sexta-feira, 1 de abril de 2016

Acho que meu marido fez alguma coisa com um dos gêmeos - Parte V

Caso não tenha lido a parte 1,clique aqui -PT 4-)
Semanas se passaram em uma névoa, eu nem sei quantas. Meus dias e noites eram círculos infinitos de mamadas, fraldas trocadas e cochilos. Phillip passou a primeira semana de vida de Henry em casa com a gente e eu mantive minhas emoções muito bem guardadas. Ignorei a exaustão de ter um recém-nascido o melhor que pude. Eu dormia quando Henry dormia, e só ficava realmente acordada por três ou quatro horas durante o dia. Durante esse tempo eu ia tomar banho, comer e tentar cuidar de toda aquela roupa.


Phillip, por sua vez, agia como se aquela cena horrível no quarto dos bebês nunca tivesse acontecido. Ele me trazia refeições caseiras, colocava Henry para dormir e me ajudava com a casa. Quando ele voltou a trabalhar, dava beijos de despedida em mim e em Henry toda manhã e sussurrava num tom de ameaça não tão velada “Não vá se meter em confusão”. Quando ele saia, eu chorava até adormecer ao lado de nosso filho.


Eu sabia que estava caminhando rapidamente para uma severa depressão pós-parto, mas a quem eu poderia pedir ajuda? Phillip nunca iria permitir que eu procurasse um conselheiro ou terapeuta, para que ninguém conhecesse minha versão da história. Eu tinha que me lembrar de tomar banho e escovar os dentes antes do meu marido chegar em casa, então pareceria que eu tinha me importado com este dia. Eu colocava a pouca energia que tinha no pequeno Henry, que era um bebê incrivelmente bonzinho. Eu me sinto uma pessoa horrível só por dizer isso, mas acho que eu não poderia ter lidado com um bebê com cólicas, que não quisesse comer ou não dormisse bem. Eu sinto como se com tudo o que aconteceu, eu tivesse que ter batalhado e lidado com isso. Mas se ele tivesse sido qualquer coisa menos que bonzinho, não poderia dizer com certeza se não haveria outra morte na família. Nós gostamos de pensar em mães como sendo capazes de suportar absolutamente tudo pelo amor que sentem por seus filhos, mas todos e cada um de nós temos um ponto de ruptura. É um ponto discutível agora, eu suponho. Henry ainda está aqui, assim como eu.


Eu não tinha certeza do que estava acontecendo. Ou eu estava maluca ou Phillip tinha feito alguma coisa com a nossa menininha. Será que eu estava sofrendo de algum tipo bizarro de gravidez psicológica? Eu tinha ouvido falar de mulheres tão desesperadas para engravidar que elas apresentavam todos os sintomas, incluindo o trabalho de parto e a lactação, tudo isso para encontrar um útero vazio e dilatado. Será que no meu subconsciente eu queria tanto uma menina que eu imaginei ela e o ultrassom que mostrava seu rostinho? Talvez o tratamento duro de Phillip era uma maneira dar um choque de realidade. Este amor duro era uma maneira de conseguir me mostrar que Jéssica nunca tinha existido? Isso explicaria tanto! Isso explicaria o comentário que ele tinha feito durante o ultrassom! E porque ele nunca reconheceu roupinha que eu tinha escolhido.


Mas por que Todd e meus pais tinham concordado com farsa? Havia uma vila em Amsterdã para pacientes com Alzheimer que aparentemente funcionava como qualquer outra cidade. Correios, supermercado, cinema. Mas na verdade era um novo tipo de “casa de repouso”, onde todos estavam de fato sendo cuidados. O leiteiro era um enfermeiro, assim como o carteiro. Eles achavam que, deixando os pacientes pensarem que tudo estava bem e normal, seria melhor para eles a longo prazo. Até agora eles estavam certos, era um sucesso esmagador. Era essa a essência geral por trás de Todd e meus pais concordando com a minha imaginada Jéssica? Talvez a ideia fosse manter isso durante nove meses e, uma vez que eu não tinha visto a menina, Phillip cuidaria de como me dar a notícia. Afinal, o parto era um dos momentos mais íntimos entre marido e mulher.


Eu me perguntei brevemente por que, se esse realmente fosse o caso, ninguém tinha insistido para que eu recebesse algum tão necessário tratamento psiquiátrico? Acho que sabia a resposta, e era um monstro de duas cabeças. Phillip e eu tínhamos convênio médico, mas não era tão abrangente. Eu trabalhava para uma pequena empresa e o convênio era decente, mas não cobria nada relacionado à saúde mental. E também era insanamente caro. Com Phillip, tivemos o problema oposto. O dele era muito mais acessível, mas era uma porcaria. Acho que, com todo o dinheiro que estávamos gastando com a casa e as contas com médico que sempre aumentavam, talvez ele tivesse decidido que não poderia pagar mais uma conta e que iríamos lidar com essa merda em casa. Tenho que dar os créditos pela inspiração em Jane Eyre. Talvez ele não quisesse passar pelo constrangimento de ter uma esposa louca. Phillip estava pronto para assumir seu departamento, ir a reuniões importantes, entreter executivos. Mesmo que a empresa não pudesse dizer abertamente que lhe negaria promoções por ter uma mulher louca, seria óbvio. Se escapasse que sua mulher estava inventando um bebê que não existe e ameaçando ir parar no manicômio, sua carreira seria efetivamente encerrada. Na profissão que ele havia escolhido todos se conheciam. Não demoraria para que todos soubessem que Phillip tinha uma esposa na ala psiquiátrica. Uma esposa no manicômio e um bebê recém-nascido em casa era uma situação que consumiria muito tempo, e havia muitas outras pessoas sem envolvimentos desse tipo. Essas pessoas poderiam dedicar todo seu tempo e energia a suas respectivas empresas.


Isso não mudava o que Todd tinha me contado sobre a infância de Phillip. Eu tinha que acreditar, pelo pouco que restava de minha sanidade mental, que Phillip sentia um pedacinho de tristeza genuína por suas ações. Ainda... ainda. Phillip dizia que eu tinha um trabalho e que eu tinha feito isso muito bem: eu tinha lhe dado um filho. Eu tinha imaginado isso também? Ou só tinha interpretado suas palavras de forma sinistra? Ele quis dizer que eu tinha lhe dado um menino saudável, bom trabalho Isabelle? Meus hormônios ainda estavam em fúria nesse ponto, não seria impossível eu ter interpretado mal suas palavras. Pelo amor de Deus, eu me lembro de uma vez na cozinha, quando eu estava grávida de quatro meses, que ele fez salada caesar quando eu queria tacos. Ele disse que tinha esquecido de comprar carne moída no supermercado e eu explodi em lágrimas e me revoltei contra ele, gritando que se ele realmente me amasse, teria lembrado de comprar carne moída. Então, para mim, interpretar mal o que ele havia dito não era inteiramente impossível.


Uma noite, cerca de quatro meses ou mais após Henry nascer, eu decidi abordar o assunto com Phillip. No pior cenário, ele diria a mesma coisa que me disse antes e minhas suspeitas seriam confirmadas. Mas se meus instintos estivessem certos, ele prontamente concordaria comigo. Seria muito mais fácil ter que admitir à esposa que ela havia tido um surto psicótico momentâneo e que estava melhor agora, que pedia desculpas e agradecia a seu marido por toda sua devoção. Afinal, ele estava preso no dilema em que Maquiavel colocou o mundo: é melhor governar através do amor ou do medo? Se eu o deixasse acreditar que eu tinha sido desequilibrada, Phillip poderia me governar através do amor. Seja lá qual era a definição de amor dele. Mas como as coisas estavam, Phillip ainda me governava pelo medo. Eu sabia que ele mexia no meu celular; eu tinha o pego fazendo isso com o pretexto de estar procurando um número de telefone. Meu laptop tinha misteriosamente contraído um vírus, fritando a placa mãe. Desde então, nós compartilhávamos um desktop e eu tinha a sensação de que ele tinha instalado um programa que registrava cada palavra que eu digitava. Eu não me atrevia a dirigir a qualquer lugar além do supermercado ou, ocasionalmente, o café a 30 minutos da nossa casa, para um café e um bolo.


Naquele dia eu limpei a casa de cima a baixo, enquanto um Henry sorridente e borbulhante observava de sua cadeirinha. Fiz seu prato favorito para o jantar: quiche Lorraine, torrada de pão francês, feijão verde fresco cozido e peras cozidas no mel e canela para sobremesa. Abri a garrafa de um vinho delicado para acompanhar o jantar, virando uma taça para me dar coragem e acalmar meus nervos. Tomei banho, depilei as pernas, enrolei meu cabelo e borrifei seu perfume favorito – Shalimar by Guerlain – atrás de minhas orelhas e no meu cabelo. Nunca fui de usar vestido ou saia, em vez disso optei por um jeans matador. Alimentei Henry, que agora já comia cereal de arroz junto com a mamadeira, e esperei Phillip chegar.


Seu timing não poderia ser mais perfeito. O quiche estava sobre a mesa, as peras estavam sendo mantidas aquecidas no forno e eu estava colocando o feijão verde na mesa. Henry estava roendo um palitinho de waffle quase congelado para aliviar a dor de um dente que estava tentando rompes suas gengivas delicadas.


“Ei, o que é isso tudo?” Phillip olhou para a mesa duvidosamente, colocando sua pasta no chão perto da porta.


“Há algo que eu quero falar com você, e eu pensei que talvez uma boa refeição ajudasse.”


“Isa...” Phillip se serviu de uma taça de vinho, suspirando. Ele afundou em sua cadeira, sorrindo para Henry.


“Não, não, eu acho que você vai concordar com o que eu tenho a dizer. Mas antes de chegar ao assunto, por que não comemos um pouco primeiro? Quiche não é bom frio.”


Sorri tremulamente, cortando e servindo um grande pedaço para meu marido visivelmente desconfortável. Coloquei feijão verde em seu prato, servindo-me de porções muito menores. Eu estava com fome, mas não tinha certeza se poderia manter muita coisa no estômago. Esperei até que ele comesse metade do que estava no prato, oferecendo uma conversa vazia sobre nosso dia. Ouvi atentamente ele contando as labutas de seu escritório, balançando a cabeça e dizendo as frases adequadas nos momentos adequados. Cautelosamente, eu beberiquei um gole de meu vinho. Eu queria a cabeça clara para o que estava prestes a acontecer.


“Amor, eu acho que sei o que aconteceu com Jéssica.” Disse silenciosamente, vendo a reação dele bem de perto. Phillip não vacilou, nem por um segundo. Ele estava no meio de um gole e colocou a taça de volta na mesa. Calmamente, ele perguntou:


“Ah, você sabe, não? E o que você acha que aconteceu com Jéssica?” Ele levantou as sobrancelhas, colocando uma garfada de feijão verde em sua boca. “A propósito, excelente trabalho pelo feijão.”


“Eu, oh, obrigada! Phillip, nunca houve uma Jéssica. Eu fiz algumas pesquisas sobre gravidez psicológica, quando mulheres desejam muito engravidar elas apresentam todos os sintomas, até um teste de gravidez positivo! Mas elas não estão de fato grávidas. Eu acho que em algum lugar negro e profundo da minha psique, eu queria tanto uma menina que eu enganei a mim mesma pensando que estava grávida de um menino e uma menina. Por isso que a enfermeira, Dr. Keats, todos eles estavam tão confusos e preocupados quando eu perguntei onde Jéssica estava depois que Henry nasceu.” Fiz uma pausa, olhando apreensiva para meu marido. Ele repousou o garfo, ouvindo atentamente com uma expressão neutra em seu rosto. Eu levei isso como um bom sinal e segui em frente.


“E eu acho que você pediu para todos concordarem comigo por alguma razão. Eu sei que nosso convênio não é tão bom, então talvez você não quisesse custear um psiquiatra. Então você disse para meus pais e para o Todd apenas concordarem, eu descobriria em breve. Phillip, eu quero que você saiba que eu sinto muito por ser uma idiota sobre isso. Mas, por favor, entenda, eu realmente acreditava que Jéssica era real! Eu honestamente acreditava que estava grávida de um menino e uma menina! Não consigo imaginar a dor e angustia que fiz você passar, me desculpe. Mas eu te amo tanto, tanto por fazer isso. Você só fez o que achou que fosse melhor para mim, e eu te odiei por isso naquele momento. Phillip, me perdoe. Agora eu vejo que isso era o melhor para mim, para você e, mais importante, para nosso filho. Phillip, eu te amo. Eu amo Henry.” Enxuguei lágrimas em meus olhos, e estranhamente passou por minha cabeça que eu estava agradecida por ter a prudência de usar máscara de cílios à prova d’água.


“Isa... você não tem ideia do quão feliz eu fico em ouvir você dizer isso. Eu não sabia o que fazer. Não foi o custo que me impediu de te levar a um psiquiatra. Foi meu amor por você. Eu sabia que se você ao psiquiatra, eles te trancariam e jogariam a chave fora. Você entregaria Henry e nunca mais o veria. Eu te amo demais para impedir que você nunca veja nosso filho, e amo muito Henry para deixar isso acontecer. Eu sabia que você cairia na real. Ah, Isabelle, eu odiei ser um bastardo com você. Eu tive que convencer seus pais, Todd, e eles não gostaram nem um pouco. Mas eles também te amam, então eles concordaram. Isabelle, eu te perdoo.” Phillip pegou minha mão e me puxou para um beijo. Ele me beijou suavemente nos lábios, meu pecado foi absolvido.


