domingo, 19 de fevereiro de 2017

Bruxaria


Palha no fogo, e ele sobe, aumenta, esquenta meus pés. Remexo e giro o líquido, no outro sentido, e as bolhas tornam-se lentas, a estourar preguiçosas. Tornam-se grossas, azuis, e índigo também é a fumaça que agora se desprende, em espirais loucas, alucinadas, deixando a visão turvada, visão que não é minha, inflando o lugar em êxtase. Uma bolha estoura, minha pele sua, tremendo de gozo pelas carícias da fumaça, ansiando as delícias cantadas em seu aroma. Mas espero, me contenho, ou outras vontades o fazem, pois já não sou eu, mas instrumento. Meu braço treme, lento, envolvido pelas finas brumas, que devagar giram o líquido, perdido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.


Então, sem aviso, anúncio ou sinal, a fumaça muda, descolore para um negro sepulcral, escurece a sala. Tudo se apaga, as paredes, o fogo, os sons. Sou apenas eu, eu e o líquido, que gira. Já não há bolhas, mas uma camada lisa, fina, frágil qual espelho, a deslindar certeiro uma cena ao luar. Sim, vejo a Lua, a mãe, brilhando entre os prédios cinzentos, brigando com a luz dos postes um direito a iluminar. E numa viela escura, fedendo a sangue e urina – sim eu sinto – vejo uma menina, miúda, vítima do desejo do homem que a segura, que rasga suas vestes e procura seu corpo. Sinto o gosto de sangue na boca da menina, vejo o sangue escorrer de seu queixo. Ela grita, não há som mas a ouço, ela grita, mas só eu a ouço. Os braços fortes lutam contra o corpo frágil, ela chora, ele ri, animal afoito, ri e se esfrega nojento. As sombras a minha volta se agitam – ou seriam as brumas? – e sinto o cheiro de morte. Morte. A menina grita, o homem ri, ri satisfeito e finalmente a deixa. A garota morre, e a cena treme, turva e se desfaz, o passado é frágil na superfície de um caldeirão. Agito o líquido, ansiosa. E sinto a angústia que a menina deve ter vivido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.

A sala escurece mais, se é possível. Vejo minha mão erguer o punhal, terrível, e estendo o outro braço. A pele chora o sangue que derrama, avermelhando o líquido. A dor é grande, mas não é sequer um traço, da que está por vir. O líquido desprende rubra fumaça, que inflama instintos assassinos, instintos tentadores, mas que renego. Ouço a bruma exigir mais sangue, meu corpo sua de raiva e ódio, minha mão ferida treme por vingança. Ouço a bruma que dança, mas nada faço, senhora que já não sou de mim. Enfaixo o braço ferido, e vejo nova cena na superfície carmesim, e na cena vejo um homem, o mesmo de antes, dormindo tranqüilo seu sono impune. Vejo minha mão – já não a minha – buscar um pequeno estojo num bolso do vestido. Sinto uma tontura. Dentro do estojo, um fio de cabelo, da mesma cor escura dos cabelos da menina, morta há sete dias, naquela noite fria, nas sombras da rua. O fio brilha na fumaça rubra, o cabelo da vítima. E dói meu braço. A dor é grande, mas não é sequer um traço, da que está por vir. O homem contrai o rosto, como se esperasse. E jogo o fio na cena rubra, e o líquido borbulha, e borbulha e borbulha. Mexo o caldeirão. Ouço enfim, claro, um grito, de dor acometido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.

Com força eu giro, e a cada volta o grito aumenta, a dor aumenta, o desespero vem. Sinto o medo, o medo dele, o medo que sente, eu sinto também. Agora sou ele, ele eu, sinto os lençóis ásperos de sua cama, e o suor frio de seu corpo. O grito acaba, morre em minha garganta, e acordo assustada, tremendo ainda o sonho que tive. Ouço, ouço claro, um barulho à minha janela, e vejo a Lua, e sinto medo. Então, no vidro refletido, vejo meu rosto, o rosto dele, o pânico crescendo. Pois vejo, no reflexo, uma sombra se erguendo, atrás de mim, a sombra de uma menina, pálida. Ela me olha, me odeia, e eu sequer tenho coragem de voltar meu rosto. É ela, descubro, é ela, a menina da noite escura! A menina que feri, que invadi e abandonei, é ela, como pode? É ela! Eu a vejo andar, no reflexo da janela, devagar, sair das sombras à passos leves – não ouço passos, mas o roçar de tecido. Ela voltou, voltou pelo crime cometido, veio cobrar o sangue que lhe derramei. Sinto o colchão tornar-se morno, molhando minhas pernas e o lençol, encharcando a cama com urina. Ela estende o braço, vejo no reflexo, em minha direção. Desesperada, eu grito: Não!, e  me viro finalmente. A dor é tremenda, o desespero, maior! Vejo o terror nunca antes visto, e ouço o grito que grito, terrível, perfurando meus ouvidos. E vejo enfim minhas mãos, minhas mãos que giram, giram o líquido, de tom verde agora, como era no início. E vejo as brumas se dispersarem, como se ali nunca estivessem, deixando a sala, o caldeirão, a mim. Sinto o cansaço pelo encantamento proferido, volto a ser eu, eu mesma, eu bruxa. E vejo minha mão que teima em girar o caldeirão.  A saudade da filha é menor, o culpado foi punido. O líquido gira, e ainda giram meus sentidos.

Fonte: http://contosdelitfan.blogspot.com.br

Brincando com o Desconhecido


Sexta-feira, 23h50min. Acenderam algumas velas vermelhas pelos cantos da sala, sete amigos sentados formando um círculo e, no centro deles, uma tábua contendo todos os algarismos, todos os números de 0 a 9, um SIM e um NÃO. Temerosos, mas excitados com o que poderia acontecer, olham um na face do outro. Com um sinal de concordância dado por Michel, o mais velho entre eles, Rafael colocou sua mão sobre o copo virgem que se encontrava com a boca para baixo sobre a tábua: 


   -Tem alguém aí? Tem alguém aí?

   - Nada, nenhum movimento do copo, apenas uma tremedeira causada pela mão do jovem Rafael. Todos olhavam em volta, sentindo um leve calafrio que lhe percorriam a espinha. Um leve vento frio entrou janela adentro. Núbia, a única garota do grupo, pediu para pararem, mas foi alvo das chacotas de Michel:

   - Sabia que não deveríamos trazer uma mulher com a gente!

   - Está com medinho?

   - Corre para debaixo da saia da mamãe e deixe que os homens continuem aqui.

   Núbia abaixou sua cabeça, encobrindo a vergonha, mas não se levantou. Na verdade, todos ali estavam com medo, mas nada diziam temerante às gozações de Michel. Sob a ordem dele, Rafael voltou a pôr a mão sobre o copo e novamente questionar:

   - Tem alguém aí? Tem alguém aí?

