terça-feira, 7 de março de 2017

O Fantasma - Stephen King

- Vim porque desejo contar-lhe minha história - disse o homem deitado no sofá do Dr. Harper.

O homem era Lester Billings, de Waterbury, Connecticut. De acordo com os dados anotados pela Enfermeira Vickers, tinha vinte e oito anos de idade, era empregado de uma firma industrial em Nova York, divorciado e pai de três filhos. Todos falecidos.

- Não posso procurar um padre porque não sou católico. Não posso procurar um advogado porque não tenho motivo algum para contratar um advogado. Tudo que fiz foi matar meus filhos. Um de cada vez. Matei-os todos.

O Dr. Harper ligou o gravador.


Billings estava deitado reto como uma vara no sofá, sem relaxar um único centímetro do corpo. Seus pés sobravam rigidamente sobre a beirada. A figura de um homem suportando uma humilhação necessária. Tinha as mãos cruzadas sobre o peito, como um cadáver. O rosto estava cuidadosamente composto. Fitava o teto liso e branco como se visse cenas e quadros projetados nele.

- Quer dizer que realmente os matou, ou... - Não - um leve gesto impaciente com a mão. - Mas fui responsável. Denny em 1967. Shirl em 1971.E Andy este ano. Quero lhe contar tudo a respeito. O Dr. Harper permaneceu calado. Achava que Billings parecia abatido e envelhecido. Os cabelos ralos, a pele descorada. Os olhos continham todos os miseráveis segredos do uísque.

- Foram assassinados, entende? Só que ninguém acredita nisso. Se acreditassem, tudo estaria bem.

- Por quê?

- Porque...

Billings interrompeu-se e se ergueu nos cotovelos, olhando através da sala.

- O que é aquilo? - perguntou rispidamente, os olhos apertando-se até serem meras fendas entre as pálpebras.

- O quê?

- Aquela porta?

- O armário embutido - disse o Dr. Harper. - Onde penduro o sobretudo e guardo as
galochas.

- Abra. Quero ver.

O Dr. Harper levantou-se sem uma só palavra, atravessou a sala e abriu o armário. Lá dentro, um sobretudo castanho-amarelado pendurado num dos quatro ou cinco cabides. Embaixo dele, um par de galochas brilhantes. O The New York Times fora cuidadosamente enfiado numa delas. Nada mais.

- Tudo bem? - indagou o Dr. Harper.

- Tudo bem - replicou Billings, deixando de apoiar-se nos cotovelos e voltando à posição anterior.

- Você estava dizendo - disse o Dr. Harper enquanto regressava à poltrona - que se o assassinato de seus três filhos pudesse ser comprovado, todos os seus problemas cessariam. Por quê?

- Eu iria para a cadeia - replicou Billings de imediato. - Pelo resto da vida. E numa cadeia pode-se ver o interior de todos os quartos. De todos. - Sorriu para ninguém.

- Como seus filhos foram assassinados?

- Não tente arrancar isso de mim à força!

Billings virou-se para fitar maleficamente o Dr. Harper.

- Eu contarei, não se preocupe. Não sou um dos seus malucos passeando por aí e fingindo ser Napoleão ou explicando que me viciei em heroína porque minha mãe não me amava. Sei que não acreditará em mim. Não me importo. Não faz diferença. Apenas contar será suficiente.

- Muito bem - disse o Dr. Harper, pegando seu cachimbo.

- Casei-me com Rita em 1965 - eu tinha vinte e um anos e ela dezoito. Estava grávida. de Denny. Seus lábios se crisparam num sorriso retorcido e assustador, que desapareceu num piscar de olhos.

- Fui obrigado a abandonar os estudos e arranjar emprego, mas não me importei. Amava-os ambos. Éramos muito felizes.

- Rita tornou a engravidar pouco depois que Denny nasceu e Shirl veio ao mundo em dezembro de 1966. Andy nasceu no verão de 1969 e Denny já estava morto nessa época. Andy foi um descuido. Era o que Rita dizia. Afirmava que às vezes esse negócio de controle de natalidade não funciona direito. Creio que foi algo mais que um descuido. Filhos prendem um homem, o senhor sabe. As mulheres gostam disso, especialmente quando o homem é mais inteligente que elas. Não acha que é verdade? Harper soltou um grunhido neutro.

- Não importa, porém. De todo modo, eu o amava.

Billings fez a declaração num tom quase vingativo, como se amasse o filho para fazer raiva à mulher.

- Quem matou as crianças? - perguntou Harper.

- O fantasma - replicou imediatamente Lester Billings. - O fantasma matou-as todas. Saía do armário e as matava.

Virou-se e sorriu.

- O senhor acha mesmo que sou maluco. Está escrito em sua cara. Mas não me incomodo. Tudo o que desejo fazer é contar e sumir.

- Estou escutando - disse Harper.

