quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Pata do Macaco

Lá fora, a noite estava fria e úmida, mas na pequena sala de visitas de Labumum Villa os postigos estavam abaixados e o fogo queimava na lareira. Pai e filho jogavam xadrez: o primeiro tinha idéias sobre o jogo que envolviam mudanças radicais, colocando o rei em perigo tão desnecessário que até provocava comentários da velha senhora de cabelos brancos, que tricotava serenamente perto do fogo. 

– Ouça o vento – disse o Sr. White, que, tendo visto tarde demais um erro fatal, queria evitar que o filho o visse.

– Estou escutando – disse o último, estudando o tabuleiro ao esticar a mão.

– Xeque.

– Eu duvido que ele venha hoje à noite – disse o pai, com a mão parada em cima do tabuleiro.

– Mate – replicou o filho.


– Essa é a desvantagem de se viver tão afastado – vociferou o Sr. White, com um a violência súbita e inesperada. – De todos os lugares desertos e lamacentos para se viver, este é o pior. O caminho é um atoleiro, e a estrada uma torrente. Não sei o que as pessoas têm na cabeça. Acho que, como só sobraram duas casas na estrada, elas acham que não faz mal.

– Não se preocupe, querido – disse a esposa em tom apaziguador. – Talvez você ganhe a próxima partida.

O Sr. White levantou os olhos bruscamente a tempo de perceber uma troca de olhares entre mãe e filho. As palavras morreram em seus lábios, e ele escondeu um sorriso de culpa atrás da barba fina e grisalha.

– Aí vem ele – disse Herbert White, quando o portão bateu ruidosamente e passos pesados se aproximaram da porta.

O velho levantou–se com uma pressa hospitaleira e, ao abrir a porta, foi ouvido cumprimentando o recém chegado. Este também o cumprimentou, e a Sra. White tossiu ligeiramente quando o marido entrou na sala, seguido por um homem alto e corpulento, com olhos pequenos e nariz vermelho.
– Sargento Morris – disse ele, apresentando–o.

O sargento apertou as mãos e, sentando–se no lugar que lhe ofereceram perto do fogo, observou satisfeito o anfitrião pegar uísque e copos, e colocar uma pequena chaleira de cobre no fogo.

Depois do terceiro copo, seus olhos ficaram mais brilhantes, e ele começou a falar, o pequeno círculo familiar olhando com interessante este visitante de lugares distantes, quando ele empertigou os ombros largos na cadeira e falou de cenários selvagens e feitos intrépidos: de guerras, pragas e povos estranhos.

– Vinte e um anos nessa vida – disse o Sr. White, olhando para a esposa e o filho. – Quando ele foi embora era um rapazinho no armazém. Agora olhem só para ele.

– Ele não parece ter sofrido muitos reveses – disse a Sra. White amavelmente.

– Eu gostaria de ir à Índia – disse o velho – só para conhecer, compreende?

– Você está bem melhor aqui – disse o sargento, sacudindo a cabeça. Pôs o copo vazio na mesa e, suspirando baixinho, sacudiu a cabeça novamente.

– Eu gostaria de ver aqueles velhos templos, os faquires e os nativos – disse o velho. – O que foi que você começou a me contar outro dia sobre uma pata de macaco ou algo assim Morris?

– Nada – disse o soldado rapidamente. – Não é nada de importante.

– Pata de macaco? – perguntou a Sra. White, curiosa.

– Bem, é só um pouco do que se poderia chamar de magia, talvez – disse o sargento com falso ar distraído.

Os três ouvintes debruçaram–se nas cadeiras interessados. O visitante levou o copo vazio à boca distraidamente e depois recolocou–o onde estava. O dono da casa tornou a enchê–lo.

– Aparentemente – disse o sargento, mexendo no bolso – é só uma patinha comum dissecada.

Tirou uma coisa do bolso e mostrou–a. A Sra. White recuou com uma careta, mas o filho , pegando–a, examinou–a com curiosidade.

– E o que há de especial nela? – perguntou o Sr. White ao pegá–la da mão do filho e, depois de examiná–la, colocá–la sobre a mesa.

– Foi encantada por um velho faquir – disse o sargento –, um homem muito santo. Ele queria provar que o destino regia a vida das pessoas, e que aqueles que interferissem nele seriam castigados. Fez um encantamento pelo qual três homens distintos poderiam fazer, cada um, três pedidos a ela.

A maneira dele ao dizer isso foi tão solene que os ouvintes perceberam que suas risadas estavam um pouco fora e propósito.

– Bem, por que não faz os seus três pedidos, senhor? – disse Herbert White astutamente.

O soldado olhou para ele como olham as pessoas de meia–idade para um jovem presunçoso.

– Eu fiz – disse ele calmamente, e seu rosto marcado empalideceu.

– E teve mesmo os três desejos satisfeitos? – perguntou a Sra. White.

– Tive – disse o sargento, e o copo bateu nos dentes fortes.

– E alguém mais fez os pedidos? – insistiu a senhora.

– O primeiro homem realizou os três desejos – foi a resposta. – Eu não sei quais foram os dois primeiros, mas o terceiro foi para morrer. Por isso é que consegui a pata.

Seu tom de voz era tão grave que o grupo ficou em silêncio.

– Se você conseguiu realizar os três desejos, ela não serve mais para você Morris – disse o velho finalmente. – Para que você guarda essa pata?

O soldado meneou a cabeça.

– Por capricho, suponho – disse lentamente. – Cheguei a pensar em vendê–la, mas acho que não o farei. Ela já causou muitas desgraças. Além disso, as pessoas não vão comprar. acham que é um conto de fadas, algumas delas; e as que acreditam querem tentar primeiro para pagar depois.

– Se você pudesse fazer mais três pedidos – disse o velho, olhando para ele atentamente –, você os faria?

– Eu não sei – disse o outro. – Eu não sei.

Pegou a pata e, balançando–a entre os dedos, de repente jogou–a no fogo.

White, com um ligeiro grito, abaixou–se e tirou–a de lá.

– É melhor deixar que ela se queime – disse o soldado solenemente.

– Se você não quer mais, Morris – disse o outro –, me dá.

– Não – disse o amigo obstinadamente. – Eu a joguei no fogo. Se você ficar com ela, não me culpe pelo que acontecer. Jogue isso no fogo outra vez, como um homem sensato.

O outro sacudiu a cabeça e examinou sua nova aquisição atentamente.

– Como você faz para pedir? – perguntou.

– Segure a pata na mão direita e faça o pedido em voz alta – disse o sargento –, mas eu o advirto sobre as conseqüências.

– Parece um conto das Mil e uma noites – disse a Sra. White, ao se levantar e começar a pôr o jantar na mesa. – Você não acha que deveria pedir quatro pares de mão para mim?

– Se quer fazer um pedido – disse ele asperamente –, peça algo sensato. O Sr. White colocou a pata no bolso novamente e, arrumando as cadeiras acenou para que o amigo fosse para a mesa. Durante o jantar o talismã foi parcialmente esquecido, e depois os três ficaram escutando, fascinados, um segundo capítulo das aventuras do soldado na Índia.

– Se a história sobre a pata de macaco não for mais verdadeira do que as que nos contou – disse Herbert, quando a porta se fechou atrás do convidado, que partiu a tempo de pegar o último trem–, nós não devemos dar muito crédito a ela.

– Você deu alguma coisa a ele por ela, papai? – perguntou a Sra. White, olhando para o marido atentamente.

– Pouca coisa – disse ele, corando ligeiramente. – Ele não queria aceitar, mas eu o fiz aceitar. E ele tornou a insistir que eu jogasse fora.

– É claro – disse Herbert, fingindo estar horrorizado. – Ora, nós vamos ser ricos, famosos e felizes. Peça para ser um imperador, papai, para começar, então você não vai ser mais dominado pela mulher.

Ele correu em volta da mesa, perseguido pela Sra. White aramada com uma capa de poltrona.

O Sr. White tirou a pata do bolso e olhou para ela dubiamente.

– Eu não sei o que pedir, é um fato – disse lentamente. – Eu acho que tenho tudo o que quero.

– Se você acabasse de pagar a casa ficaria bem feliz, não ficaria? – disse Herbert, com a mão no ombro dele. – Bem, peça 200 libras, então, isso dá.

O pai, sorrindo envergonhado pela própria ingenuidade, segurou o talismã, quando o filho, com uma cara solene, um tanto franzida por uma piscadela de olhos para a mãe, sentou–se no piano e tocou alguns acordes para fazer fundo.

– Eu desejo 200 libras – disse o velho distintamente.

Um rangido do piano seguiu–se às palavras, interrompido por um grito estridente do velho. A mulher e o filho correram até ele.

– Ela se mexeu – gritou ele, com um olhar de nojo para o objeto caído no chão. – Quando eu fiz o pedido, ela se contorceu na minha mão como uma cobra.

– Bem, eu não vejo o dinheiro – disse o filho ao pegá–la e colocá–la em cima da mesa – e aposto que nunca vou ver.

– Deve ter sido imaginação sua, papai – disse a esposa, olhando para ele ansiosamente.

Ele sacudiu a cabeça.