   A janela bate quase derrubando a parede; um vento forte e gélido corre por entre a sala como se em círculos; as luzes piscam. Núbia foi tomada por um desespero. Chorava e, aos gritos, pedia para pararem com aquilo, mas não foi ouvida. Rafael, também amedrontado, tentou tirar a mão do copo, mas foi impedido pelas mãos de Michel:

   - Vai, continua! Continua!

   Núbia se levantou aos prantos e correu para a cozinha. Seu pavor estava totalmente fora de controle. Rafael, ainda obedecendo ao amigo, continuou:

   - Tem alguém aí?

   Antes que perguntasse novamente, o copo se moveu: SIM. Todos ficaram paralisados. As mãos trêmulas de Rafael já não conseguiam mais segurar o copo. Todos os seis se juntaram ainda mais, um se se encostando ao outro, espremidos em seu medo, mas atentos à tábua. Rafael, em soluços, voltou novamente a questionar:

   - Quem é você? Quem é você?

   O copo voltou a mexer indo em direção aos algarismos. Tomados pelo medo e pela curiosidade, eles fixaram os olhos na tábua, enquanto o copo continuava a se mover: E, U, P, E, D, I, P, A, R, A, P, A, R, A, R, E, M, Michel repetiu a frase soletrada:

   - Eu pedi para pararem...

   Todos olharam em direção à cozinha, para onde Núbia teria corrido, mas se depararam com a jovem em pé atrás deles, segurando uma faca de cozinha nas mãos. Com um só golpe, cortou a garganta de Michel, jorrando sangue em todos os outros. Rafael se levantou em direção da amiga tentando segurá-la, mas a força da jovem, naquele momento, era incrível. Atirou Rafael na parede e lhe estocou a faca em sua barriga. Os outros se agruparam no canto da sala, aos berros. Queriam correr pra fora, mas Núbia estava posicionada na única passagem possível.

    Os berros que vinham da casa chamaram a atenção dos vizinhos. Um deles, mais do que depressa, chamou a polícia, que chegaram 30 minutos depois. Quando já não se ouvia mais nada vindo de dentro da casa, uma multidão se formou defronte à residência. Com o aparecimento da polícia, todos queriam saber o que aconteceu. Um dos policiais abriu a porta da sala com os pés. Deparou-se com Núbia sentada no sofá, coberta por pedaços de corpos e sangue, como se em estado de catatonia apenas repetia a frase:

    - Eu pedi para eles pararem! Eu pedi para eles pararem! Eu pedi...

Fonte: http://lercontosdeterror.blogspot.com.br

Asfixia

Começou aos poucos, quase sem ser notado. As crianças foram as primeiras a sentir os efeitos, parando no meio das brincadeiras de pega-pega, esquecendo o futebol pela metade, preferindo montar quebra-cabeças à correria. Depois o boato tomou as conversas em bares, as janelas leva-e-traz das faladeiras, os programas de entrevistas, até virar notícia oficial, grave em seu chamado de cadeia nacional, transmitida a cada povo do planeta por seu próprio governante.

Não se sabia a origem do fenômeno. Nos botecos, diziam que a Terra atravessava uma região do espaço ocupada por elementos de anti-matéria que sugavam a atmosfera. As tevês culpavam os raios solares, a camada de ozônio, o El Niño. Saltando de janela em janela, entre fofocas e ladainhas, um versículo do Apocalipse ecoava: “e o sétimo anjo derramou sua taça pelos ares”. Não havia consenso, mas o fato é que a Terra, como um balão cheio de minúsculos furos, vazava gases para o cosmos.

O mundo estava perdendo ar.

Há menos de um mês, João se divertia com as piadas de narigudos fungando porções extras de oxigênio, ou dava opiniões em rodas animadas sobre qual era a quantidade mínima do gás precioso para que o homem pudesse sobreviver fazendo sexo todo dia. Havia sim as piadas, mas João reconhecia, modulado nos timbres das vozes, escondido permeando risos, o inconfundível tom do medo.

A cada dia o ar se tornava mais rarefeito, e não se descobria a causa.

Com o corpo afundado numa cadeira na varanda de seu chalé à beira-mar, comprado com os anos de salário como mergulhador, João refletia: havia trabalhado em plataformas de petróleo, consertando tubos e juntas a grandes profundidades. Aposentara-se imaginando uma velhice tranquila, apesar de solitária, já que as longas estadas em alto-mar não conciliavam com uma esposa fiel. Revivia pelas imagens em sua memória as centenas de mergulhos realizados na juventude. Relembrava os rostos que vira atrás das máscaras quando, mal calculado, o oxigênio nos cilindros subitamente chegava ao fim ainda nas profundezas. Vira olhos arregalados, primeiro de espanto, depois de terror. Vira as mãos cegas, desesperadas, procurando ar onde não havia, tentando agarrar o companheiro e arrancar de sua boca o regulador, para então se cravarem na própria garganta e aceitarem o destino. Vira-os flutuarem sem vida, asfixiados. Ele mesmo já estivera em situação semelhante, os pulmões colados, a cabeça explodindo, o coração desorientado. Só se salvara por estar mais perto da superfície, onde outro mergulhador pôde compartilhar seu gás; lá embaixo a reserva seria insuficiente, e tentar salvar um amigo seria condenar dois à morte.

João notou que as crianças haviam desaparecido e, com elas, as brincadeiras. Ninguém se apressava mais; não havia fôlego. A rua, antes alegre e barulhenta, agora estava deserta. Não era apenas a falta da gritaria da molecada que deixava a rua quieta. Cachorros já não latiam nem corriam atrás de gatos, estes também desaparecidos. Aves não voavam. O vento, como se precisasse de oxigênio para soprar, tampouco zunia. Os carros e tudo que pudesse poluir a atmosfera vaporosa foram proibidos mundialmente, e o descumprimento desses e outros decretos, sob aplicação marcial, eram punidos com execução sumária. João estava com medo. Não gostava daquele silêncio; fazia-o se lembrar da mudez dos abismos oceânicos.

Levantou-se lentamente, à maneira dos anciãos, e foi à cozinha. Preparou um copo de leite frio e bolachas. Há dois dias o governo também proibira o fogo. Qualquer atividade que se servia da combustão estava suspensa. Os alimentos eram consumidos crus. João não via problemas nisso; preocupava-o mais o momento em que, ou por falta de energia nas máquinas ou pela insuficiência da energia humana, a comida começasse a escassear.