Phillip lavou a louça enquanto eu dava banho em Henry e o colocava para dormir. Eu não tinha plena certeza se eu acreditava na história que tinha acabado de tramar, mas parecia tão boa quanto qualquer outra. Ou eu acreditava na ficção que estava vendendo, ou acreditava que tinha dado à luz uma menina que tinha desaparecido misteriosamente e estava no centro de um enorme acobertamento. Nenhum era muito provável, mas minha história era mais que a outra. Phillip entrou no quarto de Henry, encostando-se à porta enquanto eu colocava nosso filho no berço.


Seus braços cercaram minha cintura e eu senti seus lábios em meu pescoço. Phillip respirou profundamente, seu nariz em meu cabelo.


“Hummm, Shalimar. Meus Deus, Isabelle, eu te amo. Vamos para a cama.” Nós fizemos amor pela primeira vez em quase um ano. Carinhosamente, docemente, descobrindo um ao outro como se fosse a primeira vez. Nós adormecemos abraçados e, pela primeira vez em um ano, eu respirei aliviada.


Acordei na manhã seguinte, seu lado da cama vazio. Fingi continuar dormindo, como se pudesse estender a mágica da noite anterior. Ouvi Phillip no telefone, não era comum. Normalmente ele odiava falar ao telefone. Ele usava o telefone no máximo no escritório, ele tinha um celular só por que era uma necessidade de trabalho. Então eu estava curiosa para saber o que era tão importante para ele ligar às 6 horas da manhã.


“Não, essa é a parte maluca. Ela falou tudo isso. Isabelle pensa que imaginou Jéssica! Ela me pediu desculpas! Não, eu ainda acho que você deve manter os registros em local seguro. Por que você não pode se livrar deles de novo? Ah, certo. Sim, escritório da Dra. Whiting. Ei, problema resolvido afinal. Tenho que ir, nos falamos mais tarde. Vejo você esta tarde, doutor.”


Ouvi seus passos vindo para o quarto e virei de costas para a porta. Phillip entrou em nosso quarto carregando Henry e deitou na cama, nosso filho entre nós. Senti-o se inclinando para me dar um beijo e lutei contra a vontade de agarrar seu rosto. Eu rolei, sorrindo sonolenta.


“Bom dia, meninos. Vocês dois estão com fome, um de vocês pode se alimentar aqui. O que você disse Henry? Você acha que eu consigo convencer o papai a fazer as próprias torradas esta manhã?” Henry simplesmente me olhou enquanto tomava seu café da manhã direto do meu peito.


“Posso fazer melhor e fazer torradas para nós dois.” Phillip falou, vestindo suas calças.


“Meu masterchef!” Respondi me levantando da cama. Phillip riu e correu escada abaixo. Eu lutei contra as lágrimas enquanto olhava para meu filho, tentando obter algumas respostas hoje.


Alguns minutos depois, Phillip voltou com dois copos de café e um grande prato com torradas. Agora que Henry tinha se alimentado e arrotado, ele estava batendo alegremente um chocalho contra seus joelhos. Eu engoli o café, mordisquei a torrada e vi meu marido se vestir para o trabalho.


“Phill, eu quero tentar aquela nova receita grega que te mostrei essa noite. Quero comprar queijo feta da Paraskevi na cidade, eles têm o melhor. Por que não almoçamos juntos? Seria legal, eu raramente vou à Boston.” Eu sorri excitada.


“Ah, amor, se fosse outro dia eu diria sim. Mas não tenho nada além de reuniões e conferências durante todo o dia. Nem tenho certeza de que horas estarei em casa. Eu compro um pouco de feta antes de voltar para casa, e faremos outra noite, quando eu tiver certeza que estarei em casa às cinco. Sinto muito, Isa. Tenho que ir, amo vocês!”


Eu fiz beicinho como apropriado e, a “contragosto”, concordei. Esperei 45 minutos depois que seu carro antes de colocar Henry no assento e dirigir até Boston.


Eu dirigi pelas ruas laterais, tendo o cuidado de evitar as ruas principais. Eu não queria arriscar que um de seus colegas de trabalho me visse, ou algum cliente. Eu tinha um destino: consultório da Dra. Whitings. Eu parei no Centro Médico de Boston, estacionando em um canto escuro e perto das escadas de seu antigo consultório. Perguntei à recepcionista como obter meus registros e ela prontamente me disse para descer até o andar de baixo, no setor de registros. Brenda, nos registros, me disse que depois que preenchesse as fichas e pagasse as taxas para cópias dos registros, ela me chamaria em uma semana.


“Uma semana?” Me senti como um balão murchando.


“Depois que a Dra. Whiting... faleceu, a maioria de seus pacientes foram transferidos para outros consultórios. Mas você decidiu procurar outro médico em outro hospital, o que está certo. Mas esses registros estão em arquivo agora e leva um tempo até desarquivá-los. Então eu te ligo em uma semana, Sra. [em branco].”


“Deixa eu te falar, eu vivo num fim de mundo. O serviço de celular e incrivelmente fraco, na melhor das hipóteses. É por isso que vivemos lá. Por que eu simplesmente não volto aqui daqui uma semana em vez de você me ligar? Pode ser?” Brenda apenas colou um post-it em meu pedido, que dizia “Virá retirar. Não ligar” e acenou com a cabeça, nossa interação claramente tinha terminado.
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CONTINUA...

Acho que meu marido fez alguma coisa com um dos gêmeos - Parte IV

(Caso não tenha lido a parte 1,clique aqui -PT 3-)
Todd pegou o telefone, soando convincentemente feliz. “Phillip, cara, não tem quase nada para eu fazer aqui. Acho que preciso contratar uma grávida para trabalhar para mim, ela fez tudo por aqui... hum... Você não se lembra? Na semana passada! Recebi uma mensagem de texto pedindo para dar uma passada aqui. Ah, certo... Não, ela está bem. Phillip, sim. Claro, não se preocupe. Claro, fala com ela.” Todd não tinha quebrado o contato visual comigo e continuava me olhando quando me entregou de volta o telefone.


“Oi, amor!” Eu falei nervosamente, enquanto tirava o cabelo dos olhos.


“Isabelle, querida. Eu não lembro de ter pedido ao Todd para passar aí, então eu quero que você peça para ele ir embora, está bem? Ele sempre teve inveja de quem eu era, e sempre fez “piadinhas” sobre o quão sexy você é. Essa história está um pouco assustadora. Só estou preocupado que ele esteja aí para tentar alguma coisa com você. Eu te amo, Isabelle. Por favor, basta tirá-lo da nossa casa.” Minha cabeça estava girando, eu nunca tinha percebido segundas intenções em Todd. Teria sido distraída a esse ponto? Ou Phillip estava tentando tirá-lo daqui por outro motivo?


“Está bem, Phillip. Farei isso. Tenho que desligar. Te amo.” Fechei a tela e coloquei o telefone na mesa.


“Todd, acho melhor você ir agora.”


“Isa, eu não sei o que Phillip te disse. Mas há uma última coisa. Não pense nem por um minuto que ele vai se importar com a Jéssica. Nunca.”


“Não foi o que você disse literalmente três minutos atrás! Agora vai, e não volte!” Tentei ficar de pé para dar mais ênfase a minha fala, mas tive medo de que acabasse parecendo uma tartaruga tentando sair do casco.


“Três minutos atrás eu não tinha falado com Phillip. Mas se você quer que eu vá então tudo bem, eu vou. Mas se lembre que ele nunca se desculpou por Leslie. Adeus, Isabelle.” Todd bateu a porta. Caí de volta no sofá, entre soluços. Meu telefone tocou de novo e eu atendi cheia de raiva.


“O QUE É?!”


“Hum, oi para você também, Isabelle.” Merda, era o Jackie, meu chefe.


“Desculpe, Jackie, pensei que fosse outra pessoa. O que houve?”


“Não posso dizer. Você pode vir aqui amanhã assim que acordar?”


“Por que preciso ir assim que acordar? Há algo errado com meus documentos? Eu chequei duas vezes com o RH, repouso absoluto conta como afastamento por doença e a papelada foi aprovada há duas semanas. Tudo o que tenho que fazer é avisar quando os gêmeos nascerem.” Quebrei a cabeça tentando pensar na razão pela qual tinha sido convocada a ir ao escritório de forma tão abrupta.


“Não, não é isso. É sobre o departamento. Não tenho permissão para discutir isso pelo telefone. Odeio ter que fazer isso com você, te vejo amanhã em meu escritório às 8 horas. Sinto muito, Isabelle.” Jackie não parecia sentir muito, mas, novamente, alguma merda tinha acontecido.


Eu tinha o peso do mundo nas costas. Phillip tinha matado Leslie, não tinha como contornar isso. Talvez ele nunca tenha tocado no assunto por estar envergonhado e arrependido. Talvez por isso ele fosse tão apático quando o assunto era Jéssica. Talvez ele estivesse com medo de me dizer e eu pensar que ele era um psicopata. Na verdade eu achava que ele era. O que tinha feito Todd vir até aqui? Era porque eu estava grávida de um casal de gêmeos? Ou Todd era um babaca, tentando de um jeito estúpido me fazer trocar Phillip por ele? Eu não tinha pensado nisso. Meu Deus, tudo estava muito além da imaginação. E agora eu tinha que dirigir mais de uma hora até Boston por uma coisa que eu tinha certeza não ser um par de banheiras para bebês.


Cheguei em casa no dia seguinte por volta das dez. Estive chorando desde as nove, soluçando pesadamente. Nosso departamento estava sendo fechado. Era um departamento relativamente pequeno, éramos apenas seis. Um casal de veteranos tinham se aposentado e estavam a caminho da Flórida e da sala de bingo, respectivamente. Jackie e os outros foram transferidos para outros departamentos, exceto eu. Eu era inelegível. Na verdade, assim que minha licença maternidade terminasse, eu seria demitida. Entre o relatório estragado, a perda de e-mails e ligações, meu desempenhohavia sido abaixo da média. Não me lembro de ter perdido e-mails ou não ter atendido chamadas, mas não podia questionar; estava chocada. Jackie disse que a empresa não iria se opor sobre meu pedido de demissão, considerando meus anos de empresa. Assinei toda a papelada, limpei minha mesa e saí.


Phillip chegou em casa tarde, por volta das onze da noite. Contei sobre o fim do departamento, excluindo a parte sobre eu não ser elegível para transferência. Phillip me abraçou e acariciou meus cabelos, e finalmente perguntou:


“Todd causou algum problema? Desculpe não ter te contado, querida, não quis te preocupar.” Eu enrijeci, imaginando que rumo tomar.


“Não, eu disse que não estava me sentindo bem e queria ficar sozinha. Não tive notícias dele desde então, você teve?”


“Isso é bom, isso é bom. Não, eu não tive notícias dele. Nem acho que terei, infelizmente. Não gostei dele ter aparecido. Bem, seus pais estarão aqui na próxima semana. E em duas semanas nós teremos noites de sono bem mais curtas.”


“Isso supondo que eles nascerão na data exata. Os bebês quase nunca nascem na data planejada. Especialmente gêmeos. Mas vai ser bom ter ajuda enquanto eles estiverem aqui. Ah, eu quero tanto conhecer os bebês. Aposto que Henry tem o mesmo topete que você.” Eu segurei a mão dele sobre a minha barriga, sentindo os bebês se acotovelando.


“Dr. Keats disse que se você passar de 39 semanas, ele induzirá o parto. E eu não acho que seja má ideia.”


“Vamos ver o que acontece, mas eu concordo.” Eu bocejei e peguei um remédio. Andava tendo crises de insônia e o Dr. Keats disse que esse remédio me ajudaria e que era seguro. Dei um beijo de boa noite em meu marido e caí num sono sem sonhos.


Acordei com uma dor excruciante. Deixei escapar um grito animal, apertando minha barriga dura feito pedra. Phillip deu um pulo, me olhando com uma combinação de horror e medo. A dor irradiava de minha barriga inchada, minhas costas, e foi diferente de tudo o que já tinha sentido. Os livros e a internet não chegavam nem perto de explicar isso. Olhei da minha barriga para entre minhas e notei que minha camisola estava encharcada.


“Phillip, eu estou em trabalho de parto! Acho que minha bolsa estourou! Rápido, chame o Dr, Keats, ai, meu Deus, isso dói! AAAAH!” Eu gritei de novo, o suor escorrendo da minha testa e lábio superior. Phillip já estava discando desajeitadamente para o Dr. Keats, mantendo um olho em mim e o outro na tela do telefone.


“Dr. Keats? Oi, é o Phillip [em branco], marido da Isabelle. Acho que ela está em trabalho de parto. A bolsa estourou e as contrações estão... amor, de quanto em quanto tempo você está tendo contrações?”


“Eu não sei, porra! Talvez um, dois minutos?! Merda, como eu pude dormir com isso?” Eu gritei, com uma mão na barriga e outra nas costas. Como posso descrever a dor? Pense em sua coluna tentando se separar fisicamente de seu corpo. E seu estômago virando pedra. É como ser agarrado por uma mão de ferro que se recusa a liberar suas garras. Mordi o lábio para não gritar e senti o gosto de sangue.