– Não faz mal, não aconteceu nada, mas a coisa me deu um susto assim mesmo.

Eles se sentaram perto do fogo novamente enquanto os dois homens acabavam de fumar cachimbos. Lá fora, o vento zunia mais do que nunca, e o velho teve um sobressalto com o barulho de uma porta batendo no andar de cima. Um silêncio estranho e opressivo abateu–se sobre todos os três, e perdurou até o velho casal se levantar e ir dormir.

– Eu espero que vocês encontrem o dinheiro dentro de um grande saco no meio da cama – disse Herbert, ao lhes desejar boa noite – e algo terrível agachado em cima do armário observando vocês guardarem seu dinheiro maldito.

Ficou sentado sozinho na escuridão, olhando para o fogo baixo e vendo caras nele. A última cara foi tão feia e tão simiesca que ele olhou para ela assombrado. A cara ficou tão vivida que, com uma risada inquieta, ele procurou um copo na mesa que tivesse um pouco de água para jogar no fogo. Sua mão pegou na pata de macaco, e com um ligeiro estremecimento ele limpou a mão no casaco e foi dormir.


II
Na claridade do sol de inverno, na manhã seguinte, quando este banhou a mesa do café, ele riu de seus temores. Havia um ar de naturalidade na sala que não existia na noite anterior, e a pequena pata suja estava jogada na mesa de canto com um descuido que não atribuía grande crença a suas virtudes.

– Eu creio que todos os velhos soldados são iguais – disse a Sra. White. – Essa idéia de dar ouvidos a tal tolice! Como é que se pode realizar desejos hoje em dia? E se fosse possível, como é que iam aparecer 200 libras, papai?

– caindo do céu, talvez – disse Herbert, com ar brincalhão.

– Morris disse que as coisas aconteciam com tanta naturalidade – disse o pai – que a gente podia até achar que era coincidência.

– Bem, não gaste o dinheiro antes de eu voltar – disse Herbert, ao se levantar da mesa. – Estou com medo de que você se torne um homem mesquinho e avarento, e vamos ter de renegá–lo.

A mãe riu e, acompanhando–o até a porta, viu–o descer a rua. Voltando à mesa do café, divertiu–se à custa da credulidade do marido. O que não a impediu de correr até a porta com a batida do carteiro, nem de se referir a sargentos da reserva com vício de beber, quando descobriu que o correio trouxera uma conta do alfaiate.

– Herbert vai dizer uma das suas gracinhas quando chegar em casa – disse ela, quando se sentaram para jantar.

– Com certeza – disse o Sr. White, servindo–se de cerveja –, mas, apesar de tudo, a coisa se mexeu na minha mão; eu posso jurar.

– Foi impressão – disse a senhora apaziguadoramente.

– Estou dizendo que se mexeu – replicou o outro. – Não há dúvida; eu tinha acabado... O que houve?

A mulher não respondeu. Estava observando os movimentos misteriosos de um homem do lado de fora, que, espiando com indecisão para a casa, parecia estar tentando tomar a decisão de entrar. Lembrando–se das 200 libras, ela reparou que o estranho estava bem–vestido e usava um chapéu de seda novo. 

Por três vezes ele parou no portão, e depois caminhou novamente. Da quarta vez ficou com a mão parada sobre ele, e depois com uma súbita resolução abriu–o e entrou. A Sra. White no mesmo momento desamarrou o avental rapidamente, colocando–o debaixo da almofada da cadeira. Convidou o estranho, que parecia deslocado, a entrar. Ele olhou para ela furtivamente, e ouviu preocupado, a senhora desculpar–se pela aparência da sala, e pelo casaco do marido, uma roupa que ele geralmente reservava para o jardim. Então ela esperou, com paciência, que ele falasse do que se tratava, mas, a princípio, ele ficou estranhamente calado.

– Eu... pediram–me para vir aqui – disse ele finalmente, e abaixando–se tirou um pedaço de algodão das calças. – Eu venho representando "Maw&Meggins".

A senhora sobressaltou–se.

– Aconteceu alguma coisa? – perguntou ela, ofegante – Acontecem alguma coisa a Herbert? O que é? O que é?

O marido interveio.

– Calma, calma, mamãe – disse ele rapidamente. – Sente–se e não tire conclusões precipitadas. O senhor certamente não trouxe más notícias, não é, senhor – e olhou para o outro ansiosamente.

– Eu lamento... – começou o visitante.

– Ele está ferido? – perguntou a mãe desesperada.

O visitante assentiu com a cabeça.

– Muito ferido – disse. – Mas não está sofrendo.

– Ah, graças a Deus! – disse a senhora, apertando as mãos. – Graças a Deus! Graças...

Parou de falar de repente quando o significado sinistro da afirmativa se abateu sobre ela, e ela viu a terrível confirmação de seus temores no rosto desviado do outro. Prendeu a respiração e, virando–se para o marido, menos perspicaz, pôs a mão trêmula sobre a dele. Seguiu–se um demorado silêncio.

– Ele foi apanhado pela máquina – repetiu o Sr. White, estonteado. – Ah! Sim.

Ficou sentado olhando para a janela e, tomando a mão da esposa entra as suas, apertou–a como tinha vontade de fazer nos velhos tempos de namoro há quase 40 anos.

– Ele era o único que nos restava – disse ele, voltando–se amavelmente para o visitante. – É difícil.

O outro tossiu e, levantando–se, caminhou lentamente até a janela.

– A firma me pediu para transmitir os nossos sinceros pêsames a vocês por sua grande perda – disse ele, sem olhar para trás. – Eu peço que compreendam que sou apenas um empregado da firma e estou apenas obedecendo ordens.

Não houve resposta; o rosto da senhora estava branco, os olhos parados e a respiração inaudível; no rosto do marido havia um olhar que o amigo sargento talvez tivesse na primeira batalha.

– Devo dizer que "Maw&Meggins" estão isentos de toda responsabilidade – continuou o outro. – Eles não têm nenhuma dívida com a família, mas, em consideração aos serviços de seu filho, desejam presenteá–los com uma certa soma como compensação.

O Sr. White largou a mão da esposa e, pondo–se de pé, olhou para o visitante horrorizado. Seus lábios secos pronunciaram as palavras:

– Quanto?

– Duzentas libras – foi a resposta.

Indiferente ao grito da esposa, o velho sorriu fracamente, estendeu as mãos como um homem cego e caiu, desfalecido, no chão.


III
No enorme cemitério novo, a alguns quilômetros de distância, os velhos enterraram seu morto e voltaram para casa mergulhada em sombras e silêncio. Tudo terminara tão rápido que a princípio nem se davam conta do que acontecera, e ficaram num estado de expectativa como se fosse acontecer mais alguma coisa – algo mais que aliviasse esse fardo, pesado demais para corações velhos.

Mas os dias se passaram, e a expectativa deu lugar à resignação – a resignação desesperançada dos velhos, às vezes chamada erradamente de apatia. Algumas vezes nem trocavam uma palavra, pois agora não tinham nada do que falar e os dias eram compridos e desanimados.

Foi por volta de uma semana depois que o velho, acordando subitamente de noite, estendeu o braço e viu–se sozinho. O quarto estava no escuro e o ruído de soluços baixinhos vinha da janela. Ele se levantou na cama e ficou ouvindo.

– Volte para a cama – disse ele ternamente. – Você vai ficar gelada.

– Está mais frio para ele – disse a senhora, e chorou novamente.

O som de seus soluços apagou–se nos ouvidos dele. A cama estava quente, e seus olhos pesados de sono. Ele cochilava a todo instante e acabou pegando no sono, quando um súbito grito histérico da esposa o despertou com um sobressalto.

– A pata! – gritou histericamente. – A pata de macaco!

Ele se levantou, alarmado.

– Onde? Onde está? O que houve?

Ela correu agitada até ele.

– Eu quero a pata – disse ela calmamente. – Você não a destruiu?

– Está na sala, em cima da prateleira – replicou ele atônito. – Por quê?

Ela chorou e riu ao mesmo tempo e, debruçando–se, beijou–o no rosto.

– Só tive essa idéia agora – disse ela histericamente. – Por que não pensei nisso antes? Por que você não pensou nisso antes?

– Pensar em quê? – perguntou ele.

– Nos outros dois desejos – replicou ela rapidamente. – Nós só fizemos um pedido.

– Não foi suficiente? – perguntou ele, irado.

– Não – gritou ela, triunfante; – ainda vamos fazer um.

Desça, apanhe a pata rapidamente, e deseje que o nosso filho viva novamente.

O homem sentou–se na cama e arrancou as cobertas de cima do corpo trêmulo.

– Meu bom Deus, você está louca! Gritou ele, horrorizado.

– Pegue aquela coisa – disse ela, ofegante –, pegue depressa, e faça o pedido... Ah, meu filho, meu filho!

O Marido riscou um fósforo e acendeu a vela.

– Volte para a cama – disse ele, incerto. – Você não sabe o que está dizendo.

– Nós conseguimos satisfazer o primeiro pedido – disse a senhora, febrilmente. – Por que não o segundo?

– Foi uma coincidência – gaguejou o velho.

