sábado, 3 de dezembro de 2016

Ilse Koch, a cadela de Buchenwald

Ilse Koch nasceu em 1906. Começou a carreira como secretária em Dresden até que foi promovida a guarda feminina no campo de concentração de Sachsenhausen ,perto de Berlim, aberto em 1936. Lá ela conheceu Karl Otto Koch, um oficial da SS que era comandante em Sachsenhausen . Em maio 1937, Ilse casou-se com Otto Koch, cuja a primeira união havia falhado. Quando Koch foi transferido a Buchenwald para ser primeiro comandante em agosto 1937, ela o acompanhou.
A "Cadela de Buchenwald", como ficou conhecida Ilse Koch, gostava de cavalgar pelo campo de concentração onde escolhia prisioneiros que a desagradavam para serem chicoteados por ela e por soldados da SS. Mas sua fama cresceu por fazer abajures e luvas com a pele tatuada de prisioneiros especialmente assassinados para esse fim em Buchenwald.

Uma testemunha no julgamento de Nuremberg contou que "Os produtos concluídos (peles tatuadas arrancadas dos corpos) eram trazidos para a esposa de (Karl) Koch, que fazia abajures e outros ornamentos para a casa com as peles".

As atrocidades duraram anos, até que em Agosto de 1943 Karl Koch foi capturado pela Gestapo, acusado de corrupção. Foi considerado culpado e executado em Abril de 1945.

Após a guerra, Ilse Koch não tentou se esconder e depois que os prisioneiros livres contaram suas histórias sobre seu comportamento às forças armadas americanas, foi fácil derruba-la e prendê-la como uma criminosa da guerra. Foi acusada de participar "de um projeto comum" para violar as leis de guerra, mas a acusação específica era o terrível crime de selecionar prisioneiros de Buchenwald para serem mortos por seu amante , Dr. Waldemar Hoven, a fim ter os abajures feitos de pele tatuada.
Três partes de pele tatuada e uma cabeça encolhida foram exibidas na corte em Dachau como a evidência dos crimes cometidos pela equipe de funcionários em Buchenwald. A fotografia do Dr. Kurte Sitte mostra as três partes de pele tatuada, encontradas no departamento do patologia em Buchenwald.

A investigação durou oito meses e em 1947 Ilse Koch foi condenada a prisão perpétua. Após ter permanecido dois anos na prisão, o general Lucius D. Argila, controlador militar da zona americana na Alemanha, solicitou sua libertação. Devido sua condenação internacional, Koch foi presa novamente em janeiro de 1951. Foi condenada novamente a prisão perpétua.
Ilse Koch cometeu suicídio na prisão de Aibach, em 1 de setembro de 1967.

fonte: http://www.apocalipse2000.com.br/persona01.htm

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O MOSTEIRO DE SATANÁS


1952, quinta feira, dia 23 de dezembro. Leonel sai de casa para passar o natal com a família no Rio de Janeiro.
Nas estradas mineiras chovia como ele nunca tinha visto antes.
Sozinho no carro Leonel sentiu um calafrio como se estivesse prestes a morrer. Na mesma hora ele parou o carro. Começou a sentir febre e a suar frio.
Na estrada não passava um veículo e a chuva tinha apertado mais. Quase cego com a tempestade Leonel avista uma luminosidade não muito longe dali. Ele deixa o carro no acostamento e, caminhando com dificuldade, o pobre homem chega até o portão do que parecia ser um mosteiro franciscano . Ele bate na porta e grita por ajuda mas desmaia antes dela chegar.
Leonel acorda com muita dor de cabeça em um quarto escuro. Ele estava deitado numa cama simples e pela janela podia ver que a chuva não havia reduzido.
Quando tentou levantar-se da cama a porta se abre e um homem alto vestido de monge entra no quarto.
- "Você deve deixar o mosteiro imediatamente." falou, com uma voz preocupada.
- "Estou doente, não podem me mandar embora deste jeito, por favor deixe-me ficar.", agonizou Leonel quase chorando.
O monge não disse mais nada e se retirou do recinto.
 Preocupado em ter que ir embora Leonel se levanta e sai do quarto sorrateiramente. O lugar mais parecia um calabouço medieval. O coitado não sabia o que fazer.
Por instinto Leonel desce as escadas da masmorra. Uma voz o chama. Ela vem de uma cela, a porta está trancada e pela pequena grade um homem magro de cavanhaque conversa com Leonel.
- "Amigo, você precisa me ajudar. Esses monges me prenderam aqui e me torturam quase diariamente. E eles farão isso com você também se não fugirmos logo. Por fa..."
Antes do sujeito concluir o monge alto grita com Leonel.
- "Saia daí!!!"  - agarrando-o pelo braço o monge arrasta o enfermo rapaz escada acima.
O pobre Leonel não tinha forças para reagir e foi levado facilmente.
Já em uma sala gigantesca repleta de monges Leonel se vê como um réu sendo julgado.
O franciscano que parecia o líder falou.
- "Rapaz, você deve ir embora imediatamente. Foi um erro nosso tê-lo deixado entrar aqui. Sabemos do seu estado de saúde mas não podemos deixá-lo ficar".
Leonel mal ouviu o homem e desmaiou novamente.
O infeliz viajante acorda mais uma vez na masmorra. A porta do quarto estava aberta e Leonel sai a procura do homem que estava preso no andar de baixo. Sem vigília, ele consegue chegar até a cela do magrelo. Mal se aproxima e Leonel é surpreendido com o sujeito na pequena grade já pedindo ajuda.
- “Por favor, me tire daqui. Eles vão nos torturar, eles são de uma seita malígna. São adoradores de Satanás.”
Tremendo como uma vara verde em dia de chuva, Leonel corre até um pequeno depósito em busca de uma ferramenta capaz de abrir a cela.
 Minutos depois ele retorna com um imenso pé de cabra. Com um pouco de esforço a porta é arrombada. O sujeito magro sai correndo da cela e rindo como se uma piada hilária tivesse acabada de ter sido contada.
Sem saber do que se tratava, Leonel corre também, mas dá de cara com um monge de quase dois metros de altura.
-  “ O que você acaba de fazer, maldito?!” Rugiu o franciscano pegando-o pelo braço.
- “Me solte! Me solte seu filho de Satanás!”
Gritava Leonel tentando se soltar do agarrão do monge.
Com um olhar de temor e raiva o homem alto encara o pobre Leonel...
- “Você não sabe o que fez... sua vida está condenada agora. Você acaba de libertar o próprio Satanás. E ele fará de você o seu servo predileto. Sua alma será dele”.
Logo após o monge ter terminado de falar Leonel dá um grito de pavor... seu último grito de pavor.
Naquele instante o pobre e inocente viajante acaba de ter um fulminante ataque cardíaco que levou sua alma literalmente para os quintos dos Infernos, ao lado do, agora, seu eterno mestre, Satanás.

fonte: http://www.juraemprosaeverso.com.br/ContosMisteriosos/OMosteiroDeSatanas.htm

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O HOTEL NO FIM DA ESTRADA-Stephen King

- Estou atingindo 120 agora! – disse Kelso Black.
- Os tiras estão logo atrás de nós – disse Riviera – acelere até 130. 
Ele se apoiou para fora da janela. Atrás do carro fugitivo estava uma viatura, com a sirene apitando e a luz vermelha piscando.
- Estou indo para a estrada lateral à frente! Grunhiu Black.
Ele girou o volante e o carro entrou na sinuosa estrada espalhando pedregulhos. O policial coçou sua cabeça.
- Onde eles foram?
Seu parceiro carranqueado:
- Eu não sei. Eles simplesmente... sumiram!
- Veja – disse Black – Luzes a frente.
- É um hotel – Riviera disse maravilhado – Nesse fim de mundo, um hotel! Isso serve perfeitamente! Os tiras nunca irão nos procurar lá.
Black, não dando atenção aos pneus do carro, puxou o freio. Riviera pegou uma mala preta no banco de trás do carro. Eles entraram. O hotel parecia uma cena do inicio de 1900. Riviera tocou o sino impacientemente. Um velho apareceu.
- Queremos um quarto! – disse Black
O homem os fitava silenciosamente.
- Um quarto! – Black repetiu.
O homem deu a volta e entrou no seu escritório.
- Ei, velhaco – Tommy Riviera disse – Eu não levo desaforo de ninguém! – ele sacou sua 38 – Agora você nos dá um quarto.
O homem parecia pronto para continuar andando, mas por último disse:
- Quarto cinco, final do corredor.
Ele não deu nenhum registro para eles assinarem, então eles foram pro quarto. O quarto estava estéril, exceto por uma cama de ferro dobrável, um espelho rachado e um papel de parede sujo.
- Ahh, que chiqueiro! – Black disse com desgosto – Aposto que existem baratas suficientes para encher cinco galões.
Na manhã seguinte quando Riviera acordou, ele não conseguia sair da cama. Não podia mover um músculo. Estava paralisado. Então o velho entrou no quarto. Ele tinha uma agulha que colocou no braço de Black.
- Então você está desperto – ele disse – Minha nossa, vocês dois são minhas primeiras peças para o museu em 25 anos. Mas vocês serão bem preservados. Vocês não morreram.Ficaram com o resto da minha coleção do museu vivo. Bons espécimes.
Tommy Riviera simplesmente não conseguia expressar seu horror.