        Voltou à varanda, apoiando-se nas paredes, fatigado e zonzo. Impossibilitado de manter-se em pé, jogou-se na cadeira e ligou o rádio, observando o peito subir e descer apenas levemente, como se respirasse pela metade. As transmissões eram raras. Somente os informes do governo cumpriam com a pontualidade, impondo novas sanções ou trazendo notícias da asfixia global. João tinha esperanças de ouvir que o fenômeno era passageiro, que fora descoberta a causa do flagelo, o motivo de a Terra estar se esvaziando de oxigênio. Mas nada; somente notas sombrias: mortes, suicídios, mais um mercado saqueado, famílias presas em grandes edifícios sem ter para onde ir, um pai desesperado por alimentar os filhos, errante após o toque de recolher, fuzilado pela Guarda Nacional. Ao menos ali, no interior, tinham um pouco de comida para dividir; mas o ar – o precioso ar – faltava a todos.

        João foi dormir mais cedo. Sonhou que nadava no fundo do mar, sem equipamentos, mas respirava normalmente e se movia ligeiro como os golfinhos. Apesar da escuridão, podia ver os peixes, os corais, abismos e... Luzes! Não as podia identificar, apenas que se aproximavam. Luzes. Aproximando-se. O medo espetou-o como farpa sob as unhas: aquelas luzes eram seus companheiros mergulhadores, mortos e perdidos na imensidão oceânica, as cavidades oculares brilhando como faróis. Cercaram-no e o agarraram pelo pescoço, as mãos mortas se fechando e o estrangulando. João sentiu os olhos arregalarem como um afogado e o ar sumiu de seus pulmões. Acordou com o susto, no breu do quarto, arfando, ainda sem fôlego. Custou a perceber que o sonho se fora, pois também se fora o ar, e ali em sua cama parecia que nadava em apnéia.

Levantou-se para um copo de água. Da janela da cozinha, ouviu alguém chorar. Alegrou-se com aquele som. Mesmo sendo um lamento, era produzido por alguém! Não estava só, afinal! Vinha da casa ao lado. O choro era fraco, de criança. Ouviu gritos de uma mulher; provavelmente a mãe. Pedia socorro, parava, arqueava, pedia de novo. Ninguém respondia.

João vestiu uma camisa, cambaleou pelo quintal e bateu à porta. Lá dentro a mãe se desesperava em ver a criança no berço, rosto azulado, tomada por convulsões. A pobre criatura nascera asmática e o ar lhe fazia mais falta. O pai implorava por ajuda.

O ex-mergulhador possuía um cilindro de oxigênio em casa. Pegou-o e o levou para a criança. Ensinou o uso e, quando disse que ia embora, viu nos olhos da mãe a mesma agonia dos asfixiados; aquela mulher seria capaz de matar pelo cilindro. Mas João não pensava em levar equipamento de volta. Apenas aconselhou parcimônia, pois não havia outros iguais àquele. Voltou se arrastando, seguido por pensamentos desoladores. Em breve, todos estariam da cor do bebê, afogados em plena terra firme.

Os dias amanheciam cada vez mais abafados. Os poucos que se aventuravam na rua não mais andavam, arrastavam-se de quatro. João, de sua cadeira, ria da ironia da vida. A raça humana, que se destacara na evolução por andar sobre duas pernas, inclinava-se e devolvia as mãos ao solo. Movia-se como bichos.

A dor nos pulmões era cruciante, a cabeça girava. Não era como no fundo do mar, que o ar faltava de uma só vez. Ali a coisa ia aos poucos. A morte demorava, como se precisasse de oxigênio para sua manejar sua foice, mas ele sabia que cedo ou tarde ela chegaria. Vez ou outra se ouvia um estampido. Alguém, no mais profundo desespero, antecipava o fim. Pior quando ouvia quatro, cinco tiros: uma família inteira se fora!

João não tinha uma arma.

As transmissões haviam cessado completamente. Nenhuma voz, nenhuma notícia, nada de esperança. O bebê do vizinho estava morto, assim como a mãe. Ninguém mais enterrava seus defuntos. O pai saíra rastejando pela rua e não voltara mais. Os homens agora se moviam sobre o ventre, como répteis. Despediam-se da vida com o rosto ao chão.

João caiu da cadeira, arrastou-se pela rua passando por cima de aves mortas. Rolou o barranco, tossindo, vomitando com esforço, quase desfalecendo. Fincou os dedos na areia da praia, puxando o corpo. Sorriu quando a primeira onda molhou seu rosto. Olhou para os lados e viu cadáveres; o caminho até o mar interrompido pela asfixia. A humanidade, como amante traída pelos ares que a sequestrara das águas, tateava o retorno ao berço Paleozóico.

Continuou a se arrastar até que as ondas lhe submergissem a cabeça.

João engoliu o primeiro gole, o segundo, o terceiro, enquanto procurava pelos olhos brilhantes dos afogados e pelas mãos que fechariam de vez sua garganta.

Fonte: contosdelitfan.blogspot.com

Eu lhes devo uma explicação

Então, a minha falta de internet virou um cisto pilonidal, que virou uma cirurgia com vinte dias de repouso e só a pouco tempo atrás que eu consegui levantar da cama. Peço desculpas, vamos voltar ao que interessa. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Desculpas
Gente, queria pedir desculpas e dizer que vou voltar a postar logo, mas só posso pedir desculpas. A Internet aqui onde eu vivo está uma porcaria e não tem perspectiva de voltar por um tempo razoável, só peço paciência e desejo tudo de bom pra vocês, gente linda.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Armadilha

Por alguns instantes, apenas as batidas do meu coração rompem o silêncio enervante e ameaçador. Frio. O escuro ao meu redor. Lentamente respiro e procuro ouvir a respiração dos outros. E mais uma vez a voz suave, perigosamente suave, me indaga, quase implora:
— Conte, o que você fez?
No entanto, meus pensamentos estão confusos e não consigo pensar em algo coerente. Nem mover os dedos dos pés. Ficaram adormecidos pelas pancadas com a barra de ferro das últimas horas. Devem estar fraturados e abençoadamente não sinto a dor. Mas sinto o gosto acre do meu próprio sangue nos lábios rachados pelos socos. Tenho sede, muita sede e a desidratação me enfraquece. Ainda assim, consigo balbuciar:


— Um pouco de água...
Ah, a dor de volta, cruelmente a água salgada escorre pela minha cabeça e minha língua ávida tenta captá-la pesar do ardor dos ferimentos.
— Eu não fiz nada a ela... não sei onde está.
Esta voz rouquenha que me arde a garganta, nascendo de um último resquício de forças não parece minha. Posso ouvi-los, minha resposta os enfurece. A calma dá lugar a ira. Chutes, pontapés... o refinamento foi embora. Existe muita raiva nas pancadas que recebo. O que você fez? Onde ela está? O que você fez? Velhas e repetitivas, as perguntas giram e me enjoam. O que eu fiz? Saberiam aqueles senhores entender sequer o que havia ocorrido? Ah, Kalinca, minha doce Kalinca. Nem eu o sei.
Depois o nada. Um longo e completo nada e penso em dormir.Eles se foram.*— Temos testemunhas de que estavam juntos lá. Só precisa nos dizer.A voz é amiga, macia, quase confortante; causa-me, no mais humano em mim, uma necessidade ferrenha de chorar e confessar meus segredos mais íntimos. Posso sentir o carinho na voz do meu inquiridor. Suave como as carícias de Kalinca.
— O que você fez com ela? Só precisamos saber onde ela está e depois... você poderá descansar.
Ele é o mais perigoso, os outros são como bestas, atacam desordenadamente, bufando, violentos e insanos. Este da voz macia se compraz, sorri com a dor, convence, quase seduz com a idéia de que a dor é tudo que precisamos. A tortura é uma arte que aprendi a conhecer muito bem.
Kalinca, ah, doce Kalinca, seus risos, sua dança. Querida Kalinca. Quase choro com as lembranças vivas dela.
— Não sei de nada. Me deixe ir — trêmulo, repetindo a mesma sentença como uma ladainha.
A dor. Novamente a dor.
Com que requintes o homem sabia aplicá-la. Lenta, quase infinita, não intensa, não letal, apenas lenta e contínua dor.
O tempo deveria ser indefinido aqui, no entanto, apesar da venda nos olhos e dos horários irregulares, nos quais sou interrompido por diferentes torturadores, posso detalhar os minutos e segundos que passo aqui, nesta sala fétida. Desde a noite em que ela se foi.
Controle, meu controle está indo embora, um laivo de insanidade me espreita, sinto vontade de gargalhar. O escuro me ajuda a conter os instintos.Tenho sede.*
Mais uma vez o silêncio me machuca. Não sei onde eles estão, apenas o escuro da venda sobre meus olhos, a dor dos ferimentos e as noites roubadas. Desmaiei por algum tempo e a febre me consome. Minha boca sofre a falta de água, mas não há justiça nos métodos destes homens. O pai de Kalinca está aqui, todos os dias ele vem. Deve ser difícil para ele não poder me matar com as próprias mãos, somente a crença de que eu possa dizer onde ela está permite que eu ainda viva. Entretanto, não sei o que houve, tenho lembranças vagas sobre a última vez que a vi e a dor que tenho vivido embota meus sentidos, os delírios têm sido constantes em meio à sede, a fome e a dor.
Kalinca... A primeira vez que a vi, ela dançava e seus risos espalhavam-se pelo ar. Impossível não amá-la. Mas não contava que ela pudesse me amar.Perseguiu-me, inexoravelmente, no furor do primeiro amor. Rica, bonita e determinada. O pai, literalmente, o dono da cidade. Tudo o que eu não precisava, portanto fugi. Mas sou homem e fraco, a pele jovem e fresca, o riso feliz, o semblante carinhoso diluíam minha resistência, em poucos dias após minha chegada na cidade eu já a amava. Foi quanto tudo aconteceu. Numa noite calma e sem luar, brisa leve nas árvores, fui convidado a uma festa. Ela estava lá, a atração foi irresistível e estivemos juntos por toda a noite. Por alguns dias, cedi ao seu fascínio singular. No entanto, resolvi deixá-la. Comecei a fugir, fui rude, maltratei-a mais de uma vez, pois não acreditava no amor nem nos caminhos obscuros pelos quais nos levariam.
Certa noite, recluso em casa, preparando-me para um sono sem sonhos, ouvi os chamados no portão do velho sítio que escolhi por morada. Uma amiga de Kalinca implorava:
— Vem comigo, ela vai fazer algo horrível, por favor, só você pode ajudar! — As palavras vinham entrecortadas por soluços e lembrei-me da voz meiga dizendo que viver sem mim não seria vida. Segui o carro da moça temendo pela vida de minha querida, angustiado pelas lembranças das palavras bruscas que usei para afastá-la.
Dirigimos por uma estrada esburacada que levava a uma casa pequena na beira do rio. Desci e com a pele coberta pelo suor inquiri à jovem. Ela me dizia confusamente que, entristecida sem mim, Kalinca resolvera morrer, trancando-se ali com armas letais. Trêmulo, chamei por ela até que uma porta abriu-se levemente e entrei. Ela estava viva.
Uma armadilha! Do amor, do destino! A garota lá fora buzinou risonha e partiu. Eu estava preso junto a mais doce pessoa que conhecera. Que dizer? Amei-a com paixão. No entanto, quando mais tarde tentei sair, me descobri realmente preso. Eu deveria ter percebido, resquícios de morte e dor impregnavam o ar, mas tão concentrado estava em Kalinca que ignorei meus sentidos. A casa, servindo aos objetivos escusos do pai, era em verdade uma prisão, a única chave estava com a amiga e esta só viria depois de três dias. Depois de tentar sair de inúmeras formas, aceitei. Três dias. Pensei que seria o suficiente, mas não contava com o destino.
Foram três dias de alegria, de amor e risos, tudo estava preparado para nós dois e nada nos faltou. Eu nunca fora tão feliz. No entanto, ela não veio na terceira noite, nem na quarta, nem na quinta. Até que no sexto dia, a noite chegou e o medo me invadiu, se ela não viesse, seria tarde, muito tarde. A prisão forçada começava a inquietar minha amada, que chorosa pedia-me perdão. Eu guardava minhas apreensões em silêncio, angustiadamente, sentia a ameaça que nos rondava. Caminhava na minúscula sala como uma fera enjaulada. Sim, uma fera enjaulada, eis o que eu me tornara.Ah, minha doce Kalinca. O que você fez?*Frio, sinto o frio cortando minha pele. Não sei onde estou. Deitado nesse canto obscuro de um esgoto fétido, as lembranças vão retornando. Eu ainda estaria lá, naquela sala minúscula? Sonho e realidade se confundem.
Lembro-me de estar vendado, dos dias de imobilidade forçada, da dor, da pressão e dos sentimentos confusos acumulados forjando uma intensa explosão interna. Nos meus delírios, podia sentir o controle perdido, a besta se aproximando, tênue, estendendo as garras imundas e tocando minha pele por dentro. Eu me lembro: uma risada debochada escapou pelos meus lábios feridos e me assustei com sua ferocidade. Foi o riso que os descontrolou, entretanto, já era tarde.
A fera estava à espreita, aguardando. Podia senti-la na febre que me consumira.
— Ela te amava sabia? Minha menina te amava... — eu sabia quem falava, apesar de não ver o rosto nas sombras, reconhecia a voz do banqueiro, sem orgulho, sem raiva, apenas em desespero contido, enquanto ele saia do aposento. — E eu não pude impedi-la.
Sofri mais um ataque feroz. A dor já não importava nesse momento, apenas a febre, a fera. E eu ria debochadamente. Podia ouvi-los pela respiração ofegante, eram quatro.
— Querem saber onde ela está? — é sempre assim quando a fera vem, suplanta meus sentimentos e obscurece a razão. Deleitei-me com o suspense.— Está aqui, comigo! Ela vive em mim, na minha carne, no sangue que me embriagou, na carne que me satisfez. — e eu ria, ria e ria enquanto o choque perante meus gritos paralisou os homens que por vários dias buscavam a resposta. — AH, MINHA DOCE E SABOROSA KALINCA.Mas então a dor voltou, intensa, feroz. Os espasmos me contorciam, me dilaceravam, minha pele estava sendo rasgada, minhas unhas cravaram-se na minha própria carne e uivei. Uivei e o tecido que me cobria desapareceu enquanto os pelos me feriam, rasgando sua própria trilha nos meus poros, o sangue fervendo em instinto puro. Meu último pensamento foi a certeza de que a noite chegara: a lua nasceu e com ela, a fera me vencia mais uma vez.*Depois acordei aqui e sei que estão mortos. Simplesmente assim. Os homens daquela sala morreram. Menos ele que me observava em outro aposento. Sei que ele fugiu quando a fera se soltou. Mas jamais irão crer nas palavras de um velho consumido pela dor da perda, desesperado para encontrar a filha desaparecida. Meu segredo está garantido, debalde ele me persiga, será apenas mais um em busca de uma vingança infrutífera.
Não, não tenho lembranças daquela noite, nem da noite em que Kalinca se perdeu. Quando a fera vem, quando ela vai surgindo devagar, a terra gira e o luar vai aparecendo, ah, posso sentir o veneno, o sabor, o prazer que ela usufruiu e algumas lembranças emergem. Mas, nunca tenho clareza sobre os fatos. Despertar coberto por sangue, cercado por carne dilacerada já não me surpreende. Um mito, um deus, uma lenda? Não, é apenas o que sou, o meu legado, a minha sina. Um lobo oculto na pele de um homem. Atravessando cidades, tentando encontrar uma existência normal até que o próximo luar liberte a fera que vive em mim.
Autora: Tânia SouzaFonte: contosdeterror.com.br

