segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A Pena do Corvo


Comprei a pena do corvo por um preço absurdo. O contrabandista garantiu que pertencera ao renomado poeta. Possuo muito dinheiro. Quando afirmo isso, creia que não se trata de pouco. Para ter certeza de que tenho em mãos o artefato verdadeiro, mergulho sua ponta em um pote de tinta nanquim. Em seguida, começo a escrever em uma folha de papel branco. Pelo o que se afirma em nosso seleto círculo, o famoso prosador utilizou a pena em seus momentos mais febris de imaginação e criatividade. Seria essa a explicação para textos tão fantásticos e idolatrados pela contemporaneidade? Em sua própria época, o escritor não obteve o verdadeiro e merecido sucesso.

Na era do computador parece uma prática tão sem sentido voltar-me para o uso da tinta e do papel que rio da minha necessidade de ter artefatos antigos. Porém, no caso da pena, sei que é diferente. Meus pares atribuem a ela um caráter mágico. Ainda sem rumo, sem saber como funciona exatamente, deixo a mente vazia para que o artefato guie minha mão. Inicio apenas com palavras soltas sem tentar explicar sua existência sobre o papel: Maeltzel, Maelstrom, Pfall, pêndulo, diabo, Metzengerstein, carta, mistério, Wilson, manuscrito, Berenice, gato, barril, casa. Cada palavra parece conter um universo, uma história para ser contada. Não demoro para identificar a origem desses vocábulos nos títulos dos contos de Poe.


Continuo aquele estranho processo e das palavras começam a se ordenar frases prontas. Todas construções do imaginativo escritor do século XIX. Por um momento estremeço. Deito a pluma sobre a mesa. Não sabia dizer se aquelas palavras foram registradas pelo objeto ou pela minha própria consciência. A consciência representada pela lembrança exata de tudo o que havia lido da produção do mestre das letras. A razão e a loucura, às vezes, tornam-se conceitos tão próximos que já não sou capaz de diferenciar entre uma e outra. Fui eu mesmo que escrevi ou foi a pena do corvo que manifestou sua vontade? Sou favorável à segunda hipótese, pois tenho certeza de que não selecionei aquelas palavras, mesmo sendo conhecedor da obra do gênio.

E se foi mesmo a pena que proporcionou o intelecto diferenciado do mestre? Então meus camaradas estariam certos, sem dúvida. Passo a acreditar que esse frágil objeto seguro entre os meus dedos seja um instrumento do mal, projetado por algum vilão ou ente demoníaco adversário da humanidade. Artefato insuflado por rituais sangrentos com origem nos tempos antigos em que ainda se pintavam hieróglifos em papiros.

A pena do corvo liberta as palavras mais precisas do escritor e as arranja de forma ordenada nas orações, nos parágrafos, no enredo e na trama. Sorrateira, engana o infeliz que acredita escrever por vontade própria. Relega o usuário ao esquecimento em vida, o aprisiona em uma masmorra de tormento e indiferença. Leva à decadência e à degeneração. Induz à tristeza. Pois, o poeta acaba por não ser reconhecido pelo que melhor sabe fazer: compor, construir, esculpir, tecer a palavra em um conjunto de ideias. Sendo assim, seria o objeto também a causa do infortúnio de quem o empunha? A pena do corvo, ao mesmo tempo em que concede as virtudes das belas letras, também leva à degradação do humano? Pressinto que o artefato é pior do que qualquer outro vício, pois já tenho vontade de escrever novamente.

Empunho a pena mais uma vez como se fosse uma arma capaz de retirar minha própria vida. Escrevi ou ela escreveu. Não havia importância mais em determinar quem era o autor. Certo é que me dava prazer redigir. Somente por isso, já valeria um pacto com o próprio diabo. Poe representou o chefe dos demônios em um de seus contos. Eu e a pena do corvo também.

O título se delineou em uma das tantas folhas brancas dispostas sobre a mesa: Velho coxo do colarinho engomado. A primeira frase se construiu diante de meus olhos: “Eu, dois garotos e uma menina deixamos nossas casas no meio da noite”. O primeiro parágrafo continuou assim, depois da frase de abertura: “A lua cheia ajudava a iluminar a escuridão. Não havia luz elétrica naquela parte da cidade e as pilhas para lanternas eram caras. Por isso, levávamos lampiões. Exceto um dos meninos que se considerava mais corajoso do que todos. Vestíamos roupas pesadas para nos proteger do vento frio que assolava o sul do país”.

Os parágrafos seguintes se sucederam nessa ordem:

“Em poucos minutos chegamos à ponte. Uma ponte coberta que permitia cruzar o caudaloso rio da região e se proteger de alguma chuva inesperada. Fomos até lá para averiguar a veracidade da lenda que nossos pais contavam. Diziam que um velho coxo, de vez em quando, aparecia em um canto escuro da ponte. Começamos a cruzar a precária construção, e no momento em que nossos lampiões iluminaram a saída, do lado oposto, vimos o tal homem. Ele mancava. Tive a impressão de ver cascos no lugar de pés, mas não conseguia me mexer, meu sangue gelou nas veias. Vestia um traje preto, elegante e com o colarinho branco bem engomado. Disse, com um sorriso tinhoso no rosto:

— Já que vieram me conhecer. Vamos apostar uma corrida.

Acho que meu amigo não tinha plena noção do que estava acontecendo. Ele se achava realmente corajoso e esperto:

— Ora, você quer apostar corrida? Não me faça rir. Ganho de você com um pé nas costas — riu.

— O que você gostaria de apostar?

— Qualquer coisa, eu apostaria minha cabeça com o diabo!

E assim foi. Os dois começaram a correr: quem chegasse primeiro ao outro lado era o vencedor. Eu, meu outro amigo e a menina não conseguimos fazer nada a não ser gritar depois do fatídico acontecimento. Nosso amigo chegou antes do lado de fora da ponte. Realmente o velho era devagar, além de ter os movimentos desajeitados. Aquele velho, porém, se tratava do diabo em pessoa, tenho certeza. E, como todos sabem, o diabo é trapaceiro, não queria vencer, pois devia saber que um carro se aproximava. O motorista freou, mas não foi possível evitar o choque entre o veículo e o menino. O velho coxo do colarinho engomado sumiu deixando a nossa volta um cheiro inconfundível de enxofre e uma gargalhada que repercute em meus ouvidos até hoje.

No dia seguinte, o corpo foi encontrado sem a cabeça na margem do rio. Estava sobre seixos sendo bicado por uma dezena de urubus. Meus pais costumavam alertar ‘nunca aposte sua cabeça com o diabo’. Eu sempre os obedeci, sem contestar.”

Depois desse, outros contos começam a ser arquitetados. Tudo parece uma singela homenagem ao mestre. Extasiado e ao mesmo tempo exaurido de todas minhas forças, como se tivesse sido sugado por um vampiro a noite inteira, desfaleço com o clarear do dia.

Acordo com o rosto sobre os papéis. Não havia sido um pesadelo. Reúno alguns pertences básicos em uma mala, entre eles a pena do corvo. Pego dinheiro e cartões de crédito. Telefono para o contrabandista que me vendeu o artefato. Marco viagem para a cidade de Baltimore nos Estados Unidos.

Agora me interessam também os ossos de Edgar Allan Poe. Com o pó do escritor, planejo fazer uma tinta especial para auxiliar a pena do corvo. Creio que ela se tornará ainda mais eficiente se valendo da essência corporal do gênio. Depois disso vou adquirir as roupas que ele usava. Em seguida, desenterrarei sua esposa, ela deverá ser útil para ajudar na inspiração. O amor e a paixão são muito importantes para qualquer homem das letras. Poe, grande Poe, seremos um só, seremos eternos amigos. Aguarde-me, estou a caminho.

Fonte: contosdeterror.com.br

sábado, 14 de janeiro de 2017

A Missa Das Sombras - Anatole France



Eis o que o sacristão da igreja de Santa Eulália, em Neuville-d'Aumont, me contou debaixo da latada doCavalo-Branco, numa bela noite de verão, bebendo uma garrafa de velho vinho, à saúde de um morto muito abastado, que ele havia enterrado honrosamente naquela manhã mesma, sob um tecido cheio de belas lágrimas de prata.

"Meu finado e pobre pai (quem fala é o sacristão) foi, em vida, coveiro. Era de humor agradável, e isso sem dúvida decorria de sua profissão, porque se tem reparado que as pessoas que trabalham nos cemitérios possuem espírito jovial. A morte não os atemoriza absolutamente; jamais se preocupam com ela. Eu, que lhe estou falando, senhor, penetro num cemitério, à noite, tão serenamente quanto no caramanchão do Cavalo-Branco. E se, por acaso, encontro um espectro, não me inquieto absolutamente com isso, porque reflito que ele pode perfeitamente ir cuidar de seus negócios, da mesma forma que eu dos meus. Conheço os hábitos dos mortos e seu caráter. Sei a tal respeito coisas que os próprios sacerdotes ignoram. E o senhor ficaria surpreso se lhe contasse tudo que tenho visto. Mas, nem todas as verdades são próprias para serem contadas, e meu pai, que, todavia, gostava de narrar histórias, não revelou a vigésima parte do que sabia. Em compensação, repetia muitas vezes as mesmas narrativas e, ao que eu saiba, relatou bem umas cem vezes a aventura de Catarina Fontaine."