fonte: http://www.flogao.com.br/rachelmoranguinho/blog/354015


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Turno do Cemitério - Stephen King
Hall estava sentado no banco perto do elevador, o único local no terceiro andar onde um cara trabalhador podia fumar um cigarro, quando Warwick subiu. Não gostou de ver Warwick. O capataz não devia subir ao terceiro andar durante o turno do cemitério, devia permanecer em seu escritório no porão, tomando café da máquina que ficava no canto de sua mesa de trabalho. Além disso, fazia calor.
Era o mais quente mês de junho já registrado em Gates Falls e o termômetro de propaganda da Orange Crush, que também ficava perto do elevador chegara a marcar trinta e quatro graus e meio às três da manhã. Só Deus sabia que inferno era a fábrica no turno de três às onze.
Hall manobrava o abridor, a máquina de abrir os flocos de algodão, uma engenhoca recalcitrante fabricada em 1934 por uma extinta firma de Cleveland. Trabalhava na fábrica apenas desde abril, o que significava que ainda ganhava o salário-piso de 1.78 dólar por hora, que apesar de tudo era bom. Não tinha esposa nem namorada firme, não pagava pensão alimentícia. Era um sujeito errante e durante os três últimos anos havia se mudado de Berkeley (estudante universitário) para Lake Tahoe (mensageiro de hotel), para Galveston (estivador), para Miami (cozinheiro de lanchonete), para Wheeling (motorista de táxi e lavador de pratos), para Gates Falls, no Maine (operador de abridor). Não pretendia mudar-se outra vez até que a neve começasse a cair. Era uma pessoa solitária, e gostava do horário das onze da noite às sete da manhã, quando o fluxo sangüíneo da grande tecelagem passava pelo período mais frio, para não falar na temperatura.
A única coisa de que não gostava eram os ratos.
O terceiro andar era comprido e deserto, iluminado apenas pelo brilho cintilante das lâmpadas fluorescentes. Ao contrário dos demais pavimentos da fábrica, era relativamente silencioso e desocupado - pelo menos por seres humanos. Os ratos eram outra conversa. A única máquina no terceiro pavimento era o abridor; o resto do andar servia para a armazenagem dos fardos de quarenta e cinco quilos de fibras que ainda precisavam passar pela máquina manobrada por Hall. Os fardos eram empilhados como fieiras de lingüiças, em compridas fieiras, alguns deles (em especial os méltons descontínuos e os slipes irregulares para os quais não havia pedidos) com anos de idade e com a suja cor cinza do lixo industrial. Proporcionavam um ótimo local para os ninhos de ratos, criaturas enormes e barrigudas, com olhos rábidos e corpos que pululavam de piolhos e outras pragas.
Hall adquirira o hábito de coletar um pequeno arsenal de latas vazias de refrigerantes durante o intervalo para a refeição. Atirava as latas nos ratos quando o trabalho estava folgado, recuperando-as posteriormente quando bem entendia. Só que desta vez o Sr. Capataz, subindo pela escada em vez de usar o elevador, como o esquivo filho de uma puta que todos o acusavam de ser, apanhou-o em flagrante.
- O que está fazendo, Hall?
- Os ratos - replicou Hall, percebendo o quanto esfarrapada devia parecer a desculpa, agora que todos os ratos estavam seguramente acomodados em seus ninhos. - Jogo as latas neles quando os vejo.
Warwick meneou a cabeça uma vez, lacônico. Era um homem grande e corpulento, com os cabelos cortados à escovinha. Tinha as mangas da camisa arregaçadas e a gravata puxada para o peito. Olhou atentamente para Hall.
- Não lhe pagamos para jogar latas nos ratos, moço. Nem mesmo se tornar a apanhá-las.
- Faz vinte minutos que Harry não manda um pedido - disse Hall, pensando: “Por que, diabo, não fica no escritório tomando café?” - Não posso passar as fibras na máquina sem receber um pedido.
Warwick tornou a menear a cabeça, como se o assunto não mais lhe interessasse.
- Acho que vou dar uma volta e ver como está Wisconsky - respondeu ele. - Aposto cinco contra um que está lendo uma revista enquanto a bosta se acumula no depósito.
Hall permaneceu calado.
Warwick apontou repentinamente:
- Lá está um! Acerte o bastardo!
Com um rápido movimento de braço e mão, Hall jogou a lata que segurava. O rato, que os estivera observando do topo de um fardo de fibras com olhos brilhantes como pelotas de chumbo, fugiu soltando um leve guincho. Warwick atirou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada, enquanto Hall ia buscar a lata.
- Vim falar com você a respeito de outra coisa - disse Warwick.
- É mesmo?
- A semana que vem é a semana do Dia da Independência.
Hall confirmou com a cabeça. A fábrica seria fechada de segunda a sábado - uma semana de férias para quem tivesse pelo menos um ano de emprego. Uma semana de folga não remunerada para os que tivessem menos de um ano.
- Quer trabalhar?
Hall sacudiu os ombros:
- Fazendo o quê?
- Vamos limpar todo o pavimento do subsolo. Ninguém toca naquilo há doze anos. Uma sujeira dos diabos. Usaremos mangueiras.
- A comissão municipal de zoneamento está dando duro na diretoria?
Warwick encarou Hall com firmeza:
- Quer trabalhar ou não? Dois dólares por horas, contando tempo dobrado no dia quatro. Trabalharemos no turno do cemitério porque é mais fresco.
Hall calculou. Poderia ganhar setenta e cinco dólares limpos, após descontar os impostos. Melhor que o leite-de-pato que ele esperava.
- Está bem.
- Apresente-se na seção de tinturaria na próxima segunda-feira.
Hall observou o capataz dirigir-se à escada. Warwick parou a meio do caminho e se voltou para encara-lo.
- Você foi universitário, não é mesmo?
Hall confirmou com a cabeça.
- Muito bem, universitário, não me esquecerei disso.
Foi-se.
Hall sentou-se e acendeu outro cigarro, segurando uma lata de soda na mão direita e vigiando à espera de ratos. Podia imaginar bem como seria no subsolo - na verdade o segundo subsolo, abaixo da seção de tinturaria. Úmido, escuro, cheio de aranhas e panos apodrecidos, além do limo infiltrado do rio. Talvez até mesmo morcegos, os aviadores da família dos roedores. Meu Deus!
Hall jogou a lata com força e depois sorriu de leve ao som da voz de Warwick, que chegava pelos condutos presos ao teto, admoestando Harry Wisconsky.