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Alucinação
– Sente-se, por favor. – Disse o Dr. Offenbach.
A mulher obedeceu.
Offenbach, de mãos em concha, uniu os longos dedos pelas extremidades e perscrutou a figura atentamente. A senhora Sílvia Anabel Pissarro de Quiroga era uma mulher na casa dos trinta anos. Gestos comedidos, poderia insinuar uma grave elegância, não fosse todo aquele esforço em conter as torrentes de um espírito atribulado. Estranhamente pálida, tinha o rosto oval e os cabelos quase negros. Os olhos eram uma escura sombra de cansaço. A aflição no olhar a deixava singularmente bela. Agradeceu ao médico com um leve arquear de sobrancelhas.

– Bom dia – disse o Dr. Offenbach. – Sônia Paes falou-me perfunctoriamente sobre o seu problema. A senhora deve estar a par de que estou praticamente aposentado. Não pego um caso há vários anos. Se tivermos que trabalhar juntos, exijo – note bem! –, exijo sinceridade absoluta. Quero toda a verdade. A senhora deve responder a tudo o quanto eu perguntar. E nada, nada mesmo, pode ser falseado ou omitido. Está disposta a colaborar?
A mulher limitou-se a concordar com a cabeça. Offenbach prosseguiu:
– Sônia Paes recusou-se a tratá-la porque é sua amiga íntima. E recorreu a mim porque acredita que eu sou um de seus melhores colegas. Sônia foi uma das mais brilhantes alunas que eu tive. Mas não sei se fez bem em passar o caso para mim. Estou muito velho, antiquado, e não sei se você confia em mim.
Pela primeira vez, a Sra. Pissarro abriu a boca para falar:
– Confio em Sônia. Se ela pediu que eu o procurasse, é porque posso confiar inteiramente no senhor.
– Muito bem, Sra. Pissarro. Conte-me tudo.
– Como assim?
– Comecemos com uma descrição. Faça-me uma síntese de seu problema.
O médico não pareceu nem um pouco consternado com a onda de aflição que atingiu o seu velho cais, vindo de uma mulher que parecia sinceramente surpreendida por um golpe de vento áspero e desleal.
– Sinceridade absoluta, Sra. Pissarro – continuou, enfático.
A jovem baixou os olhos, ansiosa.
– Eu vejo coisas – articulou, gélida e imóvel como uma bela estátua de bronze.
– Que coisas?
– Vejo pessoas que já morreram.
– Pessoas? – indagou o médico, inflexível. – Não está me omitindo algo?
– Pessoas, não. Mas uma determinada pessoa – Pissarro respondeu, trêmula.
– Quem?
– Horácio, meu marido.
– Em que circunstâncias o seu marido faleceu, senhora Pissarro?
O rosto dela crispou-se. Pareceu envelhecer em segundos. Ergueu o olhar para o psiquiatra, implorando:
– É mesmo necessário que eu conte? O senhor já deve saber. Sônia contou.
– Preciso ouvir de você mesma. Suas impressões pessoais são importantes. A leitura de sua expressão gestual é importante. Tudo em você é importante, senhora. O que você disser, ficará lacrado neste velho cofre. Eu sou o cofre. Só coisas importantes e secretas têm lugar num velho e seguro cofre como eu.
– Creio que eu o matei.
– Como assim, creio? Não tem certeza?
– Eu deveria ter descartado as ampolas. As malditas ampolas. Mas, sinceramente, não sei se o fiz. Não consigo me lembrar. Tenho a impressão que me desfiz delas. Mas é algo vago, ente o sonho e a realidade. Só sei que ele as encontrou.
– Com que frequência você vê Horácio?
A mudança de rumo na inquirição ofereceu um certo alívio a Sílvia Pissarro.
– A princípio, era algo ocasional. Ele apareceu a mim, pela primeira vez, em nosso aniversário de casamento. Depois, no meu aniversário. No aniversário de sua morte, eu me preparei. E não errei. Lá estava ele, de roupão, sentado em sua poltrona de veludo magenta, olhando para mim com os olhos espantados, em agonia. E não mais saiu de lá. Ele sempre está lá, recostado na poltrona, imóvel, silencioso, com a face desfigurada pelo assombro, pelo medo.
– Entendo – disse o doutor. – Há histórico de esquizofrenia em sua família?
– Não que eu saiba. Tenho pais, irmão, tios e avós saudáveis. O senhor acha...
– Tenha calma, Sílvia. Muita calma. Vamos aos poucos. Além do fantasma – digamos assim – de Horácio, algo mais a perturba?
– Não.
- Tem certeza?
– Tenho.
– Ouve vozes?
– Nunca.
– Já tomou barbitúricos? Anfetaminas?
– Não.
– LSD?
– Não.
– Bebe com frequência?
– Não.
– Tem ideias suicidas?
– Não antes de Horácio reaparecer. É difícil vê-lo todos os dias... naquele estado de agonia.
– Alguma vez, na sua vida, mesmo na infância ou adolescência, ouviu vozes ou viu fantasmas? – insistiu o doutor.
– Nunca tive amiguinhos imaginários ou vi seres de outros mundo. Até Horácio se instalar na poltrona magenta e não mais sair de lá.
– Às vezes, cara Sílvia, a mente nos prega umas pecinhas desagradáveis. Não creio que você seja esquizofrênica, mas não estou completamente certo disto. No que tange à mente, nada pode ser descartado e nada é impossível. Em tese, nem mesmo os estados de imensa tensão, nem mesmo o sentimento de culpa exacerbado, nada disso é potente demais para provocar alucinações tão intensas. Mas, sinceramente, não creio que esteja diante de uma mulher que instalou uma ruptura absurda e irremediável com o mundo exterior. Voltemos, pois, às tensões e ao sentimento de culpa. Talvez sua mente haja elaborado um traiçoeiro teatrinho. É preciso, então, reescrever o roteiro. Com a minha ajuda.
– É tudo o quanto eu quero.
– Horácio nunca lhe diz nada, certo?
– Certo.
– Está sempre letárgico, inerte, catatônico.
– Isto mesmo.
– Você acredita em fantasmas, senhora Pissarro?
– A princípio foi o que eu pensei. Imaginei que via um fantasma. Agora sei que estou doente. Sônia, que respira espiritismo e acredita nestas coisas, não acha que eu esteja vendo fantasmas ou espectros do outro mundo.