– Vá buscar a pata e faça o pedido – gritou a esposa, tremendo de excitação.

O velho virou–se, olhou para ela, e sua voz tremeu.

– Ele já está morto há 10 dias e, além disso, ele... – eu não queria lhe dizer isso, mas... só consegui reconhecê–lo pela roupa. Se já estava tão horrível para você ver, imagine agora?

– Traga–o de volta – gritou a senhora, e o arrastou para a porta. – Você acha que tenho medo do filho que criei?

Ele desceu na escuridão, foi tateando até a sala e depois até a lareira. O talismã estava no lugar, e um medo horrível de que o desejo ainda não expresso pudesse trazer o filho mutilado apossou–se dele, e ficou sem ar ao perceber que perdera a direção da porta. Com a testa fria de suor, ele deu volta na mesa, tateando, e foi–se amparando na parede até se achar no corredor com a coisa nociva na mão.

Até o rosto da esposa parecia mudado quando ele entrou no quarto. Estava branco e ansioso, e para seu temor parecia ter um olhar estranho. Ele sentiu medo dela.

– Peça! – gritou ela, com voz forte.

– Isso é loucura – disse ele, com voz trêmula.

– Peça! – repetiu a esposa.

Ele levantou a mão.

– Eu desejo que meu filho viva novamente.

O talismã caiu no chão, e ele olhou para a coisa com medo.

Então afundou numa cadeira, trêmulo, quando a esposa, com os olhos ardentes, foi até a janela e levantou a persiana.

Ficou sentado até ficar arrepiado de frio, olhando ocasionalmente para a figura da velha senhora espiando pela janela.

O cotoco de vela, que queimara até a beirada do castiçal de porcelana, jogava sombras sobre o teto e as paredes, até que, com um bruxulear maior do que os outros, se apagou. O velho, com uma imensa sensação de alívio pelo fracasso do talismã, voltou para a cama, e um ou dois minutos depois a senhora veio silenciosamente para o seu lado.

Nenhum dos dois disse nada, mas permaneceram deitados em silêncio, ouvindo o tique–taque do relógio. Um degrau rangeu, e um rato correu guinchando através do muro. A escuridão era opressiva e, depois de ficar deitado por algum tempo, criando coragem, ele pegou a caixa de fósforos e, acendendo um, foi até embaixo para pegar uma vela.

Nos pés da escada o fósforo se apagou, e ele parou para riscar outro; no mesmo momento ouviu–se uma batida na porta da frente, tão baixa e furtiva que quase não se fazia ouvir.

Os fósforos caíram–lhe da mão e espalharam–se no corredor. Ele permaneceu imóvel, com a respiração presa até a batida se repetir. Então virou–se e fugiu rapidamente para o quarto, fechando a porta atrás de si.

Uma terceira batida ressoou pela casa.

– O que é isso? – gritou a senhora, levantando–se.

– Um rato – disse o velho com voz trêmula –, um rato.

Ele passou por mim na escada.

A esposa sentou–se na cama, escutando. Uma batida alta ressoou pela casa.

– É Herbert! – gritou. – É Herbert!

Ela correu até a porta, mas o marido ficou na frente dela e, pegando–a pelo braço, segurou–a com força.

– O que você vai fazer? – sussurrou ele com voz rouca.

– É meu filho; é Herbert! – gritou ela, debatendo–se mecanicamente. – Eu esqueci que ele estava a 10 quilômetros daqui. Por que está me segurando? Me solte. Eu tenho de abrir a porta.

– Pelo amor de Deus não deixe entrar – gritou o velho tremendo.

– Você está com medo do próprio filho – gritou ela, debatendo–se. – Me solte. Eu já vou, Herbert; eu já vou.

Ouviu–se mais uma batida, e mais outra. A senhora com um arrancão súbito soltou–se e saiu correndo do quarto. O marido seguiu–a até a escada e chamou–a enquanto ela corria para baixo. Ele ouviu a corrente chocalhar e a tranca do chão ser puxada lenta e firmemente do lugar. Então a voz da senhora soou, nervosa e ofegante.

– A tranca – gritou ela alto. – Desça que eu não consigo puxar a tranca.

Mas o marido estava de joelhos no chão, procurando a pata desesperadamente. Se pelo menos conseguisse encontrá–la antes que a coisa entrasse. Uma série de batidas reverberou pela casa, e ele ouviu o arrastar de uma cadeira quando a esposa a colocou no corredor encostada na porta. Ouviu o ranger da tranca quando esta se destravou lentamente, e no mesmo momento encontrou a pata de macaco, e desesperadamente fez o terceiro e último pedido.

As batidas pararam subitamente, embora ainda ecoassem na casa. Ele ouviu a cadeira ser arrastada de volta, e a porta se abrir. Um vento frio subiu pela escada, e um gemido alto e demorado de decepção e tristeza da esposa lhe deu coragem para correr até ela e depois até o portão. O lampião da rua que tremulava do outro lado brilhava numa estrada silenciosa e deserta.
W. W. Jacobs

Fonte: lercontosdeterror.blogspot.com

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Colocação De Produtos - Chuck Palahiuk



Ao Senhor Kenneth MacArthur
Gerente da Corporate Communications
Kutting-Blok Knife Products, Inc.
Prezado Senhor MacArthut,
Só para esclarecer, vocês fabricam uma faca maravilhosa. Uma faca excelente.