Catarina Fontaine era uma velha solteirona, que ele se lembrava de ter visto em criança. Não me surpreenderia se ainda houvesse na região, até, uns três velhos que ainda se recordem de ter ouvido falar a seu respeito, porque ela era muito conhecida e considerada, embora pobre. Morava numa esquina da Rua das Freiras, na torrezinha que o senhor ainda pode ver e que depende de um velho palacete arruinado, que dá para o jardim das Ursulinas. Há. nessa torrezinha, figuras e inscrições meio apagadas. O falecido pároco de Santa Eulália, Levasseur, dizia aí estar escrito, em latim, que o amor é mais forte que a morte. O que se refere, acrescentava, ao amor divino.

Catarina Fontaine vivia sozinha nessa pequena habitação. Fazia rendas. O senhor sabe que as rendas de nossa região eram, antigamente, muito afamadas. Não se conheciam parentes ou amigos seus. Dizia-se que amara, aos dezoito. anos, o jovem cavaleiro d'Aumont, com quem noivara secretamente. Mas as pessoas de bem não queriam acreditar absolutamente nisso e diziam tratar-se de uma história que fora imaginada, porque Catarina Fontaine lembrava mais - uma dama, que uma operária, conservava 'sob seus cabelos brancos os vestígios de uma grande beleza, possuía um ar triste e se lhe podia ver, na mão, um desses anéis em que o ourives colocara duas mãozinhas unidas e que era costume outrora os noivos trocarem. O senhor saberá, daqui a pouco, o que isso significa.

Catarina Fontaine vivia santamente. Freqüentava as igrejas e, todas as manhãs, qualquer que fosse o tempo,
ia ouvir a missa de seis horas, em Santa Eulália. Ora, uma noite de dezembro, quando ela estava deitada
em seu pequeno quarto, foi despertada pelo toque dos sinos; certa de estarem eles anunciando a primeira missa, a piedosa senhora vestiu-se e desceu à rua, onde a noite era tão fechada que se não viam absolutamente as casas; claridade alguma era perceptível, no céu negro. E reinava tamanho silêncio nessas trevas - que nem penso um cão ladrava ao longe - que a pessoa se sentia completamente separada do mundo dos vivos. Mas Catarina Fontaine, que conhecia cada uma das pedras onde pisava e que podia ir
à igreja de olhos fechados, alcançou, sem dificuldade, a esquina da Rua das Freiras com a Rua da Paróquia, no ponto onde se ergue a casa de madeira que exibe uma árvore de Jessé, esculpida numa volumosa trave. Tendo alcançado esse local, ela viu que as portas da igreja estavam abertas e que deixavam sair uma grande
claridade de círios.

Continuou a caminhar e, tendo entrado, encontrou-se numa reunião, que enchia a igreja. Ela, porém, não reconhecia nenhum dos presentes, e estava surpresa ao ver - aquelas pessoas trajadas de veludo e de- brocado, - plumas no chapéu e trazendo espada, à maneira dos tempos de antanho. Havia senhoras que seguravam longas bolsas de castão de ouro e damas com toucados de nadas, presos com um pente em diadema. Cavaleiros de e Luís davam a mão a essas senhoras, que escondiam atrás do leque um rosto pintado, do qual só era visível um sinal no canto dos olhos! E todos iam colocar-se em seu lugar, sem o menor ruído, e não se ouvia,, enquanto andavam, nem o som dos passos no
lajedo, nem o roçagar dos tecidos.

 As naves laterais enchiam-se de multidão de jovens artesão, de casaco pardo. calções de fustão e meias
azuis, que seguravam pela cintura raparigas lindíssimas, rosadas, que conservavam os olhos baixos. E, junto ás pias de água benta, camponesas de saia vermelha e corpinho de atar, sentavam-se no chão com a
tranqüilidade dos animais domésticos . enquanto uns mocetões, de pé atrás delas, - alavam os olhos, rodando o chapéu nos dedos. E todas aquelas fisionomias silenciosas pareciam imobilizadas para sempre, no mesmo pensamento, suave e triste. Ajoelhada em seu lugar costumeiro, Catarina Fontaine viu o sacerdote caminhar para o altar, precedido por dois acólitos. Não reconheceu nem o sacerdote, nem os ajudantes.

Começou a missa. Era uma silenciosa missa, na qual não se ouvia absolutamente o som dos lábios que se agitavam, nem o rumor da sineta agitada inutilmente. Catarina Fontaine sentia-se sob o
olhar e sob a influência de seu misterioso vizinho e, tendo olhado, sem quase volver a c- reconheceu o jovem cavaleiro d'Aumont-Cléry, que a havia amado e que morrera fazia quarenta e cinco anos. Reconheceu-o por um sinalzinho que ele possuía sob a Orelha esquerda e, principalmente, pelo sombreado dos longos cílios negros em seu 'rosto. Vestia o traje de caça, com botões dourados, que ele usara no dia em que tendo-a encontrado no bosque de São Bernardo, roubara-lhe um beijo. Conservava a Sua Mocidade e seu bom aspecto. Seu sorriso ainda mostrava uma dentadura de jovem lobo.

Catarina disse-lhe, baixinho:

"Senhor, vós que fostes meu amigo e a quem dei outrora o que uma jovem possui de mais precioso, Deus vos tenha em sua graça! Possa ele me inspirar, finalmente, o pesar
pelo pecado que cometi convosco: porque é verdade que, de cabelos brancos e próxima da morte, ainda não me arrependo de vos ter amado. Mas, finado amigo, meu belo senhor, dizei-me, quem são essas pessoas trajadas à maneira antiga, que estão assistindo aqui a esta silenciosa missa."

O cavaleiro d'Aumont-Cléry respondeu com uma voz mais débil que um sopro e, não obstante, mais clara que o cristal:

"Catarina, esses homens e essas mulheres são almas do purgatório, que ofenderam a Deus, pecando, a nosso exemplo, pelo amor das criaturas, mas que nem por isso estão desligadas de Deus, porque seu pecado foi, a exemplo do nosso, sem maldade. Enquanto separadas daqueles que amavam sobre a terra, elas se purificam no fogo do purgatório, padecem as dores da ausência, e para elas esse sofrimento é o mais cruel. São tão infelizes que um anjo do céu se apiedou de seu martírio de amor. Com o consentimento de Deus, reúne, todos os anos, durante uma hora da noite, o amigo à amiga em sua igreja paroquial, onde lhes é permitido assistir à missa das sombras, segurando-se pela mão. Esta é a verdade. Se me foi permitido ver-te aqui antes de tua morte, Catarina, tal coisa não se realizou sem a permissão de Deus."

E Catarina Fontaine lhe respondeu:

"Bem desejaria morrer para voltar a ser formosa como nos dias, meu finado senhor, em que te dava de beber na floresta."

Enquanto falavam assim, baixinho, um cônego muito idoso recolhia as esmolas e apresentava uma grande
salva de cobre aos presentes, que ali deixavam cair sucessivamente moedas antigas, desde muito tempo fora
de circulação: escudos de seis libras, florins, ducados, nobres com a rosa, e as moedas caíam em silêncio.

Quando a salva de cobre lhe foi apresentada, o cavaleiro depositou um luís, que não fez mais ruído que as outras moedas de ouro ou de prata. Depois, o velho cônego parou em frente de Catarina Fontaine, que procurou em seu bolso, sem nele encontrar, nada. Então, não desejando recusar sua dádiva, tirou
do dedo o anel que o cavaleiro lhe dera na véspera de sua morte, e atirou-o na concha de cobre. O anel de ouro, ao cair, ressoou como um pesado badalo de sino e, ao ruído atroador que ele fez, o cavaleiro, o cônego, o oficiante, os agitaram, as damas, os cavaleiros, toda a assistência desapareceu; os círios se apagaram e Catarina Fontaine ficou sozinha nas Trevas.

Tendo concluído assim sua narrativa, o sacristão bebeu um grande copo de vinho, ficou um instante a meditar e depois prosseguiu, nestes termos:

"Contei-lhe esta história exatamente como a ouvi muitas vezes de meu pai e creio que é verdadeira, porque corresponde a tudo o que tenho observado das maneiras e dos costumes peculiares dos defuntos."

"Convivi com os mortos, desde minha infância, e sei que eles costumam voltar a seus amores."

"É por isso que os mortos avarentos vagam, à noite, nas proximidades dos tesouros que eles esconderam durante a vida. Montam boa guarda à volta de seu ouro; mas os cuidados que eles tomam, longe de lhes servirem, prejudicam-nos, e não é raro descobrir-se dinheiro enterrado na terra, pesquisando-se o sítio freqüentado por um fantasma. Da mesma forma, os finados maridos vêm atormentar, à noite, suas mulheres, casadas em segundas núpcias, e eu poderia indicar muitos que vigiaram melhor suas esposas depois de mortos do que o haviam feito em vida..."

"Esses são dignos de censura, porque, em boa justiça, os defuntos não deveriam ser ciumentos. Mas lhe estou contando o que tenho observado. Por isso é que se deve ter cuidado quando se desposa uma viúva. Aliás, a história que lhe relatei tem sua comprovação no seguinte fato:"

"Na manhã seguinte a essa noite extraordinária, Catarina Fontaine foi encontrada morta em seu quarto. E o padre de Santa Eulália encontrou, na salva de cobre que servia para o peditório, um anel de ouro, com duas mãos entrelaçadas. Aliás, não sou homem que conte histórias para fazer rir. E se pedíssemos outra garrafa de vinho?"

Adaptado do Livro "Mestres Do Terror"

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/a-missa-das-sombras-anatole-france.html

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A Invocação de Horthembrak


Quem é Horthembrak?

Uma espécie de espírito ou entidade muito comum em lendas urbanas. Não se sabe de onde surgiu a crença, só sabemos que ela ficou muito famosa na região norte do Brasil.