- Tudo começou quando Denny tinha quase dois anos e Shirl ainda era bebê. Ele começou a chorar quando Rita o colocava na cama para dormir. Tínhamos apenas dois quartos, entende? Shirl dormia num berço em nosso quarto. A princípio, julguei que ele chorasse porque já não tinha uma mamadeira para levar consigo para a cama. Rita me disse que não fizesse drama, que o deixasse levar a mamadeira e ele acabaria por deixála de lado no devido tempo. Mas é assim que as crianças ficam mal acostumadas. Se formos permissivos demais, elas se tornam mimadas. Então, fazem-nos sofrer. Engravidam alguma pequena, sabe, ou começam a tomar tóxicos. Ou viram veados. Já imaginou acordar um certo dia e descobrir que seu garoto - o seu filho - é bicha?

- Depois de algum tempo, porém, quando ele não parou, passei a colocá-lo na cama eu mesmo. E se ele não parasse de chorar, eu lhe dava uma palmada. Então, Rita disse que ele não parava de repetir "luz". Bem, eu não sabia. Crianças daquele tamanho, como podemos saber o que estão dizendo? Só a mãe pode saber.

- Rita queria instalar uma luz noturna. Um daqueles abajures com o Camundongo Mickey ou o Pateta ou algo semelhante. Não permiti. Se um garoto não aprende a perder o medo do escuro quando ainda é pequeno, nunca mais perderá.

- De qualquer maneira, ele morreu no verão seguinte ao nascimento de Shirley. Naquela noite, eu o coloquei na cama e ele começou a chorar imediatamente. Dessa vez, escutei o que disse. Apontou para o armário quando falou. "Fantasma", disse o garoto. "Fantasma, Papai."

- Apaguei a luz, fui para o nosso quarto e perguntei a Rita por que ela resolveu ensinar ao menino uma palavra como aquela. Fiquei tentado a dar-lhe umas bofetadas, mas não dei. Ela afirmou que nunca o ensinara a dizer aquilo. E eu a chamei de maldita mentirosa.

- Foi um péssimo verão para mim, entende? O único emprego que consegui foi carregar caminhões de Pepsi-Cola num armazém e passava o tempo todo cansado. Shirl acordava modo que Rita a pegava no colo para niná-la. Vou-lhe contar, às vezes eu sentia ímpetos de atirá-las ambas pela janela. Meu Deus, às vezes as crianças nos deixam loucos. Eu seria capaz de matá-las.

- Bem, a garotinha me acordou às três da manhã, bem no horário de costume. Ainda meio adormecido, fui ao banheiro e Rita me pediu que desse uma espiada em Denny. Respondi-lhe que ela mesmo o fizesse e voltei para cama. Já estava quase dormindo quando ela começou a gritar.

- Levantei-me e fui até lá. O menino estava deitado de costas, morto. Branco como farinha de trigo, exceto onde o sangue tinha... tinha afundado. Na parte posterior das pernas, na cabeça, na bun... nas nádegas. Tinha os olhos abertos. Isso foi o pior, sabe? Esbugalhados e vidrados, como os olhos que vemos nas cabeças empalhadas dos troféus de caça que alguns colocam acima da lareira. Como as fotografias daqueles garotos mortos no Vietnã. Mas um garoto americano não devia ficar assim. Morto de costas. Usando fraldas e calcinhas de borracha, porque começara a urinar-se novamente nas duas últimas semanas. Horrível. Eu amava aquele menino.

Billings sacudiu lentamente a cabeça e depois exibiu o mesmo sorriso contorcido e assustador.

- Rita estava quase morrendo de tanto gritar. Tentou pegar Benny no colo e embalá-lo, mas não permiti. Os tiras não gostam que a gente toque nas provas. Sei que...

- Você já sabia que era o fantasma, na época? - indagou Harper em voz baixa.

- Oh, não. Naquela época, não. Mas vi uma coisa. Na ocasião, não significou muito para mim, mas minha mente arquivou-a.

- O que foi?

- A porta do armário estava aberta. Não muito. Apenas uma fresta. Mas eu sabia que a fechara, entende? Lá dentro havia sacos plásticos da lavanderia. Uma criança mexe naquilo e pronto: asfixia. Sabe disso?

- Sim. O que aconteceu, então?

Billings sacudiu os ombros.

- Nós o enterramos.

Olhou morbidamente para as mãos que haviam lançado terra em três pequenos caixões.

- Houve algum inquérito?

- Claro - os olhos de Billings faiscaram com um brilho sardônico. Um maldito caipira com um estetoscópio e uma maleta negra cheia de balas de hortelã e um casaco de pele de carneiro conseguida em alguma faculdade de veterinária. Morte de berço, disse ele! Já escutou semelhante monte de merda? O garoto tinha três anos!

- A morte de berço é muito comum durante o primeiro ano - disse cautelosamente Harper. - Todavia, esse diagnóstico consta de atestados de óbito de crianças até a idade de cinco anos, por falta de um melhor...

- Merda! - berrou valentemente Billings.

Harper tornou a acender o cachimbo.