“Ok, certo, estamos a caminho.. Certo, encontro você aí.” Phillip desligou o telefone e agarrou um par de jeans. Enquanto ele vestia uma camisa suja, eu perguntei:


“O que está havendo? O que o Dr. Keats disse?” Eu estava tentando ficar calma mas tinha medo de não ter sucesso.


“Ele disse que você está num estágio muito avançado para arriscar te levar até o hospital. Ele vai nos encontrar na clínica. Sua bolsa está no carro; deixe-me ajudar com o casaco e com os sapatos. Você acha que o remédio te ajudou a dormir durante toda a fase inicial do trabalho de parto? Isabelle. Pare. Pense. Essa hora amanhã... nós seremos pais. Antes de sair, eu quero que saiba uma coisa: Se você multiplicar todas as estrelas do céu, por todos os grãos de areia de todas as praias, você ainda não chegará perto do quanto eu te amo. Agora vamos!” Phillip nervosamente sorriu, eu puxei meu casaco enquanto saíamos.


Dr. Keats estava destrancando a porta quando chegamos na clínica. As contrações vinham quase a cada minuto, eu tentava não gritar para não assustar Phillip, mas isso doía como o inferno. Dr. Keats fez um sinal para esperarmos e em um segundo veio me encontrar na porta com uma cadeira de rodas. Eu fui levada até a sala de parto, onde eu fui prontamente colocada na maca e meus pés colocados em estribos. Eu implorei por uma epidural, mas Dr. Keats me deu uma olhada e disse que não havia tempo para isso.


“EMPURRE, ISABELLE, EMPURRE!” Dr. Keats gritava com autoridade, Eu empurrei com toda força que tinha, rangendo meus dentes, soltando um gemido gutural no processo. Eu podia sentir algo acontecendo, mas não sabia o que. Continuei empurrando e só parei quando Dr. Keats que já era suficiente. Deitei a cabeça de volta na fronha de papel, me sentindo doente.


“Ok, Isabelle, mais um empurrão e você consegue. EMPURRE!” Dr. Keats ordenou e eu obedeci. Senti como se tudo abaixo da cintura estivesse em chamas e, dessa vez, eu não me contive. Soltei um grito do fundo de meus pulmões, minhas unhas cavando as mãos de Phillip. Segurei o impulso por dez segundos, contando na minha cabeça, um dois três quatro cinco seis sete oito nove dez... Ouvi um choro, senti uma lufada de ar. Então tudo ficou preto.


Quando acordei, olhei à minha direita. Phillip estava dormindo pesadamente. Olhei para baixo, minha barriga ainda estava inchada, mas pastosa. Tudo veio como um flash. Eu tinha vindo aqui para dar à luz meus gêmeos! Olhei para a sala em pânico, mas não vi nenhum berço ou bebês. Onde estavam meus bebês?


“Phillip, Phillip, acorda! Onde estão os bebês? Onde estão meus gêmeos? Como estão Henry e Jéssica? Por que não estão aqui? Quanto tempo eu dormi? Eles estão bem? PHILLIP!” Eu gritei, balançando as pernas sobre a cama e sendo saldada por uma dor tão grande que me fez querer vomitar.


“Isabelle, você está acordada! Fica calma, calma. Henry está bem. Você ficou desacordada por cerca de dois dias. Você perdeu muito sangue. Vou pedir para a enfermeira trazê-lo aqui dentro.” Phillip apertou o botão “chamar enfermeira” enquanto caminhava até mim.


“Henry, mas e a Jéssica? Onde ela está? Eu tive gêmeos, onde está Jéssica? Eu quero ver meus dois bebês” Eu gritei, tentando desesperadamente não soar histérica.


“Enfermagem, em que posso ajudar?” A voz veio de uma caixa de som na minha cama.


“Oi, aqui é do quarto 104. Nós queremos nosso filho, por favor.” Phillip falou muito naturalmente.


“Isabelle, que gêmeos? Nós tivemos um filho, Henry. Não sei do que você está falando. É um efeito colateral da medicação? Nós tivemos só um bebê, Henry. Não há gêmeos, Isabelle. Eu não sei quem é Jéssica. Você pensou que nós teríamos uma menina? Porque nós temos um menino, Henry Sebastian.” Phillip explicou pacientemente. A enfermeira trouxe um berço de rodinhas com um bebê enrolado num cobertor branco.


“Enfermeira, onde está o outro bebê? Eu tive uma menina, eu tive gêmeos! Onde ela está? O nome dela é Jéssica, eu tive gêmeos, ONDE ESTÁ MINHA MENININHA?!” Eu berrei, olhando descontroladamente da enfermeira para meu marido. A enfermeira parecia confusa e lançou um olhar preocupado a Phillip.


“Sra. [em branco] há somente um bebê... E ele está aqui, um menino saudável.” A enfermeira estava claramente desconfortável.


“NÃO! Não, eu tive gêmeos! Um menino e uma menina! Henry e Jéssica e eu não sei que merda de brincadeira vocês estão tramando, mas eu quero minha filha! Onde está Jéssica? Eu quero ver a Jéssica! Não estou louca, os exames, os ultrassons, tudo mostrava que eu estava grávida de gêmeos! UM MENINO E UMA MENINA, ME DÊ MINHA GAROTINHA!” Gritei e o bebê no berço começou a chorar com o barulho. Phillip acenou para a enfermeira, que pegou uma seringa. Comecei a me debater na cama, mas ele me segurou, dizendo palavras suaves em meu ouvido. A enfermeira injetou algo em mim e eu desmaiei.


“Isabelle? Isabelle, você está se sentindo bem?” Dr. Keats estava inclinado sobre mim, a feição muito preocupada. Eu só queria perguntar onde estava minha bebezinha estava, mas algo dentro de mim me segurou.


“Só um pouco confusa. Onde está Phillip?” Esfreguei minha cabeça, parecia que pesava uma tonelada.


“Tenho más notícias. Phillip foi buscar seus pais no aeroporto ontem. Havia muito gelo na estrada; o carro capotou e rolou. Seus pais não tiveram culpa. Phillip está no hospital, ele está bem, mas será mantido lá pela noite para observação. Isabelle, eu sinto muito.” Dr. Keats olhava para suas mãos, como se isso lhe desse algum jeito mágico para entregar esse golpe esmagador.


“O que você quer dizer? Meus pais estão mortos? É o que você quer dizer?” Eu estava chorando e soluçando muito, soluços terríveis.


“Isabelle, eu sinto muito. Eles não sobreviveram ao acidente. Phillip deve ser liberado ainda hoje, se tudo estiver bem. Isso deve ser horrível de se ouvir, especialmente nesse momento. Agora me diga, o que é isto que ouvi sobre uma história de gêmeo?” Dr. Keats olhou por cima do meu prontuário de forma inquisitiva.


“Sim! Eu tive uma menina, Jéssica, não tive? Ou é algo que aquele remédio me fez sonhar?” Ri nervosamente, sentindo meu estômago afundar.


“Não há nada em seu prontuário que indicasse gêmeos. Apenas um lindo e saudável menino. Henry, estou certo? Ele nasceu exatamente às duas horas, com 3,175kg. Eu posso trazê-lo aqui se você quiser.” Dr. Keats olhou para mim com o rosto cheio de perguntas. Eu sabia que o modo como eu respondesse determinaria se eu ira ou não ver o meu bebezinho.


“Sim, por favor. Quero amamentá-lo o quanto puder.” Comecei a desabotoar meu vestido, em preparação para meu filho. Dr. Keats assentiu com aprovação, e como que por magia, meu filho foi levado até mim.


Henry era um lindo menino. Ele sugou meu peito avidamente. Enquanto se alimentava, olhei cada centímetro dele. Ele tinha dez longos dedos nas mãos, e dez deliciosamente beijáveis dedinhos nos pés. Ele tinha meu tom de cabelo loiro sujo, mais macio que pena de ganso. Seu queixo era pontudinho e angular, assim como o de Phillip. Ele era tão pequeno, tão vulnerável. Ele não era maior que meu antebraço, e estava acariciando alegremente meu peito. Sua pele era aveludada, eu a acariciava com os dedos e cantava canções de ninar em seu ouvido. Eu senti um amor que nunca tinha sentido antes. Eu soube então, naquele instante, que o que quer que acontecesse, eu ficaria feliz em morrer por ele. Em qualquer dificuldade, eu sofreria por ele de bom grado, se isso significasse a felicidade dele. Qualquer dor que ele sentisse, eu sentiria dez vezes. Chorei tranquilamente, sabendo que este pequeno ser, meu filho, meu Henry, tinha mudado minha vida de uma maneira que eu jamais saberia.


Eu mal tinha começado a compreender o quanto minha vida tinha mudado.


Na manhã seguinte, Phillip veio com uma dúzia de rosas. Deixei escapar um grito involuntário ao vê-lo, e eu braço livre estendeu a mão para ele, meu outro braço embalando Henry. Ele tinha um olho roxo e um a tipoia no braço esquerdo. Ele colocou as rosas sobre a mesa de cabeceira e beijou nossas cabeças.


“Meus pais...” Eu disse, minha voz vacilante e lágrimas escorrendo pelo meu rosto.


“Isa, eu sinto muito. Sinto muito mesmo. Assim que Henry estiver alimentado, pediremos sua alta e iremos embora, está bem? Acho que será melhor para todo mundo se estivermos em casa.” Phillip sentou-se aliviado na cadeira ao meu lado, fazendo uma careta. Eu assenti com a cabeça. Uma hora depois, a enfermeira entrou com os documentos da alta médica e nós pegamos nosso caminho para casa.


Eu queria tanto dizer alguma coisa sobre Jéssica. Eu sabia muito bem que ela não era algo que eu tinha criado como uma loucura. Indo para casa iria provar isso. Dois assentos no carro. Haveria dois berços. Dois enxovais de roupa. Além disso, Todd sabia que eu estava grávida de gêmeos, ele me apoiaria, certo? Tinha de haver algum registro de Henry e Jéssica! Eu não estava louca. Eu queria pegar minha menina, mas da última vez que tentei tinha sido drogada, eu estava com medo. A enfermeira não sabia que eu tinha gêmeos. Dr. Keats não sabia que eu tinha gêmeos. Phillip agia como se eu nunca tivesse carregado gêmeos em minha barriga.


Bem. Então. Quem era o louco?


Quando chegamos em casa, peguei Henry e tudo, mas corri até o quarto dos bebês, totalmente preparada para fazer um escândalo. Eu abri a porta para encontrar... um berço.


“Qual o problema, querida? Você parece perdida.” Phillip veio atrás de mim, a imagem de um marido adorável.


Eu coloquei Henry para dormir no berço e, lentamente, virei para encará-lo.


“Eu sei que tinham dois berços nessa porra de quarto não tem três dias. Eu ia ter gêmeos. Phillip, caralho, onde está a minha menina?”


“Isabelle, eu acho que deve ser algum tipo de depressão pós parto ou algo assim.”


“VÁ SE FODER, PHILLIP! EU NÃO ESTOU LOUCA! Três dias atrás haviam dois assentos no carro, dois berços e dois enxovais neste quarto. Eu dei à luz dois bebês, um menino e uma menina. Henry Sebastian e Jéssica Marie! Eu não sei que merda está acontecendo, mas minha bebezinha está desaparecida. Existem pessoas que sabem sobre ela. Meus pais, meus colegas de trabalho, Todd, Dra. Whiting, Dr. Keats, todos eles sabem que eu estava esperando dois bebês. O QUE VOCÊ FEZ COM A JÉSSICA, SEU DOENTE FILHO DA PUTA?!” Eu gritei, meu rosto vermelho e lágrimas escorrendo livremente pelo meu rosto.


O rosto de Phillip ficou de um jeito que nunca tinha visto antes. Era um rosto de fúria e desgosto. Ele me agarrou pela garganta e sibilou em meu ouvido:


“Você diz que são dois, eu digo que é um. Há um berço, um assento, um nascido vivo. Seus pais estão mortos, Dra. Whiting está morta, quando foi a última vez que viu seus colegas de trabalho? Todd? Ele dirá qualquer coisa que eu quiser que ele diga. Dr. Keats? Ele está sendo muito bem pago. Você tinha uma tarefa, minha querida, e você a executou muito bem. Você me entregou um filho. Se você pensa que alguém irá acreditar em você sobre Jéssica, você está tremendamente enganada. Todos pensarão que é depressão pós parto. Você me entendeu?!” Eu assenti com a cabeça o mais claramente que pude e Phillip me soltou.


“Agora vá e amamente meu filho.” Phillip me encarou e eu senti minha blusa sendo molhada pelo leite que escorria.


Peguei Henry rapidamente, me afundei na cadeira de balanço e chorei silenciosamente.

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CONTINUA...

Acho que meu marido fez alguma coisa com um dos gêmeos - Parte III

(Caso não tenha lido a parte 1,clique aqui -PT 2-)
Eu me mexi desconfortavelmente no sofá, lutando contra a onda de náuseas que me invadia.