Horthembrak não tem uma definição própria, alguns dizem que ele é um espírito outros que é um demônio, mas a maioria delas assume trata-se de um ser do mundo dos elementares, uma espécie de essência natural inteligente. Muitos acreditem que ele não possua forma própria e que só assume alguma característica física quando quer entrar em contato com humanos.


É representado pelo número noventa e nove e tem como característica a inteligência sublime, por isso é muito admirado e invocado por muitos até hoje, já que representa o principal guia de magos e bruxos modernos.

Por ter aceitado dividir seus conhecimentos e princípios, que vão além da nossa razão, com os humanos, foi banido de sua dimensão, e foi obrigado a viver no umbral. Vivendo em várias dimensões diferentes.

Tem como aparência o rosto completamente pálido, tendo em sua cabeça a total ausência de nariz, olhos e orelhas, enfim, a total ausência de traços humanos, exceto pela boca com enormes lábios negros donde expõe constantemente sua língua negra, semelhante a uma língua de cobra. Muitos dizem que ele possui rabo, mas nem todos acatam a idéia.

Assume uma forma mais apresentável quando está próximo a humanos, é quando ganha uma característica bizarra: Possui cabelos azuis, olhos verdes flamejantes, rosto pálido e no lugar de suas unhas podemos ver folhas de grama.

Há diversas formas de invocá-lo, já que existe a lenda de que ele é o principal precursor dos desejos e ideais mundanos: poder, força e conhecimento.

Muitos dizem que para ter sucesso em suas invocações é necessário ter um objetivo certo e quase sempre é preciso ter como antecessor a invocação de Horthembrak a invocação de um djinn, e só após ter o domínio total sobre o djinn (assim que ele estiver preso em uma garrafa, preparada com sal e algumas ervas) é que é possível ficar seguro na presença de Horthembrak.

Dizem que costuma ser imensamente prestativo e didático com pessoas inteligentes e muito cruel e violento com as mais ignorantes.


O caso dos Irmãos Aragão 

Ninguém sabe até aonde essa história é verdadeira, característica típica de uma lenda urbana. Mesmo assim, bastante interessante.

Manaus 18 de Junho de 2005, a polícia finalmente localiza os três irmãos Aragão, um fato que apesar de muito divulgado pela imprensa ganhou pouca repercussão nacional. Devido à falta de esclarecimentos das autoridades.

Dois dos irmãos foram encontrados mortos, de forma misteriosa, a segunda uma garota que tinha na faixa de dezoito anos, fora encontrada perdida vagando pelas matas, completamente despida. Fora cometida por uma espécie de loucura momentânea e hoje encontra-se sob tratamento psiquiátrico.

As notícias liberadas pela polícia eram absurdas e muito contraditórias. Nunca ninguém soube, de fato, o que havia realmente ocorrido.

Até o ano de 2008, quando uma suposta carta veio aparecer. Na tal carta o irmão mais novo da família Roberval faz uma espécie de reportagem, ele narra um fato, que poderia esclarecer o mistério ocorrido naquela data, mas a polícia nega a veracidade da carta.

Na carta eles relatam a existência de um gravador, os investigadores dizem que este gravador jamais existiu, mas muitos afirmam que ele, ainda hoje, encontra-se sob poder da polícia. A Família não confirma os fatos e desde 2006 não aparecem em público e já deixaram bem claro que jamais voltarão a falar sobre tal assunto.

Não se sabe ao certo como o conteúdo desta carta, que parece uma página do diário de um dos irmãos, chegou à internet, apenas sabemos tratar-se de um relato fascinante.


A Carta

"(Manaus 15 de junho de 2005):

-19h12min
Eu Roberval Aragão dou início ao fato que sem dúvida irá mudar o rumo da humanidade. Eu e meus irmãos estamos a três anos nos preparando para este dia, e hoje iremos mudar o curso da história. Seremos ícones da religião moderna e de toda e qualquer seita ou ordem secreta.

-19h54min
Estamos nos dirigindo a uma cabana, que fica em uma região bem afastada de Manaus, mas especificamente na zona leste, fica logo após o bairro Jorge Teixeira, não sei ao certo o nome da localidade… Reinaldo foi quem tratou de encontrar o local, disse que ali era a localização perfeita para o ritual, tenho esperanças que tudo dê certo.

-20h22min
Estamos presos no trânsito, meu irmão está impaciente, Alicia nossa irmã do meio teve que desligar o celular. Meu pai tá enchendo o saco.

-23h12min
Chegamos! Demorou a beça, mas enfim chegamos… Agora temos que preparar o terreno.

-23h15min
Fui impedido de ajudar no preparo do local, que fique bem claro que meu irmão é um tirano. Acha que sabe de tudo, sendo que quem encontrou a forma de trazê-lo a nosso mundo fui eu. Que fique bem claro que ele acha que sabe como proceder, mas tudo que ele sabe fui eu quem ensinou.

-23h20min
O dia esta perfeito, temos uma linda lua nova o que representa o começo de um novo ciclo, a noite é quente e tudo que aqui for feito não morrerá e sim estará somente partindo em busca de um novo e real conceito.

-23h22min
Desculpa, deixa-me explicar no que consiste o ritual. Hoje iremos trazer a terra o grande Horthembrak, mas antes precisamos invocar um Djinn e por meio dele devemos chamar Horthembrak.

É um processo trabalhoso, mas tentarei explicar… Não temos muito tempo, então não irei esclarecer para vocês quem é Horthembrak ou o que é um Djinn, apenas vou explicar como invoca-los. Só espero que não tentem fazer isso sem o devido preparo, fizemos um longo estudo até chegarmos onde estamos:

Primeiro você tem que ter em mãos todo o material: Carvão preto, uma garrafa de vidro banhada em água com sal e folhas de pinheiro, quatro velas pretas, um livro da bíblia; este tem que também ter uma capa preta, texto do gênesis, um punhado de pó de carvão e não podemos esquecer da bússola. Após ter o material você deve desenhar com a pedra de carvão uma imensa letra “c” no chão, ele tem que estar quase fechando, ele deve ter apenas uma pequena abertura para que o líder do ritual possa entrar. Não esquecendo que esta entrada deve ficar em oposição a Jerusalém, e pelo mapa vejo que fica a sudoeste, não pise jamais na linha, isso traria conseqüências graves. Temos que localizar com exatidão o norte, o sul, o leste e o oeste e em cada ponto colocamos uma vela. Temos que colocar de pó de carvão na base, já que ele simboliza as cinzas. E antes de entramos no circulo devemos contorná-lo dezoito vezes no sentido anti-horário. Queime a página da bíblia Gênesis 1-6 onde fala sobre a criação do homem. Em seguida a pessoa que ficou dentro do circulo deve colocar os pés voltados para o sudoeste, ela deve ajoelhar-se e encostar a testa no chão e chamar pelo Djin do fogo, isto simboliza submissão.

Nos que ficamos fora do circulo principal, ficamos apenas protegidos por um circulo de sal e devemos seguir a invocação. Devemos falar algo em latim:

“FIRMAMENTUM IN MEDIO AQUARUM ET SEPARET AQUAS AB AQUIS, QUAE SUPERIUS SICUT INFERIUS, ET QUAE INFERIUS SICUT QUAE SUPERIU, AD PERPETRANDA MIRACULA REI UNIUS. SOL EJUS PATER EST, LUNA MATER ET VENTUS HANC GESTAVIT IN UTERO SUO, ASCENDIT A TERRA AD COELUM ET RURSUS A COELO IN TERRAN DESCENDIT. EXORCISO TE CREATURA AQUAE, UT SIS MIHI SPECULUM DEI VIVI IN OPERIBUS EJUS, ET FONS VITAE, ET ABLUTIO PECCATORUM. AMEN"

Nem sei o que significa, só sei que estudamos um monte para aprender todos os fonemas, não queria falar errado, meu irmão apenas me disse que não se trata de nada satânico, nem mesmo cristão e sim forças elementais, espíritos da vida. Não acreditamos em Deus ou Diabo, apenas nas forças cósmicas, energias da natureza e nos espíritos guardiões. Acredito que esse lance da bíblia e as referencias a Jerusalém, não passam de mero simbolismo.

-00h32min
-Enfim terminaram a preparação, garanto que se fosse eu, com certeza já teríamos terminado. Eles me chamaram, então, preciso entrar no meu circulo de proteção, mas não largarei meu caderno, muito menos o gravador, quero registrar tudo.

-00h37min
Meu irmão entrou no circulo e esta dando início ao ritual, Alicia pediu-me que parasse de escrever e me concentrasse no rito.

-01h27min
Ele esta parado com a testa no chão, não esta esboçando nenhuma reação, fiquei com medo que estivesse passando mal, há alguns minutos eles soltou uns gemidos esquisitos, como que de gravetos sendo quebrados, não estou com medo, apenas ansioso.

-01h44min
-Incrível, meu irmão está possuído, ele disse se tratar do próprio Horthembrak e não de um Djinn, disse que adoraria que eu escrevesse tudo o que ele falar. Estou me sentindo o homem mais importante do planeta.

O que escreverei agora não são palavras do meu irmão e sim do grande Horthembrak:

Horthembrak : A vida, bem podemos dizer que ela é apenas uma ilusão. Você vive durante anos, mas do que vale? Se você erra, será condenado ao fogo eterno. É assim que pensam os cristãos. Pura intrujice. Não existe inferno ou mundo das trevas, apenas existem dois pólos, duas escolhas e ambos senhores. Se você não agrada um, segue para servir o outro e se você agrada a este outro, como este poderia lhe fazer mal. Pensem bem, o inferno não é um local de tortura e sim uma nova espécie de paraíso, um lugar de regozijo para aqueles que nos agradam.

Eu: O que ocorre quando nossos espíritos ficam na terra atormentando as pessoas o que significa isso?