O trabalho numa cozinha profissional já é duro, por si só, para ainda ser feito com facas ruins. Um Allumette de batata perfeito precisa ser mais fino que um lápis. Um corte de cheveu perfeito tem mais ou menos a grossura de um arame, ou seja, metade da grossura de uma batata frita. A gente ganha a vida cortando cenouras à brunoisette com as caçarolas sauté já a espera com manteiga quente, e ouvindo berros que pedem batata àminunette. Quem passa por isso logo aprende a diferença entre uma faca ruim e uma Kutting-Blok.
Eu tenho muitas histórias para contar a vocês. As suas facas vivem salvando o meu rabo. Só quem passa oito horas cortando endívias belgas pode entender o tipo de vida que levo.
Mas é infalível: você passa o dia inteiro esculpindo cenouras pequenas, dando uma forma perfeitamente ovalada a cada uma delas, e a única cenoura que sai malfeita vai parar no prato de um cozinheiro fracassado. Ele é um João-ninguém com diploma de serviços de hospitalidade, um mero pedaço de papel obtido em uma faculdade vagabunda, e agora acha que é um critico gastronômico. É um babaca que mal sabe mastigar e engolir, mas no jornal da semana seguinte ele escreve que o cozinheiro do Chez Restaurant esculpe as cenouras com desleixo.
Uma puta que nenhum banqueiro contrataria, nem para canelar cogumelos, publica na imprensa que minhas pastinacas bâtonnet são grossas demais.
São traíras. Sempre é mais fácil achar defeito no trabalho dos outros que cozinhar as refeições.
Saibam do seguinte: sempre que uma pessoa pede batatas dauphinoise ou carpaccio de carne, alguém da nossa cozinha diz uma pequena oração de graças pelas facas Kuttin-Blok. Seu equilíbrio perfeito. Seu cabo rebitado.
Claro, podem bater na madeira: todos nós gostaríamos de ganhar mais dinheiro com menos trabalho. Mas trair os outros, virar critico, fingir que sabe tudo, dar rasteiras em pessoas que tentam ganhar a vida tirando pele de língua de vitela, aparando gorduras de rins, e arrancando membranas de fígados… enquanto os críticos ficam sentados em seus escritórios limpos, digitando reclamações com belos dedos limpos… isso simplesmente não é direito.
Claro, é só a opinião dele.Mas aparece junto das noticias verdadeiras, como fome, assassinatos em série e terremotos, recebendo o mesmo grau de importância. É alguém reclamando porque a massa que pediu não estava bem al dente. Como se sua opinião fosse um ato de Deus.
Uma garantia negativa. O contrario de um anuncio.
Na minha opinião, quem sabe faz. Quem não sabe, critica.
Isso não é jornalismo. Não tem objetividade. Não é reportagem, é julgamento.
Esses críticos não conseguiriam preparar uma boa refeição nem que suas vidas dependessem disso.
Foi com isso em mente que comecei meu projeto.
Por melhor que você seja, trabalhar numa cozinha é uma morte lenta, ocasionada por um milhão de cortes de faca, dez mil pequenas queimaduras e escaldamentos. Você passa a noite em pé no cimento. Vive andando em cima de chãos gordurosos ou molhados. Sofre lesões no túnel cárpico, danos nervosos resultantes de tanto mexer, cortar e tirar com a colher. Ou de pescar um mar de camarões debaixo do gelo. Tem dores no joelho e veias varicosas, afecções do pulso e do cotovelo por esforço repetitivo. Uma carreira coroada de calamares rellenos equivalentes ao martírio de uma vida toda. Uma vida toda produzindo o ossobuco allá milase ideal, equivalente a uma morte lenta por tortura.
Por mais que seu couro seja grosso, porém, não é bom ser retalhado em publico, por alguém que escreve num jornal, ou na Internet.
Esses críticos virtuais estão por ai às dúzias, basta ter uma boca e um computador.
É isso que todos os meus alvos tem em comum. Por sorte os policias não cooperam muito uns com os outros. Talvez notassem um escritor independente em Seatle, um estudante resenhista em Miami, um turista do meio-oeste postando sua opinião numa página de Internet sobre viagens… Todos os meus dezesseis alvos até agora tinham algo em comum. E eu tenho anos de motivação.
Não há diferença entre desossar um coelho e desossar um babaca que escreveu na Internet que a sua constatine al finochcio precisa de mais marsala.
Tudo graças as facas Kutting-Blok. As facas para tourné, forjadas, executam as duas tarefas com perfeição, sem cansar a mão e o pulso como fazem as facas de desossar prensadas, mais baratas.
É como limpar uma aba de carne ou esfolar um pilantra safado que publicou um artigo dizendo que você estragou o filé à Wellington colocando patê de fígado em demasia: As duas facas são rápidas e não requerem esforço, graças à flexível lamina de 20 centímetros da faca de cortar filé de vocês.
Fáceis de limpar e fáceis de amolar. As facas de vocês são uma benção.
Já os alvos, esses acabam me decepcionado, por menor que seja minha expectativa de encontrar essas pessoas.
Só é necessário um simples elogio para marcar um encontro, sugerindo o tipo de parceiro sexual que essa pessoa pode vir a querer. Melhor ainda, você pode sugerir que é editor de uma revista nacional, pensando em dar-lhes visibilidade mundial. Exaltar-lhes a voz. Oferecer-lhes a glória tão merecida. Abrir-lhes a porta da proeminência.
Basta acenar com metade dessa bosta lisonjeira, e esse pessoal irá ao seu encontro em qualquer beco escuro que você indicar.
Pessoalmente, os olhos dessa gente são bastante pequenos. Cada olho parece uma bola de gude negra enfiada no umbigo de um homem gordo. Graças, em parte, as facas Kuting-Blok, o aspecto do pessoal sempre fica melhor quando você limpa, apara e enfeita tudo. É carne, pronta para ser bem usada.
Depois de retiras as vísceras frias de cem galinhas-de-angola, não é muito difícil cortar a barriga de um jornalista freelancer que escreveu em algum guia de entretenimento regional que seus folheados de chicória e queijo feta estavam duros demais. Não. Com seus vinte centímetros a faca Kutting-Blok torna essa tarefa tão fácil como limpar um salmão, uma truta ou qualquer peixe redondo.
É esquisito como certas coisas chamam mais a minha atenção. Olhando para o fino tornozelo branco de alguém, eu logo imagino que tipo de garota ela deve ter sido na escola, antes de aprender a ganhar a vida atacando comida. Lembro também de um crítico que usava sapatos marrons, tão reluzentes quanto a cobertura de caramelo de um creme brûlée.
É essa a atenção aos detalhes que vocês põe em cada faca.
Eu costumava por o mesmo cuidado e a mesma atenção no meu trabalho de cozinheiro.
Por mais cuidadoso que eu seja, porém, a policia acabará me pegando. É apenas uma questão de tempo. Pensando nisso, meu único medo é que as facas Kutting-Blok fiquem ligadas, na opinião pública, a uma série de atos que podem ser mal interpretados.
Gente demais enxergará em minha preferência uma espécie de endosso. Como se Jack, o estripador estivesse fazendo um comercial de televisão. Ou Ted Bundy anunciasse uma certa marca de corda.
É realmente um tipo de endosso negativo. Talvez isso até reduza a fatia de mercado e as vendas totais de vocês. Principalmente no varejo, durante a temporada natalina que se avizinha.
Assim que recebem a noticia de um grande desastre com um jato comercial, seja um choque em pleno no ar, um sequestro, ou uma colisão na pista, os principais jornais sempre suspendem todos os grandes anúncios de companhias aéreas programados para o dia seguinte. Isso acontece selando os anúncios, mesmo que precisem pagar integralmente pelos espaços que não usaram. Esses espaços são preenchidos na ultima hora por anúncios gratuitos promovendo a Sociedade Americana do Câncer, ou de Distrofia Muscular. Pois as companhias aéreas não querem se arriscar a ficar associadas com as noticias desastrosas do dia. Não querem ficar ligadas, na opinião publica, há centenas de mortos.
É preciso muito pouco esforço para recordar o que hoje chamamos de assassinatos do Tylenol fizeram ao estoque do remédio. Com sete pessoas mortas, só o recolhimento do produto no ano de 1982 custou à Johnson & Johnson 125 milhões de dólares.
Esse tipo de endosso negativo é o contrário de uma anúncio, é isso que os críticos fazem com suas resenhas venenosas, publicadas apenas para mostrar que se tornaram inteligentes e amargos.
Os detalhes de cada alvo, inclusive as facas usadas, ainda estão todos frescos na minha mente. A policia precisaria de muito pouco esforço para me fazer confessar, anunciando publicamente a ampla variedade das excelentes facas fabricadas por vocês e utilizadas por mim, e com que propósito.
Deste momento em diante,. As pessoas sempre se referirão as “Séries de Assassinatos Kutting-Blok” ou “Matança das Facas Kutting-Blok”. A empresa de você é muito mais conhecida que um pobre anônimo como eu. Vocês já tem uma faca em tantas cozinhas. Seria uma pena ver um nível de excelência do trabalho duro de você, fruto de gerações inteiras, sendo aniquilados pelos meus projetos.
Por favor, considerem que os críticos gastronômicos não compram muitas facas. Podem bater na madeira, mas todo o nosso ramo talvez fique do meu lado nesse caso. Eu, um herói popular. Nunca se sabe.
Qualquer pequeno investimento que vocês possam fazer trará benefícios à ambas partes.
Quanto mais recursos vocês puderem fornecer para que eu não seja capturado, menos provável será que esse fato infeliz venha a ser conhecido pelos fornecedores de facas. Um pequeno brinde de 5 milhões de dólares permitirá que eu imigre e viva sem ser notado em outro país, bem longe do mercado demográfico de vocês. Para a empresa esse dinheiro garantirá uma ascensão constante e um futuro grandioso. Para mim, financiará a reciclagem em outra área de trabalho em uma carreira nova.
Ou então, por apenas 1 milhão de dólares, eu passarei para as facas Sta-Sharp…e se for preso, jurarei que usei o produto de segunda categoria durante todo meu projeto…
Um milhão de dólares, que tal isso em troca de fidelidade à marca?
Para demonstrar que desejam contribuir com meu plano, por favor publiquem um anúncio no jornal local de vocês no próximo domingo. Ao ver o anuncio, eu entrarei em contato para aceitar sua ajuda. Até então, preciso continuar meu trabalho. Caso contrário, vocês podem esperar outro alvo.
Obrigado por levar em consideração minha solicitação. Aguardo uma resposta de vocês em breve.
Neste mundo em que tão pouca gente dedica sua vida à produzir produtos de qualidade duradoura, envio meus aplausos à empresa.
Como sempre, continuo sendo o maior fã de vocês.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/colocacao-de-produtos-chuck-palahiuk.html

domingo, 25 de dezembro de 2016

Os Estranhos Moradores do Hotel Lancaster

Durante o expediente na repartição pública, Ramon fazia questão de ser apenas um fantasma, aquele que batia o ponto exatamente no horário, respondia aos cumprimentos dos colegas de trabalho com resmungos, sentava-se à mesa na seção contábil e anulava-se no mundo dos números. Nunca foi convidado para reunir-me com a turma no barzinho às sextas-feiras à noite, não participava de brincadeiras tipo amigo-secreto, jamais foi a um batizado de filhos de funcionários, sua boca sempre permaneceu descaída quando o chefe contava piadas idiotas – ninguém tentava conquistar sua amizade, o que lhe parecia uma bênção.
Mas há dois dias o comportamento de Ramon mudou. Passou a xingar os colegas da repartição por qualquer coisinha, a chutar a lixeira perto da mesa, teve duas ou três crises constrangedoras de choro convulso, ali, bem diante de todos. Consequência: prestes a terminar o expediente, foi chamado à sala da chefia, recebeu uma suspensão de três dias e conselho para procurar um psicólogo.

