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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Eu acho que exagerei desta ultima vez


Sinto falta do ódio que tinha de você, das brigas que terminaram em hematomas, dos cortes e de todas as vezes que te machuquei e te quebrei.
Das vezes em que olhava para seus olhos e eles tremiam de medo,
Mas mesmo assim você nunca fugiu, nunca foi embora.
Acho que te amarrei bem de mais para que tivesse alguma chance.
Eu não podia te deixar solta, você era o que eu chamava de hora da diversão, e eu sinceramente acho que você se divertia também, mesmo com todas aquelas lagrimas de dor.
Vai me dizer que não gostava das vezes que eu cortava sua pele na primeira camada, só para deixar sua carne exposta para que eu pudesse então fazer você me sentir melhor.
Sempre defini nosso relacionamento como algo muito... Intimo.
Aposto que você também achava, afinal nunca foi minha intensão te magoar de forma alguma, sabe... eu amo você, ou amava, amava esse seu olhar psicótico enquanto eu explicava a próxima atividade que faríamos.
Mas antes do final eu gostaria que você ficasse com uma coisa nossa, eu não sei se você sabia que eu tinha isso guardado, mas isso não importa.
Desde sempre eu tenho preenchido este álbum de fotos, não só minhas, mas nossas!
Esta vendo?
Esta tudo aqui, e um dia o mundo vai ver a beleza do meu trabalho, do nosso trabalho.
Desde o dia em que te amarrei, o dia que tirei suas unhas. Uma de cada vez no dia que me arranhou, quando cortei suas pálpebras com aquele alicate da garagem porque você queria dormir e também tem aquele dia em que você conseguiu se soltar enquanto eu tomava banho e ligou para a policia!
Infelizmente eles não sabiam brincar como nos sabemos, eu matei todos, todos!
Esta vendo aqui na foto, todos mortos!
Tudo bem que depois disso tivemos que nos mudar, e isso foi difícil, mas confesso que foi divertido.
Mas acho que a brincadeira acabou agora,né ?
Não vejo mais o medo ou o pavor nos seus olhos, apenas esse brilho cinza da morte...


Eu acho que exagerei desta ultima vez...

Escritor:Cerberus
Blog:
Gene Suicida

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O Enigma das Pegadas do Diabo


O enigma das Pegadas do Diabo


Um Krampus, companheiro de S.Nicolau na época Natalícia. Em vez de dar prendas, este ser mitológico castiga as crianças malcomportadas

No seu Livro dos Danados de 1919, Charles Fort reavivou o interesse num enigma supostamente paranormal, o qual ocorreu em 1855, no condado inglês de Devon. Este enigma veio a ficar conhecido como As Pegadas do Diabo e é também uma das histórias que me lembro com particular clareza de ter lido na minha infância, no capítulo dedicado ao paranormal, do livro das Selecções do Readers Digest, O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico.

E de que trata este enigma? Ao que parece, na noite de 8 para 9 de Fevereiro de 1855, num dos Invernos mais frios de que havia memória, os habitantes do condado de Devon acordaram para um cenário no mínimo bizarro. Um rasto de pegadas de um animal com cascos, estendia-se por várias milhas. Foram avistadas em mais de 30 localidades diferentes, de tal forma que, assumindo que as marcas foram feitas por uma única criatura, a mesma teria de ter percorrido uma distância calculada entre 65 a 160 quilômetros numa única noite. Para além da extensão, outras singularidades acompanhavam as pegadas.



Desenho feito por uma das testemunhas do evento, publicada pelo The Illustrated London News, em 24 de Fevereiro de 1855. Fonte:Wikipedia

As mesmas pareciam ter sido feitas por uma criatura bípede e não quadrúpede,como seria de esperar se fosse um animal. Para além disso, as marcas formavam quase uma linha única, em vez de surgirem alternadamente à direita e à esquerda. E para acrescentar ainda mais ao mistério, as pegadas pareciam por vezes descrever padrões impossíveis. Acabavam junto de muros altíssimos, de montes de feno, e apareciam do outro lado dos mesmos, como se a criatura tivesse simplesmente pulado sobre eles. Apareciam do nada no meio dos campos e terminavam abruptamente, dando a entender que o autor das pegadas tinha simplesmente pousado e em seguida levantado voo. Foram também reportadas várias pegadas em cima de telhados e nos parapeitos de janelas.