Horthembrak :( risos) Vocês são muito infantis. Acreditam mesmo que uma moça estuprada bate e atormenta as outras após a morte? Acham mesmo que isso é possível? Se ela estando viva, mal pode defender-se, por que agora depois de morta ela iria desenvolver tal força titânica. Cada alma segue seu rumo, os que ficam são espíritos ilusórios, eles adoram perturbar sua paz, conseguem imitar vozes e até mesmo trejeitos. Tentam através disso entrar em contato com vocês e quando conseguem, eles obtém o livre acesso.

Eu: Mas você não disse que demônios não são criaturas más?

Horthembrak: Não disse isso, demônios são seres inteligentes, muito mais inteligente que vocês, pois desafiaram a própria criação. Não vivemos como humanos. Vocês são como animais de estimação.

-02h54min
Ele disse que para obtermos sucesso e trazermos até nossa realidade, sua principal semente, ele deve fazer sexo com minha irmã, não concordei com isso, isso está passando dos limites, isso é contra a natureza, mas minha irmã concordou e por isso estou aqui fora do quarto aguardando os dois.

-03h15min
-Eles parecem ter terminado, minha irmã esta com uma cara de total insatisfação, não sei por que mas sinto nojo dela.

-03h44min
Eu desculad. As letras estão ilegíveis, não consigo escrever, só escrevo para pedir desculpa, desculpa a meu pai, desculpa a todos. Quero que fique claro que sou inocente, Deus sabe que sou.
Acabei de cometer uma monstruosidade, mas foi necessário, não tive culpa, não era ele.
Meu irmão de uma hora para outra começou a agredir Alicia ele batia violentamente em seu rosto. Tentei evitar, mas não consegui, com apenas um braço ele me atirou do outro lado da sala. Não vi alternativa… eu estava me defendendo e defendendo a vida da minha irmã.
Acertei aquele cano de metal na cabeça dele, entendam foi a única maneira de fazê-lo parar.

-..h..min
Não sei que horas são, meu relógio simplesmente parou, estou sentado no chão, espero que o dia amanheça, acho que assim essas coisas irão embora, meu irmão esta caído, desfalecido no chão. Minha irmã ainda esta desacordada, a sala esta fria, a pouco senti um medo incrível, um medo tão grande que cheguei a vomitar. Não sei o que esta acontecendo, as coisas fugiram do controle. Apenas protejo a mim e minha irmã, dentro do circulo de sal.

-..h…min
Desculpa se a tinta da caneta agora está vermelha. Ainda a pouco a caneta que usava flutuou a minha frente e simplesmente explodiu, como se houvesse uma bomba dentro dela. Não sei por que, mas não consigo parar de escrever. Acho que isso tem um real motivo. Acredito que eu talvez sirva de exemplo. Um péssimo exemplo

-..h..min
Parece maldição… não amanhece, estou com medo, já pensei diversas vezes em clamar pelo Deus dos cristãos, mas não posso fraquejar, tenho que mostrar para esse ser que sou mais forte. Clamei pelos espíritos guardiões.

-..h…min
Agora a pouco ouvi um som horrível. Estou apavorado, é como se houvesse uma multidão gritando e chorando do lado de fora da cabana. Não sei, estou apavorado.

-..h..min
Há três figuras negras paradas me olhando, eles tem olhos vermelhos, tentarei contata-los, direi a eles que estou aqui a seu serviço.

-..h..min
Agora a pouco senti a pior sensação da minha vida, os seres sumiram, ainda a pouco senti como se diversas larvas geladas tentassem subir em meu corpo, elas tentavam entrar em minha boca, era como se este ser tentasse me possuir. Não posso correr, minhas pernas não me obedecem, agora sei como uma pessoa paralítica se sente. Percebi que posso conter esses espíritos asquerosos, basta eu prender a respiração e eles não entram em mim.

-..h..min
Estou conseguindo, prendi a respiração por diversas vezes, eles se foram. Me deixaram em paz. Venci!

-..h…min
Ouço passos, enfim alguém veio em nosso socorro, quem sabe posso até salvar meu irmão…"

------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Após três dias de busca foram encontrados os corpos dos dois irmãos. Reinaldo estava deitado na sala, com o corpo em forma de cruz e sobre seus pés havia um crânio de cachorro. Roberval foi encontrado deitado sobre os joelhos, sua face estava roxa, ele morrera de asfixia, a policia disse se tratar de suicídio. Uma forma meio exótica de se matar. Alicia fora encontrada nua correndo pela mata. Estava num avançado estado de desidratação.

Até hoje ninguém sabe que fim teve o caso, ninguém sabe se Alicia realmente ficou grávida ou teve sucesso com aquela invocação.

Este caso permanece um mistério, muitos o escarnecem, dizem tratar-se apenas de um boato ou mera estória. Já outras pessoas usam este caso como exemplo para outros jovens que um dia possam vir a ter este tipo de curiosidade, essa mesma curiosidade que você está tendo agora.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/11/a-invocacao-de-horthembrak.html

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A Guilhotina

Pio Neto despertou com a impressão de uma torquês espremendo os miolos, um sentimento de urgência indefinível lhe abarcava o peito, sentia a necessidade de encontrar uma perspectiva para a vida que escorreria imutável e desolada nas próximas vinte e quatro horas – durante toda a eternidade. Permeando a irrealidade estabelecida entre o sono e o despertar, a angústia era tão intensa que teve ímpetos de gritar como se o som de sua voz fosse uma lança de libertação exigindo arremesso.

O dia nascia, anunciado pelos pardais na árvore da calçada, uma maldita árvore que despejava camadas de flores na primavera, dilúvio de folhas no outono, torrentes de bagas inúteis e estalantes no verão e, no inverno, apresentava a tristeza de cão sarnento. Veio-lhe aos ouvidos batidas fortes numa porta e em seguida a voz possante, autoritária, do pai:


– Eleonora, quer sair já desse banheiro!

– Já vou, que diabo!

– Saia já! Vou perder o avião!

Mentalmente Pio Neto reproduziu a cena: seu pai, o influente deputado, grande como hipopótamo, a andar nervoso à frente do banheiro, as cuecas quase escondidas pela imensa barriga, a toalha jogada displicentemente sobre um dos ombros peludos. Por que o velho não se dirigia a outro banheiro? Na casa havia vários.

Minutos após a porta abriu-se e – splash! – o tapa ribombou seco pelo ambiente e quase no mesmo instante – splash! – veio a réplica. Pio encolheu-se na cama, os ouvidos queimando com as altercações dos dois, os palavrões, as mágoas, as acusações, o ódio explícito. Aquela violência o punha doente, fraco, desprotegido. Uma violência que muitas vezes extrapolava aquele universo dual e acabava sobrando para si – e tal coisa Pio sabia desde que se conhecia por gente.

Só muito tempo depois, quando o pai saiu junto com a mãe, ambos no mesmo carro – ela o levaria ao aeroporto e em seguida iria para sua loja, um antiquário – é que Pio Neto teve forças para mover-se. Sentou-se na borda da cama e com mãos trêmulas alisou os cabelos de um castanho avermelhado, cortado à escovinha. Esfregou o rosto, fervilhando de espinhas, onde a barba primeva atenuava as crateras e relevos furunculares – uma barba fulva e estacionada no mesmo ponto de crescimento há quase um ano. Como em todas as manhãs, acudiu-lhe o conselho lido numa revista pseudocientífica para que a raspasse diariamente, só assim os pêlos tonificar-se-iam. Mas, e as espinhas? Se metesse um aparelho de barbear nas faces, em pouco seu rosto se transformaria numa pasta sangrenta.

O corpo de Pio Neto içou-se da cama. De pé, apoiou as mãos à cintura e fez um pequeno exercício pendular – doíam-lhe as pernas, os braços e, sobretudo, a região do pescoço. Sabia que todas aquelas sensações estavam relacionadas ao sonho que tivera no decorrer da madrugada – um sonho repetitivo que jamais era capaz de reconstituir. Calçou os chinelos, ali, sobre o tapete felpudo e, vacilante como um junco em meio a ventanias, dirigiu-se ao banheiro. Quando ia arriar as calças do pijama, notou uma correição, um batalhão de formigas negras, cabeçudas, surgindo da fresta dum cantinho junto à banheira – um orifício minúsculo, do tamanho de um grão de ervilha. O batalhão cruzava toda a parede, subia no armarinho de Eleonora com seus produtos de beleza e higiene pessoal, infiltrava-se pior detrás do espelho e perdia-se em seus recônditos.

Tomado pela curiosidade, resolveu investigar o fenômeno. Abriu o armarinho e viu que a correição alojava-se numa caixa onde, presumivelmente, deveria haver uma escova para cabelos. Retirou a caixa e despejou o conteúdo na cuba da pia. Ao invés da escova caiu um crucifixo enorme, de prata lavrada. A mãe, ele sabia, era uma mulher que se apegava à fé porque não conseguia dominar seus demônios íntimos – o que ela precisava era de um psiquiatra, não de padres, sentenciou de si para si. Com vago sentimento de piedade, Pio Neto recolocou tudo de volta ao armarinho.

***

Pio Neto banhou-se; no quarto vestiu uma calça de brim, uma camiseta branca. Na cozinha preparou no micro-ondas uma xícara de chá, desses de saquinho, que tomou acompanhado de uma fatia de queijo. Pegou uma pêra no refrigerador e foi comê-la lá fora, sentado na guia da calçada. O inverno ainda não terminara, mas o vento matutino e o sol cálido e excessivamente brilhante eram de primavera. Notou que alguém estava de mudança para a casa vizinha – homens com uniforme de uma empresa transportadora retiravam móveis do caminhão: uns baús misteriosos, uma cama de ferro enorme, um guarda-roupa monstruoso envernizado de negro e, pelo jeito, de madeira maciça, dado ao esforço que faziam para carregá-lo. Uns móveis antigos, remotos, seculares.