O motivo para essa anormalidade no seu cotidiano de arquivo-morto foi que assaltaram sua moradia e furtaram, entre outras coisas, uma luneta que ele, Ramon, levou exatos oito meses para pagar em suadas prestações. A luneta era seu bem mais precioso, o instrumento que dava alguma cor em seu viver: Ramon saía da repartição, pegava o ônibus, chegava ao bairro, comprava uma quentinha no restaurante da esquina e subia para a residência no sétimo andar. Tomava banho, vestia o roupão, comia, tomava um copo d'água e ia para a janela bisbilhotar os moradores do Grande Hotel Lancaster – um prédio de doze andares muito antigo situado do outro lado da rua.
O edifício estava condenado, mas, sabe-se lá por qual razão, todas as tentativas de implosão tinham acabado em tragédia, em menor ou maior proporção. Da última vez (e isso fazia uns três meses), os operários estavam instalando os explosivos na base da construção quando um deles foi para os ares, a carga de dinamites misteriosamente detonou na mão do especialista e, o mais curioso, apenas o profissional fragmentou-se como uma pedra de gelo atingida por um martelo. Do prédio mesmo, não caiu nem mesmo uma lasca de reboco. Como o imóvel não queria ser demolido, uns doidos começaram a usá-lo como moradia, às escondidas.
Talvez não fossem realmente doidos, apenas excêntricos – assim pensava Ramon –, já que ninguém ousava aparecer na rua durante o dia. A bem da verdade, só algumas janelas brilhavam durante a noite, uns poucos moradores descerravam as cortinas e, parece, não se importavam que Ramon espionasse suas intimidades.
No começo Ramon costumava olhar um jovem casal morador no quinto andar e ficava intrigado com a maneira peculiar de eles fazerem sexo. Antes e depois da relação carnal os dois ajoelhavam-se ao lado da cama e pareciam rezar – mas com o passar das noites Ramon percebeu que o casal trocou a luz do teto, fluorescente, por lâmpadas que proporcionavam uma claridade soturna, de um roxo-violáceo, e viu também que num móvel escuro de contornos semelhante a um oratório queimavam velas vermelhas e pretas. De pronto perdeu o interesse pela intimidade daquela gente. Havia no sexto andar uma garota lésbica que lhe chamou a atenção pela facilidade com que arranjava parceiras. Ficou fascinado pelo instinto caçador da moradora – até que a flagrou numa suruba com três marmanjos. Aquilo foi a gota d'água, Ramon perdeu todo o respeito que nutria por ela. No mais, o que se via em um ou outro apartamento eram coitos simples, papai-e-mamãe, sem nenhum atrativo digno de observação. Exceto no sétimo andar. O casal de meia idade fazia estripulias na cama que era de infantilizar as posições sexuais do livro Kama Sutra. Assim, Ramon concentrou suas atenções apenas naquelas duas pessoas.
Agora estava de gancho. Ramon deixou o gabinete do chefe de seção com uma raiva tão danada que sentia na boca o gosto amargo do fel destilando em seu organismo - além de ficar sem a luneta, teria que se afastar do trabalho, sem sal, é verdade, mas que de qualquer forma ajudava a enganar a miserabilidade da rotina diária. Voltou para sua mesa e estava tão revoltado que ninguém ousou ao menos levantar os olhos para o seu lado.
Deixou a repartição como sempre fazia, às cinco da tarde, e aproveitou o restinho do dia para passear pelo calçadão, vistoriando com o olhar atento as óticas e lojas congêneres. Viu algumas lunetas, a maioria era produto de baixíssima qualidade, as de alto padrão estavam acima de suas possibilidades monetárias. Por fim acabou comprando um binóculo ordinário e prometeu a si mesmo que tal coisa seria um paliativo. No findar do mês haveria de entrar no crediário para a aquisição de nova luneta – tão portentosa como a que fora furtada. Comeu um cachorro-quente numa lanchonete e foi ao cinema, assistiu a um filme de ficção científica sobre a dominação da humanidade por robôs, saiu de lá por volta das onze da noite e rumou para casa – aquela era a hora de testar a funcionalidade do seu novo brinquedinho, se bem que não estava botando fé naquele binóculo tão mixuruca.
Ao chegar ao prédio o porteiro da noite deixou por breve momento a leitura do livrinho de faroeste e entregou a Ramon um curioso envelope roxo com seu nome escrito em letras góticas.
– Quem deixou isso? – perguntou Ramon ao porteiro.
– Sei lá, eu fui ao banheiro, quando voltei o envelope tava em cima do balcão.
Ramon subiu para o apartamento com a cabeça atordoada. Ninguém nunca, jamais, lhe escrevera uma linha sequer – e a sua primeira correspondência era aquilo, um envelope macabro. Sentou-se à mesa da cozinha, abriu o envelope e tirou uma folha de papel amarelo. Havia só uma frase escrita com tinta dourada: "Oi, querido, nós te convidamos para vir nos conhecer pessoalmente." Não havia assinatura, mas Ramon sabia que os remetentes moravam no Grande Hotel Lancaster. Desembrulhou o binóculo e foi para a janela, assim que posicionou o instrumento todas as janelas se iluminaram como se o edifício fosse uma árvore de Natal. Fascinado, Ramon constatou que as cortinas estavam abertas.
O binóculo era fantástico, muito melhor que a luneta, podia ver cada detalhe do pessoal esquisito. E o que constatou, com espanto, é que todos estavam usando trajes a rigor. As mulheres cobriam-se de vestidos de zemberlines, tafetás de seda, shantungs, georgettes e jacquards – uns vestidos com decotes mostrando grandes porções de bustos graciosos cobertos com jóias de muitos matizes cintilando numa disputa feroz com a claridade ofuscante dos apartamentos. Os homens trajavam smokings, as exceções eram um militar com a farda carregada de medalhas e um outro indivíduo com um uniforme engraçado, principalmente por causa do chapéu de três pontas que lembrava Napoleão Bonaparte. Apesar de sua sala estar mergulhada na escuridão, Ramon concluiu que os indivíduos do edifício de alguma maneira não só tinham conhecimento que estavam sendo observados naquele minuto, como tinham atitudes do mais puro exibicionismo.
No quinto andar uma loira alta, linda, ergueu uma taça de champanhe em sua direção, um sorriso magnífico no rosto de linhas harmoniosas, perfeitas. Fascinado, Ramon ficou muito tempo analisando-a, mentalmente fantasiando que acariciava aqueles cabelos dourados que lhe caíam pelas costas em graciosas ondas – em suaves cascatas, diria alguém com espírito poético. Ela mandou um beijinho com a ponta dos dedos unidos, depois pegou o celular e, ainda olhando-o, teclou. O seu telefone fixo na sala estridulou. Ramon ficou confuso, cheio de perguntas para si mesmo: como ela sabia o seu número? Porque só podia ser ela fazendo a ligação, ninguém jamais tentou falar com Ramon naquele telefone e, é claro, o aparelho já estava instalado quando ele alugara o imóvel. Correu atarantado para a mesinha, ao atender suas mãos cobriam-se de gotículas de suores gelados. Antes de abrir a boca, ouviu:
– Olá, meu querido, você não vem?
A voz que chegava ao seu ouvido era absolutamente encantadora, quente, envolvente, sexy e acariciante. Ramon engoliu salivas várias vezes antes de perguntar:
– Vocês estão dando uma festa?
– Estamos sim, uma festa de despedida. Antes de raiar o dia estaremos todos de mudança, não é mais possível adiar a implosão desse maravilhoso hotel.
– Vão embora?!
– Nosso Mestre encontrou um castelo magnífico no Sul da França. Está em ruínas, é claro.
– Não façam isso, eu não quero – disse Ramon, infantilmente.
– Temos que mudar, querido. Fazemos isso há muito tempo, não é um inconveniente, muito pelo contrário. É tão bom mudar de ares! E na França agora é outono, você não acha o outono a estação mais linda do ano?
– Prefiro o inverno...
– Oh, que fofinho! Você vem?
– Não tenho traje a rigor...
– Vista o seu terno de formatura.
– Como sabe que ainda tenho meu terno de formatura?
– Meu querido acredite, eu sei de tudo. De tudo!
– Será que o terno ainda me serve?
– Claro que serve! Olha, vou esperar você na recepção do hotel. Por favor, não demore, querido... – A mulher desligou, Ramon correu para a janela, posicionou o binóculo – o apartamento estava vazio, todos os apartamentos estavam vazios. Então ouviu o som de valsa, era isso, a festa estava começando. Rapidamente dirigiu-se para o guarda-roupa, retirou o terno escuro de gabardine de quando se formara em Ciências Contábeis, vestiu-o, calçou meias amarelas – não as tinha da cor preta –, o par de sapatos social um tanto empoeirado, uma gravata fina cinzenta, olhou-se no espelho.
– Estou bem? – Perguntou-se.
– Sim, estou ótimo! – Respondeu baixinho, sorrindo para o seu reflexo.
O porteiro sentia profunda aversão por Ramon, só lhe dirigia a palavra quando era absolutamente necessário. Mas naquele momento, vendo-o de terno e gravata, não resistiu à curiosidade.
– Vai para algum velório? – perguntou.
Ramon sorriu – era a primeira vez na vida que o porteiro via o rosto daquele rapaz abestalhado abrir-se num rasgo de alegria.
– Vou a uma festa.
O porteiro largou o livrinho de faroeste aberto em cima do balcão e emparelhou-se a Ramon, ambos dirigiram-se para a porta de saída.
– Posso saber onde é o baile? – Perguntou assim que chegaram à calçada.
– Ali. – Ramon apontou a fachada do Grande Hotel Lancaster.
– Só se for pra dançar com fantasmas, o hotel tá completamente abandonado, se duvidar até as baratas e ratos fugiram dali.
– Não está vendo todas as luzes acesas? – Estranhou Ramon.
–Cara, o que você tem, tá maluco, é? O lugar tá mais escuro que a alma do capeta.
Ramon indignou-se, até um cego perceberia aquela explosão de luzes. Achou que o porteiro estava querendo gozar com sua cara. Mas a música, não estaria ouvindo? O som estava bem alto, um som de música orquestral ao vivo, com toda certeza uma orquestra inteirinha estava tocando no salão de bailes do Grande Hotel Lancaster.
– Não está ouvindo a música?
– Você é retardado? Que música?
– Você não passa do sujeito mais ignorante do mundo. Um completo idiota. – Ramon indignou-se.
O porteiro, morrendo de rir, ficou plantado na calçada observando Ramon atravessar a rua. Então parou de rir ao ver que o esquisitão adentrava o hotel em ruínas. Ele teve que admitir, Ramon era amalucado, é verdade, mas que coragem! Santo Deus, que coragem!
Algumas horas depois, Ramon saiu daquele hotel sinistro com a felicidade estampada em cada centímetro de seu rosto, passou pela portaria, chamou o porteiro e disse:
– Osvaldo, poderia me fazer um favor?
– Claro! – Respondeu o porteiro, esperando por mais uma maluquice de Ramon.
– Se alguém perguntar por mim, diga que mudei para a França. – Disse adentrando o prédio.