- Um mês depois do enterro, passamos Shirl para o antigo quarto de Denny. Rita resistiu com unhas e dentes, mas a última palavra foi minha. Doeu-me, claro que sim. Deus, como eu gostava de ter a garotinha em nosso quarto. Mas não devemos ser superprotetores. Assim, mutilamos a criança. Quando eu era menino, minha mãe costumava levar-me à praia e depois ficava rouca de tanto gritar: "Não vá tão longe! Aí
é muito fundo! Tem correnteza! Aí não dá pé!" Até mesmo mantinha-se alerta contra tubarões, juro por Deus. Hoje em dia, nem consigo chegar perto do mar. Uma vez, quando Denny ainda era vivo, Rita me obrigou a levar a família à praia em Savin Rock. Fiquei enjoado como um cão. Eu sei, entende? Não devemos superproteger as crianças. E também não mimá-los. A vida continua. Shirl foi direto para o berço de Denny. Jogamos o colchão de Denny no lixo. Eu não queria que minha filha pegasse micróbios.

- Assim, um ano se passou. E uma noite, quando eu botava Shirl na cama para dormir, ela começou a chorar e berrar. "Fantasma, Papai! Fantasma, fantasma!"

- Aquilo me sobressaltou. Era exatamente como Denny. E comecei a lembrar-me daquela porta do armário, apenas entreaberta quando o encontramos. Tive vontade de levá-la para nosso quarto naquela noite

- E levou?

- Não - disse Billings, olhando para as mãos e contorcendo o rosto. - Como eu poderia enfrentar Rita e admitir que estava errado? Eu tinha que ser forte. Ela sempre foi tão molenga... veja com que facilidade foi para a cama comigo quando ainda não éramos casados.

Harper disse:

- Em compensação, veja com que facilidade você foi para a cama com ela. Billings imobilizou-se no ato de recruzar as mãos e virou lentamente a cabeça para encarar Harper.

- Está querendo bancar o engraçadinho?

- Certamente que não - replicou Harper.

- Então, deixe-me contar à minha maneira - disse Billings, irritado. - Vim aqui para desabafar. Para contar minha história. Não falarei de minha vida sexual, se é isso que está querendo. Rita e eu tínhamos uma vida sexual muito normal, sem nenhuma dessas sujeiras. Sei que algumas pessoas se excitam ao falar no assunto, mas não sou uma delas.

- Está bem - disse Harper.

- Muito bem - replicou Billings com nervosa arrogância. Parecia haver perdido o fio dos pensamentos e seus olhos procuraram inquietamente a porta do armário, que estava bem fechada.

- Gostaria que eu abrisse aquela porta? - indagou Harper.

- Não! - respondeu Billings depressa. Passou a mão na testa, como se tentasse colocar as recordações em ordem. - Para que desejaria olhar para suas galochas? - e soltou uma risadinha nervosa.

- O fantasma pegou Shirl também - prosseguiu ele. - Um mês depois. Mas algo aconteceu antes disso. Certa noite, ouvi um barulho lá dentro. Então, ela gritou. Abri a porta muito depressa - a luz do corredor estava acesa - e... ela estava sentada no berço, chorando, e... alguma coisa se mexeu. Nas sombras, perto do armário. Alguma coisa se esgueirou.

- A porta do armário estava aberta?

- Um pouco; só uma fresta - respondeu Billings, umedecendo os lábios com a língua. - Shirl estava gritando alguma coisa a respeito do fantasma. E disse algo mais a respeito do que me soou como "garras". Só que ela disse "galas". Crianças pequenas encontram dificuldade com o som do "r". Rita subiu correndo e perguntou o que havia. Respondi que a menina se assustara com as sombras dos galhos movendo-se no teto.

- Gala? - disse Harper.

- Hem?

- Gala... Estaria ela, de algum modo, referindo-se ao armário?

- Talvez - disse Billings. - Poderia ser isso. Mas creio que foi "garras".

Seu olhar procurou outra vez a porta do armário. - Garras. Garras compridas - sua voz sumiu num sussurro. 

- Você olhou dentro do armário?

- S-sim - disse Billings, com as mãos fortemente cruzadas sobre o peito; a força era suficiente para deixar os nós dos dedos esbranquiçados.

- Havia alguma coisa lá dentro? Você viu o...

- Não vi nada! - berrou bruscamente Billings.

Então, as palavras jorraram aos borbotões, como se uma rolha negra fosse retirada da garrafa de sua alma:

- Quando ela morreu eu a encontrei, entende? E ela estava toda preta. Toda. Engolira a própria língua e estava tão preta quanto um negro num espetáculo teatral. E olhava para mim. Seus olhos pareciam aqueles que vemos em animais empalhados, brilhantes e horríveis, como bolas de gude vivas, e diziam: "Ele me pegou, Papai. Você deixou ele me pegar. Você me matou. Você ajudou a me matar..."

Sua voz foi sumindo aos poucos. Uma única lágrima, muito grande e silenciosa, escorreu-lhe pelo lado do rosto.

- Foi uma convulsão cerebral, entende? As crianças são acometidas por ela, às vezes. Um sinal errado partido do cérebro. Fizeram uma autópsia no Hospital de Hartford e disseram que, devido à convulsão, ela engolira a própria língua, morrendo asfixiada. E tive que voltar para casa sozinho porque precisaram manter Rita no hospital, sob a ação de sedativos. Ela estava fora de si. Tive que voltar para casa sozinho e sei que uma criança não tem convulsões simplesmente porque o cérebro pifou. É possível amedrontar uma criança até provocar uma convulsão. E eu tive que voltar para a casa onde ele estava.