Anteriormente naquela casa residiam os seus avós maternos – o velhinho morrera e no dia seguinte ao enterro Eleonora metera a mãe num asilo e no quintal da residência plantou uma placa de Aluga-se.

Da cabina do caminhão saltou uma mulher vestida de negro, um traje absurdo, mas a Pio Neto vagamente reconhecível: um chapéu emplumado, o vestido longo todo em veludo e rendas, tão armado que ele interrogou-se sobre como tudo aquilo coubera na boleia do veículo – o negror era faiscante. A mulher, vendo-o, acenou com a mão sem um sorriso nos olhos ou boca. O rosto era inacreditavelmente pálido e de supetão um calafrio percorreu a espinha dorsal de Pio Neto: Deus, aquela era a mulher que aparecia em seu sonhos obscuro que vinha tendo nas últimas noites!

No sonho ele, Pio Neto, estava ali mesmo, no quarto, envolto em penumbra – pela fresta da porta entreaberta filtrava a luz que na cozinha devia ser feérica. Com a luz, vinham as vozes ásperas de seus pais na eterna discussão surgida dos assuntos os mais triviais. Trêmulo, Pio Neto sabia que aquela violência acabaria convergindo para si. Então a porta era totalmente aberta com estrépito e seu pai, gordo como um capado, e sua mãe, de magreza histérica, apontavam-no em muda e acusação. Pio Neto conseguia fugir do quarto, alcançava o quintal, a rua. Uma chuva súbita começava a cair, o vento oscilava furiosamente as árvores – abocanhava o mundo. Era preciso proteger-se do tempo feroz, dos pais raivosos, de si mesmo. Dirigia-se à casa dos avós, penetrava por um alçapão aos fundos e que dava para o porão. Ali, no porão, o passatempo do avô: a coleção de objetos relacionados a Maria Antonieta, rainha de França: relógios, talheres, algumas cadeiras, sapatos, perucas, anéis, tiaras, fivelas, cintos, telas de pintura – no centro do porão, uma réplica da guilhotina. Pio Neto, tiritando de frio, encolhia-se num canto e logo surgia o avô, transcendental, sorrindo-lhe com doce e aconchegante ternura.

– Quer vir morar comigo? – perguntava o ancião.

– Quero sim, vovô – respondia Pio Neto, a voz ungida de felicidade e agradecimento. O avô então apontava a guilhotina – ao lado do instrumento de execução postava-se a mulher de negro. A soberana Maria Antonieta fazia um gesto convidativo e para o lado dela Pio Neto se encaminhava, determinado. Nesse preciso momento, acordava.

***

Eleonora chegou para o almoço por volta do meio-dia, ligou a um restaurante pedindo marmitex e trancou-se no quarto. Não tinham empregadas, exceto a mulher que aparecia três vezes por semana para a limpeza geral, cobrando diária. Empregadas fixas não ficavam nem duas semanas na casa, incompatibilizadas com o gênio de Eleonora. A última estava movendo ação criminal contra os patrões – fora sadicamente agredida por Eleonora, e como prova da violência trazia no busto a marca de quatro furos de um garfo.

Ao meio dia e meia Pio Neto e a mãe estavam frente a frente à mesa, comendo em silêncio. Era o que mais atingia Pio Neto: aquele silêncio sepulcral o punha nervoso, apreensivo, constrangido. Gostaria de ouvir a voz da mãe – quem sabe vislumbrar um sorriso? Já vira Eleonora sorrir às amigas, ao poeta José Petrarca – o jovem que se esgueirava para o quarto dela de madrugada, na ausência do marido, e que desaparecia invariavelmente às cinco da manhã, ao apito combinado com o guarda-noturno. Já vira a mãe sorrir para o entregador de pizza, para desconhecidos que eventualmente a cumprimentavam na rua. Mas dentro de casa era aquilo: silêncio e cara fechada – um abismo inexplicável de ódio e rancor.

– Para quem você alugou a casa do vovô? – indagou Pio Neto. Eleonora ergueu uns olhos interrogativos.

– Minha casa, você quer dizer. E quem falou que a casa foi alugada? – como a voz dela estava prenhe de acidez, Pio Neto respondeu baixinho:

– Eu vi a mudança.

Eleonora sorriu e, sarcástica:

– Viu? Ora, meu rapaz, você não tem mais idade para ficar criando fantasias.

– Eu vi – teimou Pio Neto.

– Viu porra nenhuma.

– Se eu disse que vi, foi porque vi.

Eleonora perdeu a paciência. Jogou os talheres sobre a comida e levantou-se. Foi ao quarto. Em dois minutos estava de volta, um molho de chaves na mão.

– Então vamos verificar essa mudança, seu retardado.

***

A mãe tinha razão. Além de um gasto chinelo esquecido num canto e das brancas teias de aranha nos ângulos das paredes – a casa estava fechada há dois anos – só o silêncio persistia nos aposentos invadidos pelas sombras. Eleonora esbofeteou o garoto e deixou o local, furiosa. Pio Neto pegou no chão o chinelo, com delicadeza limpou-o do pó e levou-o ao nariz, sentindo o cheiro dos pés do avô, um odor que lhe lembrava os córregos barrentos da fazenda onde iam pescar bagres e lambaris. Resolveu visitar o porão. Dirigiu-se ao quarto que fora de despejos e desceu pela escadinha, pressionou o interruptor de luz na parede e a forte claridade expôs aos seus olhos a desolação do ambiente. Eleonora havia levado para o seu antiquário a preciosa coleção do velho – mas a guilhotina continuava, solene e inquisitiva, imperando no centro do vasto cômodo. Seu avô sempre gostara de marcenaria e aquela guilhotina, construída por ele ali mesmo, era um colosso artístico. Para desmontá-la seria preciso alguém especializado – tantos encaixes, pinos, parafusos, arruelas – e Eleonora, talvez por inércia, foi adiando sua remoção e por fim dela acabara se esquecendo.

Pio Neto caminhou para o centro do porão e pôs-se a acariciar a guilhotina, suas colunas de sustentação. Riu saudosamente para si mesmo ao tocar a longa corda que liberava a grossa lâmina de aço cujo fio agudíssimo continuava rebrilhando. Embalado por nostálgicas lembranças do avô, Pio Neto vasculhou o ambiente com o olhar, a cata de outros detalhes memoriais. A um canto viu a velha manta de lã – a cama do cão Carnaval. Foi sentar-se onde o boxer do avô costumava dormir, lembrando-se do dia em que o velho surgira com o cachorro, um bicho miseravelmente magro e sarnento. A avó, odiando todo e qualquer animal doméstico, fizera um escarcéu monumental. Então, para que pudesse dividir o porão com o companheiro, que em pouco tempo ganhou pelugem brilhante e peso acima do normal, o avô fizera uma escadinha ligando o cômodo subterrâneo ao jardim através de um alçapão – o alçapão atualmente estava com a portinhola apodrecida. Com a morte do avô, fulminado por um ataque cardíaco, o cão não teve melhor sorte. Eleonora enterrou o pai, jogou a mãe num asilo e mandou um veterinário muito filho da mãe sacrificar o animal. Pio Neto a tudo assistira incapaz de um gesto de revolta, um grito de desespero – só teve lágrimas por sua irremediável covardia perante aquelas ações tão desumanas. Por que não brigara para que, ao menos, enviassem o bicho para a fazenda?

Pio Neto já estava a um bom tempo encolhido naquele canto quando começou a ouvir sons lamentosos, um cão gania, velhos choravam, crianças gritavam. Tapou os ouvidos com as mãos, encolheu-se ainda mais e começou a chorar baixinho.

Às dez da noite Pio Neto chegou à conclusão de que sua mãe não viria jantar em casa. Abriu o refrigerador: ali, um pedaço de queijo, verduras, legumes – só. Foi ao quarto de Eleonora em busca de algum dinheiro para um lanche qualquer. Encontrou no porta-jóias sobre a penteadeira alguns trocados – mas onde estavam os brincos de diamante, os anéis de variadas pedras preciosas, o colar de rubis e esmeraldas, as pulseiras, o reloginho Cartier de ouro cravejado de brilhantes?

Se bem que intrigado com o desaparecimento de tais preciosidades, achou que não tinha motivos para maiores preocupações: a mãe certamente as guardara no cofrinho ali na parede, sob um pequeno e autêntico quadro de Guignard – não lhe chamou a atenção o fato de, no lugar da tela, haver agora a foto emoldurada de Eleonora e o deputado, ele vestindo fraque, ela com o vestido de noiva.

***

Na lanchonete pediu pedaços de pizza e guaraná. Enquanto esperava o serviço, ficou a examinar o local e foi assim que deu com os olhos no artista plástico Antônio Palmeira, um mulato forte que, sabia Pio Neto, fora substituído nos lençóis de Eleonora pelo poeta José Petrarca – Pio Neto não compreendia o fascínio da mãe por pessoas assim: jovens dizendo-se artistas e inexoravelmente fadados ao fracasso. Palmeira, sozinho numa mesa e tendo à frente um copinho de cachaça e uma garrafa de cerveja, fez-lhe sinal, solicitando companhia.

Só depois de ver Pio Neto acabar de comer a pizza e tomar o guaraná, é que Palmeira deixou de falar de si mesmo e do futuro majestoso que o aguardava para dar vazão à mágoa.