"Você precisa entender o pai do Phillip, Louis. Louis era um filho da puta. Ele casou com Claire, a mãe de Phillip, estritamente para reprodução. Sei que soa como besteira nos anos 2000, porra, até nos anos 70 isso era besteira. Mas a família de Louis tinha algum laço obscuro do passado com a Dinastia Romanov, e para Louis, Alexei era uma vergonha para a Rússia. Havia algo errado com Nicolau se este foi o melhor que ele pode fazer por um filho e herdeiro do trono. Louis pessoalmente acreditava que havia algo errado com a czarina, Alexandra, como se Deus já não houvesse amaldiçoado as mulheres para começar. Ela deve ter pecado muito para dar à luz um filho deformado."


Todd parou, vendo o olhar de desprezo e horror em meu rosto. E então continuou.


"Louis era um otário. Claire o amava, acredito eu. Ou pelo menos gostava dele. A família de Louis possuía uma quase bem sucedida empresa de transporte, ABC Shipping. A família de Claire mal era alfabetizada, ela era a mais velha de sete irmãos. Ela ter concluído o Ensino Médio era um grande feito em sua família. Acho que ela estava deslumbrada com o charme do velho mundo e sim, com o dinheiro dele. Eles estavam casados e não havia muita pressão para Claire engravidar logo – só se fosse um filho. Filhas não tinham qualquer utilidade para Louis. Filhas não poderiam herdar a ABC Shipping. Louis precisava, como se costuma dizer por aqui, de ‘um herdeiro e uma reserva’ Ele não queria arriscar e ter um filho incapaz de gerir a empresa. Claire teve sorte, ela engravidou em poucos anos. Phillip quase a matou, ela ficou em trabalho de parto por três dias. Louis não estava lá, ele não apareceria a menos que ele recebesse a notícia de que era seu tão esperado filho. Minha mãe estava lá, por isso eu sei de tudo isso. No entanto, assim que Phillip nasceu, Louis passou a ser mais agradável com Claire, mas não por muito tempo. Ele estava muito animado por ter seu herdeiro, mas havia muita pressão para ter o segundo. Claire queria engravidar novamente, ela realmente tentou. Não porque quisesse, mas porque Louis a deixaria.”


“Por que eles não se divorciaram?”


“Claire era Católica. Você não se divorcia sob essas circunstâncias. Claire teve alguns abortos espontâneos, o tempo todo Louis estava perto dela. Finalmente ela ficou grávida e não abortou. Agora lembre, todo esse tempo estava sendo dito a Phil que ele estava destinado à grandeza por seu pai. Que o sol nasce e se põe por sua causa. Louis também dizia que uma filha era legal, mas apenas se você já tivesse dois filhos. Coloque o mínimo de tempo e esforço para criá-las como puder e então as case o mais breve possível. Phil foi encorajado a tirar sarro de sua mãe por não conseguir manter uma gravidez. Sua pobre mãe. Ela apenas olhava como se toda sua esperança tivesse se esvaído, ela sempre parecia tão triste. Phillip e eu brincávamos juntos e sua mãe dava o que queríamos. Biscoitos, doces, bolos, o que fosse. Phil nunca ouvia ‘não’. Então Leslie nasceu. Louis estava furioso com ela, porque tinha levado uma eternidade para engravidar de novo e tinha o descaramento de ter uma menina. Dava para ouvir os gritos e a briga a um quarteirão. Louis começou a se envolver com outras mulheres, como se sua vida dependesse disso, e ignorava Claire. Phil batia em Leslie quando ela chorava, e odeio dizer isso, mas eu achava engraçado. Você beliscava ela, ela chorava. Você batia nela, ela chorava ainda mais. Isso era doentio. Claire nos mantinha fora da casa tanto quanto podia, apenas para que ela pudesse ter um tempo sozinha com a filha que só ela se importava.”


Não consegui me segurar, corri para a pia da cozinha. Tudo o que tinha comido na semana foi para fora. Olhei para Todd, que estava pálido e suado. Fiz um gesto para que ele continuasse, imaginando que diabos eu tinha deixado entrar na minha casa e com que diabos havia me casado.


“Phil decidiu que sua mãe estava demorando demais quando Leslie chorou. Claire dormia a maior parte do tempo, e tinha começado a beber muito. Então Phil deveria só... colocar sua mão sobre a boca. Claire sempre o pegava a tempo, ela cuidaria de tudo o que Leslie precisasse. Mas na noite em que Leslie morreu... Você está bem, Isabelle? Tem certeza de que quer ouvir isso?”


Eu balancei a cabeça, atormentada pelo que eu já tinha ouvido. Trouxe meus joelhos o mais perto do peito possível, um gesto de defesa para proteger a vida crescendo dentro de mim.


“Phillip acordou naquela noite e me pediu para pegar um copo d’água. Seja qual fosse o motivo, não importa. Ele puxou o cobertor sobre a cabeça da Leslie até que ela parou de respirar. Ele disse que tinha sido muito fácil, ela era tão pequena, nem chegou a lutar. Ele sabia que seu pai não ficaria tão aborrecido, mas sua mãe diria alguma coisa à polícia. Foi por isso que ele disse que havia ouvido um barulho e ela estava roxa. Ele dizia que meninas eram inúteis, e por causa de Leslie seu pai nunca estava em casa. Então, sim, a polícia questionou todos eles. Mas quem vai suspeitar de um garoto de sete anos? Os policiais, os assistentes sociais, os enfermeiros, todos eles, só percebiam que ele estava em choque.”


“Todd... Você está me dizendo que meu marido matou a irmã a sangue frio?”


“É um jeito de enxergar isso.”


“E de que porra era para eu enxergar isso? ELE MATOU A IRMÃ!”


“Isabelle, você tem que entender que o pai dele nunca quis uma menina. Nunca. E ele passou isso a Phil. Phillip só pensou que estava fazendo o que seu pai queria. Alguma vez te ocorreu que Phillip tem o nome de um rei? Ou rei Louis? Ou rei Henry? Ou rei Sebastian? Mas Leslie? Isso é apenas um velho sobrenome Escocês, e confie em mim, isso foi intencional. Claire queria algo que tivesse a ver com essa besteira de herança e realeza. Phillip realmente pensava que estava fazendo a coisa certa. Se livrou de Leslie, o pai estava feliz. Claire se suicidou um ano depois e Louis nunca se casou novamente. Eram apenas os dois, o pai o batia por qualquer coisinha, mas sempre dizia que alguém grande como ele não poderia fazer nada errado. O problema é que ele nunca expressou qualquer culpa. Nunca. Você pensaria que vendo sua mãe se matar e seu pai ser um desgraçado cruel o faria pensar duas vezes, mas isso não aconteceu. Ele agiu da mesma forma que você agiria se tivesse pisado num inseto. Minha mãe se sentia muito mal por ele, sempre o chamávamos para jantar, ele sempre dormia em casa. Minha mãe era dona de casa, assim como a maioria das mães. Acho que isso fez mais mal do que bem, ele via minha mãe cozinhando e limpando para meu pai, meu irmão Tom e para mim, o que reforçou sua ideia de que mulheres estavam aqui para servir. Quando Louis morreu, a ABC Shipping morreu junto com ele, Phillip não provou ser bom o suficiente, eu acho. Caso você esteja se perguntando, sim. Louis fez saber que ele considerava Phil um fracasso e não, eu não sei o porquê.”


Eu sentei ali, tremendo e gelada. Phillip... Louis... Leslie. Ok, certamente ele havia mudado desde então. Quero dizer, Cristo todo poderoso. Ele não me considerava uma égua parideira, ele me tinha como esposa. Ele me amava, ele dizia isso. Eu sabia. Jessica estava trazendo lembranças de Leslie, e ele sentia vergonha disso. Tinha que ser isso, devia ser isso. Precisava que essa fosse a única emoção que Phillip estivesse sentindo. Louis era um filho da puta de coração frio e implacável. Mas por que então Phillip insistia em carregar a tradição de dar ao nosso filho o nome de um rei? Talvez fosse uma forma de reconhecer seu pai e encerrar o ciclo. No entanto, por que então ignorar Jessica?


“Isabelle? Está tudo bem? Ei, eu tenho certeza que está tudo bem com ele agora. Quero dizer, ele está emocionado por se tornar pai! Tenho certeza que ele mal pode esperar para conhecer seu menininho e sua menininha. Tenho certeza de que ele simplesmente não quer ser lembrado de Leslie. Você devia ouvir como ele fala...”


“Sobre Henry.” Eu disse calmamente.


“Bem, é, mas isso é só um homem sendo homem.”


“Se ele matou a própria irmã, então porque você ainda é amigo dele? Mantenha seus inimigos por perto, é isso? Você tem medo dele? Quer saber, Todd? Acho que você tem. Por que você mentiu para Phillip e disse a ele que estava me contando sobre uma árvore e uma garota em vez de Leslie naquele dia na festa? Por que só agora eu estou descobrindo sobre isso? Alguma vez te ocorreu que ele matou a irmã e a esposa está grávida de uma menina que ele nunca fala sobre? Merda, Todd, Jessica também pode deixar de existir!”


“E se eu tiver um pouco de medo dele? Eu estava no exército, eles pagaram minha faculdade. Eu posso cuidar de mim mesmo. Phillip, ele é só um...”


Meu telefone tocou. Phillip. Eu nunca quis tanto ignorá-lo. Mas eu sabia muito bem que se eu não atendesse, ele ficaria ligando e ligando, então eu atendi.


“Phillip! Saudade de você! Como está Schenectady? Achei fofo você pedir pro Todd ver se está tudo bem comigo.” Rezei para todos os santos para que eu pudesse me concentrar em algo bom e soasse como se nada estivesse errado.


“Todd está aí? Não me lembro de ter pedido para ele ir te ver. Me deixe falar com o velho Todd por um segundo.”


Foi com o estômago embrulhado e as mãos tremendo que eu estendi meu telefone para alguém que eu ainda não tinha certeza que podia confiar.
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CONTINUA...

Acho que meu marido fez alguma coisa com um dos gêmeos - Parte II

(Caso não tenha lido a parte 1,clique aqui -PT 1-)
Eu acabei fazendo a amniocentese, principalmente porque Phillip me persuadiu a fazer. Ele disse que na minha idade, a porcentagem de crianças que nascem com alguma deficiência era muito alta. As estatísticas estavam contra nós, e eramelhor saber. Embora ver a agulha fosse aterrorizante, eu fiz. Antes dos resultados dos exames saírem eu tive más notícias. A casa da Dra. Withings havia sido assaltada, e ela tinha sido baleada no processo. A polícia estava investigando, mas ainda não tinha pistas. No meio da minha gravidez eu tive que encontrar um novo médico.


Phillip encontrou um ginecologista e obstetra muito perto da nossa casa, Dr. Keats. Ele imediatamente me tranquilizou. Ele era médico há mais de 40 anos, e a melhor parte era que sua clínica ficava a 20 minutos da nossa casa. Ele tinha permissão para atuar no hospital que havíamos escolhido, mas se não houvesse tempo suficiente, a sua clínica era completamente equipada para trazer os gêmeos à vida com segurança. Dr. Keats disse que traria os resultados dos da amniocentese o mais rápido possível. Olhando para trás, me dei conta que nunca recebi esses resultados.


Quando eu estava com 6 meses de gestação, nós viajamos até sua cidade natal para a festa de aniversário de um de seus amigos de infância. Eles tinham crescido na mesma cidade, além de terem ido à mesma Universidade e terem se mantido bons amigos lá. Vários de seus antigos amigos estavam lá, pessoas que nunca tinha visto antes. Eu tinha entrado para usar o banheiro e me refrescar com um chá gelado quando Todd me pegou na cozinha.


“Phillip é um homem de sorte.”


“Obrigada, Todd. Feliz aniversário. Deve estar se sentindo bem pelos 21, pela enésima vez haha!”


“Há, é, né? Cara, não parece que tem tanto tempo que eu me machucava todo no playgroud com o Phil e tentava escapar da detenção.”


“Eu soube da vez em que você colocou atum nas saídas da ventilação do reitor.”


“Puts, é mesmo! Nossa, eu pensei que fossemos ser pegos! Mas o Phil é liso. Ele ficou dando voltas e voltas em torno do reitor e do comitê disciplinar por tanto tempo que conseguiu os enrolar de um jeito que eles já não sabiam se éramos alunos.”


Notei que ele estava bem bêbado, mas ainda assim essa foi uma observação estranha.


“O que você quer dizer?”


“Phillip, cara, ele consegue falar como um bom jogador. Ele consegue fazer alguém acreditar que a grama é roxa. Quando eles nos questionaram, ele colocou tantas dúvidas nas cabeças deles que eles nos deixaram. Ele deveria ser advogado. Estou te dizendo, esse cara poderia fazer o Papa questionar a própria fé, de tão bom que ele é. Do mesmo jeito que aconteceu com a Leslie.”


“Leslie? Quem é Leslie?”


“Ele não te contou? Ai, merda, Isabelle, olha, eu tô bêbado. Esqueça isso. Não é nada, só um bêbado babaca falando.”


“Todd, quem é Leslie e o que ela tem a ver com Phillip?”


Todd olhou inquieto para fora, de onde Phillip estava lançando olhares tensos em nossa direção. Phillip começou a andar até nós e Todd começou a rir alto.


“Todd, que merda é essa?”


“Phillip! Hey, cara, eu estava contando aqui para a Isabelle sobre aquela vez no nosso primeiro ano em que você estava tão louco que pensou que aquela árvore velha fosse uma garota, e começou sua conversa mole.”