O Hotel Lancaster foi implodido no dia seguinte. Ramon foi encontrado três dias depois, enforcado em seu apartamento.


fonte: http://conteudoperverso
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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Tripas - Chuck Palahniuk (+16)

Inspire.
Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa estória deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.
Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.
Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.
Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.
Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.
Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.
Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.

Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.
Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.
As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês: esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa…
Enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.
Esse é o espírito da escada.
O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.
Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.
Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais o encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.
Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, na qual o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os faziam gozar melhor. De forma mais intensa.
Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.
Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.
Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.
Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.
Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.
Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos. Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.
O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.
Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.
Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.
O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.
Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais espesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.
O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmãos mais velho da Marinha escreveu.
No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.
Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.
Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.
O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.
Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.
Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.
Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando a luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas nais quais você não se preocupa que te pegam.
A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.
Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cu chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.
Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.
Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmão no balé. Ninguém estará em casa por horas.
Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo.
Faço isso de novo, e de novo.
Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cu sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.
E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.
Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.
As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.
Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.
As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.
Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.
Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cu. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentido a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.
Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.
Ver essa pílula foi o que me salvou a vida.
Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.
Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.
O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.
Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.
Deus proíba que meus pais vejam meu pau.
Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.
Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.
Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.
Você então vê contra o que eu lutava.
Se eu largo, sai tudo.
Se eu nado para a superfície, sai tudo.
Se eu não nadar, me afogo.
É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.
O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na água turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.
Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.
Algo sobre o qual nem os franceses falam.
Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…,” os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cu……
Mne eto nado kak zuby v zadnitse.
Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.
Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.
Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cu. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.
Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.
É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.
Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim…
Precisava disso como precisaria de dentes no cu.
Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.
Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.
Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”
Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo….”
E então a menstruação da minha irmã atrasou.
Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram mais isso novamente.
Nunca.
Essa é a nossa cenoura invisível.
Você. Agora você pode respirar.
Eu ainda não.


 Fonte: Livro "Assombro"

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A Balsa - Stephen King (Final)


Randy olhou para a superfície da balsa. Podia deitá-la, naturalmente, mas as tábuas só tinham uns trinta centímetros de largura. Havia uma plataforma para mergulho que era adaptada à balsa durante o verão, mas pelo menos isso fora desmontado e guardado em algum lugar. Nada mais restava senão o próprio piso da balsa, quatorze tábuas, cada uma com trinta centímetros de largura e seis metros de comprimento. Não era possível deitá-la, deixar seu corpo sem sentidos sobre qualquer daquelas fendas.
Pise em uma fenda, e sua mãe ofenda.
Cale-se.
E então, tenebrosamente, sua mente sussurrou: Vá, mesmo assim. Deite-a aí e nade para a salvação!