– Nessas tolas e vulgares histórias de fantasmas, os mortos voltam do além porque algo não ficou resolvido. O fantasma é um ente eminentemente irresoluto. Aparece para que certas coisas sejam cumpridas. Não é sempre assim?
– Nem sempre – objetou Sílvia Pissaro. – Às vezes querem nos dizer coisas que não puderam fazê-lo enquanto vivos. Já ouvi coisas assim.
– É verdade! É verdade!
– Mas o que têm os fantasmas a ver com o meu transtorno?
– Nada a ver. Todavia, podem nos inspirar um método.
– Não entendo.
– Lembra-se de nosso teatrinho? Façamos Horácio falar. É nele que reside o seu inconsciente, cara Sílvia. Então, é lá que estão as respostas. Façamos Horácio falar. Vejamos o que não ficou resolvido, ou o que ele tem a dizer.
– O senhor está me sugerindo que converse com uma ilusão?
– Exatamente.
– Quer que eu faça como os loucos? Que fique falando sozinha? Ou melhor, para uma poltrona vazia?
– Isto mesmo.
– Talvez faça sentido, afinal.
***
Sílvia Anabel Pissarrro de Quiroga girou as chaves do apartamento, empurrou a maçaneta e levou a mão para o interruptor. Fez tudo isso pensando no que diria à poltrona magenta, onde a sua imaginação enfermiça pusera a sentar-se, indefinidamente, o fantasma de um marido morto há quase três anos. A luz acendeu. A poltrona estava surpreendentemente vazia.
Apenas uma conversa sobre delírios fantasmagóricos com um ancião psiquiatra e tudo se resolvia, como por encanto? Era bom demais para ser verdade.
Sílvia deixou-se conduzir a cada um dos cômodos da casa. No quarto, viu que não estava só. Havia alguém em sua cama. Mas não era Horácio.
Uma mulher acabara de erguer-se. Caminhou em direção a Sílvia, passando por ela sem parecer notá-la. Mesmo sabendo que tudo não passava de uma alucinação, Sílvia sentiu um imenso calafrio. Com os pelos eriçados, foi no encalço daquela silhueta apavorante. Na sala, a luz estava acesa. Sílvia viu, terrificada, a si mesma dirigindo-se, quase cambaleante, à cozinha, usando a ridícula camisola de ursinhos dourados. A Sílvia-alucinação foi à geladeira. A outra ligou o interruptor, a tempo de ver a sua miragem examinar sonolentamente as ampolas. O fantasma acionou o pedal da lixeira e, preguiçosamente, mergulhou-as no saco, uma a uma. 
 O espectro de camisola de ursinhos passou novamente pela Sílvia de carne e osso e, de súbito, voltou-se para ela. Mas, agora, como num sonho de alucinógeno, não era a Sílvia-delírio quem retornava à cozinha. Era Horácio. Vestia um roupão cinza e parecia angustiado. Foi à geladeira. Mexeu, remexeu. A ávida procura resultou em imensa frustração, porque o homem bateu violentamente a porta da geladeira e a esmurrou com ambas as mãos. Sílvia viu o marido esquadrinhar todo o apartamento, numa busca frenética pelas ampolas, até encontrá-las no lixo da cozinha. Foi terrível ver o marido, reclinado na poltrona, com seringa na mão, mergulhar a agulha na veia do braço esquerdo, enquanto jogava a cabeça para trás e fechava os olhos, imprimindo na face uma outra face, uma face de morte, um esgar de alívio e pavor...
– Adeus – disse Horácio, olhando para Sílvia, enquanto esfumava, evanecente.
***
Disse o Dr. Offenbach:
– Sente-se, por favor.
A mulher obedeceu.
Offenbach, sempre de mãos em concha, com as pontas dos dedos unidas, mirou a figura com ar de aprovação. A senhora Pissarro era uma mulher bem mais jovem do que aquela trintona de um mês atrás.
– E então? – indagou o médico. – Parece que o nosso teatrinho surtiu efeito. Falou com o fantasma? O que ele lhe disse?
– Aconteceu uma coisa estranha. Ele não me disse nada. Mas me mostrou o que aconteceu. Eu deveria ter sido mais cautelosa, sem dúvida. Mas não poderia imaginar que ele fugiria da clínica, que ele voltaria para casa naquela mesma noite...
– Vamos com calma. A calma é sempre bem-vinda.
– No dia em que Horácio morreu, eu havia chegado do exterior, do Oriente, dois dias mais cedo do que o previsto. Não encontrei Horácio em casa. Liguei para ele, mas ele não atendeu. Disquei, então, para a minha sogra, e ela me disse que o filho tivera uma recaída e fora levado inconsciente à clínica de reabilitação na noite anterior. Em cada recaída, minavam as ampolas. E eu deveria me livrar delas, urgentemente. Sentei na cama para pensar em que fazer, mas estava cansada demais. Acabei adormecendo. Quando acordei, já era noite. Levantei-me e fui à cozinha. Estava semiadormecida, mas com sede. Vi as malditas ampolas e as joguei no lixo. Voltei à cama e apaguei. No dia seguinte, de manhã, encontrei o meu marido morto na poltrona magenta. Mas não me recordava precisamente de ter-me levantado durante a noite, e nem ao certo do que fizera. Tudo me parecia muito enevoado, confuso...
– Parece que o sentimento de culpa a abandonou. Ao menos o suficiente para desvelar a inevitabilidade dos acontecimentos. E, com a culpa, também se foi o seu marido.
– Acho que ele não voltará mais.
– Esteja certa disto – concluiu o médico. – Enquanto você tomava as suas, eu também tomava as minhas providências. Tenho certeza de que agora tudo está resolvido. Dou a minha palavra que Horácio jamais, nunca mais, voltará a sentar-se na cadeira magenta.
Quando os passos de Sílvia reverberaram no corredor, Offenbach sorriu, satisfeito. Este fora realmente um grande caso. Um caso difícil: recuperar uma alma em desespero, sem traumatizar uma outra, mergulhada no horror e na angústia. Desde que falecera, há mais de vinte anos, o velho psiquiatra continuara a exercer a sua profissão no outro escaninho da existência humana. Agora, dedicava-se a conduzir os espíritos perdidos – as almas penadas – às reconfortantes e luminosas pradarias das dimensões etéreas.
Pouco a pouco, a silhueta de Offenbach desvaneceu num redemoinho cintilante, que vagarosamente ascendeu em tênues estratos circunvolutos.


fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/10/alucinacao.html

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O Porão

Anos atrás minha família decidiu passar as férias na serra gaúcha e para isto alugou uma pequena e antiga casa em Gramado para ficarmos durante duas semanas.
No andar térreo a casa possuía uma sala, banheiro e a cozinha. Os quartos eram no andar superior e havia ainda um porão que era usado apenas como depósito de coisas velhas contendo um sofá, armários e outras coisas sem muita importância.
O primeiro dia nesta casa transcorreu de forma tranquila: passeamos pela cidade, voltamos a tardezinha, fizemos um delicioso fondue, brincamos e dormimos todos esgotados pelas atividades do dia.

Na segunda noite algo aconteceu: fomos acordados no meio da noite por um grito terrível vindo do quarto de minha irmã. Quando meu pai chegou correndo até lá encontrou a garota sentada na cama gritando e chorando muito. Meu pai se sentou ao seu lado, a abraçou e perguntou o que havia ocorrido.
Ela contou que tinha acordado sentindo um cheiro horrível. Quando ela abriu os olhos disse ter visto o quarto inteiro encharcado de sangue, as paredes possuíam marcas de mãos e pés, o liquido vermelho escorria pelas paredes e havia respingos por todos os lados.
Todos pensaram que havia sido apenas um pesadelo, porém minha irmã se recusou a dormir novamente naquele cômodo e acabou se mudando para o de meus pais até o final das férias.
Em outro dia minha mãe estava fazendo o almoço, enquanto meu pai estava fora,  e nós explorávamos o porão, examinando cada coisa velha que achávamos por lá. Até que ouvimos um estalo e a luz apagou nos deixando na escuridão. Apesar de ser dia, o lugar ficava quase todo escuro iluminado apenas por uma claridade que vinha do andar superior, nos permitindo ver apenas as paredes de pedras antigas.
Eu comecei a ficar com medo, sem claridade aquele porão era assustador, nós estávamos paralisadas  sem saber direito o que fazer. De repente um mau cheiro começou a invadir nossos narizes, me fazendo sentir náuseas... Era cheiro de carne podre, como se houvesse algum animal morto por ali.
Um barulho veio de um canto escuro, parecia que algo se arrastava pelo chão. Eu e minha irmã gritamos e saímos correndo em direção da porta. Subimos a escada e lá embaixo podíamos ouvir algo como se tivesse arranhando o chão, o cheiro de podridão aumentava e a porta não queria abrir. Nós batíamos na porta e gritávamos sem parar, até que minha mãe a abriu com cara de assustada.
Contamos o que havia acontecido: a escuridão, sobre o cheiro de coisa podre e da coisa que se arrastava pelo chão. Ela prontamente disse que estávamos impressionadas pelo lugar antigo e que desceria até lá e substituiria a lâmpada, que provavelmente estaria queimada.
Apreensivas ficamos no topo da escada enquanto ela descia para o porão com uma lâmpada e uma lanterna nas mãos, o tempo que ela ficoua lá embaixo pareceu uma eternidade. De repente ela surgiu da escuridão subindo os degraus correndo, fechou a porta do porão e sentou-se em uma cadeira. Seu rosto estava branco e seus olhos arregalados de medo.
- Eu não quero que vocês descam até lá novamente. – disse ela em voz alta, quase gritando.
Em seguida pegou o telefone e foi para a sala onde ligou para a policia. Nós ouvimos ela falando que havia visto alguém no porão. Enquanto esperávamos a policia, ficamos todas juntas, olhando assustadas para a porta que ia para o andar inferior, receosas que a qualquer momento, alguma coisa saísse de lá. Nossa mãe recusou a dizer o que tinha visto lá embaixo.
Quando a policia chegou, nossa mãe os recebeu e os chamou para entrar na casa. Chegou até a porta do porão, a destrancou e eles desceram até a escuridão, empunhando lanternas e as armas em punho. Ficaram por um longo tempo procurando, mas não encontraram nada. O mais curioso é que não havia outra forma de sair lá debaixo, pois o porão não tinha outras portas ou janelas.
Assim que os policiais saíram, minha mãe contou o que havia visto lá no porão: ela estava rosqueando a lâmpada no bocal quando começou a sentir o cheiro horrível que havíamos descrito para ela, quase em seguida passou a ouvir um barulho estranho. Então ela apontou a lanterna por todos os cantos até que avistou algo entre um móvel antigo e a parede.
Era um homem agachado, suas roupas estavam rasgadas, seus cabelos eram compridos e desgrenhados, seu rosto estava todo distorcido, como se estive com uma expressão de ódio. Assim que a luz da lanterna apontou em seu rosto, minha mãe viu seus olhos vermelhos e então ele fez um movimento para o lado, desaparecendo por entre as coisas velhas que haviam por lá. Neste instante minha mãe deixou a lanterna cair de suas mãos e saiu correndo.
Depois disso, tivemos que ficar mais aquela noite na casa. Trancamos a porta do porão e colocamos algumas cadeiras na frente. Todos dormiram no quarto de meus pais com a porta bem trancada. Nossas férias acabaram mais cedo e no dia seguinte voltamos para casa...
Fonte: http://clubedosmedos.blogspot.com.br

domingo, 22 de janeiro de 2017

A Última Execução


Sou filho do ferreiro Alphonse e de Nelly, uma ex-cortesã da taverna dos prazeres. Mamãe deveria morrer em alguns dias. Está muito mal e vem sofrendo demasiadamente com a lepra. Uma peste que ataca a tez e impinge círculos purulentos por todo corpo. Mas ela ainda nutre alguma esperança. Papai se sentou na cadeira de rodas, um hediondo patíbulo, e nunca mais se levantou. Uma viga de ferro caiu sobre suas costas, tornando-o aleijado para todo o sempre. Agora, espera – ansiosamente - a morte escolhê-lo como o próximo. Também é leproso! Ele quer morrer, ela quer viver.