Muito bem, universitário, não me esquecerei disso.
Parou bruscamente de sorrir e apagou o cigarro. Pouco depois, Wisconsky começou a enviar náilon bruto pelos condutos e Hall começou a trabalhar. E, após algum tempo, os ratos saíram das tocas e se postaram em cima dos fardos na extremidade do comprido salão, observando-o com olhos negro que não piscavam. Pareciam um júri.
Segunda-feira, onze horas da noite.
Havia cerca de trinta e seis homens sentados no salão da tinturaria Quando Warwick entrou usando um par de velhas calças de brim enfiadas em botas de borracha de cano alto. Hall estivera escutando Harry Wisconsky, que era imensamente gordo, imensamente preguiçoso e imensamente sombrio. 
- Vai ser uma porcaria - dizia Harry quando o Sr. Capataz entrou, - Espere para ver: voltaremos para casa mais negros que a meia-noite na Pérsia.
- Muito bem! - disse Warwick. - Estendemos fios com sessenta lâmpadas lá embaixo, de modo que deve estar bastante claro para vocês verem o que estão fazendo. Vocês aí - apontou para um grupo de homens que se recostavam nas bobinas de secagem -, quero que liguem as mangueiras no cano principal da água, perto da escada. Desenrolem as mangueiras pelos degraus. Temos cerca de setenta metros por homem e isso deve ser o bastante. Não tentem brincar de molhar um companheiro, porque ele pode ir para no hospital. A força da água é uma pancada.
- Alguém vai se machucar - profetizou Wisconsky azedamente. - Espere e verá.
- Vocês outros - continuou Warwick, apontando para o grupo do qual faziam parte Hall e Wisconsky. - Hoje à noite, serão a turma da merda. Entrarão em pares, com um carrinho elétrico para cada equipe. Lá existem móveis de escritório velhos, fardos de fibras, peças de máquinas quebradas, o diabo. Vamos empilhar tudo ao lado do poço de ventilação na extremidade oeste. Alguém não sabe manobrar um carrinho elétrico?
Ninguém levantou a mão. Os carrinhos elétricos eram movidos a baterias e pareciam caminhões basculantes em miniatura. Após uso contínuo, produziam um cheiro nauseabundo que lembrava a Hall fios elétricos em curto-circuito.
- Muito bem - disse Warwick. - Dividiremos o subsolo em seções terminaremos quinta-feira. Na sexta-feira, tiraremos o lixo com um guindaste. Alguma pergunta?
Não houve perguntas. Hall observou atentamente o rosto do capataz e teve a premonição de que algo estranho estava por acontecer. A idéia lhe agradava. Não gostava muito de Warwick.
- Ótimo - disse Warwick. - Mãos à obra.
Terça-feira, duas da manhã.
Hall estava exausto e farto da torrente de obscenidades queixosas emitidas incessantemente por Wisconsky. Imaginou se adiantaria alguma coisa dar-lhe um murro. Duvidou. Só daria mais um motivo para Wisconsky queixar-se.
Hall sabia que ia ser duro, mas, na realidade, era mortal. Em primeiro lugar, não previra o cheiro. O odor poluído do rio, mesclado ao fedor de tecido podre, alvenaria corroída e matéria vegetal putrefacta. No canto mais distante, onde haviam começado, Hall descobrira uma colônia de enormes cogumelos brancos que cresciam por entre as fendas no cimento. Suas mãos entraram em contato com eles quando Hall se esforçava para remover uma grande engrenagem dentada, sentindo os cogumelos curiosamente cálidos e inchados, como a carne de um homem acometido de hidropisia.
As lâmpadas não conseguiram banir a escuridão de doze anos; podiam apenas faze-la recuar um pouco e lançavam um doentio brilho amarelo sobre toda aquela porcaria. O local parecia uma nave devastada de uma igreja profana, com um teto alto e a gigantesca maquinaria abandonada que eles nunca conseguiriam remover, as paredes úmidas marcadas por zonas de musgo amarelado e o coro atonal que era a água das mangueiras correndo na rede de ralos meio entupida que eventualmente desembocava no rio, abaixo das cachoeiras.
E os ratos - enormes, fazendo os ratos do terceiro pavimento parecerem anões. Só Deus sabia o que eles comiam ali embaixo. Os homens reviravam constantemente tábuas e fardos, deixando à mostra imensos ninhos de papel rasgado, observando com repulsa atavística os filhotes fugirem para se ocultarem nas fendas e cantos, os olhos dilatados e cegos pela perene escuridão.
- Vamos parar para um cigarro - disse Wisconsky.
Parecia sem fôlego, embora Hall não fizesse idéia do motivo; o gordo passara a noite inteira embromando. Mesmo assim, já era tempo e eles estavam fora do campo visual dos outros.
- Está bem.
Recostando-se na quina do carrinho elétrico, Hall acendeu um cigarro.
- Eu nunca deveria ter deixado Warwick convencer-me a fazer isso - declarou lamentosamente Wisconsky. - Não é trabalho para um homem. Mas ele estava zangado, na outra noite, quando me pegou de calças na privada do quarto andar. Cristo, como ficou furioso!
Hall ficou calado. Estava pensando em Warwick e nos ratos. Era estranho como as duas coisas se ligavam. Durante sua longa estadia no subsolo da fábrica, os ratos pareciam ter esquecido tudo a respeito dos homens; mostravam-se atrevidos e quase destemidos. Um deles se sentara nas patas traseiras, como um esquilo, até que Hall chegou à distância de dar-lhe um pontapé; então o animal atacou a bota de Hall, mordendo o couro. Centenas, talvez milhares de ratos. Hall tentou imaginar quantas espécies de moléstias eles carregavam consigo naquele buraco negro. E Warwick, algo a seu respeito...
- Preciso do dinheiro - disse Wisconsky. - Mas, Jesus Cristo, meu chapa, isto não é trabalho para homem. Esses ratos - olhou temerosamente em volta. - Parece até que eles pensam. Até imagino como seria se eles fossem grandes e nós pequenos...
- Ora, cale a boca - disse Hall.
Wisconsky o encarou, ofendido.
- Bem, desculpe, meu chapa. É apenas que...
Interrompeu-se por um instante.
- Porra, como fede este lugar! - exclamou de repente. - Isto não é tipo de trabalho para homem!
Uma aranha rastejou pela beirada do carrinho e lhe subiu pelo braço. Ele a jogou longe com um tapa, emitindo um som engasgado de nojo.
- Vamos - disse Hall, apagando o cigarro. - Quanto mais rápido, melhor.
- Acho que sim - disse Wisconsky, desanimado. - Acho que sim.