Em seguida, murmurou:

- Dormi no sofá da sala. Com a luz acesa.

- Aconteceu alguma coisa?

- Tive um sonho - disse Billings. - Eu estava num quarto escuro e havia alguma coisa que eu não conseguia... que eu não conseguia ver direito, dentro do armário. Lembrou me uma estória em quadrinhos que li quando criança. Estórias da Cripta, recorda-se? Jesus Cristo! Tinha um sujeito chamado Graham Innes; era capaz de atrair qualquer coisa deste mundo - e algumas de fora. De qualquer modo, na estória uma mulher afogou o marido, entende? Pôs blocos de cimento nos pés dele e o atirou no poço de uma pedreira. Só que ele voltou. Todo apodrecido, verde-escuro, e os peixes lhe tinham comido um dos olhos; havia algas em seus cabelos. Ele voltou e matou a mulher. E quando acordei no meio da noite, pensei que ele estava debruçado sobre mim. Com garras... garras compridas...

O Dr. Harper olhou para o relógio digital embutido em sua mesa de trabalho. Lester Billings estivera falando durante quase meia hora.

- Quando sua esposa voltou para casa, que atitude assumiu em relação a você?

- Ela ainda me amava - respondeu Billings com orgulho. - Ainda queria fazer o que eu mandava. Esse é o lugar da esposa, certo? Esse women's lib só resulta em pessoas doentes. A coisa mais importante na vida é uma pessoa conhecer seu lugar. Sua... sua... bem...

- Sua posição na vida?

- É isso aí! - exclamou Billings, estalando os dedos. - É exatamente isso. E uma mulher deve acompanhar o marido. Oh, ela ficou um tanto desbotada, por assim dizer, nos quatro ou cinco meses seguintes... arrastava os pés pela casa, não assistia à televisão, não cantava, não ria. Eu sabia que ficaria boa. Quando as crianças são tão pequenas, os pais não se apegam tanto a elas. Depois de algum tempo, é preciso abrir uma gaveta e
olhar uma fotografia para conseguir lembrar exatamente como elas eram. 

- Rita queria outro filho - acrescentou ele sombriamente. - Eu lhe disse que era má idéia. Oh, não para sempre, mas durante algum tempo. Disse-lhe que era tempo de nos recuperarmos e começarmos a aproveitarmos mutuamente. Nunca tivéramos oportunidade de fazer isso antes. Se quiséssemos ir a um cinema, tínhamos que arranjar alguém para cuidar das crianças. Não podíamos ir à cidade ver os Mets jogarem, a menos que os pais dela ficassem com as crianças, pois minha mãe não queria nada conosco. Denny nasceu pouco depois de nos casarmos, entende? Minha mãe dizia que Rita era uma vagabunda, uma vigarista de esquina. Vigaristas de esquina, era assim que minha mãe sempre as chamava. Não é uma piada? Uma vez ela me obrigou a sentar e falou-me das doenças que um homem pode contrair de uma vi... de uma prostituta. Como o ca... o pênis aparece com uma feridinha num dia e está todo podre no dia seguinte. Ela nem mesmo compareceu ao nosso casamento.

Billings tamborilou com os dedos no peito.

- O ginecologista de Rita vendeu-lhe a idéia de usar um DIU dispositivo intra-uterino. Infalível, afirmou ele. Basta enfiá-lo na... no lugar da mulher e pronto. Se houver alguma coisa lá dentro, o óvulo não consegue fertilizar-se. A pessoa nem mesmo sente que tem alguma coisa dentro.

Ele sorriu com sombria doçura.

- Ninguém sabe se a coisa está ou não lá dentro. E no ano seguinte Rita ficou grávida. Que infalibilidade!

- Nenhum método de controle de natalidade é perfeito - disse Harper. - A pílula tem apenas noventa por cento de eficiência. O DIU pode ser expulso por cólicas, fluxo menstrual abundante e, em casos excepcionais, pelo esforço da evacuação.

- Sim. E também pode ser retirado.

- É possível.

- E o que acontece em seguida? Ela fica tricotando roupinhas, cantando no chuveiro e comendo picles como uma louca. Sentando-se no meu colo para dizer que talvez fosse pela vontade divina. Merda.

- O bebê nasceu no final do ano após a morte de Shirl?

- Exatamente. Um menino. Rita deu-lhe o nome de Andrew Lester Billings. Eu não quis saber dele, pelo menos a princípio. Meu lema era: ela o arranjou, portanto tome conta dele. Sei como isto pode soar, mas o senhor precisa compreender que passei por maus bocados.

- Mas acabei gostando dele, entende? Em primeiro lugar, foi o único de nossa prole que saiu parecido comigo. Denny se parecia com a mãe e Shirl não se parecia com ninguém, exceto, talvez, minha avó Ann. Mas Andy era minha imagem escarrada.

- Eu ia brincar com ele no cercado quando chegava em casa do trabalho. Ele agarrava meu dedo, sorria e gargarejava. Com apenas nove semanas de idade o garoto já sorria para o velho pai. Acredita?