Mas essa não é minha história, pois dela, a morte faz parte. Sempre andou ao meu lado, ombreada comigo. As duas, a morte e minha história, estão severamente agrilhoadas.Sou carrasco há quatro décadas e meia. Recebi a alcunha de Vorace, o Carrasco. Assim, o falecimento de outrem, mormente larápios, homicidas, adúlteros, prostitutas, estupradores e os que são afeitos ao incesto há quarenta anos e meio saiu de minhas vetustas mãos. E aconteceu de diversos modos: guilhotina, golpes de machado na nuca, afogamento, esquartejamento etc.

Assumi o ofício, que ninguém logrou ficar por mais de uma execução, numa época cuja violência alastrava-se rapidamente por Nantes. Naquele tempo, os oficiais de justiça sujeitavam qualquer do povo à função de verdugo. Escolhiam um munícipe a esmo (diziam que era sorteio, mas não estou de todo convencido) e nomeavam-lhe à função para efetuar a mórbida labuta.

Certa feita, um homem fora arregimentado no meio da rua e impelido a um tablado de extinção humana, onde uma mulher seria executada. Sua cabeça seria decepada aos olhos dos habitantes de Nantes. Não me recordo com clareza, mas no cair da noite souberam que a condenada tinha parentesco com o homem que a matara. Os parentes não se reconheceram porque os dois vestiam capuzes.

Foi no dia posterior, sob juramento de morte, que fui declarado verdugo oficial do governo local. A vaga ficara em aberto por quase um ano e os poucos que se aventuravam, desistiam após a primeira execução, quando não antes. Jurei servir à França, com meu tétrico ofício, onde precisasse e contra quem fosse necessário. Executei muitas pessoas em praça pública, mas há alguns anos as execuções se restringiram às residências – ou, em pior caso, onde o sentenciado fosse encontrado, mesmo que fosse em público ou dentro de algum templo religioso - dos que viviam à margem da Lei.

Há alguns minutos, guardas da intendência de polícia chegaram à minha porta. Trouxeram-me uma epístola com o novo decreto do Prefeito de Nantes. Do documento, li apenas o parágrafo que condena à morte, com investidas do machado na nuca, os acometidos pela lepra. Há, apensado ao decreto, uma lista com cinquenta e sete nomes arrolados à execução. O ferreiro Alphonse e a ex-cortesã Nelly estão listados para a extinção. Não sinto pelo meu pai, pois o homem tenciona morrer o mais rápido possível. E a execução ser-lhe-ia como dádiva, uma libertação da paraplegia. Mas mamãe... mamãe ainda luta para viver. 

Entretanto, serei profissional a ponto de executá-los, mesmo porque não há cura para a lepra e eu, quando abracei a profissão, jurei que abateria qualquer um que me fosse designado fazer. E se não o fizesse, seria guilhotinado em praça pública. O mais comovente é a extensão do decreto que me obriga a atear fogo aos cinquenta e sete cadáveres. Isto é, nenhum irmão ou neto ou filho poderá enterrar seu ente querido dignamente, pois todos serão sepultados, já crestados, na vala comum. Depois de toda esta mixórdia infernal, solicitarei minha aposentadoria.

Fonte: http://contosdeterror.com.br

sábado, 21 de janeiro de 2017

A Ratoeira

A paixão de Uriel eram os seus chocolates. Metia-os na última gaveta, lá no fundo, para que ninguém soubesse de seu tesouro. E quando os comia, fazia-o sozinho e em silêncio, de portas trancadas e olhos buliçosamente assustados. Sentia um medo irracional de ser flagrado com suas guloseimas.

Um acesso de raiva, uma raiva mortal, que Uriel conteve num lampejo de lucidez, foi o que sucedeu. Quase chegou a experimentar o arrependimento que sentiria, se tivesse sucumbido aos impulsos primitivos da ira. Mas Uriel controlou-se. Não praguejou. Não esmurrou a mesa. Não ameaçou os colegas. Substituiu toda expressão de ódio por uma fisionomia impassível, enquanto o cérebro trabalhava em ritmo frenético. Agora era descobrir quem furtara os seus chocolates.


Pôs a isca. E esperou. O rato miserável era mais esperto do que ele supunha. Quando examinou a gaveta, constatou que os seus preciosos chocolates haviam desaparecido novamente. Precisava descobrir, urgentemente, quem era a ratazana infeliz. Certamente não era alguém do turno da noite, no qual trabalhava há dois meses. Ele e mais dois abnegados. Talvez alguém da limpeza. Ou a moça do cafezinho, que preparava as garrafas térmicas antes de se meter na interminável fila de ônibus. Talvez até mesmo o chefe. O mandachuva tinha mesmo cara de ladrão. Não o via nunca. Trabalhar às madrugadas é dureza, sente-se um sono maldito, mas tem as suas vantagens.

Porém, muito em breve saberia. Porque, desta feita, a ratoeira funcionaria perfeitamente. Uriel mergulhou remédio de rato - desses que se vendem clandestinamente em camelôs - nas inúmeras barras de chocolate. Com esmero, Uriel reembalou as poções envenenadas, uma a uma. Um trabalho lento e cauteloso. Um resultado perfeito. E aguardou que o gatuno viesse. E que o mortal carbonato fizesse generosamente a sua parte...

“Agora pego este filho de uma puta”, foi o que pensou Uriel, ao fechar a gaveta.

Uriel acordou sobressaltado. Salivava excessivamente. Os olhos eram duas tochas ardentes, donde manavam lágrimas de fogo. Das narinas, escorria uma secreção pesada e sem fim. E, apesar do choque, o coração batia devagar. Quis se erguer, mas não conseguiu. O seu peito pesava uma tonelada e   os pés eram como se  não existissem. Seguiram-se os tremores e os espasmos, até que, por fim, um nó espesso cingiu violentamente a sua garganta, selando a agonia.

Tido injustamente por suicida, assim morreu Uriel, que fora sonâmbulo a vida inteira, mas não o sabia.

Autor: Mephisto
fonte: contosdeterror.com.br