Terça-feira, quatro horas da manhã.
Hora do lanche.
Hall e Wisconsky sentaram-se com três ou quatro outros homens, comendo seus sanduíches com mãos negras que nem mesmo o detergente industrial era capaz de limpar. Hall comia olhando para o pequeno escritório envidraçado do capataz. Warwick tomava café e comia hambúrgueres frios com grande prazer.
- Ray Upson teve que voltar para casa - disse Charlie Brochu.
- Vomitou? - indagou alguém. - Eu quase vomitei.
- Não. Ray seria capaz de comer bosta de vaca sem vomitar. Foi mordido por um rato.
Hall abandonou pensativamente sua contemplação de Warwick.
- É mesmo? - perguntou.
- É - disse Brochu, sacudindo a cabeça. - Fazia equipe comigo. Foi a coisa mais maldita que já vi. O rato pulou de um buraco num daqueles velhos fardos de pano. Era quase do tamanho de um gato. Mordeu a mão de Ray e começou a roê-la.
- Meu Deus - disse um dos homens, parecendo ficar verde.
- Isso mesmo - continuou Brochu. - Ray berrou como uma mulher e não o culpo. Sangrava como um porco. E o rato largou? Não, senhor. Tive que bater nele três ou quatro vezes com uma tábua, antes que largasse. Ray ficou quase maluco. Pisoteou o rato até que ele não passava de uma massa peluda. A coisa mais maldita que já vi. Warwick fez um curativo e mandou Ray para casa. Disse-lhe para ir ao médico amanhã.
- Muita bondade do filho da puta - comentou alguém.
Como se tivesse escutado, Warwick levantou-se no escritório, espreguiçou-se e veio até a porta.
- É hora de voltar ao trabalho.
Os homens se ergueram vagarosamente, gastando o maior tempo possível para guardarem as marmitas, tomarem refrigerantes e comprarem barras de chocolate. Então começaram a descer, os saltos batendo desanimadamente na estrutura de aço da escada.
Warwick passou por Hall, dando-lhe uma palmada no ombro.
- Como vai indo, universitário?
Não esperou resposta.
- Vamos - disse Hall, paciente, a Wisconsky, que atava os cordões da bota.
Desceram juntos.
Terça-feira, sete horas da manhã.
Hall e Wisconsky saíram juntos; Hall tinha a impressão de haver, de algum modo, herdado o gordo polaco. Wisconsky estava quase comicamente imundo, a gorda cara de bobo manchada como a de um garotinho que acaba de levar uma surra do fanfarrão da vizinhança.
Por parte dos outros homens, não havia as brincadeiras grosseiras de costume, o puxar das fraldas de camisa, as piadas a respeito de quem estaria aquecendo a esposa de Tony entre uma e quatro horas da manhã. Nada senão o silêncio e o ocasional pigarro antes de alguém cuspir na calçada.
- Quer uma carona? - ofereceu Wisconsky.
- Obrigado.
Não falaram ao subirem a Mill Street e atravessarem a ponte. Trocaram apenas uma rápida palavra quando Wisconsky deixou Hall em frente ao apartamento.
Hall foi diretamente para o chuveiro, ainda pensando em Warwick, tentando descobrir o que havia a respeito do Sr. Capataz que o atraía, fazendo-o sentir que, de alguma maneira, tinham-se ligado um ao outro.
Quarta-feira, uma hora da manhã.
Era melhor trabalhar com as mangueiras.
Não podiam entrar até que a turma da merda terminasse uma seção e, com muita freqüência, acabavam o serviço antes que a turma limpasse a seção seguinte - o que significava folga para fumar um cigarro. Hall manipulava o esguicho de uma das compridas mangueiras e Wisconsky corria para frente e para trás, desenrolando pedaços da mangueira, abrindo e fechando a água, removendo obstruções.
Warwick estava irritado porque o trabalho estava avançando com lentidão. Do jeito que as coisas iam, eles jamais terminariam o serviço na Quinta-feira.
Agora, trabalhavam numa confusa mistura de equipamentos de escritório do século passado que estavam empilhados em um canto - escrivaninhas de tampo corrediço, armários apodrecidos, livros de registros carcomidos, resmas de faturas, cadeiras quebradas - e eram um paraíso para os ratos. Dezenas deles guinchavam e corriam através de passagens escuras e loucas que formavam um labirinto no monturo e depois que dois homens foram mordidos os demais recusaram-se a trabalhar até que Warwick mandou alguém subir para buscar pesadas luvas de borracha, do tipo normalmente reservado para as turmas de tinturaria, que precisavam trabalhar com ácidos.
Hall e Wisconsky aguardavam a hora de entrar com a mangueira quando um homem de cabelos claros e pescoço de touro, chamado Carmichael, começou a berrar imprecações e a recuar, batendo no peito com as mãos enluvadas.
Um enorme rato com pêlo manchado de cinza e enormes olhos furiosos mordera-o através da camisa e se pendurara ali, guinchando e esperneando as patas traseiras na barriga de Carmichael. Afinal, Carmichael atirou-o longe com um soco, mas sua camisa apresentava um grande buraco, do qual um filete de sangue escorria acima de uma das mamas. A fúria desapareceu do rosto de Carmichael. Este virou a cabeça e vomitou.
Hall voltou o jato da mangueira contra o rato, que era velho e se movimentava devagar, um pedaço da camisa de Carmichael ainda preso nos dentes. A tremenda pressão jogou-o para trás, de encontro à parede, onde o animal ficou inerte.
Warwick se aproximou, com um sorriso estranho e forçado nos lábios. Deu ma palmada no ombro de Hall.
- Muito melhor que atirar latas vazias nos pequenos bastardos, não é mesmo, universitário?
- E que pequeno bastardo - comentou Wisconsky. - Tem quase quarenta centímetros de comprimento.
- Aponte essa mangueira para lá - disse Warwick, indicando o monte de móveis. - Vocês aí, saiam da frente!
- Com muito prazer - resmungou alguém.
Carmichael avançou para Warwick, o rosto contorcido e enojado.
- Vou exigir uma indenização por isto! Vou...
- Claro - disse Warwick, sorrindo. - Foi mordido na testa. Saia do caminho antes que esse jato o esmague.
Hall apontou a mangueira e abriu o esguicho. A água bateu nos móveis com uma explosão branca de respingos, derrubando uma escrivaninha e despedaçando duas cadeiras. Os ratos correram para todos os lados, maiores do que quaisquer outros que Hall já vira. Hall podia ouvir os homens gritando de nojo e pavor ao verem os animais fugirem, criaturas com olhos enormes e corpos gordos. Hall avistou um que parecia do tamanho de um saudável cãozinho de seis semanas. Continuou a lançar o jato até não conseguir enxergar mais nada. Então fechou o esguicho.
- Muito bem! - Bradou Warwick. - Vamos em frente!
- Não fui contratado como exterminador de ratos! - exclamou com rebeldia Cy Ippeston.
Hall tomara alguns tragos com ele na semana anterior. Era jovem, usando uma camisa olímpica e um boné de beisebol manchado de sujeira.
- É você, Ippeston? - indagou Warwick cordialmente.
Ippeston pareceu vacilar, mas avançou.
- Sim. Não quero mais nada com esses ratos. Fui contratado para fazer limpeza, não para pegar hidrofobia, tifo ou algo assim. Acho melhor não contar mais comigo.
Murmúrios de assentimento partiram dos demais. Wisconsky lançou um rápido olhar de esguelha a Hall, mas este examinava o bico do esguicho. Tinha o calibre de uma pistola 45 e provavelmente era capaz de atirar um homem a seis metros de distância.
- Está dizendo que quer bater o cartão de ponto, Ippeston?
- Estou pensando em fazer isso - respondeu Ippeston.
Warwick meneou a cabeça.
- Está certo. Você e quem mais quiser. Mas isto não é uma fábrica sindicalizada, nunca foi. Batam o cartão de saída agora e nunca mais baterão a entrada. Tomarei providências para isso. 
- Você é mesmo durão - murmurou Hall.
Warwick girou nos calcanhares.
- Disse alguma coisa, universitário?
Hall encarou-o calmamente.
- Apenas pigarreei, Sr. Capataz.
Warwick sorriu.
- Alguma coisa não lhe agrada?
Hall permaneceu calado.
- Muito bem, vamos em frente! - berrou Warwick.
Voltaram ao trabalho.
Quinta-feira, duas horas da manhã.
Hall e Wisconsky trabalhavam novamente com os carrinhos elétricos, recolhendo o lixo. A pilha junto ao poço de ventilação do lado oeste alcançara proporções espantosas, mas ainda não estavam na metade do serviço.
- Feliz Quatro de Julho - disse Wisconsky quando fizeram uma pausa para fumar.
Estavam trabalhando juntos à parede norte, longe da escada. A iluminação era extremamente reduzida e algum fenômeno de acústica fazia os outros homens parecerem estar a quilômetros de distância.
- Obrigado - disse Hall, tirando uma tragada. - Não vi muitos ratos esta noite.
- Ninguém viu - respondeu Wisconsky. - Talvez tenham ficado espertos.
Estavam de pé na extremidade de um beco que traçava um ziguezague maluco por entre pilhas de velhos livros de registros e faturas, sacos apodrecidos de tecidos e dois enormes teares planos de tipo muito antigo.
- Porra! - disse Wisconsky, cuspindo no chão. - Aquele Warwick...
- Para onde você acha que foram todos os ratos? - indagou Hall, quase falando consigo mesmo. - Não para dentro das paredes...