Contudo, ele não fez isso, não podia. Um terrível sentimento de culpa cresceu nele, a essa idéia. Abraçou-a, sentindo o peso macio e firme em seus braços e costas. Ela era uma grande garota.
Deke tombou de todo.
Randy segurava LaVerne nos braços doloridos e viu aquilo acontecer. Não queria olhar e, por longos segundos que lhe pareceram minutos, virou o rosto inteiramente. No entanto, seus olhos sempre vagavam para lá.
Com Deke morto, tudo pareceu mais rápido.
O restante de sua perna direita desapareceu. A perna esquerda estirou-se, mais e mais, até ele assemelhar-se a um dançarino de balé, com apenas uma perna à vista, fazendo uma pirueta impossível. Houve o estalar da fúrcula em sua pélvis e então, quando o estômago de Deke começou a inchar ominosamente sob nova pressão, Randy desviou os olhos por muito tempo, procurando não ouvir os sons líquidos, tentando concentrar-se na dor em seus próprios braços. Pensou que talvez poderia fazer LaVerne voltar a si, mas por enquanto era melhor sentir a dor latejante nos braços e ombros. Aquilo lhe dava algo em que pensar.
Às suas costas houve um som como o provocado por enormes dentes mastigando um punhado de balas quebra-queixo. Quando olhou, as costelas de Deke penetravam pela fenda. Os braços dele estavam erguidos e distendidos. Ele parecia uma obscena paródia de Richard Nixon fazendo o V da vitória, o sinal que enlouquecera o público, nos anos sessenta e setenta.
Ele tinha os olhos abertos. A língua estirava-se para Randy. Randy se virou de novo, ficou olhando através do lago. Procure luzes, disse a si mesmo. Sabia que por lá não haveria luzes, mas quis convencer-se disso. Procure por luzes Pelas margens, alguém deve estar passando a semana em seu chalé, apreciando a folhagem do outono, não iria perder o espetáculo, viria com sua Nikon, o pessoal em casa adoraria as fotos.
Quando tornou a olhar para trás, os braços de Deke estavam erguidos em linha reta. Não era mais Nixon; agora parecia um juiz de futebol, indicando que o ponto extra fora válido.
A cabeça de Deke dava a impressão de pousada nas tábuas. Os olhos continuavam abertos. A língua continuava espichada para fora.
— Oh, Ciisco — murmurou Randy, tornando a olhar para outro lado. Seus braços e ombros agora gritavam, mas permaneceu segurando LaVerne nos braços.
Olhou para a margem mais distante do lago. Estava totalmente escura. Estrelas salpicavam o céu negro, desenrolavam-se através dele, uma fita de leite frio, de algum modo suspensa bem alto no ar. 
Os minutos passaram. 
Ele deve ter ido agora. Você já pode olhar. Está bem, está bem, eu sei. Só que não vou olhar. Apenas por segurança, eu não vou olhar. Certo? Certo. Em definitivo. Assim dizemos todos e assim todos nós dizemos. Ele terminou olhando mesmo, apenas em tempo de ver os dedos de Deke serem puxados para baixo. Eles se moviam — provavelmente o movimento da água sob a balsa era transmitido à coisa desconhecida que agarrara Deke e esse mesmo movimento se transmitia aos seus dedos. Provavelmente, provavelmente. Contudo, a Randy parecia que Deke lhe acenava. O Cisco Kid acenando adeus. Pela primeira vez, sentiu sua mente sofrer um doentio repelão — ela pareceu inclinar-se, da maneira como a balsa se inclinara, quando eles quatro haviam ficado em pé sobre o mesmo lado. Percebeu-a endireitar — sem mais, de repente, compreendeu que a loucura — a verdadeira demência — talvez não estivesse muito distante.
O anel de futebol de Deke — Assembléia Geral, 1981 — escorregou lentamente do terceiro dedo de sua mão direita. A claridade das estrelas refletiu-se no ouro e brincou nos minúsculos sulcos entre os números gravados — 19, em um lado da pedra avermelhada, 81, no outro lado. O anel caiu-lhe do dedo. Era um pouco grande demais para encaixar-se na fenda e, naturalmente, não se comprimiria.
Ficou caído ali. Era tudo que restava de Deke, agora. Deke se fora. Nada mais de garotas de cabelos e olhos escuros, nada mais de bater no traseiro nu de Randy com uma toalha molhada, quando Randy saía do chuveiro, nada mais de corridas antes do jogo pelo meio do campo, com fãs levantando-se na ponta dos pés nas arquibancadas e as chefes de torcida executando cabriolas histéricas nas linhas laterais.
Nada mais de escapadas após o escurecer, no Camaro, com Thin Lizzy clamando "Os rapazes voltaram à cidade", no gravador do carro. Nada mais de Cisco Kid. Houve aquele vago ruído arranhando novamente — uma lona enrolada, sendo lentamente puxada pela fenda de uma janela.
Randy estava em pé e descalço sobre as tábuas. Olhou para baixo e viu as fendas a cada lado dos dois pés subitamente cheias de pegajosa escuridão. Seus olhos esbugalharamse. Pensou na maneira como o sangue jorrara da boca de Deke, quase semelhante a uma corda sólida, na maneira como os olhos dele haviam saltado, parecendo providos de molas, enquanto a hemorragia, provocada pela pressão hidrostática, esmagava-lhe o cérebro.
A coisa me fareja. Sabe que estou aqui. Conseguirá subir? Conseguirá subir pelas fendas? Conseguirá? Conseguirá? Olhou para baixo, inconsciente do peso flácido de LaVerne, fascinado pela enormidade da questão, perguntando-se o que sentiria a coisa ao fluir sobre seus pés, quando se ancorasse neles.
O cintilar negro subiu quase até a borda das fendas (Randy ficou na ponta dos pés, sem mesmo perceber o que fazia) e depois desceu. Recomeçou o ruído de lona deslizando. De repente, Randy tornou a ver a coisa sobre a água, uma grande verruga escura, agora talvez a uns cinco metros de distância. Ela subia e descia com as pequeninas ondulações da superfície, subia e descia, subia e descia... e quando Randy começou a ver as cores pulsando uniformemente sobre ela, desviou os olhos para outro lado. Colocou LaVerne sobre o piso, e tão logo ficou livre do peso, seus braços começaram a tremer loucamente. Deixou que tremessem. Ajoelhou-se ao lado dela, cujos cabelos espalhavam-se sobre as tábuas brancas, em um irregular leque escuro. De joelhos, ele ficou espiando aquela verruga escura na água, pronto para levantar LaVerne novamente, se percebesse sinais de movimento na coisa.
Começou a bater-lhe nas faces de leve, primeiro em uma, depois na outra, repetindo a dose, como um segundo tentando animar um boxeador. LaVerne não queria voltar a si. Ela não queria atender ao indicador Siga e ganhar duzentos dólares ou dar uma volta no Trem-fantasma. LaVerne já vira o suficiente. Contudo, Randy não podia segurá-la a noite inteira, levantando-a como a um saco de lona, sempre que a coisa se movesse (e tampouco se podia ficar olhando demais para a coisa; aí estava outro detalhe). Ele aprendera um truque, no entanto. Não o aprendera na universidade, mas com um amigo de seu irmão mais velho. Esse amigo fora médico paraquedista em Nam e conhecia todos os tipos de truques — como catar piolhos em um couro cabeludo humano e fazê-lo apostar corrida em uma caixa de fósforos, como diluir cocaína em laxativo infantil, como costurar cortes fundos com agulha e linha comuns. Certo dia, quando conversavam sobre maneiras de despertar-se bêbados profundamente embriagados, para que esses bêbados profundamente embriagados não vomitassem nas próprias gargantas e morressem, como Bon Scott, o cantor do AC/DC havia feito.
— Quer fazer alguém voltar a si rapidamente? — perguntara o amigo com o repertório de truques interessantes. — Experimente isto.
Então, ele lhe ensinou o truque que Randy ia usar agora. Inclinando-se para LaVerne, ele lhe mordeu o lóbulo da orelha, o mais forte que pôde.
Sangue quente e acre espirrou em sua boca. As pálpebras de LaVerne se ergueram como persianas. Ela gritou, em uma voz rouca e rabujenta, depois o esmurrou com raiva.Randy olhou para cima e viu apenas a parte mais distante da coisa; o restante já estava debaixo da balsa. Ela se movera com uma fantástica, terrível e silenciosa velocidade. Randy tornou a içar LaVerne, seus músculos gritando em protesto tentando enovelar-se em cãibras. Ela lhe batia no rosto. Uma de suas mãos atingiu-lhe o nariz sensível e ele viu estrelas vermelhas.
— Pare com isso! — gritou, deslizando os pés para as tábuas. — Pare com isso sua cretina, a coisa está debaixo de nós novamente! Pare ou eu a deixo cair, juro por Deus como deixo!
Os braços dela pararam imediatamente de agitar-se e se enrolaram quietamente em torno do pescoço de Randy, como em um abraço de afogado. Os olhos de LaVerne pareciam brancos, à claridade das estrelas.
— Pare com isso! — Ela não parou. — Pare, LaVerne, está me sufocando!
Ela apertou com mais força. O pânico aflorou à mente de Randy. O entrechocar cavo das barricas assumira uma nova característica, mais seca, mais abafada. Era a coisa lá embaixo, pensou ele.
— Não posso respirar!
A pressão afrouxou um pouco.
— Agora, escute. Vou pôr você no chão. Tudo vai ficar bem, se você... Ela, no entanto, ouvira apenas pôr você no chão. Seus braços enrolaram-se naquele aperto mortal novamente. Randy tinha a mão direita nas costas dela. Engalfinhou os dedos e arranhou-a. LaVerne agitou as pernas, ganindo roucamente e, por um momento, ele quase perdeu o equilíbrio. Ela o percebeu. O medo, maior que a dor, fez com que parasse de lutar.
— Fique em pé nas tábuas.]
— Não!
A negativa saiu em um jato no rosto dele, quente como um vento do deserto.
— A coisa não poderá pegá-la, se ficar em pé nas tábuas.
— Não, não me ponha no chão! Ela vai me pegar, sei que vai, sei que vai...
Ele tornou a arranhar-lhe as costas. LaVerne gritou de raiva, de dor e medo.
— Fique em pé ou a deixo cair, LaVerne.
Ele abaixou, lenta e cuidadosamente, ambos respirando em haustos curtos, chiantes
— flauta e oboé. Os pés dela tocaram as tábuas. LaVerne encolheu as pernas para cima, como se as tábuas estivessem em brasa.
— Ponha os pés no chão! — sibilou Randy. — Eu não sou Deke, não agüento segurá-la a noite inteira!
— Deke...
— Está morto.
Os pés dela pousaram nas tábuas. Pouco a pouco, ele a foi largando. Ficaram à frente um do outro, como dançarinos. Randy podia vê-lo esperando o primeiro toque da coisa.
A boca de LaVerne ofegou, como a de um peixe dourado.
— Randy — sussurrou ela. — Onde está a coisa?
— Embaixo. Olhe para baixo.
Ela olhou. Ele olhou também. Viram a escuridão que recheava as fendas, preenchendo-as agora por quase toda a extensão da balsa. Randy sentiu a ansiedade da coisa e pensou que LaVerne também a sentira.
— Randy, por favor...
— Pssst!
Os dois ficaram quietos.
Randy esquecera de tirar o relógio ao entrar na água e agora ele marcava quinze minutos. Às vinte e um quarto, a coisa negra tornou a deslizar para fora da balsa. Afastou-se até uns quatro, cinco metros e então parou, como fizera antes.
— Vou me sentar — disse Randy.
— Não!
— Estou cansado. Vou me sentar e você ficará vigiando. Lembre-se apenas de ficar olhando para longe. Depois eu me levanto e você fica sentada. Faremos assim. Tome — e ele lhe entregou o relógio. — Turnos de quinze minutos.