- Então, certa noite, lá estou eu saindo de uma farmácia com um brinquedo para pendurar no berço do garoto. Eu! As crianças não apreciam brinquedos até terem idade suficiente para dizer "muito obrigado" este sempre foi o meu lema. Mas lá estava eu, comprando aquela bugiganga e, de repente, compreendendo que o amava mais que aos outros. Nessa época eu tinha outro emprego, muito bom, vendendo brocas de perfuração da Cluett & Sons. Dei-me muito bem e, quando Andy completou um ano, nós nos mudamos para Waterbury. A velha casa trazia muitas recordações desagradáveis.

- E tinha armários demais.

- Aquele ano seguinte foi o melhor para nós. Eu daria todos os dedos da mão direita para tê-lo de volta. Oh, a guerra no Vietnã continuava e os hippies ainda andavam sem roupa por aí, os negros faziam algazarra, mas nada disso nos incomodava. Morávamos numa rua tranqüila, com bons vizinhos. Éramos felizes - resumiu Billings. - Uma vez, perguntei a Rita se ela não estava preocupada. O senhor sabe, o azar anda por toda parte. Ela respondeu que não se preocupava por nossa causa. Disse que Andy era especial. Que Deus erguera uma muralha de proteção em volta dele.

Billings fitou morbidamente o teto.

- O ano passado não foi tão bom. Algo na casa mudou. Passei a deixar as botas no corredor, porque já não gostava de abrir a porta do armário embutido. Pensava sempre: ora, e se o fantasma estiver lá dentro? E começava a imaginar que ouvia barulhos esquisitos, como se algo negro e verde, molhado, se mexesse lá dentro.

- Rita indagou se eu andava trabalhando demais e passei a ser ríspido com ela, como nos velhos tempos. Chegava a ficar enjoado por ter que deixá-los sozinhos em casa ao ir para o trabalho, mas alegrava-me precisar sair. Deus me perdoe, mas eu ficava satisfeito por sair. Comecei a pensar, sabe, que o fantasma se perdeu de nós durante algum tempo quando nos mudamos. Foi obrigado a caçar-nos, esgueirando-se pelas ruas à noite e talvez se arrastando pelos esgotos. Farejando-nos. Demorou um ano, mas encontrou-nos. Quer Andy e me quer, também. Comecei a pensar: talvez quando pensamos bastante tempo em alguma coisa e acreditamos nela, ela se tome real. Talvez todos os monstros de que tínhamos medo em criança, Frankenstein, o Lobisomem e Mamãe, fossem reais. Bastante reais para matarem meninos que todos acreditavam terem caído em buracos, morrido afogados em lagos ou simplesmente desaparecido. Talvez...

- Está esquivando-se de alguma coisa, Sr. Billings?

Billings passou muito tempo calado; dois minutos se escoaram, pelo relógio digital. Então, ele disse abruptamente:

- Andy morreu em fevereiro. Rita não estava em casa. Recebera um chamado do pai. A mãe dela sofrera um acidente de automóvel no dia seguinte ao Ano Novo e estava à morte. Rita tomou um ônibus naquela mesma noite.

- A mãe não morreu mas esteve em perigo de vida durante muito tempo: dois meses. Contratei uma mulher ótima, que ficava com Andy durante o dia. E ficávamos juntos à noite. E as portas dos armários embutidos estavam sempre se abrindo.

Billings umedeceu os lábios com a língua.

- O garoto dormia no meu quarto. É curioso, também. Uma vez, quando ele tinha dois anos, Rita me perguntou se eu desejava mudá-lo para outro quarto. Spock ou algum daqueles outros charlatães alega que é prejudicial às crianças dormirem com os pais, entende? Diz que causa traumas relativos ao sexo e tudo o mais. Mas nunca fazíamos sexo a menos que o garoto estivesse dormindo. E eu não queria mudá-lo de quarto. Tinha medo, depois do que aconteceu a Danny e Shirl.

- Mas mudou-o, não é mesmo? - indagou o Dr. Harper.

- Sim - respondeu Billings com um sorriso doente e amarelo. Mudei-o. Outro silêncio. Billings pareceu lutar contra ele.

- Tive que mudar! - bradou finalmente. - Tive! Tudo estava bem enquanto Rita ficou em casa, mas depois que ela partiu o fantasma se tornou atrevido. Começou a... - Billings rolou os olhos para Harper e exibiu os dentes num sorriso selvagem. - Oh, você não vai acreditar. Sei o que pensa: sou mais um maluco para seus registros. Sei disso, mas você não esteve lá, seu maldito bisbilhoteiro.

- Uma noite, todas as portas da casa se escancararam. De manhã, levantei-me e encontrei um rastro de lama e sujeira no corredor, entre o armário embutido dos casacos e a porta da frente. O fantasma saíra? Entrara? Não sei! Juro por Deus, não sei! Discos arranhados e cobertos de lama, espelhos quebrados... e os barulhos... os barulhos... Passou a mão pelos cabelos.