Olhou o reboco molhado e rachado que recobria as enormes pedras dos alicerces.
- Morreriam afogados. O rio saturou tudo.
Algo negro e esvoaçante lançou-se de repente sobre eles, como um avião de bombardeio de mergulho. Wisconsky berrou e protegeu a cabeça com as mãos.
- Um morcego - disse Hall, observando o animal enquanto Wisconsky se endireitava.
- Um morcego! Morcego! - vociferou Wisconsky. - O que faz um morcego no porão? Eles costumam ficar nas árvores e sob os beirais dos telhados, ou...
- Era um dos grandes - disse Hall em tom manso. - E o que é um morcego senão um rato com asas?
- Meu Deus! - gemeu Wisconsky. - Como ele...
- Entrou aqui? Talvez da mesma maneira que os ratos saíram.
- O que está acontecendo aí? - berrou Warwick de algum ponto atrás deles. - Onde estão vocês?
- Calma - disse Hall em voz baixa, os olhos faiscando no escuro.
- Foi você quem falou, universitário? - quis saber Warwick, parecendo mais próximo.
- Tudo bem! - berrou Hall. - Dei uma canelada!
Warwick soltou uma risada curta, semelhante a um latido.
- Quer uma condecoração?
Wisconsky fitou Hall:
- Por que disse isso?
- Olhe - respondeu Hall, ajoelhando-se e riscando um fósforo.
Havia um quadrado no meio do cimento molhado e rachado.
- Bata.
Wisconsky obedeceu.
- É madeira.
Hall confirmou com a cabeça.
- É o topo de um suporte. Já vi outros por aqui. Existe outro pavimento sob esta parte do porão.
- Meu Deus! - exclamou Wisconsky totalmente enojado.
Quinta-feira, três e meia da manhã.
Estavam no canto nordeste, Ippeston e Brochu atrás deles com uma das mangueiras de alta pressão, quando Hall parou e apontou para o chão. 
- Ali está. Eu previa que encontraríamos.
Havia um alçapão de madeira, com um anel de ferro no centro, incrustado de ferrugem.
Hall voltou até onde estava Ippeston e disse:
- Feche a mangueira um minuto.
Quando o jato se reduziu a um filete de água, Hall ergueu a voz num grito:
- Ei! Ei, Warwick! Acho melhor vir até aqui um instante!
Warwick chegou patinhando na lama, encarando Hall com aquele mesmo sorriso duro nos olhos.
- O nó de sua bota se desfez, universitário?
- Veja - replicou Hall, dando um pontapé no alçapão. - Outro subsolo, embaixo deste.
- E daí? - redargüiu Warwick. - Não é hora de intervalo, uni...
- É lá que estão os nossos ratos - interrompeu Hall. - Estão procriando lá embaixo. Wisconsky e eu vimos até um morcego, há pouco.
Alguns dos outros se haviam reunido em torno e olhava para o alçapão.
- Não importa - declarou Warwick. - Nosso serviço era limpar o porão, não...
- Você precisará pelo menos de vinte exterminadores bem treinados - interrompeu Hall. - Vai custar uma boa nota para a diretoria. Que pena.
Alguém riu:
- Duvido que gastem um centavo.
Warwick olhou para Hall como se este fosse um inseto sob a lente de um microscópio.
- Você é mesmo um caso sério, sem dúvida - comentou, parecendo fascinado. - Acha que me importa quantos ratos existem sob o porão?
- Estive na biblioteca esta tarde e ontem também - replicou Hall. - Foi ótimo você me lembrar de que fui um universitário. Li as leis de zoneamento da cidade, Warwick - foram promulgadas em 1911, antes que esta empresa fosse bastante grande para subornar as comissões de zoneamento. Sabe o que descobri?
Os olhos de Warwick adquiriram um brilho frio.
- Vá passear, universitário. Está despedido.
- Descobri - prosseguiu Hall, como se não houvesse escutado - que existe em Gates Falls uma lei de zoneamento referente aos animais daninhos. Soletra-se d-a-n-i-n-h-o-s, caso você não tenha certeza. Isso significa animais que são portadores de moléstias, como morcegos, gambás, cães não vacinados... e ratos. Especialmente os ratos. Sr. Capataz, os ratos são mencionados quatorze vezes em apenas dois artigos da lei. Portanto, acho melhor você ter em mente que no minuto em que eu bater o cartão de saída irei diretamente ao comissário municipal para revelar qual é a situação aqui.
Fez uma pausa, saboreando o rosto congestionado de ódio do rosto do capataz.
- Creio que, entre ele, eu e a comissão municipal, poderemos interditar a fábrica. Ficarão fechados muito além de sábado, Sr. Capataz. E tenho um bom palpite sobre o que seu patrão vai dizer quando tomar conhecimento. Espero que esteja em dia com sua apólice de seguro de desemprego, Warwick.
As mãos de Warwick se crisparam em garras.
- Seu fedelho, eu devia...
Olhou para o alçapão e, de repente, seu sorriso reapareceu.
- Considere-se readmitido, universitário.
- Julguei que você acabaria vendo a luz.
Warwick meneou a cabeça, o mesmo sorriso estranho no rosto.
- Você é muito esperto. Acho que talvez deva descer até lá, Hall, a fim de termos alguém de nível universitário para fornecer-nos uma opinião abalizada. Você e Wisconsky.
- Eu não! - exclamou Wisconsky. - Eu não, eu...
Warwick o encarou:
- Você o quê?
Wisconsky calou-se.
- Ótimo - disse Hall alegremente. - Precisaremos de três lanternas elétricas. Acho que vi uma prateleira cheia de lanternas de seis pilhas no escritório central, não é mesmo?
- Quer levar mais alguém? - indagou Warwick, expansivo. - Claro, pode escolher seu homem.
- Você - disse suavemente Hall, a estranha expressão retornando ao seu rosto. - final, a empresa deve estar representada, não acha? Só para que eu e Wisconsky não vejamos ratos demais lá embaixo?
Alguém (soava como Ippeston) riu alto.
Warwick fitou cuidadosamente os homens. Afinal, apontou para Brochu:
- Brochu, vá até o escritório e traga três lanternas. Diga ao vigia que lhe dei permissão para entrar.
- Por que me meteu nisso? - lamentou-se Wisconsky para Hall. - Você sabe que detesto aqueles...
- Não fui eu - disse Hall, voltando o olhar para Warwick.
Warwick o encarou e nenhum dos dois desviou o olhar.
Quinta-feira, quatro horas da manhã.
Brochu voltou com as lanternas. Entregou uma a Hall, uma a Wisconsky e outra a Warwick.
- Ippeston! Entregue a mangueira a Wisconsky.
Ippeston obedeceu. O esguicho tremia ligeiramente nas mãos do polonês.
- Muito bem - disse Warwick a Wisconsky. - Você vai no meio.Se houver ratos, água neles.
Claro, pensou Hall. E se houver ratos, Warwick não os verá. E Wisconsky também não, depois de encontrar dez dólares extras no envelope do pagamento.
Warwick apontou para dois dos homens.
- Abram.
Um deles se abaixou sobre o anel de ferro e puxou. Por um instante, Hall chegou a pensar que o alçapão não cederia; então, a tampa de madeira se soltou com um ruído estranho. O outro homem enfiou os dedos pelo lado inferior do alçapão, a fim de ajudar a levanta-lo. Recuou com um grito. As mãos estavam cobertas de enormes besouros cegos.
Com um grunhido convulsivo, o homem que segurava o anel de ferro puxou a tampa do alçapão e largou-a no chão. O lado inferior estava negro de um fungo esquisito que Hall nunca vira antes. Os besouros caíram no buraco escuro ou correram pelo chão para serem esmagados pelos outros homens.
- Vejam - disse Hall.
Havia um fecho enferrujado, agora partido, preso ao lado inferior.
- Mas não devia estar por baixo - disse Warwick. - Devia ser em cima. Por que...
- Por muitos motivos - interrompeu Hall. - Talvez para que ninguém desse lado conseguisse abrir - pelo menos enquanto o fecho era novo. Talvez para que nada do outro lado pudesse subir.
- Mas quem o trancou? - quis saber Warwick.
- Ah! - disse Hall, zombeteiro, fitando Warwick. - Um mistério.
- Escutem - sussurrou Brochu.
- Oh, meu Deus - soluçou Wisconsky. - Não descerei!
Era um ruído suave, quase em expectativa; o leve arranhar de milhares de patas, os guinchos dos ratos.
- Talvez sejam sapos - disse Warwick
Hall riu alto.
Warwick acendeu a lanterna e apontou o facho para o buraco.
Velhos degraus de uma escada quase podre levavam às pedras negras do chão do porão inferior. Não havia um só rato à vista.
- Os degraus não agüentarão nosso peso - declarou Wisconsky em tom decisivo.
Brochu avançou dois passos e pulou no primeiro degrau. A madeira rangeu, mas não deu sinal de ceder.
- Não lhe pedi para fazer isso - disse Warwick.
- Você não estava lá quando aquele rato mordeu Ray - replicou Brochu em voz baixa.
- Vamos - disse Hall.
Warwick lançou um último olhar sardônico ao círculo de homens e depois se encaminhou à beira do buraco com Hall. Wisconsky colocou-se relutantemente entre os dois. Desceram um de cada vez, primeiro Hall, depois Wisconsky e, finalmente Warwick. Os fachos das lanternas percorriam o chão, que se erguia e baixava numa série louca de vales e montanhas. A mangueira vinha atrás de Wisconsky como uma serpente desajeitada.
Quando chegaram ao fundo, Warwick fez um círculo com o facho da lanterna. A luz incidiu em alguns caixotes podres, uns poucos barris e pouca coisa além disso. A água que se infiltrava do rio formava poças que chegavam até o início dos canos das botas dos três homens. 