– A vaca da sua mãe finalmente fez a maior besteira da vida... – E ante o olhar perplexo de Pio Neto, exclamou: – Vai dizer que não sabe?

Pio Neto apenas balançou a cabeça, não, não sabia de nada.

– Mas que vagabunda! – indignou-se Palmeira, bebadamente. – A cadela nem deixou um bilhete para o filho! Pois eu lhe digo, garoto: ela deu no pé com o Petrarca, o poetinha de merda. Foi embora, sumiu, escafedeu-se!

Pediu um conhaque à garçonete.

– Politicamente, seu pai vai se foder. Se pouca gente sabia que ele era um corno manso, agora a coisa vai sair nos jornais, a merda vai feder. Eu, pelo menos, espero que assim aconteça, torço feito um desgraçado. Vem cá, garoto, ela tem mesmo toda aquela dinheirama que arrota? Porque, é o que digo, o poetinha não tem onde cair morto. Tem fiado em todos os botecos da cidade... Vai moer toda a grana da ordinária e depois dar um solene pontapé naquele traseiro de tábua. É o que digo: a biscate da sua mãe se ferrou...

Um relâmpago riscou o céu, seguido dos trovões.

– Que tempo mais cagado – disse Palmeira –, durante o dia um sol de assar miolos, de noite esse vômito da natureza. Aliás, tudo isso tem a ver com meu estado de espírito... Porra, eu gostava demais da prostituta da sua mãe, garoto... – Súbito, começou a chorar. Chorou por uns dois minutos e em seguida limpou as lágrimas com a barra da camisa. – Eu estou bêbado, garoto, não tenha nojo de mim. Acho que já bebi mais de um litro de conhaque, não sei quantas pingas, dúzias de cerveja. Daqui a pouco o pessoal dessa espelunca vai ter que me arranjar um táxi, ora, eles já estão acostumados, regalias de freguês especial...

Pio Neto levantou-se. O artista plástico olhou-o, pela primeira vez tomando consciência do drama a desenrolar-se naquele cérebro juvenil. Quis dizer alguma coisa reconfortante, chegou a grunhir um lamento ininteligível, depois, com um sorriso compassivo, acenou um desolado adeus.

Assim que pôs os pés na calçada, o dilúvio começou.

A chuva estava tão forte, tão gélida, que o mundo era apenas uma espessa mortalha branca. O vento uivava e as árvores estalavam, um e outro galho eram arrancados e iam de roldão à enxurrada com mais de palmo de altura, fazendo rio das ruas. Uma mão forte segurou o braço de Pio Neto e arrastou-o para baixo de uma marquise de cimento armado de uma farmácia.

– Que faz no meio desse temporal, menino? – perguntou o guarda-noturno, embrulhado em sua capa de chuva. De repente lembrou-se de que por certo Pio Neto já deveria estar sabendo da fuga da mãe com o poeta. Acabrunhou-se.

– A vida é assim mesmo, garoto. Talvez aqueles dois a esta hora já estejam arrependidos. O Petrarca não vai aguentar sua mãe, pode ter certeza. Como ela é geniosa! – Calou-se, consciente de estar falando um monte de besteiras. Deu um tapinha nas costas de Pio Neto, e ordenou: – Vá, menino, vá para casa, toma um banho quente e se enfie debaixo das cobertas. Tudo vai acabar bem, você vai ver...

Mergulhado de novo no aguaceiro, Pio Neto aproximou-se da casa dos avós. Saltou o muro, deu a volta na residência e, aos fundos, ergueu a tampa apodrecida do alçapão e penetrou no porão. Dirigiu-se ao interruptor na parede e acendeu a luz.

– Quer morar comigo? – indagou o avô.

– Sim – disse Pio Neto. E determinado caminhou para o estrado, enfiou a cabeça na abertura entre as balizas do aparelho de execução. A rainha Maria Antonieta surgiu de repente a seu lado, suavemente tomou-lhe a mão e a conduziu para a corda que destravava a lâmina da guilhotina.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/08/a-guilhotina.html

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A flor de U'zltrilix


    Uma chance.  Um único risco.  Mas não recuarei. Desde a grande viagem o perigo a que me sujeito é o de viver. Devo imergir na névoa e encontrar a Flor de U’zltrilix. Nela reside uma resposta. Um recomeço. Um fim.  No entanto, a areia liquefez-se em vários pontos, perscruto e não vejo a passagem. Muitas vezes me questiono se existo ainda, que vontade é essa que me anima e me fez seguir até aqui?

    Parada sobre a planície rochosa, tenho consciência de ser. Existo ao aço frio das armas que empunho. Existo ao veneno corroendo meu sangue, minha morte e vida. No entanto, a força que me faz prosseguir para por alguns instantes quando revejo a Cidadela dos Antigos em escombros. Um universo de imagens e lembranças inunda meus olhos.


   A pirâmide de Zh’olquyz permanece ainda, o triste ápice de uma civilização extinta. Banhada à luz de uma estrela dourada em seus últimos lamentos a cada volta insana do planeta L’zuli. Meus olhos reviram a paisagem e ao longo do caminho, voltam-se mais uma vez ao pináculo de outras eras. Tão próxima a pirâmide, a nave de meu pai. Ziurtiw enlouquecera antes da partida e tentara destruir a pirâmide onde os antigos repousavam. Sua punição com a morte foi um sinal de que a paz findara, apenas a nave permaneceu. Forjada nas longas viagens pelo mar de rocha líquida, paira sobre o deserto de areia, parecendo flutuar neste oceano de grãos, enquanto poucas torres escoram-se uma nas outras, resistindo ainda. Meus sensores brilham iridescentes: há vida na base de Zh’olquyz, um murmúrio animado oculto sob a nuvem de areia.  Aspiro em busca de coragem para descer e enfrentar meu destino. A mesma coragem de meu pai quando se negara a me deixar aqui.

    Enquanto meus pés se movem e mergulho na estranha porosidade, não deixo de pensar no mar que nunca vi, o mar de rochas liquidas de L’zuli que brilharia sob a luz como a cidadela morta aos raios que a cobrem. Estende-se em meu caminho um mar de areia, posso sentir a densidade pérfida a me espreitar, oculta sob as brumas amareladas, todavia, persisto. Os fragmentos de areia que se contraem e se movem sinuosos em torno das ruínas me envolvem numa recepção horrenda. Outrora, quando apenas uma garota frente ao inexorável, talvez meus instintos me fizessem desistir, mas a dúvida me intriga.  Serei de fato a última? Percebo em mim a vontade intrínseca de não estar só, de ser apenas uma em meio à multidão, um rosto na muralha espiando a vida passar. Entanto, esse direito não é o meu. A multidão já não existe, os resquícios da última viagem permanecem nas brumas de L’zuli, um som atemporal e terrível em sua beleza, a música do adeus me atormenta. Todos os outros desapareceram quando os zh’olquynez nos deixaram.

    Depois que se foram, fiz muitas pesquisas sobre lendas e seres desconhecidos em busca de uma explicação para a chegada dos antigos. Éramos então selvagens em guerras constantes, matéria bruta lentamente dilapidada em direção a suprema tecnologia para enfim, termos a paz.

    A tecnologia dos antigos consistia em juntar cada átomo e dessa misteriosa condensação construir o inimaginável. Este poder unificou as tribos e os zh’olquynez propiciaram o surgir de uma era iluminada, de cada mínima partícula os mestres criaram maravilhas. Elementos nunca vistos antes construíram nosso mundo, ampliaram o poder de nossa estrela já em decadência.

    Caminho entre as ruínas e a areia entranha-se em mim, mas meus olhos estão protegidos dos grãos cortantes, feitos por esses mesmos elementos que outrora nos maravilharam. Sou uma filha dos antigos. Há algo sob a minha pele que me salva a cada dia, cura meus ferimentos e impede que o tempo me leve. A regeneração molecular foi um presente para poucos, para escolhidos. Para os que seriam deixados para trás. Por que fiquei? Eis a resposta que busco na Flor de U’zltrilix. Cresci sob as muralhas de Zh’olquyz, quando os dias eram promissores e iluminados. Alguns rumores me despertam dos devaneios. Sinto uma força que deseja me deter e os grãos investem contra mim. Fustigam-me mas não podem me atingir.

    A cidade fantasma parece me espreitar. Os resquícios do antigo esplendor são grãos que se espalham como uma imensa epidemia enquanto a vida se esvai do planeta. Dilatam-se por toda parte. Nossa estrela se derrama sobre as ruínas e seu calor me traz vontade de chorar. Não lembro qual o gosto de uma lágrima. Não se pode chorar em L’zuli. As noites estão cada vez mais curtas e o planeta gira veloz, vazio da vida que nos corrompia, num eixo que altera-se inesperadamente. Ocasionalmente, as línguas de fogo emergem do céu e atravessam a névoa de areia e, assim, vejo os destroços de minha cidade natal e sombras de animais mutilados e acovardados que se ocultam num ultimo ranço de vida. Insetos minúsculos passeiam pela carcaça de arqysfs gigantesco. Onde ele chorou, acumularam diamantóides raros.  Guardo minhas armas e penso mais uma vez no mar desenhado na voz de meu pai. Eu nunca vi o mar. Apenas areia sobrevive em meus olhos e procuro por ela.

    Por muito tempo, a Flor de U’zltrilix foi uma lenda, um mito entre os que ficaram, mas eu estava presente quando o portal foi construído, vi quando exalou pela ultima vez seu perfume. O portal aumentava em uma junção de minúsculas partículas, cada fragmento de L’zuli se movimentava - alguns invisíveis para nós – unindo-se na construção da passagem e finalmente o caminho para as estrelas apresentava-se. Aquele fora um grande dia para todos, os antigos despertaram do seu longo sono e estavam cada vez mais próximos de nós. Deuses e servos unidos em um bem comum.