- Eu acordava às três da manhã, olhava para a escuridão e dizia a princípio: "É apenas o relógio." Mas, além disso, escutava algo que se movia furtivamente. Contudo, não furtivamente demais, pois queria que eu escutasse. Um barulho úmido e escorregadio, como algo escorrendo no ralo da cozinha. Ou estalidos, como garras arranhando levemente o corrimão da escada. E eu fechava os olhos, sabendo que era ruim escutar aquilo, mas pior seria ver...

- E sempre tinha medo de que os ruídos cessassem durante algum tempo e, depois, uma gargalhada explodisse em meu rosto, ou um hálito com cheiro de repolho podre, e mãos me apertassem a garganta.

Billings estava pálido, trêmulo.

- Portanto, mudei Andy de quarto. Sabia que o fantasma iria buscá-lo, entende? Por que ele era o mais fraco. E foi o que aconteceu. Logo na primeira noite, o garoto gritou de madrugada e, finalmente, quando tive cojones para entrar no quarto, encontrei-o em pé na cama, berrando: "Papai... fantasma... quero ir com Papai, ir com Papai."

A voz de Billings ficou muito aguda, como a de uma criança; ele deu a impressão de murchar no sofá.

- Mas eu não pude - continuou, no mesmo tom agudo e trêmulo. Não pude. E uma hora mais tarde escutei outro grito. Um grito horrível, gorgolejante. E compreendi o quanto eu o amava, pois corri para o quarto e nem mesmo acendi a luz. Corri, corri, corri... Oh, meu Jesus, o fantasma o pegara; sacudia-o, como um cão sacode um trapo... Pude ver algo horrível, com ombros curvados e cabeça de espantalho... Senti um cheiro terrível, como o de um camundongo morto numa garrafa vazia... E escutei...

A voz de criança morreu aos poucos. De repente, voltou ao tom adulto:

- Escutei o pescoço de Andy partir-se - a voz era fria, inexpressiva. - Um barulho semelhante ao do gelo se quebrando sob um patinador durante o inverno.

- Então, o que aconteceu?

- Oh, eu fugi - respondeu Billings na mesma voz fria e inexpressiva. - Fui para um restaurante que ficava aberto a noite inteira. Que tal isso como exemplo de covardia?

Corri para o restaurante e tomei seis xícaras de café. Depois, voltei para casa. O dia já raiava. Chamei a polícia antes mesmo de subir. Andy estava caído no chão, fitando-me.

Acusando-me. Um filete de sangue lhe escorria do ouvido. Só uma gota, na verdade. E a porta do armário estava aberta - só uma fresta.

A voz se calou. Harper olhou para o relógio digital. Cinqüenta minutos haviam transcorrido.

- Marque hora com a enfermeira - disse ele. - Na realidade, marque várias consultas. Às terças e quintas estará bem?

- Só vim contar minha história - disse Billings. - Desabafar, Menti à polícia, entende? Disse-lhes que o garoto devia ter tentado sair do berço durante a noite... Eles engoliram. Claro que engoliram. Era o que parecia. Mas Rita sabia. Rita... finalmente... sabia...

Cobriu os olhos com o braço direito e começou a chorar.

- Sr. Billings, temos muito sobre que conversarmos - disse o Dr. Harper após um intervalo. - Creio que poderei remover parte do seu sentimento de culpa, mas antes é preciso que o senhor deseje livrar-se dele.

- O senhor não acredita que eu deseje? - exclamou Billings, tirando o braço dos olhos vermelhos, inchados, magoados.

- Ainda não - replicou Harper tranqüilamente. - Terças e quintas?

Após prolongado silêncio, Billings resmungou:

- Maldito charlatão. Está bem. Está bem.

- Marque hora com a enfermeira, Sr. Billings. E passe um bom dia.

Billings riu ocamente e saiu depressa do consultório, sem olhar para trás.

A mesa da enfermeira estava vazia. Um pequeno aviso colocado sobre o mata-borrão dizia: "Voltarei num minuto."

Billings deu meia-volta e entrou no consultório.

- Doutor, a enfermeira...

A sala estava vazia.

Mas a porta do armário embutido estava aberta. Só uma fresta.

- Ótimo - disse a voz dentro do armário. - Ótimo.

As palavras soavam como se tivessem passado entre lábios cheios de algas marinhas apodrecidas.

Billings permaneceu pregado ao chão quando a porta do armário se escancarou. Sentiu vagamente um calor nas pernas ao urinar-se.

- Ótimo - disse o fantasma, saindo do armário com andar trôpego. Ainda trazia a máscara do Dr. Harper na mão descamada, de garras compridas...

O Fantasma da Casa 666


Só agora, depois de 30 anos, minha mãe revelou-me o mistério sobre a morte da senhora Margot. Por muito tempo, durante a minha infância, essa curiosidade me perseguiu. Dizem que os fantasmas da infância, diante dos problemas da vida adulta, costumam ser esquecidos, guardados em algum canto da mente. Falam também que a criança que fomos, a exemplo dos fantasmas, nunca morre, simplesmente fica escondida dentro de nós. Talvez por esse motivo, hoje, dia em que completo 42 anos, foi que, vasculhando as teias de aranha dentro da minha cabeça, encontrei a criança curiosa que um dia fui. Corri até a casa da minha mãe e repeti uma pergunta feita a três décadas: como morreu a proprietária da casa 666?