- Não escuto mais os ratos - murmurou Wisconsky.
Afastaram-se lentamente da escada, os pés escorregando no limo. Hall parou e iluminou com a lanterna uma enorme caixa de madeira com letras gravadas.
- Elias Varney, 1841 - leu ele em voz alta. - A fábrica era aqui naquela época?
- Não - respondeu Warwick. - Só foi construída em 1897. Qual é a diferença?
Hall não respondeu. Continuaram a avançar. O subporão era mais comprido do que deveria ser, ao que parecia. O mau cheiro era mais forte, um odor de podridão e coisas enterradas. Ainda assim, o único som era o leve pingar de água, como numa caverna.
- O que é aquilo? - perguntou Hall, apontando seu facho para um ressalto de concreto que se projetava pouco mais de meio metro para o interior do porão. Além dele a escuridão continuava e Hall teve a impressão de que agora conseguia ouvir sons estranhamente furtivos.
Warwick observava atentamente o ressalto.
- É... não, não pode ser.
- A parede externa da fábrica, não é? E lá na frente...
- Vou voltar - disse Warwick, girando subitamente nos calcanhares.
Hall agarrou-lhe bruscamente o pescoço. 
- Não vai a parte alguma, Sr. Capataz.
Warwick o encarou, o sorriso cortando a escuridão.
- Você está maluco, universitário. Não é mesmo? Louco varrido.
- Você não devia pressionar as pessoas, amigo. Vamos em frente.
Wisconsky gemeu:
- Hall...
- Me dá isso - interrompeu Hall, agarrando a mangueira.
Largou o pescoço de Warwick e apontou o esguicho da mangueira para a cabeça do capataz. Wisconsky deu uma bruta meia-volta e correu para a escada. Hall nem mesmo se voltou.
- Você na frente, Sr. Capataz.
Warwick avançou, passando sob o local onde a fábrica terminava acima do solo. Hall correu o facho da lanterna em volta de si e sentiu uma fria satisfação - premonição concretizada: os ratos tinham fechado o círculo em torno deles, silenciosos como a morte. Agrupavam-se, fileira após fileira. Milhares de olhos os observavam avidamente, em fileiras que iam até as paredes, alguns chegando à altura das canelas de um homem.
Warwick os avistou um segundo depois e estacou.
- Estamos cercados, universitário.
Sua voz era calma, ainda controlada, mas tinha um toque de inquietação.
- Sim - replicou Hall. - Vamos em frente.
Avançaram, arrastando a mangueira atrás de si. Hall lançou um olhar à retaguarda e viu que os ratos haviam cerrado fileiras, cortando-lhes a retirada e começando a roer a pesada lona externa da mangueira. Um dos animais olhou para cima e pareceu quase sorrir para Hall antes de recomeçar a roer. Agora, Hall também podia ver os morcegos. Pendiam das enormes vigas de sustentação - morcegos grandes, do tamanho de corvos ou gralhas.
- Veja - disse Warwick, focalizando a lanterna cerca de um metro e meio à frente.
Uma caveira, verde de limo, ria para eles. Mais adiante Hall pôde ver um cúbito, um pedaço de pélvis, parte de uma caixa torácica.
- Continue andando - ordenou Hall.
Sentia algo explodir dentro de si, algo lunático, de cores escuras. Você vai estourar antes de mim, Sr. Capataz, juro por Deus.
Passaram pelos ossos. Os ratos não os acuavam; pareciam manter uma distância constante. Lá na frente, um deles atravessou o caminho seguido pelos dois homens. As sombras o esconderam, mas Hall viu de relance um rabo rosado e vibrante, da grossura de um fio telefônico.
Mais adiante, o chão subia bruscamente e depois descia. Hall podia ouvir o som de um roçar furtivo, de algo grande. Algo que talvez nenhum homem vivo já tivesse visto. Ocorreu-lhe que talvez estivesse procurando por algo como aquilo durante todos os seus dias de louca vida nômade.
Os ratos se aproximavam, rastejando sobre os ventres, forçando-os a avançar.
- Olhe - disse friamente Warwick.
Hall olhou e viu. Algo acontecera aos ratos naquele lugar, alguma hedionda mutação que jamais poderia ter sobrevivido à luz do sol; a natureza impediria. Mas ali a natureza assumira uma outra face, medonha.
Os ratos eram gigantescos; alguns chegavam a quase um metro de altura. Mas não tinham pernas traseiras e eram cegos como toupeiras ou seus primos voadores, os morcegos. Arrastavam-se para diante com horrível avidez.
Warwick virou-se e olhou para Hall, o sorriso pregado ao rosto por pura força de vontade. Hall foi obrigado a realmente admira-lo.
- Não podemos prosseguir, Hall. Deve compreender isso.
- Creio que os ratos têm negócios a tratar com você. - replicou Hall.
O controle de Warwick escorregou.
- Por favor - disse ele. - Por favor.
Hall sorriu:
- Continue andando.
Warwick olhou por cima do ombro.
- Estão roendo a mangueira. Quando a furarem, jamais voltaremos.
- Eu sei. Continue andando.
- Você está louco...
Um rato passou por cima da bota de Warwick e este gritou. Hall sorriu e gesticulo com a lanterna. Havia ratos por todos os lados, os mais próximos, agora, a menos de meio metro.
Warwick recomeçou a andar. Os ratos recuaram.
Chegaram à elevação em miniatura e olharam para baixo. Warwick chegou primeiro e Hall viu-lhe o rosto ficar branco como papel. A baba lhe escorria pelo queixo.
- Oh, meu Deus! Oh, meu amado Jesus!
E virou-se para fugir.
Hall abriu o esguicho da mangueira e o jato de água sob alta pressão atingiu Warwick diretamente no peito, lançando-o para fora do campo visual de Hall. Houve um prolongado grito que se elevou acima do barulho da água. Sons de alguém se debatendo.
- Hall!
Grunhidos. Um grande e tenebroso guincho que pareceu encher a terra.
- HALL, PELO AMOR DE DEUS...
Um repentino barulho molhado de algo sendo rasgado. Outro grito, mais fraco. Algo enorme mexeu e virou-se. Hall escutou bem nitidamente o barulho de um osso se quebrando.
Um rato sem pernas, guiado por alguma forma bastarda de sonar, lançou-se sobre ele, mordendo. O corpo era flácido e morno. Quase distraidamente, Hall virou o esguicho contra o rato, lançando-o longe. Agora, a mangueira já não tinha a mesma pressão.
Hall avançou até o topo da pequena elevação e olhou para baixo. 
O rato enchia toda a ravina na extremidade oposta daquela tumba mefítica. Era cinzento, enorme e pulsante, sem olhos, totalmente sem pernas. Quando o facho da lanterna de Hall o atingiu, ele emitiu um horrível som de miado. A rainha dos ratos, então, a magna mater. Uma coisa imensa e inominável, cuja progênie algum da talvez desenvolvesse asas. Fazia com que os restos de Warwick parecessem os de um anão, mas aquilo provavelmente não passava de uma ilusão. Talvez fosse o choque de ver um rato tão grande quanto um gato Holstein.
- Adeus, Warwick - disse Hall.
O rato curvou-se sobre o Sr. Capataz, despedaçando-lhe um braço inerte.
Hall deu meia-volta e começou a regressar rapidamente à escada, parando os ratos com o jato da mangueira, que se tornava cada vez menos potente. Alguns ratos conseguiram romper o bloqueio e davam botes para morde-lo acima do cano das botas. Um pendurou-se teimosamente em sua coxa, os dentes penetrando através das grossas calças de lona. Hall cerrou o punho e o atirou para um lado com o murro.
Já refizera quase três quartos do caminho quando o forte barulho de asas encheu a escuridão. Ergueu a cabeça e a gigantesca forma voadora atingiu-lhe o rosto.
Os morcegos mutantes ainda não haviam perdido o rabo. A cauda se enroscou no pescoço de Hall como uma cobra repulsiva e apertou, enquanto os dentes procuravam o ponto macio sob seu pescoço. O animal se contorcia e batia as asas membranosas, agarrando os trapos da camisa para firmar-se.
Hall ergueu o esguicho da mangueira e golpeou repetidamente o corpo do monstro. Este caiu e Hall o pisoteou, percebendo vagamente que estava gritando. Os ratos subiram como uma torrente pelos pés e pernas.
Hall começou a correr aos tropeções, livrando-se de alguns deles. Os outros mordiam-lhe a barriga e o peito. Um subiu até o ombro e enfiou o focinho no ouvido de Hall.
Então, Hall esbarrou no segundo morcego. Este pousou na cabeça de Hall por um instante, guinchando, e depois voou, levando consigo um pedaço de couro cabeludo.
Hall sentiu o corpo ficar dormente, os ouvidos cheios dos guinchos de milhares de ratos. Deu um último arranco, tropeçou em corpos peludos e caiu de joelhos. Começou a rir, um som agudo, gritante.
Quinta-feira, cinco horas da manhã.
- Acho melhor alguém descer - disse Brochu, hesitante.
- Eu não - sussurrou Wisconsky. - Eu não.
- Não, você não, seu covardão - replicou Ippeston desdenhosamente.
- Bem, vamos - disse Brogan, trazendo outra mangueira. - Eu, Ippeston, Dangerfield, Nedeau. Stevenson, vá ao escritório buscar mais lanternas.
Ippeston olhou para o buraco escuro, pensativo.
- Talvez tenham parado para fumar um cigarro - disse ele. - Alguns ratos... que diabo.
Stevenson voltou, trazendo as lanternas; pouco depois, eles começaram a descer.