    Com o tempo, meus estudos revelaram que a mágica dos antigos possuía um nome, eram nossos deuses nanotecnólogos. Um conhecimento superior que nos parecia magia, pois quando ordenavam, toda matéria se reorganizava e maravilhas surgiam. Os senhores das miudezas eram na verdade uma etnia de cientistas colonizando o universo. Exploradores. Colonizadores. Nômades. Os zh’olquynez eram um povo pacifico, mas ávidos pelo novo, pela modernidade e principalmente, pela eternidade. Usavam a sabedoria e o conhecimento em busca da paz e quando a conseguiam, dormiam por longos anos, assim, eternizavam-se por eras e eras, no entanto, seu legado foi-nos terrível. Quando as caravanas deixaram Zh’olquyz, eu era ainda uma criança. Uma criança escolhida, bendita e amaldiçoada.

    No dia da grande viagem, por cima da muralha, espiávamos a passagem dos antigos. Seguiam lentamente enquanto os sons dos bambus cortavam o ar e ricocheteavam no silêncio que trazíamos. Pela primeira vez eu vi os grandes arqysfs, quando eles erguiam os olhos e suas longas presas cinza para nós, seus gritos ecoavam pelo deserto e uma dor que jamais esqueceríamos nascia-nos. Os arqyfs eram o mais antigo símbolo de L’zuli. Podíamos ouvir ainda os murmúrios dos anciãos e o grito das mães que ficavam. O sopro do chamado ultrapassava então as planícies e eles continuaram chegando por muitos sóis. Tribos de todos os lugares e os imensos arqyfs, animais tão grandes e sábios que apenas sua presença trazia-nos amor e a certeza de que nada mudaria. No entanto, eles emitiam seus lamentos junto ao som das flautas e tudo se impregnava de melancolia. Sob essa orquestra víamos o fim de nosso lar. Os zh’olquynez levariam uma grande parte da população com eles em busca de um novo mundo, mas muitos ficariam. Eu fiquei na cidade vítrea, que ainda resplandecia.

    As grandes pirâmides, os navios, as naves e todo o centro de L’zuli estremeciam, um mundo abandonado e fustigado pelo tempo até transformar-se nesse mar dourado por onde caminho ainda hoje. Os poucos que ficaram pereceram, outros se foram para lugares distantes em busca de novos portais. Raros tornaram-se insanos em meio a solidão.

    Não sei quanto tempo se passou, mas finalmente eu a vejo. Sob a base da pirâmide de cristal, a flor se revela. Um gosto amargo confirma o que suspeitei desde o inicio de minha jornada. A flor de U’zltrilix é um montador universal. O centro da tecnologia dos zh’olquynez. Uma máquina capaz de construir infinitamente o que se desejar, programada para não replicar-se. No entanto, na busca por novos elementos, os resíduos de tanta evolução viajaram pela atmosfera do planeta, não havia distancia para impedir que espalhassem. Muitos morreram. E foi o fim de L’zuli. A vegetação morria aos poucos, logo as pessoas adoeceram. A vitalidade fora absorvida por aqueles seres imortais e somente a rosa pérfida permaneceria...

    Quando o deserto ameaçou o planeta, os antigos despertaram e a construção do portal começou. Houve então muita tristeza que jamais os lamentos do povo poderão deixar essa atmosfera. Um novo mundo, em outra galáxia, foi o escolhido.  Olho as estrelas e penso nos antigos. E por isso ficamos, a flor deve ser preservada para que o portal permaneça. Eis a minha função para que um dia, talvez, eles possam voltar em busca de novos mundos.

    E por isso devo destruí-la.

    O planeta azul não é desprovido de vida. Viviam lá humanóides em estado de selvageria. Um dia, as pirâmides irão se espalhar e mais uma vez alcançarão níveis inimagináveis de paz a um preço insano. Desconheço o destino dos que outrora chamei de meu povo. Se dormem com os deuses, ocultos em pirâmides de cristal tampouco, sei apenas que se foram e seu destino era o terceiro planeta em direção a uma estrela média, um sol menino. Neste planeta chamado Terra eles recomeçariam.

    E girarão vorazes mais uma vez, roubando a energia vital ou terão a chance de um novo mundo? Talvez outro portal me dê a resposta, este já não me permite a passagem, mas envio ainda assim a nossa saga, a história de um planeta que, outrora coberto por pirâmides e luz, adormece sob uma névoa de areia e murmúrios de outras eras.

    Um planeta por onde vago em busca de outras flores. Flores que devo destruir até que somente a areia cubra-nos e nunca mais o solo de L’zuli seja profanado. Pois sou apenas uma guardiã do infinito. 

Fonte: http://contosdelitfan.blogspot.com.br

domingo, 8 de janeiro de 2017

A Fazenda dos Florence


Sempre soube dos rumores a respeito da propriedade dos Florence. Na pequena cidade onde nasci nenhuma criança se aventurava ao longo da estradinha de terra que levava aos portões enferrujados da velha fazenda ao sul. Desde cedo, em suas residências, lhes era ensinado a temer a estranha família. Ao longo dos anos faziam com que acreditassem que os Florence eram malvados, perigosos, diabólicos. Mas era mais do que isso. Lembro-me de que, certa noite, ao pé da lareira com meu pai, o ouvi contar para todos nós, de sua casa, como a triste família se havia perdido nos caminhos das trevas; como havia trocado as bençãos de Deus pelas falsas promessas de fortuna feitas pelas coisas que andam no inferno e que eles evocavam graças aos poderes da velha matriarca. Ainda me causa calafrios a maneira como meu pai parecia acreditar em tudo o que contava e a forma como ele nos advertia para manter distância, pois aquelas pessoas eram monstros reais que, em noites enluaradas, vagavam soltos dentro dos limites da velha propriedade. "Foram os demônios que os mudaram, meus filhos" dizia meu pai, e seus olhos faiscavam iluminados pelas chamas vermelhas do fogo voraz na parede.

Depois que cresci, deixei a localidade e me mudei para a capital. Meus pensamentos se voltaram para coisas mais importantes. Estudei, graduei-me com honras no curso de Física e assinei um contrato com uma multinacional. Casei-me com uma mulher cuja beleza impossibilitava-me de admitir, mesmo lá em meu íntimo mais profundo (este que sempre acaba assomando em nós nas horas da madrugada), que pudesse haver no mundo algo tão horrendo quanto o que diziam existir em minha terra natal. Hoje entendo que estas histórias sempre me acompanharam e que todo o meu destino convergiu para a noite fatídica de que vos falarei agora.

A última lembrança que guardo de meus tempos de criança é de ouvir a gritaria das pessoas na praça central. Enfurecidas, elas corriam em torno de uma carroça numa noite de inverno. Havia armas nas mãos de muitos e a exigência de que os estranhos Florence devolvessem aos pais uma menina loura que desaparecera. Recordo-me do velho xerife tentando conter a massa que surpreendera alguns membros da amaldiçoada família tentando comprar medicamentos em uma farmácia.

Mas o que me toca mais profundamente até hoje é a lembrança do olhar que me lançou o mais novinho dos quatro que vi. Um garotinho enfermiço e de pele pálida e suja que me olhou de cima da carroça cercada por cidadãos ensandecidos. O pavor, o medo em seus olhos, causou-me repulsa àquelas pessoas; pois me fez sentir, de uma só vez, o peso dos anos de discriminação e banimento a que vinham sendo submetidos todos daquela fazenda isolada. Aquela criança, que como eu ainda olhava o mundo de baixo, já não era apenas mais um menino. Era um homem triste e assustado. Um pobre diabo acuado por todos os lados que perdera a infância antes mesmo de tê-la conhecido.

Nestes meus dias finais, quando não sei se o que me matará primeiro será a velhice, o câncer ou a vilania desta cidade grande e impiedosa, digo que o que havia de errado com aquelas pessoas dos Florence (a despeito daquilo que vi, à noite, em frente aos portões da velha fazenda - e que pode perfeitamente ter sido apenas o fruto de uma mente viciada) era tão somente o fato de eles serem pobres e, oriundos de distantes terras estrangeiras, manterem costumes diferentes dos da comunidade que tanto os demonizava. Penso comigo, em meio às minhas inúmeras reflexões de velho, se não foi pelo que presenciei naquela praça que resolvi, tempos depois, deixar a cidade. Acho que a vergonha cobriu meus passos desde então.

Foi assim que decidi, após a morte de todos que me eram caros, e quando a solidão deu asas à minha disposição para viajar, voltar à velha terra para saber o que afinal fora feito dos miseráveis fazendeiros. Sentia que pediria mil desculpas a qualquer deles que encontrasse pelo caminho.

Desembarquei no início da noite na mesma praça central que tanto povoara minhas más lembranças por mais de cinqüenta anos. O ônibus que me trouxera só perdia em decrepitude para aquele horrendo centro em ruínas. Espantava-me e me mortificava ver que nada mudara! Tudo permanecia exatamente como eu deixara e, por alguns instantes, esperei mesmo ver a carroça dobrando mais uma vez a esquina perseguida pelos vândalos locais.

Na verdade aproximava-se um veículo escuro do ponto em que a principal cruzava com a dezesseis. Parou diante de mim e o motorista abriu uma porta ruidosa que já tinha visto dias bem melhores.

— Ei, Chapa! – Era meu amigo Warren Nesbel. Não era mais apenas gordo como antes. Agora estava calvo e abatido.

Depois que conversamos e relembramos aquilo que ainda não havíamos relembrado ao falarmos ao telefone no dia anterior, agradeci sua hospitalidade recebendo-me por dois dias em sua residência e, sem muita cerimônia, lhe pedi o carro de empréstimo.