Os moradores da rua temiam passar em frente aquele sobrado, principalmente à noite. Especulava-se que era comum ouvir-se gritos pavorosos ecoarem lá de dentro, cortando o silêncio e causando arrepios aos que, por ventura, passassem por aquela calçada. A velha casa abandonada tinha um aspecto realmente aterrador. Sua fachada, totalmente desgastada pelo tempo, mantinha algumas das inúmeras janelas. A maioria, no entanto, comida pelos cupins, não passava de espaços vazios por onde, segundo vários relatos, podia-se ver luzes de velas e sombras a passear lentamente pelos cômodos. Os mais antigos da vizinhança diziam ser a alma da senhora Margot que assombrava aquela casa. Sendo eu muito curioso, certa vez perguntei a minha mãe como tinha morrido a senhora Margot. Em vez de matar a minha curiosidade, deixou-me ainda mais confuso a frase que recebi como resposta:

— É uma história muito triste para se contar a uma criança.

Tentei insistir e fui ameaçado com uma boa surra, caso não esquecesse o assunto. A curiosidade, a partir daquele dia, transformou-se em obsessão. Estava decidido a descobrir, a qualquer custo, as circunstâncias que levaram à morte a senhora que habitara aquele sobrado assustador. Aos meus doze anos de idade, não me considerava mais uma criança. Dizia para mim mesmo, como se querendo convencer-me: eu sou um homem e, como tal, vou desvendar todo esse mistério. Saí a perguntar a todos que encontrava e as respostas não eram muito diferentes daquela dada pela minha mãe. Faziam suspense ou simplesmente mudavam de assunto. Acabei recebendo a surra prometida quando minha mãe ficou sabendo da inquisição que andava a fazer aos quatro cantos.

— Esqueça este assunto de uma vez por todas!

Fiquei de castigo por cinco dias, mesmo depois de ser obrigado a prometer que não mais tocaria no assunto. Após a curta reclusão, que me pareceu quase eterna, a curiosidade sobre a morte de dona Margot continuava a me atormentar. Fui recebido com vaias pelos meus amigos da rua: Vado, Cabeção, Dumbo, Leitão e Caju. Era costume da turma reunir-se em frente à casa do amigo que estava de castigo e dar-lhe uma sonora vaia no dia que este, absolvido da pena, colocasse a cara na rua. Sentir na pele essa humilhação não foi nada agradável, porém não podia reclamar. Principalmente eu, que costumava puxar o coro e fazer grande algazarra quando um colega castigado era colocado fora da gaiola. Mesmo assim, para não ficar inferiorizado diante dos amigos, tentei justificar-me.

— Vocês ficam de castigo por bobagens: você, Cabeção, ficou dez dias sem assistir televisão porque quebrou a bonequinha da irmã. Também! Foi brincar de boneca, né? Você, Leitão, foi comer o pudim ainda quente que a vovó preparou e passou 15 dias sem direito à sobremesa. Vocês, por acaso, sabem por que fui castigado? Coisa séria, problema de homem e não coisinhas de crianças como vocês.

Depois dessa minha explanação, tudo que consegui foi uma segunda e ainda mais sonora bateria de vaias. Fiquei realmente furioso e, num momento infeliz, lancei um impensado desafio:

— Qual de vocês tem coragem de entrar comigo, à noite, no antigo sobrado da senhora Margot?

Uma dezena de olhos assustados arregalaram-se à minha frente. Ficaram por alguns segundos em silêncio até que, com voz trêmula, Caju devolveu-me, em lugar de resposta, outra interrogação:

— Você tem essa coragem?

Diante dessa simples pergunta foi que percebi a situação complicada em que me encontrava. Como poderia responder negativamente? Não foi minha a idéia de transpor os portões da casa 666? Estava, realmente, sem saída e respondi:

— Mas é claro que tenho coragem. E vai ser ainda hoje.

Não sei onde arrumei tanta convicção. Entrar naquela casa sozinho, à noite? Nem os adultos tinham coragem, mesmo durante o dia. Olha só o tamanho do problema que arranjei. Na esperança de arrumar companhia para minha louca aventura, voltei a desafiar:

— Vocês são todos covardes. Afinal, quem é homem para ir comigo?

O silêncio da falta de resposta doía em meus ouvidos, causando-me grande angústia. Resolvi pegar pesado e mexer com o brio da turma.

— Vocês são um bando de menininhas medrosas. Afinal, quem vai comigo?

Foi quando uma voz estranha, vinda do outro lado da rua, se fez ouvir.

— Eu tenho coragem! Eu vou!