Sexta-feira, duas horas da manhã.

fonte:http://www.flogao.com.br/rachelmoranguinho/blog/351587

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Espuma Noturna - Stephen King 

Depois que o cara estava morto e o cheiro de sua carne queimada sumiu no ar, todos nós voltamos à praia. Corey levou o rádio, um daqueles bagulhos do tamanho de uma maleta, todo transistorizado, que levava umas quarenta pilhas e também gravava e tocava fitas. Corey tinha muita grana antes de A6, mas essas coisas já não importavam.
Até mesmo o seu enorme rádio/gravador não passava de um bonito pedaço de sucata.
Só restavam no ar duas estações que conseguíamos captar. Uma era a WKDM de Portsmouth ― um disc jockey do interior que se tornara maníaco religioso. Tocava um disco de Perry Como, fazia uma prece, chorava, tocava um disco de Johnny Ray, lia os Salmos (completo com a pronúncia arcaica dos nomes de origem judaica, exatamente como James Dean no filme East of Eden), e depois chorava ainda mais. Coisas do bom tempo, assim. Um dia, ele cantou "Bringing in the Sheaves" numa voz engasgada e envelhecida, que provocou risos histéricos em Needles e em mim.
A estação de Massachusetts era melhor, mas só conseguíamos pegá-la à noite. Era um bando de garotos. Creio que se apoderaram das instalações transmissoras da WRKO ou da WBZ depois que todos se foram ou morreram. Só irradiavam prefixos com trocadilhos, como WDOPE ou KUNT ou WA6 ou coisa parecida. Realmente engraçado, sabe ― a gente morria de rir. Era essa a estação que escutávamos no caminho de volta à praia. Eu ia de mãos dadas com Susie, Kelly e Joan estavam à nossa frente e Needles já ultrapassara o topo da Ponta e sumira de vista. Corey vinha à retaguarda, balançando o rádio ao ritmo dos Rolling Stones, oue cantavam "Angie".
― Você me ama? ― perguntou Susie. ― Isso é tudo que quero saber: você me ama?
Susie precisava de constante reafirmação. Eu era seu ursinho de brinquedo.
― Não ― respondi.
Ela estava engordando e, se vivesse o suficiente ― o que não era provável ―, ia ficar realmente flácida. Já estava com os lábios carnudos demais.
― Você é podre ― disse ela, levando uma mão ao rosto. O verniz de suas unhas brilhou palidamente à meia-luz que surgira no horizonte cerca de uma hora antes.
― Vai chorar outra vez?
― Cale a boca!
Parecia mesmo que ela ia chorar novamente.
Chegamos em cima da ponta e eu parei. Sempre tenho que parar ali. Antes de A6, a praia era pública. Turistas, farofeiros, garotinhos de nariz escorrendo e balofas avós com braços avermelhados pelo sol. Papel de balas e pauzinhos de pirulitos na areia, todas as pessoas bonitas bolinando-se em suas toalhas de praia, mescladas com o cheiro de gás de escapamento que vinha do estacionamento, das algas marinhas e do óleo de bronzear.
Agora, porém, toda a sujeira e porcaria se fora. O oceano devorara tudo com a mesma naturalidade com que a gente come um punhado de bolachas. Não havia pessoas para voltar e sujar tudo outra vez. Só nós e não éramos em número suficiente para fazer tanta sujeira. Além disso, creio que amávamos aquela praia ― não havíamos acabado de oferecer-lhe uma espécie de sacrifício? Mesmo Susie, a putinha Susie, com sua bunda gorda e suas jeans de boca larga.
A areia era branca e formava dunas, marcada apenas pela linha da maré alta ― algas marinhas e pedaços de madeira carcomida pelo mar. O luar delineava sombras negras em forma de lua crescente e dobras por toda parte. A abandonada torre do salva-vidas erguia-se, branca e esquelética, a cerca de cinqüenta metros dos vestiários, apontando para o céu como um dedo descarnado.
E a espuma, a espuma noturna, lançando grandes nuvens de borrifos, quebrando-se contra as pedras em intermináveis ataques, até onde nossa vista podia alcançar. Talvez aquela água estivesse a meio caminho da Inglaterra na noite anterior.
― "Angie" com os Stones ― anunciou a voz no rádio de Corey. Tenho certeza de que vocês curtiram essa, uma explosão do passado que é um gás dourado, diretamente do cemitério de discos, uma faixa legal. Sou Bob. Era noite de Fred, mas Fred está gripado. Está todo inchado.
Susie soltou uma risadinha, então, com as primeiras lágrimas ainda nas pestanas.
Comecei a caminhar depressa para a praia, a fim de mantê-la calada.
― Esperem! ― berrou Corey. ― Bemie? Ei, Bemie, espere aí!
O cara no rádio estava lendo uma poesia pornográfica e uma garota, ao fundo, perguntava onde ele tinha deixado a cerveja. Ele respondeu alguma coisa, mas, a essa altura, já estávamos na praia. Olhei para trás a fim de verificar o progresso de Corey.
Ele descia sentado, escorregando sobre o traseiro como sempre, parecendo tão ridículo que até senti um pouco de pena dele.
― Quer correr comigo? ― perguntei a Susie.
― Por quê?
Dei-lhe uma palmada na bunda e ela soltou um gritinho.
― Só porque é gostoso correr.
Corremos. Ela ficou para trás, resfolegando como uma égua e pedindo-me que diminuísse o passo, mas tirei-a da cabeça. O vento corria em minhas orelhas e soprava-me os cabelos da testa. Pude sentir o sal no ar, forte e pungente. As ondas se quebravam com estrondo, parecendo espuma de vidro negro. Descalcei as sandálias de borracha e corri descalço pela areia, não me importando com as ocasionais pontadas das conchas agudas. O sangue rugia em minhas veias.
Então, lá estava o abrigo, com Needles lá dentro e Kelly e Joan de pé ao lado, de mãos dadas, olhando para o mar. Rolei para a frente, sentindo a areia descer pelas costas da camisa, e esbarrei nas pemas de Kelly. Ele caiu em cima de mim, esfregando-me o rosto na areia enquanto Joan ria.
Levantamo-nos e sorrimos um para o outro. Susie desistira de correr e caminhava devagar em nossa direção. Corey já estava quase junto dela.
― Bela fogueira ― comentou Kelly.
― Acha que ele veio mesmo desde Nova York, como disse? indagou Joan.
― Não sei.
De qualquer forma, não fazia diferença. Ele estava ao volante de um enorme Lincoln quando o encontramos, semi-inconsciente e delirante. A cabeça inchara até o tamanho de uma bola de futebol e o pescoço parecia uma lingüiça. Tinha Captain Trips e não iria muito longe. Portanto, nós o levamos até a Ponta que domina a praia e o queimamos.
Ele disse que se chamava Alvin Sackheim. Não parava de chamar pela avó. Pensou que Susie era a sua avó. Ela achou graça, só Deus sabe por quê. Susie acha graça nas coisas mais estranhas.
Queimar o homem foi idéia de Corey, embora tivesse começado como uma brincadeira.
Ele lera todos aqueles livros a respeito de bruxaria e magia negra na universidade e se manteve sorrindo maldosamente para nós no escuro, junto ao Lincoln de Alvin.
Sackheim, dizendo-nos que se oferecêssemos um sacrifício aos deuses das sombras talvez os espíritos continuassem a proteger-nos contra A6.
Claro que nenhum de nós acreditou naquela conversa fiada, mas começamos a falar cada vez mais sério. Era uma coisa nova a fazer e, finalmente, fomos em frente e fizemos. Amarramos o cara ao aparelho de observação no topo da Ponta ― a gente coloca uma moeda no aparelho e, num dia claro, consegue enxergar toda a distância até o Farol Portland. Amarramos o cara com nossos cintos e depois fomos procurar mato seco e madeira trazida pela maré, como crianças entretidas num novo tipo de brincadeira de esconder. E durante todo o tempo, Alvin Sackheim se limitou a ficar escorado ali, balbuciando para a avó. Os olhos de Susie ficaram muito brilhantes e ela começou a respirar depressa. Estava realmente excitada. Descemos para a ravina no outro lado da ponta de pedra e Susie se encostou em mim, beijando-me. Usava batom demais e foi como beijar um prato engordurado.
Empurrei-a para longe de mim e foi aí que ela começou a se mostrar emburrada.
Tomamos a subir, todos nós, e empilhamos os gravetos e galhos secos até a cintura de Alvin Sackheim. Needles acendeu a pira e ela ardeu depressa. No final, logo antes de seus cabelos pegarem fogo, o cara começou a gritar. O cheiro era parecido como porco agridoce à moda chinesa.
― Tem um cigarro, Bemie? ― perguntou Needles.
― Tem cerca de cinqüenta pacotes de cigarros atrás de você.
Ele sorriu, dando um tapa num mosquito que lhe picava o braço.
― Não quero me mexer.
Dei-lhe um cigarro e sentei-me. Susie e eu encontramos Needles em Portland. Ele estava sentado no meio-fio em frente ao Teatro Estadual, tocando músicas de Leadbelly numa grande e antiga guitarra Gibson que roubara em algum lugar. O som ecoava pela Congress Street como se ele estivesse tocando numa sala de concertos.
Susie parou diante de nós, ainda sem fôlego.
― Você é podre, Bernie.
― Ora, vamos, Sue. Vire o disco. Esse lado já encheu o saco.
― Bastardo. Estúpido. Insensível filho da puta. Nojento!
― Vá embora ou te fecho um olho com um murro, Susie ― repliquei. ― Quer ver?
Ela começou a chorar outra vez. Era mesmo boa nisso. Corey se aproximou e tentou abraçá-la. Ela lhe deu uma cotovelada na virilha e ele cuspiu na cara dela.
― Eu mato você!
Susie avançou para ele, gritando e chorando, movimentando as mãos como hélices.
Corey recuou, quase caiu e, depois, virou as costas e fugiu. Susie o perseguiu, gritando obscenidades histéricas. Needles jogou a cabeça para trás e riu. O som do rádio de Corey chegava até nós levemente, quase abafado pelo barulho da rebentação.
Kelly e Joan tinham-se afastado. Pude vê-los à beira do mar, caminhando enlaçados pela cintura. Pareciam um cartaz na vitrine de uma agência de viagens: Voe para a linda St. Lorca. Tudo bem. Tinham um relacionamento legal.