Phillip deu um tapa nas costas do Todd e eu ri apreensiva. Eu tinha meus dois braços cruzados protegendo minha enorme barriga, sentindo meus bebês se mexendo.


Quem é Leslie? Indo para casa, eu decidi trazer isso à tona. Phillip não poderia ir a lugar nenhum, ele não poderia decidir que essa era uma conversa estúpida e me deixar falando sozinha.


“Phillip, quem é Leslie?”


“Por quê?”


“Isso não importa. Quem é Leslie?”


“Quem te falou sobre ela?”


“Phillip! Quem é Leslie?”


“Leslie é, era, minha irmã. Ela está morta.”


“Sinto muito, Phillip. Por que só agora eu soube disso? O que aconteceu?”


“Não gosto de falar sobre isso, é por isso. Ela morreu quando era só um bebê, não é como se eu realmente a conhecesse. Podemos simplesmente esquecer isso?”


“Não, Phillip. Não podemos simplesmente esquecer isso. Por que você não me contou? Você não acha que isso é algo que o marido deveria contar a sua esposa? Você sabe tudo sobre mim! Quantos anos você tinha quando isso aconteceu? O que aconteceu?”


“Eu tinha sete anos. Meu quarto era perto do dela, e eu ouvi um barulho estranho. Fui até o quarto dela e ela estava roxa. Gritei pedindo socorro, meus pais vieram. Eles chamaram a ambulância, mas era tarde demais, ela estava morta. Naquela época, chamavam de morte no berço. Mas isso foi até o médico e a polícia questionarem meus pais e eu.


“Como assim?”


“Eles perguntaram se alguma vez eu vi meus pais batendo em Leslie. Como se meus pais sequer pudessem encostar a mão em qualquer um de nós. Eles acusaram meus pais de negligência, tentou levá-los a admitir algo que não fizeram.”


Phillip parecia pálido. Eu imediatamente me arrependi por ter sido tão dura. Segurei minha barriga e comecei chorar.


“Phillip, meu Deus. Sinto muito. Isso deve ter sido muito horrível.”


Phillip permaneceu em um silêncio impassível. Ficamos em silêncio pelo resto do caminho até em casa.


Naquela noite, ele não me abraçou na cama, como faz normalmente. Ele virou de costas para mim e caiu no sono. Embora eu tentasse me convencer que eram simplesmente memórias ruins sendo trazidas, os comentários de Todd continuavam em minha cabeça. Como o que aconteceu com Leslie. O que o jeito de Phillip falar e o tirar de problemas tinha a ver com sua irmãzinha morta?


Coisas estranhas começaram a acontecer. Eu fiquei acordada até tarde uma noite, fazendo um relatório para meu chefe. Estive trabalhando nele por semanas. Na manhã seguinte, quando eu fui passar o arquivo para o pen drive para então imprimir, ele tinha sumido. Não só o trabalho da noite anterior, todo o relatório tinha desaparecido do meu laptop. Liguei pro Phillip, apavorada. Ele disse que não se lembrava de ter me visto trabalhando nisso, mas talvez eu tivesse deletado acidentalmente. Eu sabia que não tinha deletado acidentalmente. Liguei para meu chefe, simulando um enjoo matinal, prometendo que chegaria mais tarde com o relatório. Levei o laptop para a assistência técnica, preparada para gastar o equivalente a nossa hipoteca para pagar o reparo. Infelizmente, disseram que não havia nenhum vestígio do relatório para ser encontrado. Era como se ele nunca tivesse estado lá.


Menti para meu chefe e disse que tinha pego um vírus que apagou todo o relatório. Eu prometi que ficaria até reproduzir todo o conteúdo na íntegra. Phillip disse que talvez eu tivesse feito algo acidentalmente e não lembrasse, o que ele chamou de cérebro de grávida. Eu tinha lido sobre isso, mulheres porque estavam numa loja e tal. Eu não poderia imaginar a exclusão de um relatório que meu trabalho dependia.


Então liguei para o consultório do Dr. Keats perguntando se poderia reagendar minha consulta. Que consulta? A consulta que agendei ontem e perdi. Eu estava um pouco distraída, isso era verdade. Mas não iria perder uma consulta quando estava esperando gêmeos. Remarquei para a semana seguinte, pensando que estava pior do que pensava. Dr. Keats disse que nosso garoto era maior que nossa garota. Ele me garantiu que isso era normal. Os meninos normalmente nasciam maiores que as meninas, e era perfeitamente normal um gêmeo ser maior que o outro. Perguntei quando faria outro ultrassom. Dr. Keats disse que não faria mais nenhum, a não se que algo estivesse errado, mas não estava. O que eu sabia? Não era médica.


Phillip continuou recusando discutir o nome de nossa filha. Ele disse que não ligava. Finalmente eu decidi por Jessica Marie. Nós compramos roupas no caminho de casa, eu queria dois bodies com patos amarelos. Phillip era veementemente contrário a essa ideia, ele queria roupas diferentes para os gêmeos. Não era tão importante para mim, então eu cedi. Phillip escolheu uma roupa de beisebol que dizia “Estrela do papai” na frente, com um boné macio de algodão combinando. Esqueci todas dúvidas quando ele colocou a roupinha sobre minha barriga de sete meses e disse “Henry, você já é uma estrela pro papai.” Isso foi tão bonito. Peguei um vestido rosa com margaridas roxas bordadas e um body branco para Jessica. Quando coloquei sobre minha barriga ele nem sequer olhou.


Um fim de semana, Phillip teve que sair da cidade para um treinamento prolongado. Ele estava preocupado que eu pudesse entrar em trabalho de parto antecipado quase não foi. Dr. Keats disse que o risco era mínimo, e Phillip me fez prometer que ao menor sinal eu o chamaria. Prometi que daria um tempo com a decoração. Ele não queria correr o risco de algo caindo sobre mim. Meus pés e tornozelos começaram a inchar, então eu não estava muito interessada em colocar papéis de parede. Eu tinha sido colocada em repouso na cama, já que estava chegando ao fim da gravidez e Dr. Keats estava preocupado. Ele me disse que os gêmeos são automaticamente considerados de alto risco e "na minha idade" o risco era ainda maior. Ele me queria deitada, tanto quanto possível. Como Phillip tinha ido, eu não estava pensando em estar de pé por horas a fio tentando tirar algum tornado de poeira dos topos dos armários da cozinha.


Por volta de uma hora da tarde, a campainha tocou.


"Todd! O que você está fazendo aqui?"


"Phillip queria que eu checasse você, por isso estou aqui."


"Você levou viajou horas para vir checar se estou bem?"


"Connecticut fica chato, de qualquer maneira. Excesso de dinheiro, velho sangues azuis correndo por aí. E agora é o momento do ano em que seus filhos estão voltando para casa da faculdade e isso só me faz lembrar quantos anos eu tenho."


"Você não ouviu? Trinta e cinco é o novo vinte! Entre."


Todd se mostrou muito interessado quando eu mostrei a ele a casa e se emocionou no quarto dos bebês. E enquanto eu estava razoavelmente certa de que ele não dava a mínima para o fato de que eu acabei escolhendo patos amarelos para o tema, ele pelo menos fingiu que ele estava.


"Phillip me contou o que aconteceu com Leslie." Finalmente disse, meu corpo reduzido para baixo no sofá com os pés inchados apoiados sobre a mesa do café.


"É mesmo? O que ele disse? "Todd perguntou com um olhar interessado.


"Que isso aconteceu quando ele tinha sete anos, ele ouviu um barulho estranho e quando ele encontrou sua irmã, seu rosto estava roxo. Ele disse que ela morreu. Mas ele disse que os policiais realmente duvidaram de seus pais."


"Isso é o que ele te disse?"


"Ah, sim. Por quê?" Eu estava começando a pensar que havia algo de errado com Phillip. Toda vez que eu falava sobre os bebês era como se não existisse a nossa filha, ele apenas dizia que era porque ele queria tanto um menino que seria necessário um tempo para se acostumar. Eu queria acreditar nele. Mas caramba, ele agiu como se Jessica não estivesse mesmo lá. Como se fosse apenas Henry me chutando e me fazendo ir ao banheiro a cada dois minutos.


"Bem, metade disso é verdade. Os policiais duvidaram deles, e que acabou sendo determinada a morte de berço. Mas, como Phillip encontrou? E por que eles foram todos questionados? ESPECIALMENTE Phillip? Olha, Isabelle, isso pode não ser da minha conta. Mas eu sei que você está grávida de uma menina e um menino. E eu sei que Phil e eu, somos um caminho sem volta, sabe? Mas eu acho que você deve saber por que você nunca ouviu falar de Leslie e porque ele quer tanto um filho."
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CONTINUA..

quinta-feira, 31 de março de 2016

Acho que meu marido fez alguma coisa com um dos gêmeos - Parte I

Não sei por onde começar. Bem, se eu estivesse ouvindo outra pessoa contar esta história eu pensaria que ela precisa ser presa numa camisa de força. Eu pensaria que ela está louca. Mas isso aconteceu, e aconteceu comigo. Então eu acho que começarei pelo começo, como aconteceu.


Phillip e eu nos conhecemos através de uma festa de Natal da empresa, há cinco anos. Na verdade eu nunca tinha o visto antes, o que não é incomum, a empresa para a qual trabalhamos tem mais de 300 funcionários. Eu estava lá com uma amiga que trabalhava no mesmo departamento que Phillip e na realidade não parecia que ela iria nos apresentar; mas ela nos apresentou. Ele veio até nossa mesa para fazer uma piada sobre como o chefe do QC já estava bem “alto” e colocando a culpa em um assistente, nós nos demos bem.


Fofocas sobre nós giravam e rodopiavam como um redemoinho. Phillip estava no caminho de ser promovido a gerente e eu ainda estava mergulhada nos estudos para terminar meu MBA. Em nossa empresa, experiência não significa muito considerando as pessoas em pele de cordeiro que vetam você. Eu poderia passar dias contando histórias sobre idiotas graduados que não deveriam ter permissão para liderar um desfile, quanto mais um departamento inteiro. O ponto é: a fofoca era que eu estava namorando Phillip para crescer na empresa. Isso ficou tão ruim que deixamos de ir aos eventos da empresa juntos. Phillip ainda ia, ele teve com os mandachuvas e jogar o jogo político do escritório. Eu ficava em casa ou saia com minhas amigas. Dentro de um ano eu deixei a empresa para um cargo com melhor salário e o mais importante: sem fofocas.


No ano seguinte nós nos casamos. Eu sei que toda mulher pensa que o próprio casamento é o casamento do século, mas o nosso foi verdadeiramente especial. Nós nos casamos na igreja que eu frequentava desde que mudei para Boston, com o sol brilhando através das janelas de vitral. Enquanto eu caminhava para o altar, Phillip me viu e chorou. Quando ele colocou a aliança no meu dedo, uma faixa fina de ouro com um pequeno diamante, suas mão tremiam. Logo após nosso primeiro beijo como marido e mulher, ele sussurrou em meu ouvido: “se você multiplicar todas as estrelas do céu por todos os grãos de areia de todas as praias, ainda assim você nunca chegará perto do quanto eu te amo”. Durante nossa primeira dança, ele sussurou a letra da nossa música. Fiquei tonta de amor. Passamos a lua de mel em Bali e, embora nunca tenha sido dito em voz alta, a esperança era que eu engravidasse.


Phillip e eu sabíamos que o relógio estava contra nós. Embora fossemos jovens, meu relógio biológico estava tocando alto. Eu tinha trinta e três anos e minha fertilidade estava em declínio. Os médicos disseram que, estatisticamente, minha fertilidade havia caído 20%, mas que se isso não acontecesse em um ano então nós deveríamos nos preocupar. Phillip e eu não estávamos preocupados. Nossa vida sexual era fenomenal. Deus, não acredito que estou dizendo isso na internet. Mas é verdade, nós fazíamos amor frequentemente, como se o destino do mundo dependesse disso. Nós sabíamos que já queríamos um filho. Ele estava esperando que fosse um menino, todos os caras esperam, não? Um garoto para jogar bola, pescar, que se pareça com o pai. Eu já não me importo muito. Eu estava ansiosa para viver a gestação. O enjoo matinal e tudo, eu queria a barriga grande e sentir os chutes.


Finalmente, oito meses de casados e recebemos a notícia: eu estava grávida. De gêmeos, nem mais, nem menos.


Phillip e eu estávamos muito empolgados, para dizer o mínimo. Meus pais imediatamente se ofereceram para pagar a creche com todos os serviços. Os pais dele morreram há anos, mas quando visitamos o túmulo e contamos a eles, ele disse que sentiu como se tivessem dado sua bênção. Eu senti como se minha vida fosse realmente abençoada, nós tínhamos mesmo um círculo completo. Eu tinha um ótimo trabalho, meu marido tinha um ótimo trabalho, eu estava a dois semestres de concluir o MBA, estava grávida e meus pais iam pagar a creche dos dois bebês. Nós começamos a procurar uma casa. Tínhamos um apartamento de dois quartos, mas não acho que 60 m² seriam suficientes com os gêmeos rastejando. Phillip encontrou uma antiga casa de fazenda fora da cidade e embora fosse um pouco mais cara que o nosso orçamento, nós a compramos.


Foi quando as coisas começaram a se desfazer.