— O que vai fazer? – Perguntou ele mesmo sabendo do que se tratava. E emendou:

— Olhe, amigo, nós não queremos saber deles. Pelo que me consta nem existem mais. Aquela terra toda está abandonada. Ninguém vai lá! Assim como sempre foi.– E me olhou com uma expressão realmente apreensiva em seu semblante flácido. – ah, o garotinho.. .– continuou ele. – O que te olhou... Não sabemos nada dele. Pode ainda estar por lá. – Depois ele se calou diante de meu olhar impassivo. E entregou as chaves.

Quando ia saindo da frente de seu endereço, ele me segurou pelo braço.

— Wilfred, por favor não vá lá. Deixe amanhecer pelo menos. Aquele lugar é um horror à noite.”

Mas eu estava irredutível e fiz menção de soltar meu braço de suas mãos. Ele afrouxou a pressão e, por fim, me largou.

Depois que dei a partida no motor, no entanto, ele bateu à janela do passageiro.

—Wilfred – disse ele. – Não saia do carro. Você não sabe o que anda por lá, no escuro! – Depois me deu as costas e entrou na casa bem iluminada. Eu sabia que ele me aguardaria e que, se houvesse alguma demora que julgasse inaceitável, chamaria a polícia e a mandaria em meu encalço.

Devo confessar que não foi sem um mínimo de apreensão que tomei a estrada abandonada que levava à fazenda dos Florence. Era de terra batida e dominada por árvores de copas tão espessas que tornavam a escuridão da noite ainda mais pétrea e intransponível. Tudo o que se podia delinear na escuridão fora do carro eram os raios de uma lua cheia que fazia vazar seus raios por entre as árvores e lançava, aqui e ali, barras de luz amarelada na estrada adiante. A fantasmagórica luminosidade ocre me possibilitava divisar vagamente partes do sombrio interior da floresta que margeava o caminho.

Em certos trechos a estrada era tão estreita que eu tinha a impressão de que o veículo não conseguiria seguir adiante, pois ficaria preso às margens altas pelos retrovisores. Do nível do solo, um observador a pé se sentiria como se subjugado por aqueles morros que se elevavam desde a beira do caminho e partiam terreno a dentro até atingirem as elevações mais altas no horizonte. A região era, assim, sem dúvida, terreno fértil para as fantasias do povo simples local e ali já haviam sido avistadas todo tipo de abominações horrendas atribuídas, obviamente, à maldição diabólica dos Florence.

De repente, a despeito de minha situação bizarra, vagando em alta madrugada por uma estrada abandonada em direção ao local onde diziam que monstros erravam ferozes e famintos, surpreendi-me buscando na memória algo que quebrasse a aura negativa que aquele lugar insistia em moldar em meu imaginário. Lembrei então de quando eu era um garoto de cerca de nove ou dez anos e Ernest Florence costumava brincar nas terras de nossa família. Saía da propriedade de seus pais e atravessava a cidade até alcançar nossa fazenda. Ali, pulava a cerca e escalava o grande carvalho que havia num ponto ermo da propriedade. Algumas vezes eu o avistava ao longe recortado contra o poente, magro, cabisbaixo, solitário em meio aos galhos balouçantes. Recordei a vez em que eu fora ao seu encontro. Por algum motivo ele não se apressou em se afastar como normalmente fazia quando alguém tentava se aproximar; também por esta época a perseguição brutal e imoral a que sua família era submetida ainda não alcançara os paroxismos do famigerado “dia da praça”.

Ele simplesmente saltou dos galhos da árvore e ficou lá parado me observando diminuir a distância entre nos dois. Era louro, tinha olhos azuis aguados e um rosto afilado marcado por sarnas. Notei um número exagerado e inusitado de pelos escuros que brotavam precocemente de seu pescoço e aquilo me levou a crer que fosse bem mais velho do que eu imaginara ao vê-lo apenas de longe.

De repente ele sorriu para mim. Era algo estranho o seu semblante; como se, na verdade, não soubesse sorrir e se esforçasse para emitir uma imitação canhestra de um sorriso. Seu rosto, neste momento, me lembrou os dos manequins das lojas do centro. Depois ele me deu as costas e correu. Com incrível agilidade saltou por sobre a cerca e desapareceu rapidamente pela estrada.

Fiquei parado em baixo do velho carvalho imaginando como seria a vida de um garoto como aquele; nos motivos pelos quais diziam que ele e os seus eram monstros. E minha imaginação ia muito além do que costumavam chegar as imaginações das crianças de dez anos de meu tempo!

De súbito um brilho incomum me fez despertar deste semi-transe em que eu mergulhara, em meio às minhas recordações, e me trouxe bruscamente de volta à estranheza daquela estrada escura. Pareceu-me notar um reflexo amarelado e cintilante à margem esquerda do caminho. A velocidade do veículo, no entanto, não me permitiu vislumbrar nada com exatidão e, provavelmente, forneceu-me uma impressão errônea de ter avistado, na verdade, dois olhos enormes me espreitando do escuro. Perscrutei o retrovisor, mas nada mais pude divisar no trecho por onde passara.

À minha frente surgiu então o portão principal da propriedade dos Florence. O vento aumentara consideravelmente e ao estacionar o carro no acostamento, e desligar o motor, mesmo com os vidros erguidos pude ouvir os gemidos que ele provocava quando passava por entre as árvores na floresta. Mantive os faróis acesos pois percebera que a cerca de madeira da fazenda balouçava muito embalada pela forte movimentação do ar. No entanto a escuridão era tamanha que pouco as luzes do carro me ajudavam. Resolvi ignorar os avisos de meu amigo da cidade e saltei para fora do carro.

O cenário no exterior era insuportável. Não havia, de fato, alma crente que ali se postasse sem sentir no coração as fisgadas de um medo sobrenatural que eram incontroláveis e involuntárias. De minha parte senti meu corpo sendo percorrido por calafrios que jamais imaginei serem possíveis.

Ao longe a sede da fazenda se encontrava envolta numa escuridão tão densa que seu peso parecia incidir violentamente sobre minhas costas. A gigantesca silhueta negra da construção rústica fazia lembrar algum deus mitológico adormecido e mergulhado nas trevas; num caos de ventos violentos e gemidos agonizantes.

Fiquei parado diante dos portões de madeira apodrecida. Não podia acreditar que as pessoas da cidade simplesmente não sabiam o que ocorria naquela fazenda; ou não sabiam sequer se estava ou não habitada.

Subitamente minha atenção foi atraída por um movimento na cerca de arame que passara a se agitar de uma forma que não condizia com o sopro do vento. Arqueara-se como se pressionada para baixo por algum peso extraordinário. Olhei para a escuridão que se estendia ao longo, para o lado esquerdo, e com esforço pude divisar um vulto grande equilibrando-se sobre a malha farpada de aço. Assemelhava-se á uma grande ave que, empoleirada na cerca, tivesse as asas abaixadas. Depois o vulto emitiu um pio agourento que me pôs em corrida desesperada na direção do carro. De lá os faróis iluminavam parte do terreno para além do portão de entrada. E, banhadas pela luz difusa, avistei paradas na escuridão criaturas que por um momento me tiraram a sanidade. Eram como imensas corujas negras que me fitavam com imensos olhos amarelados.

Entrei no automóvel e tranquei as portas imediatamente. Logo minha respiração ofegante e descompassada encarregou-se de embaçar os vidros das janelas. E não pude ver exatamente as coisas que me cercavam do lado de fora. Sei que bem ouvi seus gritos e risadelas. E ouvi quando piaram lamentosamente do alto da cerca e de dentro da fazenda. Depois creio que desmaiei ou o pavor me conduziu para mundos dos quais depois não tive qualquer recordação.

Quanto retornei à lucidez ainda estava dentro do carro. A luz do dia já ia alta e eu continuava parado diante dos portões da fazenda dos Florence.

Havia um homem do lado de fora. Ele olhava curioso para o interior do veículo e quando me viu abrir os olhos deu um salto para trás como se assustado. Algo em seu rosto me era extremamente familiar e tão logo me recompus e o olhei bem pude reconhecer o rosto do estranho garoto que me fitara na praça central. Estava bastante idoso, assim como eu, mas sua compleição física era a de um homem mil anos mais velho.

Saí do carro e fiquei diante daquele esboço de dias longínquos. Seu semblante era tão cansado e triste que me mortificou ainda mais que a lembrança do horror da noite anterior. Não disse nada e simplesmente ergueu uma das mãos na qual trazia um copo com água que me entregou. Depois, com um sorriso tímido, me deu as costas e caminhou para o portão entreaberto onde o aguardavam outras pessoas tão tristes e assustadiças quanto ele próprio. Não carregavam, entretanto, nenhum traço das monstruosidades que eu avistara na escuridão.

Deixaram-me parado na estrada ensolarada repleto de pensamentos estranhos e conflitantes. Será mesmo que havia monstros naquele lugar? Ou minha imaginação, movida pelo medo, trabalhara contra mim naquela noite?

Foi assim, confuso e abalado, que retornei à cidade, devolvi o veículo emprestado sem dizer uma palavra e nunca mais voltei.

Agora, que já não tenho mais muito tempo nesta vida, sinto que se romperam em mim muitas das convicções de outrora. E já não sou mais capaz de sair de casa à noite sem primeiro esquadrinhar cuidadosamente os céus e os lugares escuros ao meu alcance para me certificar de que não estou sendo vigiado por estranhos e imensos olhos amarelados.

Autor: Henry Evaristo
Fonte: http://contosdelitfan.blogspot.com.br