― Bernie?
― O que é?
Fiquei sentado, fumando e pensando em Needles levantando a tampa de seu isqueiro Zippo, rolando a roda para fazer centelhas com aço e pedra, como um homem das cavernas.
― Peguei ― disse Needles.
― É mesmo? ― respondi. ― Tem certeza.
― Claro que tenho. Sinto dores na cabeça e no estômago. Mijar dói.
― Talvez seja apenas a gripe Hong Kong. Susie teve Hong Kong. Pediu uma Bíblia.
Ri. Isso acontecera quando ainda estávamos na universidade, cerca de uma semana antes de fecharem definitivamente, um mês antes de começarem a transportar cadáveres em caminhões basculantes e enterrá-los em covas comuns com tratores.
― Veja.
Ele acendeu um fósforo e iluminou o ângulo inferior do maxilar. Pude ver as primeiras manchas triangulares, a primeira inchação. Era mesmo A6.
― Está certo.
― Não me sinto tão mal ― disse ele. ― Isto é, mentalmente. Mas você não. Pensa muito no assunto. Posso perceber.
― Nada disso ― repliquei. Mentira.
― Claro que pensa. Como aquele cara esta noite. Você também está pensando nisso.
Raciocinando melhor, acho que lhe fizemos um favor. Não acredito que ele percebesse o que estava acontecendo.
― Ele percebeu.
Neddles sacudiu os ombros e rolou para o lado.
― Não faz diferença.
Fumamos e observamos a espuma vir e voltar sobre a areia. Needles pegara a Captain Trips. Isso tornava tudo real outra vez. Já estávamos no final de agosto e dentro de duas semanas o primeiro frio do outono começaria a chegar. Hora de mudarmos para outro lugar. Inverno. Mortos na época do Natal, talvez, todos nós. Na sala de visitas de alguém, com o rádio/gravador de Corey sobre uma estante cheia de livros Condensados do Reader's Digest e o fraco sol de inverno lançando sobre o tapete desenhos sem significação através das vidraças.
A visão foi bastante clara para me provocar um estremecimento. Ninguém devia pensar em inverno no mês de agosto. É como alguém andar em cima de nossa sepultura.
Needles riu.
― Está vendo? Você pensa no assunto.
O que podia eu responder? Levantei-me:
― Vou procurar Susie.
― Talvez sejamos as últimas pessoas no mundo, Bernie. Já pensou nisso?
Ao pálido luar, ele já parecia meio morto, com profundas olheiras e os dedos pálidos e imóveis como lápis.
Desci até o mar e olhei para o horizonte. Nada havia para ver senão os inquietos e movimentados topos das ondas, encimados por delicados penachos de respingos de espuma. O trovão da rebentação era tremendo ali à beira da água, maior que o mundo.
Era como estar no interior de uma tempestade elétrica. Fechei os olhos e balancei-me nos pés descalços. A areia era fria, úmida e compacta. E se fôssemos as últimas pessoas no mundo ― e daí? Aquilo continuaria enquanto existisse uma lua para provocar as marés.
Susie e Corey estavam na praia. Susie cavalgava-o como se ele fosse um potro selvagem, batendo-lhe a cabeça na espumante torrente de água. Corey espadanava, batendo os braços. Estavam ambos encharcados. Aproximei-me e derrubei Susie com o pé. Corey ficou de quatro, bufando e resfolegando.
― Eu odeio você! ― gritou ela.
Sua boca era um escuro crescente que parecia sorrir. Parecia a entrada de um parque de diversões. Quando eu era criança, minha mãe costumava levar-nos ao Parque Estadual Harrison e lá existia uma casa de loucuras, cuja fachada era uma enorme cara de palhaço. A gente entrava pela boca sorridente.
― Vamos, Susie. Levante-se, Lulu.
Estendi a mão. Susie a agarrou com certa hesitação e se pôs de pé. Tinha a blusa e a pele sujas de areia úmida.
― Não precisava empurrar, Bemie. Você nunca...
Ela não era como uma vitrola de bar; não era Preciso inserir uma ficha e ela nunca se desligava.
Subimos pela praia em direção à concessão principal. O homem que gerenciara o local tinha um pequeno apartamento no sobrado. Havia uma cama. Susie não merecia realmente uma cama, mas Needles tinha razão a respeito de uma coisa: não fazia diferença. Ninguém mais prestava atenção à contagem do jogo.
A escada ficava ao lado do prédio, mas parei por um instante para olhar pela vitrine quebrada as mercadorias empoeiradas que ninguém se dera o trabalho de saquear: pilhas de suéteres (estampadas no peito com as palavras "Anson Beach" e um desenho de céu e mar), pulseiras brilhantes que deixariam a pele do pulso verde de azinhavre com apenas um dia de uso, cintilantes brincos ordinários, bolas de praia, cartões postais obscenos, madonas de cerâmica mal pintada, vômito plástico (Tão reais! Experimente em sua esposa!), fogos de festa da Independência para um Quatro de Julho que jamais chegara, toalhas de praia com uma voluptuosa garota de biquíni cercada pelos nomes de uma centena de balneários famosos, flâmulas (Lembranças de Anson Beach and Park), balões de gás, roupa de banho. Na frente, um bar com um grande !etreiro que dizia:
EXPERIMENTE NOSSA TORTA ESPECIAL DE MARISCOS.
Eu costumava vir freqüentemente a Anson Beach quando ainda estava no ginásio. Isso foi sete anos antes da A6 e eu namorava uma garota chamada Maureen. Uma pequena alta, que tinha um maiô quadriculado cor-de-rosa. Eu costumava dizer que parecia tecido de toalha de mesa. Tínhamos passado pela calçada de madeira em frente àquela concessão. Nunca experimentamos a torta especial de mariscos.
― O que está olhando?
― Nada. Venha comigo.
Tive pesadelos horríveis com Alvin Sackheim, que me provocaram suor. Ele estava colocado ao volante de seu brilhante Lincoln amarelo, falando na avó. Não passava de uma caveira inchada e negra, com um esqueleto chamuscado. Cheirava a carne queimada. Falava interminavelmente e, depois de algum tempo, não consegui entender uma só palavra. Acordei respirando com dificuldade.
Susie estava deitada de través em minhas coxas, pálida e inchada. Meu relógio marcava três e cinqüenta, mas estava parado. Lá fora ainda estava escuro. A rebentação continuava a produzir estrondo. Parecia mais forte. Maré alta. Devia ser 4:15. Logo amanheceria. Levantei-me da cama e fui à porta aberta. A brisa do mar era agradável em meu corpo quente. A despeito de tudo, eu não queria morrer.
Fui ao canto e peguei uma cerveja. Havia três ou quatro caixas de latas de cerveja empilhadas contra a parede. Estava morna, pois não havia eletricidade. Contudo, não me importo com cerveja morna, ao contrário da maioria das pessoas. Apenas faz um pouco mais de espuma. Cerveja é cerveja. Voltei ao patamar, sentei-me e puxei o anel para abrir a lata.
Então, ali estávamos, com toda a raça humana exterminada, não por bombas atômicas, ou guerra biológica, ou poluição, ou qualquer coisa tão grandiosa Apenas pela gripe. Eu gostaria de fincar uma enorme placa... onde? Na planície salgada de Bonneville, talvez.
O Quadrado de Bronze. Cinco quilômetros de lado. E, com grandes letras em relevo, ele diria aos eventuais visitantes vindos do espaço: APENAS A GRIPE.
Joguei a lata de cerveja por cima do corrimão. Ela caiu com um ruído metálico oco na calçada de cimento que rodeava o prédio. O abrigo era um triângulo escuro na areia.
Tentei adivinhar se Needles estava acordado. Tentei adivinhar se eu estava.
― Bernie?
Ela estava de pé à porta, usando uma de minhas camisas. Detesto isso. Ela sua como uma porca.
― Você já não gosta muito de mim, não é mesmo, Bernie?
Não respondi. Havia ocasiões em que eu ainda era capaz de sentir pena de tudo. Ela não me merecia mais do que eu a merecia.
― Posso me sentar com você?
― Duvido que haja largura bastante para nós dois.
Ela emitiu um soluço engasgado e começou a voltar para o interior do apartamento.
― Needles pegou A6 ― declarei.
Ela parou e olhou para mim, as feições imóveis.
― Não brinque, Bernie.
Acendi um cigarro.
― É impossível, ele já teve...
― Sim, ele teve A2. Gripe Hong Kong. Exatamente como você, eu, Corey, Kelly e Joan.
― Mas isso significaria que ele não está...
― Imunizado.
― Sim. Então, nós também podemos pegar.
― Talvez ele tenha mentido quando disse que já teve A2, para que o aceitássemos naquela ocasião ― comentei.
O alívio se espraiou em seu rosto.
― Claro, é isso aí. Se fosse eu, também mentiria. Ninguém gosta de ficar só, não é mesmo?
Ela hesitou:
― Vai voltar para a cama?
― Agora, não.
Ela entrou. Eu não precisava dizer a ela que a A2 não era garantia contra A6. Ela já sabia. Apenas bloqueara a idéia. Fiquei sentado, observando a espuma. Estava forte para valer. Anos atrás, Anson Beach fora o único local decente para se fazer surf em todo o Estado. A Ponta era uma corcova negra e saliente, silhuetada contra o céu. Tive a impressão de conseguir enxergar a torre do posto de observação, mas, provavelmente, não passava de imaginação. Às vezes Kelly levava Joan para o topo da Ponta. Não creio que estivessem ali esta noite.
Coloquei o rosto nas mãos e apertei-o, sentindo a pele, sua granulação e textura. Tudo se estreitava tão depressa e era tão ruim ― não tinha qualquer dignidade.
As ondas chegando, chegando, chegando. Infinitas. Limpas e profundas. Tínhamos vindo aqui no verão, Maureen e eu, no verão antes de entrarmos para a universidade, antes que a realidade e a A6 viessem do Sudeste Asiático e cobrissem o mundo como uma mortalha; julho comemos pizza e escutamos o rádio de Maureen, eu lhe passara óleo nas costas e ela nas minhas, o ar estava quente, a areia brilhante, o mar como um vidro em chamas.

fonte: http://noitesinistra.blogspot.com.br/2013/06/conto-de-terror-espuma-noturna-stephen.html#.WDVkUeArKUk