Eu nunca quis viver fora de Boston. Eu cresci na confusão e agitação da cidade; achei que tivéssemos o acordo de comprar uma casa na cidade. Mas Phillip foi insistente sobre a fazenda. Eu não gostava que isso adicionasse uma hora ao meu trajeto e 45 minutos até o hospital que escolhemos. Phillip dizia que as mães de primeira viagem tinham longos trabalhos de parto, e não era como se estivéssemos em um lugar remoto. Além disso, eu tinha que admitir que seria bom ter um quintal grande.


Três semanas depois de assinarmos os papéis, descobri que os gêmeos eram um menino e uma menina. Phillip tinha uma expressão estranha em seu rosto. Quando o ultrassom mostrou o primeiro bebê, nosso filho, parecia que ele tinha ganhado na loteria. Quando a imagem mostrou mais para a direita, nossa filha, ele vacilou. Ele olhou como se tivesse levado um soco no estômago, mesmo que apenas por um segundo. Foi tão breve que eu me perguntava se havia imaginado. O técnico em ultrassom nos perguntou se não tínhamos pensado nos nomes. Antes de eu abrir a boca, ele respondeu “Henry Sebastian.” “E para sua filha?” “Ela não tem nome.”


O técnico recuou e eu ri nervosamente. Eu disse que ele realmente estava esperando por um menino, então ele não tinha pensado com muita antecedência. Phillip sorriu e concordou. Eu tentei não pensar em nada disso. Quando chegamos em casa, perguntei sobre a importância do nome Henry Sebastian. Nós nunca tínhamos discutido o nome nem nunca tinha ouvido ele falar que tivesse qualquer preferência.


“Henry Sebastian é um nome de governante. Henry significa poderoso. Sebastian significa reverenciado. Nosso filho será reverenciado e poderoso.” “Tudo bem... e sobre nossa filha?” “Eu não ligo.”


Eu estava perturbada por ele pensar tanto no nome de nosso filho que ainda nem nasceu e não pensar no nome de nossa filha, mas ele esperava tanto por um menino. Ele só precisava de algum tempo para se acostumar com a ideia de ter uma filha, era isso.


Minha mãe e eu começamos a trabalhar na decoração da casa nova. Phillip era exigente com a pintura das paredes, mas ele era amoroso, carinhoso e adorável. Ele massageava meus pés e minhas costa, e muitas vezes colocava a mão na minha barriga cada vez maior. Mamãe e eu escolhemos os berços e decidimos o tema para o quarto: patos amarelos.


Phillip, que era um participante ativo para o resto da casa, era decididamente inativo para o quarto dos bebês. Mamãe disse que era normal. Phillip estava nervoso sobre como se tornar um bom pai, ver o quarto o deixava mais nervoso.


Duas semanas depois, em uma consulta de rotina, minha médica perguntou se queríamos fazer uma amniocentese. Ela disse que iria testar coisas como espinha bífida, síndrome de down e fibrose cística. A Dra. Whiting afirmou muito francamente que, se um ou ambos os gêmeos apresentassem uma anomalia grave, poderíamos escolher por um aborto seletivo. Fiquei horrorizada por esta ser uma opção. Phillip disse que iria manter a mente aberta sobre essa opção em particular. Olhei para ele como se fosse um estranho.


Quando chegamos em casa, eu literalmente gritei do fundo de meus pulmões para ele. Minha garganta doía e eu gritei com muita força.


“Matar um de nossos bebês?! Vá se foder, Phillip!”


“Isabelle, pense nisso. Se um deles for gravemente deformado, você acha que poderá lidar com isso? Com a sua carreira e a minha? Você acha que é justo com a criança? Ela teria uma vida que não é nada, com os testes, médicos e cirurgias. Eu acho que nós precisamos descobrir antes de seguirmos um caminho. Amor, tenho certeza que está tudo bem. Tenho certeza que dentro da sua barriga linda os dois bebês estão bem. Mas eu acho que precisamos manter a cabeça aberta.”


Quanto mais ele falava, mais eu era tranquilizada. Não me dei conta no momento, mas sempre que ele se referia ao bebê que poderia ter um defeito de nascença, nunca era nosso filho, era sempre nossa filha. Se eu tivesse percebido isso, talvez eu estaria segurando dois bebês em vez de um.

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CONTINUA...

Um homem que estava desaparecido a 137 anos, reapareceu na delegacia em que eu trabalhava.

Falaram que é o nativo em mim que me torna um bom desvendador de trilhas. Já encontrei 16 pessoas desaparecidas em Nevada, 23 na Califórnica, 49 em Utah e mais centenas em Washington. Descobri que a cidade de Black Lake no estado de Washington é a mais bonita, e é onde eu quero descansar com a mulher que conheci enquanto pescava no lago. Ela foi sortuda em conseguir um emprego como professora da segunda e quarta série da escola fundamental local, eu fui sortudo suficiente para conseguir um emprego no departamento da polícia local e ganhar dinheiro suficiente para provir para minha família, a qual agora incluiu uma bebêzinha também.


A delegacia de Black Lake me colocou em casos de pessoas desaparecidas, os quais haviam vários. Uma cidade desse tamanho deveria ter uma dúzia de desaparecimentos por ano, no máximo. Uma cidade grande deveria ter milhares, mas Black Lake tem uma história de mais de dezenas de milhares de sumiços, o que foi abafado pelos políticos locais. Fiquei sabendo pelo antigo comandante que bairros inteiros sumiam da noite para o dia, e que eu tinha que dar o meu máximo para encontrar algumas dessas pessoas. Mas eu nunca encontrei um desaparecido no meu curto período de estadia em Black Lake.


Em um fim de tarde, enquanto eu estava em um plantão noturno enquanto Rod Serling me falava através da TV em preto e branco sobre o auge do conhecimento e medos dos seres humanos, um homem com com os pés embrulhados, calças bem detonadas e uma camiseta de pijama ao contrário, entrou dentro da delegacia, olhou em volta com um olhar assustado e me pediu um copo d'água.


Levei o homem até a sala de interrogação e servi a ele um copo d'água. Perguntei seu nome, e me respondeu que era Silas MacMurray. Coloquei o nome dele na pesquisa do meu celular, ele observou como se fosse um equipamento alienígena. O nome dele coincidiu com um nos arquivos de desaparecidos. O nome era dos arquivos da antiga delegacia, era um relatório de uma pessoa desaparecida em 1879, o qual estava anexado um lindo desenho feito a mãos do homem em questão, desde o o nariz torto até a barba rala. Era ele ali na minha frente, sem dúvida nenhuma. Silas era um vendedor de máquinas a óleo e bastante amado por sua comunidade, como dizia em sua ficha. Mostrei para ele meu tablet, o qual ele pegou em suas mãos como se fosse uma relíquia sagrada e brilhante. Fico envergonhado em dizer que achei que ele estava drogado quando perguntei como havia chegado ali. Aqui em baixo há uma transcrição da gravação da sala feita as 22:34:


"Acordei em uma noite precisando usar a latrina. Quando lá fora, fui banhado por uma luz branca. Não lembro de mais nada até o quarto rosa, onde vi o pouco que havia para ver: vários escravos como eu separados por galés, todos coletados de zoológicos por todo universo. Algo... me disse que tudo aqui, incluindo humanos, há muito tempo atrás era uma raça inteligente, mantidos em nosso planeta para proteger o... ambiente? Eles pegavam apenas os saudáveis e felizes. Eu estava na segunda galé, a segunda mais difícil de se comunicar - eles apreciavam a primeira galé. Há criaturas acima de nós, me refiro a nós homens, são criaturas de pura luz e energia. Esses que comandam a nave conversam com eles o tempo todo, estão sempre livres. Todos na segunda galé eram escravos como eu. Não sei o que eles fazem com a última galé. Eu já vivi mais de mil anos, senhor, isso posso falar até para Deus. Naquela época, eles me entregaram como um brinquedo, um entretenimento, um animal de estimação. A cada cem anos eles me mandam aqui para baixo por uma noite, pois acham que isso vai me deixar mais feliz, mas não, não me deixa. Então - por favor, me mantenha aqui. Me prenda na sua cela mais resistente, te imploro. Eles não podem me levar novamente, tenho certeza que nunca retornarei. Não sou mais saudável nem feliz."
Com o pedido do senhor MacMurray, eu o levei até a "sala silenciosa", uma cela de concreto acolchoada com uma porta de tranca tripla. Eu dormi sentado em uma cadeira de metal do lado de fora da cela dele, armado com uma espingarda carregada, mas fui acordado por uma luz branca cegante e algo que parecia o som do maior velcro do mundo sendo separado um do outro. Sumiu tão rápido quanto apareceu. Eu destranquei as três trancas da porta e abri para descobrir que Silas havia desaparecido. Demorei duas horas para explicar os eventos daquela noite. Voltei para minha casa cansado, esperando ver minha linda família. Encontrei nada mais que uma casa vazia. Usei todos os recursos que tinha para tentar encontrar minha amada esposa e querida filha, mas no final elas se tornaram apenas mais duas pessoas desaparecidas na cidade de Black Lake.
Elas eram felizes e saudáveis, sabe? Foi por isso que foram levadas, junto com Silas. Acho que, inclusive, Silas estava feliz trancado dentro da cela pois eu disse que ele estaria seguro. Eu nunca serei levado pela nave, pois nunca mais serei feliz.


FONTE

Parem de ser tão medrosos

Não há nada assustador nas florestas. Desculpa, gente. Ou melhor, talvez eu devesse dizer "Desculpa, crianças". Eu entendo. Vocês viram A Bruxa de Blair ou leram alguma "creepypasta" de merda em algum site e, de repente, alguns dos lugares mais lindos do planeta viraram o paraíso de demônios, zumbis ou qualquer outra porcaria que os escritores estejam inventando hoje em dia. Mas, adivinhe só: é tudo coisa da sua imaginação. Olha, lembro como era ser criança. Eu tinha uma mente muito criativa: fantasmas, gnomos, duendes, aliens, blá, blá, blá... Mas sabe o que aconteceu? Eu fiz 13 anos. E vi o mundo real.


Aqui está o motivo para que esse papo furado de "uuuh tenho muito medo de ir em uma floresta" me irrita tanto. Moro perto de um parque estadual. Há várias empresas locais que conseguem prosperar com os grandes números de alpinistas, piqueniques, e os excursionistas que costumam vir na primavera, verão e outono. Mas nos últimos anos, coincidindo perfeitamente com essas crianças e adolescentes chorões que ficam falando uns pros outros quão amedrontados estão, os negócios diminuíram e perdemos muito dinheiro. Sim, sou dono de uma dessas empresas. Uma barraquinha de sorvete.


Eu podia ver a modinha que se formava. Pré-adolescentes pálidos e vestidos de preto que viajavam com seus pais ficavam resmungando que estavam com medo de fazer uma caminhada de um quilometro em uma trilha imaculada porquê teriam árvores assustadoras no caminho. Falavam isso enquanto comiam seus sorvetes. Fiquei pensando o que meu pai fariam se eu tivesse reclamado por ter medo de caminhar ao ar livre por uma tarde. O único sorvete que eu teria ganhado seria para por no meu olho roxo.


E eu perdi grana por causa dessa merda. Meus colegas também perderam dinheiro. Casais se separaram, adolescentes perderam a chance de irem para as faculdades que queriam, e a economia local, sem contar com a renda que conseguiam com os esquiadores no inverno, foi por água abaixo. E tudo isso por causa desses pequenos idiotas que acham que choramingar e se acovardas é mais lindo e desejável do que ser forte e resiliente. Eu choro é pelo meu futuro.


Minha barraca de sorvete deveria ser reaberta no 1º de Abril. Daqui a poucos dias. Mas já estou vendo que vai ser uma temporada brutal. A difusão desses contos online sobre "coisas assustadoras na floresta" e "você não vai acreditar o que descobri nesse diário que encontrei enquanto fazia uma caminhada nas montanhas" só tem crescido. Quando vejo os comentários nesses sites ridículos que estão impregnadas com essas histórias, eu vejo adultos, ADULTOS, falando o quão aterrorizados estão para ir até em seus jardins, pois estão com medo de encontrar um cara magrelo em um terno ou um monstro que irá possuí-los ou algo do tipo.

Garanto que os autores desses lixos não pensaram nem uma vez como sua imprudência destruiria pequenos negócios. Antes de minha esposa morrer, eu olhava pela varanda dos fundos e via famílias fazendo caminhadas nos bosques, crianças pulando de pedra em pedra nos riachos, e pais ensinando seus filhos e filhas como fazer uma fogueira segura usando pedras e gravetos. Agora só vejo bosques parados no tempo e uma economia devastada. Esses bebês chorões conseguiram com sucesso assustar a si mesmos para longe da natureza e ferrar com a subsistência de pessoas reais no processo.

Felizmente, de vez em quanto, vejo famílias passando pela minha casa e fazendo as coisas que todo mundo fazia antes que essa palhaçada de "estou com medo" começasse. Outro dia, pela primeira em três anos, um jovem casal enfrentou a neve derretendo misturada a lama e montou uma barraca nos arredores da minha propriedade. Você sabe o quão feliz fique de finalmente ver pessoas que não estavam com medo de fantasmas ou de florestas assombradas?