— Aquilo comeu Deke — sussurrou ela.
— Eu sei.
— O que é?
— Não sei.
— Estou com frio.
— Eu também.
— Então, me abrace.
— Já fiz isso o suficiente.
Ela pareceu conformar-se.
Sentar-se era o paraíso; não ter que vigiar a coisa era beatífico. Em vez disso, ele vigiou LaVerne, certificando-se de que ela continuava desviando os olhos da coisa sobre a água.
— O que vamos fazer, Randy?
Ele refletiu.
— Esperar — disse.
Ao final de quinze minutos, Randy levantou-se e deixou que ela primeiro ficasse sentada e depois deitada, por meia hora. A seguir, fez com que LaVerne se levantasse novamente e ela permaneceu em pé por quinze minutos. Continuaram assim. Faltando quinze minutos para vinte e duas horas, uma fria côdea de lua subiu no céu e lançou uma trilha luminosa sobre a água. Às vinte e duas e trinta, ouviram um grito agudo e solitário ecoando através do lago. LaVerne soltou um grito estridente.
— Cale a boca — disse ele. — Foi apenas um mergulhão-do-norte.
— Estou gelando, Randy... Estou toda dormente.
— Nada posso fazer quanto a isso.
— Abraça-me — pediu ela. — Você tem que me abraçar. Ficaremos abraçados, esquentando-nos. Podemos nos sentar, os dois, vigiar a coisa juntos. Ele resistiu à idéia, mas o frio penetrava em sua carne, agora atingia os ossos.
— Está bem — disse.
Sentaram-se juntos, os braços passados um em torno do outro, e algo aconteceu — natural ou perverso, mas aconteceu. Randy sentiu-se enrijecer. Uma de suas mãos encontrou o seio de LaVerne, comprimiu-se sobre o náilon úmido e apertou. Ela emitiu o ruído de um suspiro e sua mão caminhou para a virilha da sunga. Randy deslizou a outra mão para baixo e encontrou um lugar onde existia algum calor.
Empurrou-a de leve, fez com que ela se deitasse.
— Não — disse LaVerne, mas a mão nas virilhas dele começou a mover-se mais depressa.
— Posso ver a coisa — disse Randy. As batidas de seu coração aumentavam de velocidade novamente, impedindo o sangue com mais rapidez para a superfície de sua pele nua e friorenta. — Posso vigiá-la.
LaVerne murmurou alguma coisa e ele sentiu o elástico descendo em seus quadris, até o alto das coxas. Vigiou a coisa. Randy deslizou para cima, depois para a frente. Penetrou-a. Calor. Ceús, LaVerne era quente ali, pelo menos. Ela deixou escapar um ruído gutural e seus dedos aferraram as nádegas frias e comprimidas do companheiro. Randy continuou vigiando. A coisa não se movia. Vigiou-a. Vigiou-a atentamente. As sensações táteis eram incríveis, fantásticas. Sua experiência não era grande, mas tampouco permanecera virgem. Havia feito amor com três garotas, mas nunca havia sido assim. Ela gemeu e começou a erguer os quadris. A balsa balançava docemente, como o mais duro colchão d'água do mundo. Por baixo dela, as barricas murmuravam ocamente.
Randy vigiava a coisa. As cores começaram a girar — lentamente agora, sensualmente, não ameaçadoras; ele ficou espiando e viu as cores. Tinha os olhos arregalados. As cores estavam em suas pupilas. Não sentia mais frio agora; sentia calor, o calor que sentimos no primeiro dia de volta à praia, em princípios de junho, quando o sol nos espeta a pele branquicenta do inverno, avermelhando-a, dando-lhe alguma (cores) cor, alguma tonalidade. O primeiro dia na praia, primeiro dia de verão, sugerindo antigas canções dos Beach Boys, sugerindo os Ramones. Os Ramones lhe diziam que Sheena é uma roqueira punk, os Ramones lhe diziam que você pode pegar carona até a praia Rockaway, para a areia, a praia, as cores (movendo-se, a coisa começa a mover-se) e a sensação do verão, sua contextura; Gary U.S. Bonds, o período letivo encerrou-se e eu posso torcer pelos Yankees das arquibancadas, garotas de biquíni na praia, a praia, a praia, oh, a gente ama, a gente ama (ama) a praia, a gente ama (amo, eu amo seios firmes e fragrantes de óleo Coppertone, e se o fundilho do biquíni fosse diminuto o bastante, era possível ver-se alguns (cabelos, seus cabelos, SEUS CABELOS ESTÃO NA OH, CÉUS, NA ÁGUA, SEUS CABELOS)
Ele recuou subitamente, tentando levantá-la, mas a coisa se movera com oleosa velocidade, enredando-se nos cabelos de LaVerne como uma espessa teia de cola negra. Quando Randy a ergueu, ela já estava gritando e estava pesada com a coisa; a coisa que saiu da água, em uma membrana contorcida e horripilante, que se enrolava em vívidas cores nucleares — escarlate, vermelhão, esmeralda cintilante, ocre opaco. A membrana fluiu para o rosto de LaVerne, cobrindo-o como uma maré, obliterando-o.
Ela sacudia os pés, tamborilando a madeira do piso. A coisa se torcia e movia onde estivera o rosto de LaVerne. O sangue lhe escorreu pelo pescoço em borbotões, gritando, sem se ouvir gritar, Randy correu para ela, firmou o pé em sua anca e empurrou. Ela saiu rolando e caiu pela borda da balsa, as pernas como alabastro ao luar. Por alguns momentos intermináveis, a água agitou-se e bateu contra a lateral da balsa, como se alguém houvesse fisgado ali um peixe gigantesco, que se debatia como o diabo.
Randy gritou. Continuou gritando. E então, para variar, gritou ainda mais. Uma meia hora mais tarde, muito depois de terminada a frenética agitação na água, os mergulhões-do-norte gritaram em resposta.
Aquela noite foi eterna.O céu começou a clarear no leste, quando faltava um quarto para as cinco. Randy sentiu-se um pouco mais animado. Foi uma animação momentânea apenas; era tão falsa como o amanhecer. Ficou em pé sobre as tábuas, de olhos semicerrados, o queixo fincado no peito. Estivera sentado nas tábuas até uma hora atrás, tendo despertado subitamente — até então sem mesmo saber que adormecera, a esta era a parte aterradora — por causa daquele indivisível som sibilante de lona. Saltou em pé, apenas segundos antes de aquele negrume começar a sugar com ânsia por ele, nas fendas entre as tábuas. Sua respiração sibilava, entrando e saindo; ele mordeu o lábio, fazendo-o sangrar.
Dormindo, você esteve dormindo, seu imbecil!
A coisa tornara a deslizar debaixo da balsa meia hora mais tarde, porém ele não tornou a sentar-se. Receava sentar-se, temia dormir novamente e sabia que, desta vez, sua mente não o faria acordar em tempo. Seus pés continuavam firmemente plantados nas tábuas, quando uma claridade mais forte, o verdadeiro amanhecer, encheu o leste, e os primeiros pássaros matinais começaram a cantar. O sol nasceu e, por volta de seis horas, o dia estava claro o suficiente para permitir-lhe ver a praia. O Camaro de Deke, amarelo-vivo, estava bem lá onde seu dono o estacionara, encostado à estaca de cerca. Uma vívida fileira de camisas e suéteres, além de quatro jeans, se torcia em pequenas formas, até a praia. Aquela visão o encheu de renovado horror, quando pensava que sua capacidade para o horror já se exaurira. Podia avistar o seu jeans, uma perna virada pelo avesso, o forro do bolso aparecendo. Seu jeans parecia a salvo, tão a salvo, jazendo lá na areia; apenas esperando que ele chegasse e virasse a perna da calça pelo direito, agarrando o bolso enquanto fazia isso, para que as moedas não caíssem. Quase podia ouvi-las sussurando contra sua perna, enquanto vestia as calças, podia sentir-se abotoando o botão de latão acima da braguilha... (você amou, sim, ele amou).
Olhou para a esquerda e lá estava ela, negra, redonda como uma ficha de jogo, flutuando levemente. As cores começaram a girar através de sua superfície e ele virou rapidamente o rosto.
— Vá embora — grasnou. — Vá embora ou vá para a Califórnia e faça um teste para um filme de Roger Corman!
Um avião roncou em algum lugar distante e ele mergulhou em sonolenta fantasia: Fomos dados como desaparecidos, nos quatro. A busca se espalha, a partir de Horlicks. Um fazendeiro se lembra de ter visto passar um Camaro amarelo. "como um morcego, fugido do inferno". A busca centraliza-se na área do Lago Cascade. Pilotos particulares preparam-se para uma rápida checagem aérea, e um sujeito, — dirigindo acima do lago seu Tirin Bonanza, avista um rapazola na balsa, tem um rapaz, olá, um sobrevivente, um..."
Randy surpreendeu-se junto à borda novamente, quase caindo, e tornou a esmurrar o nariz, gritando com a dor.
A coisa negra partiu como flecha para a balsa, imediatamente, apertando-se debaixo dela — talvez pudesse ouvir, sentir... ou qualquer coisa.
Randy esperou.
Desta vez, passaram-se quarenta e cinco minutos, antes da coisa surgir à vista. A mente de Randy orbitava lentamente à claridade que ia aumentando. (você ama) sim, eu adoro torcer pelos Yankees e pelos Catfìsh, (você gosta dos Catfìsh), sim, eu gosto de... Rota 66, lembra-se do Corvette de George Maharis, Marfim Milner no Corvette, (você gosta de Corvette), sim, eu gosto do Corvette, (ele ama, você ama), o sol está tão quente, é como um vidro queimando, estava nos cabelos dela, é a luz que mais recordo, a luz do verão, luz (a luz do verão, ao entardecer).
Randy estava chorando.
Ele chorava, porque agora havia sido acrescentado algo novo... A cada vez que tentava sentar-se, a coisa deslizava para baixo da balsa. Portanto, ela não era totalmente estúpida; pressentia ou imaginava que podia agarrá-lo, enquanto estava sentado.
— Vá embora! — soluçou ele, dirigindo-se à grande verruga negra que flutuava na água. A cinqüenta metros de distância, zombeteiramente próximo, um esquilo saltitava de um lado para outro, no capô do Camaro de Deke. — Vá embora, por favor, vá para qualquer lugar, mas me deixe em paz! Não gosto de você! Não a amo!
A coisa não se movia. As cores começaram a girar através de sua superfície visível.
(você me ama, você me ama)
Randy desviou os olhos e contemplou a praia, procurou socorro, mas lá não havia ninguém, absolutamente ninguém. Seu jeans continuava lá, uma perna virada pelo aveso, o forro branco do bolso aparecendo. Suas calças não davam mais a impressão de que seriam recolhidas por alguém. Pareciam relíquias.
Ele pensou: Se eu tivesse uma arma, agora poderia matar-me.
Ficou em pé na balsa.
O sol escondeu-se.
Horas mais tarde, a lua apareceu.
Não muito depois disso, os mergulhões-do-norte começaram a gritar.
Não muito depois disso, Randy se virou e olhou para a coisa negra na água. Não podia matar-se, mas talvez a coisa desse um jeito, sem que houvesse dor alguma; talvez fosse para isso que havia as cores. 
(você me ama você me ama você me ama)
Olhou para ela, e lá estava, flutuando, ao sabor das ondas.
— Cante comigo — grasnou Randy. — Posso torcer pelos Yankees das arquibancadas... Não tenho de me preocupar com professores... Estou tão alegre porque as aulas terminaram... Eu vou... cantar e gritar.
As cores começaram a formar-se e contorcer-se. Desta vez, Randy não desviou os olhos.
— Você ama? — sussurou ele.
Em algum ponto bem distante, através do lago vazio, um mergulhão-do-norte piou.
FIM

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2014/01/a-balsa-stephen-king-final.html