Como é óbvio, não tardou muito para que as pessoas atribuíssem as pegadas ao próprio Diabo. Mas será que o anjo caído andou mesmo pelos campos de Devon? Vamos começar por tentar perceber se existem ainda fontes diretas do fenômeno  ou seja, manuscritos originais ou outros documentos pertencentes a testemunhas presenciais.


Igreja paroquial de Clyst St. George

A bonita igreja paroquial de Clyst St. George teve como reitor o Reverendo Henry Thomas Ellacombe, um campanólogo de elevado mérito e também um reconhecido botânico. Diz-se inclusivamente que nos jardins da reitoria, o fantasma do Reverendo com a sua longa batina preta, ainda é por vezes avistado vagueando por entre as suas plantas... Menciono o Reverendo Ellacombe, porque a ele pertencem os únicos documentos originais e contemporâneos do enigma das Pegadas do Diabo. São constituídos por cartas, desenhos das marcas, menções a relatos de testemunhas e mesmo algumas observações curiosas feitas pelo reverendo, como por exemplo quando afirma que o seu cão ladrou continuamente na noite em que apareceram as supostas pegadas sobrenaturais. Para além destes documentos, as restantes fontes em primeira mão dos acontecimentos, resumem-se às cartas remetidas por testemunhas ao Illustrated London News, e publicadas na íntegra.

Permitam-me desde já que vos indique a melhor fonte de informação existente na Internet sobre este enigma ocorrido em Devon, há mais de 150 anos. Trata-se de um trabalho fantástico, elaborado pelo historiador Mike Dash, e cujo download integral em formato PDF pode ser feito neste link. Aproveitem enquanto o link existe, pois garanto-vos que não irão encontrar nada tão completo como este trabalho, cujo título é The Devil's Hoofmarks - Source Material on The Great Devon Mystery of 1855. Para além de reproduzir na íntegra todos os artigos que surgiram nos jornais da época, reproduz também alguns dos desenhos e documentos que estavam em poder do Reverendo Ellacombe.



Mosaico do Séc. II ou III A.C, encontrado em Caesaraugusta, atual cidade de Zaragoza, retratando os deuses Pan e Eros - Fonte:Wikipedia

A que conclusões chegou Mike Dash? O mesmo analisou a história, dividindo-a nos seus aspectos mais marcantes e analisando cada um deles com rigor. Depois investigou a fundo se as seguintes caraterísticas da história eram ou não verdade:
As pegadas estavam realmente espalhadas por todo o condado de Devon? As pegadas foram mesmo encontradas em locais e condições estranhas? As pegadas eram todas semelhantes? As pegadas estavam bem definidas? Todos os animais domésticos reagiram ao fenômeno  E por fim, as pegadas eram na realidades únicas e nunca antes vistas?

Entre outras coisas, Mike Dash conclui que as pegadas não eram iguais em tamanho, não apareceram todas no curso de uma só noite e não formavam uma única linha reta que atravessava todo o condado de Devon. Acima de tudo, mostra com forte evidência documental, como esta história foi alterada, copiada e embelezada ao longo dos tempos, afastando-a imenso daquilo que são os poucos relatos das testemunhas originais. Apesar de tudo, Mike Dash não tira uma conclusão definitiva sobre a origem do fenômeno  Aliás, como o poderia fazer mais de 150 anos depois? Foram entretanto propostas mil e uma teorias, todas elas fora do âmbito do paranormal. Ratos, pássaros, texugos, cangurus, balões, conspirações, etc. E a sua teoria, qual é?