Eu devo ter ficado na barraca até o sol sair, aproveitando aquela carne quente e jovem. A mulher morreu instantaneamente, mas o marido ou namorado, sei lá, ficou vivo por horas. O único beneficio de ter poucos turistas ultimamente é que nenhuma alma viva ouviu ele gritando enquanto me assistia comendo os pedaços mais suculentos de sua parceira antes que eu acabasse meu apetite com ele. Outro bônus: Eles estavam em uma barraca! Só precisei enrolá-los e arrastá-los para dentro de casa. Sem barulho, sem confusão.


Depois de toda minha reclamação, tenho que admitir que, encontrar duas pessoas que eram corajosas o suficiente para ir em uma floresta, me faz me sentir melhor. Mostrou que eles não seguiam modinhas e faziam suas próprias coisas, assim como nos velhos tempos. Não compensa os salários perdidos e a economia devastada, mas já me sinto melhor. Pelo menos agora terei carne o suficiente para toda primavera, o que me ajudará aquecer esse meu coração cínico.


FONTE

quarta-feira, 23 de março de 2016

A loira do banheiro: quem foi de fato?


O que seria lenda e o que seria a realidade? Dizem os pesquisadores, que todas as lendas são baseadas em fatos reais. E isso também se aplica às lendas relacionadas ao sobrenatural.


Uma das lendas mais famosas é, com certeza, a da Loira do Banheiro. Esta história é muito contada em escolas da rede pública na cidade de São Paulo. Sua fama é muito grande entre os alunos.


Uma garota muito bonita de cabelos loiros com aproximadamente 15 anos sempre planejava maneiras de matar aula. Uma delas era ficar ao banheiro da escola esperando o tempo passar.


Porém um dia, um acidente terrível aconteceu. A loira escorregou no piso molhado do banheiro e bateu sua cabeça no chão. Ficou em coma e pouco tempo depois veio a morrer.


Mesmo sem a permissão dos pais, os médicos fizeram autópsia na menina para saber a causa de sua morte.


A menina não se conformou com seu fim trágico e prematuro. Sua alma não quis descansar em paz e passou a assombrar os banheiros das escolas. Muitos alunos juram ter visto a famosa loira do banheiro, pálida e com algodão no nariz para evitar que o sangue escorra.


As maneiras de como "invocá-la", segundo a lenda, podem variar. Uns dizem que você deve bater na porta três vezes, dar três descargas insultando a loira e até jogar um fio de cabelo loiro natural no vaso sanitário.


Certo, mas disso todo mundo já sabe. Mas você sabe quem, de fato, foi ela? Leia abaixo e descubra.







A personagem que assombra a imaginação de quem estudas nas escolas do país, seria Maria Augusta, filha do visconde Franciscus D'A Oliveira Borges e da viscondessa Amélia Augusta Cazal. Os boatos são de que ela aparece nos banheiros para os alunos.



Filha de Francisco de Assis de Oliveira Borges, Visconde de Guaratingetá e de sua segunda esposa, Amélia Augusta Cazal, Maria Augusta nasceu no ano de 1866 e teve uma infância privilegiada e um requintado estudo em sua casa, cujas terras ultrapassavam os limites da atual Rua São Francisco.



Sua beleza encantava os ilustres visitantes que passavam pelo vale do Paraíba. Naquela época, a política dos casamentos não levava em conta os sentimentos dos jovens, pois os casamentos eram "arranjados" levando-se em conta na realidade, os interesses dos pais.



Uma nítida conotação de transação simplesmente econômica ou meramente política, teria levado o Visconde de Guaratinguetá a unir no dia 1 de Abril de 1879 sua filha Maria Augusta com apenas quatorze anos de idade com um ilustre conselheiro do Império, Dr. Francisco Antônio Dutra Rodrigues, vinte e um anos mais velho que a bela jovem.



Como era previsível, surgiram divergências entre Maria Augusta e seu marido, o Dr. Dutra Rodrigues, devido também à sua pouca idade, fazendo com que os pensamentos e ideais dos casal fossem diferentes.
Devido à esses problemas, Maria Augusta deixa a companhia do marido em São Paulo e foge para a Europa na companhia de um titular do Império e alto ministro das finanças do reino, passando a residir em Paris na Rua Alphones de Neuville.



Maria Augusta assume definitivamente a alta sociedade parisiense abrilhantando bailes com sua beleza, elegância e juventude.



Maria Augusta prolonga sua estada na França até que no dia 22 de Abril de 1891, com apenas 26 anos de idade vem a falecer, sendo que para alguns, devido à pneumonia, e para outros a causa foi a hidrofobia.



Diz a história que um espelho se quebrou na casa de seus pais em Guaratinguetá no mesmo momento em que Maria Augusta morreu. Seu atestado de óbito desapareceu com os primeiro livro do cemitério dos Passos de Guaratinguetá, levando consigo a verdade sobre a morte de Maria Augusta.



Para o transporte do seu corpo ao Brasil, focam guardados dentro de seu tórax as jóias que restaram e pequenos pertences de valor, e foi colocado algodão em seu corpo para evitar os resíduos.



Conta-se, também, que, durante o caminho, os pertences guardados em seu cadáver foram roubados. Enquanto o corpo de Maria Augusta era transportado, sua mãe, inconsolada, decidiu construir uma pequena capela no Cemitério Municipal de Guaratinguetá para abrigar a filha, com os dizeres: “Eterno Amor Maternal”.



Quando o corpo da filha chegou ao palacete da família, sua mãe o colocou em um dos quartos para visitação pública e assim ficou por algumas semanas durante a construção da capela.



O corpo da menina, que estava em uma urna de vidro, não sofria com o tempo e ela sempre aparentava estar apenas dormindo. Depois a mãe negou-se a sepultar o corpo da filha devido a seu arrependimento, mesmo quando a capela ficou pronta.



Até que um dia, após muitos sonhos com a filha morta, pedido para ser enterrada e dizendo que não era uma santa ou coisa parecida para ficar sendo exposta, e da insistência da família, a mãe consentiu em sepultá-la.



A casa onde residiu a família e onde Maria Augusta nasceu tornou-se mais futuramente um colégio estadual. Algumas pessoas afirmam terem visto o espírito de Maria Augusta andando por lá.


A lenda conta que Maria Augusta caminha até hoje pelos corredores do colégio. Suas conhecidas aparições nos banheiros são por conta da sede que seu espírito sente por ter sido colocado algodão em suas narinas e boca.


Dizem que devido à esse acontecimento, ela passa pelos banheiros das escolas para abrir as torneiras e beber água, e que quando isso acontece é possível sentir seu perfume e ouvir seu vestido deslizar pelo chão, além de ser possível avistar sua silhueta pelas janelas.



Nenhum relato de atos de maldade cometida por ela foram comentados, apenas breves aparições pelos banheiros e corredores onde deixa no ar um leve perfume (o mesmo que usava em Paris). Também há o relato de uma funcionária da Escola que a ouviu tocar piano.



No cemitério onde foi construída a capelinha para seu sepuultamento, sendo mais exatamente um lindo mausoléu branco à esquerda do portão de entrada do cemitério dos Passos, também se ouvem relatos do avistamento de sua silhueta passando por entre os túmulos do cemitério, e ao mesmo tempo que um doce perfume predomina no ar, além do barulho do arrastar de tecido pelo chão.



Um grupo de espíritas kardecistas, estudando o caso, afirmou que Maria Augusta não teve consciência da própria morte e vaga pela casa onde sempre viveu em busca dos parentes até os dias de hoje, onde é uma escola.



Por isso, cuidado quando estiver só em um banheiro de uma escola, principalmente às altas horas da noite, você poderá ter uma surpresa altamente agradável!



Abaixo o colégio Conselheiro Rodrigues Alves, em Guaratinguetá/SP, local onde fora a casa de Maria Augusta Oliveira Borges.






Créditos da História ao Sobrenatural

Vísceras +18

Inspire.

Inspire o máximo de ar que conseguir. Essa história deve durar aproximadamente o tempo que você consegue segurar sua respiração, e um pouco mais. Então escute o mais rápido que puder.

Um amigo meu aos 13 anos ouviu falar sobre “fio-terra”. Isso é quando alguém enfia um consolo na bunda. Estimule a próstata o suficiente, e os rumores dizem que você pode ter orgasmos explosivos sem usar as mãos. Nessa idade, esse amigo é um pequeno maníaco sexual. Ele está sempre buscando uma melhor forma de gozar. Ele sai para comprar uma cenoura e lubrificante. Para conduzir uma pesquisa particular. Ele então imagina como seria a cena no caixa do supermercado, a solitária cenoura e o lubrificante percorrendo pela esteira o caminho até o atendente no caixa. Todos os clientes esperando na fila, observando. Todos vendo a grande noite que ele preparou.

Então, esse amigo compra leite, ovos, açúcar e uma cenoura, todos os ingredientes para um bolo de cenoura. E vaselina.

Como se ele fosse para casa enfiar um bolo de cenoura no rabo.

Em casa, ele corta a ponta da cenoura com um alicate. Ele a lubrifica e desce seu traseiro por ela. Então, nada. Nenhum orgasmo. Nada acontece, exceto pela dor.

Então, esse garoto, a mãe dele grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para descer, naquele momento.

Ele remove a cenoura e coloca a coisa pegajosa e imunda no meio das roupas sujas debaixo da cama.

Depois do jantar, ele procura pela cenoura, e não está mais lá. Todas as suas roupas sujas, enquanto ele jantava, foram recolhidas por sua mãe para lavá-las. Não havia como ela não encontrar a cenoura, cuidadosamente esculpida com uma faca da cozinha, ainda lustrosa de lubrificante e fedorenta.

Esse amigo meu, ele espera por meses na surdina, esperando que seus pais o confrontem. E eles nunca fazem isso. Nunca. Mesmo agora que ele cresceu, aquela cenoura invisível aparece em toda ceia de Natal, em toda festa de aniversário. Em toda caça de ovos de páscoa com seus filhos, os netos de seus pais, aquela cenoura fantasma paira por sobre todos eles. Isso é algo vergonhoso demais para dar um nome.

As pessoas na França possuem uma expressão: “sagacidade de escadas.” Em francês: esprit de l’escalier. Representa aquele momento em que você encontra a resposta, mas é tarde demais. Digamos que você está numa festa e alguém o insulta. Você precisa dizer algo. Então sob pressão, com todos olhando, você diz algo estúpido. Mas no momento em que sai da festa… enquanto você desce as escadas, então – mágica. Você pensa na coisa mais perfeita que poderia ter dito. A réplica mais avassaladora.

Esse é o espírito da escada.

O problema é que até mesmo os franceses não possuem uma expressão para as coisas estúpidas que você diz sob pressão. Essas coisas estúpidas e desesperadas que você pensa ou faz.

Alguns atos são baixos demais para receberem um nome. Baixos demais para serem discutidos.

Agora que me recordo, os especialistas em psicologia dos jovens, os conselheiros escolares, dizem que a maioria dos casos de suicídio adolescente eram garotos se estrangulando enquanto se masturbavam. Seus pais os encontravam, uma toalha enrolada em volta do pescoço, a toalha amarrada no suporte de cabides do armário, o garoto morto. Esperma por toda a parte. É claro que os pais limpavam tudo. Colocavam calças no garoto. Faziam parecer… melhor. Ao menos, intencional. Um caso comum de triste suicídio adolescente.

Outro amigo meu, um garoto da escola, seu irmão mais velho na Marinha dizia como os caras do Oriente Médio se masturbavam de forma diferente do que fazemos por aqui. Esse irmão tinha desembarcado num desses países cheios de camelos, onde o mercado público vendia o que pareciam abridores de carta chiques. Cada uma dessas coisas é apenas um fino cabo de latão ou prata polida, do comprimento aproximado de sua mão, com uma grande ponta numa das extremidades, ou uma esfera de metal ou uma dessas empunhaduras como as de espadas. Esse irmão da Marinha dizia que os árabes ficavam de pau duro e inseriam esse cabo de metal dentro e por toda a extremidade de seus paus. Eles então batiam punheta com o cabo dentro, e isso os fazia gozar melhor. De forma mais intensa.

Esse irmão mais velho viajava pelo mundo, mandando frases em francês. Frases em russo. Dicas de punhetagem.

Depois disso, o irmão mais novo, um dia ele não aparece na escola. Naquela noite, ele liga pedindo para eu pegar seus deveres de casa pelas próximas semanas. Porque ele está no hospital.

Ele tem que compartilhar um quarto com velhos que estiveram operando as entranhas. Ele diz que todos compartilham a mesma televisão. Que a única coisa para dar privacidade é uma cortina. Seus pais não o vem visitar. No telefone, ele diz como os pais dele queriam matar o irmão mais velho da Marinha.

Pelo telefone, o garoto diz que, no dia anterior, ele estava meio chapado. Em casa, no seu quarto, ele deitou-se na cama. Ele estava acendendo uma vela e folheando algumas revistas pornográficas antigas, preparando-se para bater uma. Isso foi depois que ele recebeu as notícias de seu irmão marinheiro. Aquela dica de como os árabes se masturbam. O garoto olha ao redor procurando por algo que possa servir. Uma caneta é grande demais. Um lápis, grande demais e áspero. Mas escorrendo pelo canto da vela havia um fino filete de vela derretida que poderia servir. Com as pontas dos dedos, o garoto descola o filete da vela. Ele o enrola na palma de suas mãos. Longo, e liso, e fino.

Chapado e com tesão, ele enfia lá dentro, mais e mais fundo por dentro do canal urinário de seu pau. Com uma boa parte da cera ainda para fora, ele começa o trabalho.

Até mesmo nesse momento ele reconhece que esses árabes eram caras muito espertos.

Eles reinventaram totalmente a punheta. Deitado totalmente na cama, as coisas estão ficando tão boas que o garoto nem observa a filete de cera. Ele está quase gozando quando percebe que a cera não está mais lá.

O fino filete de cera entrou. Bem lá no fundo. Tão fundo que ele nem consegue sentir a cera dentro de seu pau.

Das escadas, sua mãe grita dizendo que é a hora da janta. Ela diz para ele descer naquele momento. O garoto da cenoura e o garoto da cera eram pessoas diferentes, mas viviam basicamente a mesma vida.

Depois do jantar, as entranhas do garoto começam a doer. É cera, então ele imagina que ela vá derreter dentro dele e ele poderá mijar para fora. Agora suas costas doem. Seus rins. Ele não consegue ficar ereto corretamente.

O garoto falando pelo telefone do seu quarto de hospital, no fundo pode-se ouvir campainhas, pessoas gritando. Game shows.

Os raios-X mostram a verdade, algo longo e fino, dobrado dentro de sua bexiga. Esse longo e fino V dentro dele está coletando todos os minerais no seu mijo. Está ficando maior e mais espesso, coletando cristais de cálcio, está batendo lá dentro, rasgando a frágil parede interna de sua bexiga, bloqueando a urina. Seus rins estão cheios. O pouco que sai de seu pau é vermelho de sangue.

O garoto e seus pais, a família inteira, olhando aquela chapa de raio-X com o médico e as enfermeiras ali, um grande V de cera brilhando na chapa para todos verem, ele deve falar a verdade. Sobre o jeito que os árabes se masturbam. Sobre o que o seu irmão mais velho da Marinha escreveu.

No telefone, nesse momento, ele começa a chorar.

Eles pagam pela operação na bexiga com o dinheiro da poupança para sua faculdade. Um erro estúpido, e agora ele nunca mais será um advogado.

Enfiando coisas dentro de você. Enfiando-se dentro de coisas. Uma vela no seu pau ou seu pescoço num nó, sabíamos que não poderia acabar em problemas.

O que me fez ter problemas, eu chamava de Pesca Submarina. Isso era bater punheta embaixo d’água, sentando no fundo da piscina dos meus pais. Pegando fôlego, eu afundava até o fundo da piscina e tirava meu calção. Eu sentava no fundo por dois, três, quatro minutos.

Só de bater punheta eu tinha conseguido uma enorme capacidade pulmonar. Se eu tivesse a casa só para mim, eu faria isso a tarde toda. Depois que eu gozava, meu esperma ficava boiando em grandes e gordas gotas.

Depois disso eram mais alguns mergulhos, para apanhar todas. Para pegar todas e colocá-las em uma toalha. Por isso chamava de Pesca Submarina. Mesmo com o cloro, havia a minha irmã para se preocupar. Ou, Cristo, minha mãe.

Esse era meu maior medo: minha irmã adolescente e virgem, pensando que estava ficando gorda e dando à luz a um bebê retardado de duas cabeças. As duas parecendo-se comigo. Eu, o pai e o tio. No fim, são as coisas com as quais você não se preocupa que te pegam.

A melhor parte da Pesca Submarina era o duto da bomba do filtro. A melhor parte era ficar pelado e sentar nela.

Como os franceses dizem, Quem não gosta de ter seu cu chupado? Mesmo assim, num minuto você é só um garoto batendo uma, e no outro nunca mais será um advogado.

Num minuto eu estou no fundo da piscina e o céu é um azul claro e ondulado, aparecendo através de dois metros e meio de água sobre minha cabeça. Silêncio total exceto pelas batidas do coração que escuto em meu ouvido. Meu calção amarelo-listrado preso em volta do meu pescoço por segurança, só em caso de algum amigo, um vizinho, alguém que apareça e pergunte porque faltei aos treinos de futebol. O constante chupar da saída de água me envolve enquanto delicio minha bunda magra e branquela naquela sensação.

Num momento eu tenho ar o suficiente e meu pau está na minha mão. Meus pais estão no trabalho e minha irmã no balé. Ninguém estará em casa por horas.

Minhas mãos começam a punhetar, e eu paro. Eu subo para pegar mais ar. Afundo e sento no fundo. Faço isso de novo, e de novo.

Deve ser por isso que garotas querem sentar na sua cara. A sucção é como dar uma cagada que nunca acaba. Meu pau duro e meu cu sendo chupado, eu não preciso de mais ar. O bater do meu coração nos ouvidos, eu fico no fundo até as brilhantes estrelas de luz começarem a surgir nos meus olhos. Minhas pernas esticadas, a batata das pernas esfregando-se contra o fundo. Meus dedos do pé ficando azul, meus dedos ficando enrugados por estar tanto tempo na água.

E então acontece. As gotas gordas de gozo aparecem. É nesse momento que preciso de mais ar. Mas quando tento sair do fundo, não consigo. Não consigo colocar meus pés abaixo de mim. Minha bunda está presa.

Médicos de plantão de emergência podem confirmar que todo ano cerca de 150 pessoas ficam presas dessa forma, sugadas pelo duto do filtro de piscina. Fique com o cabelo preso, ou o traseiro, e você vai se afogar. Todo o ano, muita gente fica. A maioria na Flórida.

As pessoas simplesmente não falam sobre isso. Nem mesmo os franceses falam sobre tudo. Colocando um joelho no fundo, colocando um pé abaixo de mim, eu empurro contra o fundo. Estou saindo, não mais sentado no fundo da piscina, mas não estou chegando para fora da água também.

Ainda nadando, mexendo meus dois braços, eu devo estar na metade do caminho para a superfície mas não estou indo mais longe que isso. O bater do meu coração no meu ouvido fica mais alto e mais forte.

As brilhantes fagulhas de luz passam pelos meus olhos, e eu olho para trás… mas não faz sentido. Uma corda espessa, algum tipo de cobra, branco-azulada e cheia de veias, saiu do duto da piscina e está segurando minha bunda. Algumas das veias estão sangrando, sangue vermelho que aparenta ser preto debaixo da água, que sai por pequenos cortes na pálida pele da cobra. O sangue começa a sumir na água, e dentro da pele fina e branco-azulada da cobra é possível ver pedaços de alguma refeição semi-digerida.

Só há uma explicação. Algum horrível monstro marinho, uma serpente do mar, algo que nunca viu a luz do dia, estava se escondendo no fundo escuro do duto da piscina, só esperando para me comer.

Então… eu chuto a coisa, chuto a pele enrugada e escorregadia cheia de veias, e parece que mais está saindo do duto. Deve ser do tamanho da minha perna nesse momento, mas ainda segurando firme no meu cu. Com outro chute, estou a centímetros de conseguir respirar. Ainda sentindo a cobra presa no meu traseiro, estou bem próximo de escapar.

Dentro da cobra, é possível ver milho e amendoins. E dá pra ver uma brilhante esfera laranja. É um daqueles tipos de vitamina que meu pai me força a tomar, para poder ganhar massa. Para conseguir a bolsa como jogador de futebol. Com ferro e ácidos graxos Ômega 3.

Ver essa pílula foi o que me salvou a vida. Não é uma cobra. É meu intestino grosso e meu cólon sendo puxados para fora de mim. O que os médicos chamam de prolapso de reto. São minhas entranhas sendo sugadas pelo duto.

Os médicos de plantão de emergência podem confirmar que uma bomba de piscina pode puxar 300 litros de água por minuto. Isso corresponde a 180 quilos de pressão. O grande problema é que somos todos interconectados por dentro. Seu traseiro é apenas o término da sua boca. Se eu deixasse, a bomba continuaria a puxar minhas entranhas até que chegasse na minha língua. Imagine dar uma cagada de 180 quilos e você vai perceber como isso pode acontecer.

O que eu posso dizer é que suas entranhas não sentem tanta dor. Não da forma que sua pele sente dor. As coisas que você digere, os médicos chamam de matéria fecal. No meio disso tudo está o suco gástrico, com pedaços de milho, amendoins e ervilhas.

Essa sopa de sangue, milho, merda, esperma e amendoim flutua ao meu redor. Mesmo com minhas entranhas saindo pelo meu traseiro, eu tentando segurar o que restou, mesmo assim, minha vontade é de colocar meu calção de alguma forma.

Deus proíba que meus pais vejam meu pau.

Com uma mão seguro a saída do meu rabo, com a outra mão puxo o calção amarelo-listrado do meu pescoço. Mesmo assim, é impossível puxar de volta.

Se você quer sentir como seria tocar seus intestinos, compre um camisinha feita com intestino de carneiro. Pegue uma e desenrole. Encha de manteiga de amendoim. Lubrifique e coloque debaixo d’água. Então tente rasgá-la. Tente partir em duas. É firme e ao mesmo tempo macia. É tão escorregadia que não dá para segurar.

Uma camisinha dessas é feita do bom e velho intestino.

Você então vê contra o que eu lutava.

Se eu largo, sai tudo.

Se eu nado para a superfície, sai tudo.

Se eu não nadar, me afogo.

É escolher entre morrer agora, e morrer em um minuto.

O que meus pais vão encontrar depois do trabalho é um feto grande e pelado, todo curvado. Mergulhado na água turva da piscina de casa. Preso ao fundo por uma larga corda de veias e entranhas retorcidas. O oposto do garoto que se estrangula enquanto bate uma. Esse é o bebê que trouxeram para casa do hospital há 13 anos. Esse é o garoto que esperavam conseguir uma bolsa de jogador de futebol e eventualmente um mestrado. Que cuidaria deles quando estivessem velhinhos. Seus sonhos e esperanças. Flutuando aqui, pelado e morto. Em volta dele, gotas gordas de esperma.

Ou isso, ou meus pais me encontrariam enrolado numa toalha encharcada de sangue, morto entre a piscina e o telefone da cozinha, os restos destroçados das minhas entranhas para fora do meu calção amarelo-listrado.

Algo sobre o que nem os franceses falam. Aquele irmão mais velho na Marinha, ele ensinou uma outra expressão bacana. Uma expressão russa. Do jeito que nós falamos “Preciso disso como preciso de um buraco na cabeça…”, os russos dizem, “Preciso disso como preciso de dentes no meu cu…”

Mne eto nado kak zuby v zadnitse.

Essas histórias de como animais presos em armadilhas roem a própria perna fora, bem, qualquer coiote poderá te confirmar que algumas mordidas são melhores que morrer.

Droga… mesmo se você for russo, um dia vai querer esses dentes.

Senão, o que você pode fazer é se curvar todo. Você coloca um cotovelo por baixo do joelho e puxa essa perna para o seu rosto. Você morde e rói seu próprio cu. Se você ficar sem ar você consegue roer qualquer coisa para poder respirar de novo.

Não é algo que seja bom contar a uma garota no primeiro encontro. Não se você espera por um beijinho de despedida. Se eu contasse como é o gosto, vocês não comeriam mais frutos do mar.

É difícil dizer o que enojaria mais meus pais: como entrei nessa situação, ou como me salvei. Depois do hospital, minha mãe dizia, “Você não sabia o que estava fazendo, querido. Você estava em choque.” E ela teve que aprender a cozinhar ovos pochê.

Todas aquelas pessoas enojadas ou sentindo pena de mim…

Precisava disso como precisaria de dentes no cu.

Hoje em dia, as pessoas sempre me dizem que eu sou magrinho demais. As pessoas em jantares ficam quietas ou bravas quando não como o cozido que fizeram. Cozidos podem me matar. Presuntadas. Qualquer coisa que fique mais que algumas horas dentro de mim, sai ainda como comida. Feijões caseiros ou atum, eu levanto e encontro aquilo intacto na privada.

Depois que você passa por uma lavagem estomacal super-radical como essa, você não digere carne tão bem. A maioria das pessoas tem um metro e meio de intestino grosso. Eu tenho sorte de ainda ter meus quinze centímetros. Então nunca consegui minha bolsa de jogador de futebol. Nunca consegui meu mestrado. Meus dois amigos, o da cera e o da cenoura, eles cresceram, ficaram grandes, mas eu nunca pesei mais do que pesava aos 13 anos.

Outro problema foi que meus pais pagaram muita grana naquela piscina. No fim meu pai teve que falar para o cara da limpeza da piscina que era um cachorro. O cachorro da família caiu e se afogou. O corpo sugado pelo duto. Mesmo depois que o cara da limpeza abriu o filtro e removeu um tubo pegajoso, um pedaço molhado de intestino com uma grande vitamina laranja dentro, mesmo assim meu pai dizia, “Aquela porra daquele cachorro era maluco.”

Mesmo do meu quarto no segundo andar, podia ouvir meu pai falar, “Não dava para deixar aquele cachorro sozinho por um segundo…”

E então a menstruação da minha irmã atrasou.

Mesmo depois que trocaram a água da piscina, depois que vendemos a casa e mudamos para outro estado, depois do aborto da minha irmã, mesmo depois de tudo isso meus pais nunca mencionaram isso novamente.

Nunca.

Essa é a nossa cenoura invisível.

Você.

Agora você pode respirar.

Eu ainda não.