Assustados, já estávamos nos preparando para correr quando percebemos que era apenas o Aluado, um menino muito estranho que morava na rua. Seu verdadeiro nome era Vitor, porém o apelidamos de Aluado pelo seu jeito débil. Tinha problemas mentais e era discriminado pelas outras crianças que, considerando-o muito bobo, negavam-se a brincar com ele. Morava com uma tia velha que também era meio louca. Costumavam passar os períodos de lua cheia trancados em casa. Por esse motivo chamávamos a casa deles de Toca dos Aluados. Eu, a exemplo da criançada, também não nutria simpatia por ele. Porém, ao ouvi-lo se prontificando a me acompanhar em minha aventura, agarrei-me àquelas palavras como um náufrago a uma tábua de salvação. Vi, na figura do Aluado, a minha esperança de convencer os outros a irmos, todos juntos, tentar encontrar pistas que ajudassem a matar a curiosidade em torno da morte da senhora Margot. Disparei então meus argumentos:

— Estão vendo, menininhas? Até mesmo o Aluado, que vocês tanto discriminam e chamam de bobão, tem mais coragem que vocês.

Sentindo-se humilhado, Vado, o mais velho e também mais forte da turma e, por essa razão, detentor da liderança no grupo, decretou de forma nada democrática:

— Vamos todos juntos. Quem não for, vai se ver comigo.

Uma ordem de Vado era lei; ninguém tinha coragem de enfrentá-lo. Principalmente depois do dia em que ele, sozinho, numa briga feia, enfrentou e venceu quatro meninos que moravam numa rua paralela a nossa. Assim sendo, a turma preferiu enfrentar o fantasma da casa 666 a enfrentar Vado. Esperamos, assustados, o anoitecer que se aproximava. Reunimo-nos em frente àquele sobrado e, mesmo tentando disfarçar, os semblantes deixavam transparecer o receio que tínhamos em estar ali. O único que não demonstrava qualquer tipo de preocupação era o Aluado. Na verdade, parecia estar muito feliz em participar daquela aventura ao lado da turma, já que sempre fora renegado. Era tanto o seu entusiasmo que, aproveitando um momento em que a rua estava vazia, foi o primeiro a pular o alto portão frontal da casa. Não nos restou alternativa e, um a um, saltamos para dentro dos muros daquele sobrado. O mato tomava conta de todo o espaço que, no passado, fora um imenso jardim. Repentinamente, um vento forte soprou derrubando a porta principal. Nesse momento, todos se olhavam assustados e quase retornamos correndo. Porém, Vado, como sempre, democrático, falou energicamente:

— Daqui ninguém sai.

À frente daquela trêmula fila, ia Aluado, segurando uma lanterna. Na retaguarda, vinha o Vado para garantir que ninguém fugiria e, entre os dois, eu, Cabeção, Caju, Leitão e Dumbo, totalmente apavorados. Com uma coragem impressionante, talvez pela sua insanidade, Aluado ultrapassou a porta da frente, penetrando na sala principal. Já nos dirigíamos à escada de acesso ao primeiro andar quando, vinda, não se sabe de onde, uma voz tenebrosa pronunciou, claramente, aos nossos ouvidos:

— Eu queeeero meus anéeeeeis!

Senti o meu sangue gelar naquela hora, principalmente quando olhei para trás e percebi que Vado não mais estava lá. Foi o primeiro a correr, gritando desesperadamente. A exemplo dele, todos sumiram em alta velocidade. Eu, particularmente, não sei como saltei com tamanha rapidez e agilidade o alto muro que há pouco havia me oferecido tanta dificuldade em transpô-lo. Aquela correria desenfreada só teria fim na pracinha do final da rua, onde nos encontramos e, sem fôlego, não conseguíamos sequer falar. Todos afirmavam ter ouvido, claramente, aquela voz que dizia querer seus anéis. Porém, ninguém tinha a mínima idéia de que anéis se tratava. Mal tínhamos nos refeito do susto, quando Dumbo, quase sem voz, deixou-nos preocupados ao perguntar:

— Onde está Aluado?

Nesse momento, demo-nos conta de que nenhum de nós viu Aluado pular aquele muro de volta para a rua. Teria ficado dentro da casa? A preocupação aumentava pois sabíamos que algo precisava ser feito. Tive então a idéia de irmos perguntar à tia dele. Talvez ele tivesse corrido para casa. Ninguém concordou, achando que seria muito suspeita essa atitude, já que nunca procuramos por ele antes. A maioria resolveu que o melhor era ficarmos calados e aguardar o aparecimento de Aluado. Como já estava ficando tarde, decidimos retornar para nossas casas. O remorso tomava conta de mim. Sentia-me responsável pela ida do Aluado àquela casa e, conseqüentemente, sentia-me responsável por ele. Meu remorso transformou-se em angústia quando, pela janela do meu quarto, percebi que a tia velha do Aluado ganhava a rua a gritar pelo seu sobrinho:

— Vitor, onde você está?

Subia e descia a rua desesperada a ponto de chamar a atenção de todos. Algumas pessoas, solidárias àquela senhora, reuniram-se em coro a chamar pelo Vitor e nada do Aluado aparecer. Meu sentimento de culpa aumentava a cada minuto. Como poderia, sabendo de toda a verdade, esconder daquela senhora, já em prantos, o paradeiro do seu sobrinho? Em contrapartida, como poderia contar o que sabia sem denunciar a invasão realizada por mim e meus amigos àquele antigo sobrado? Era doloroso ouvir os gritos desesperados daquela senhora, mas, definitivamente, não poderia trair o pacto de silêncio da turma e muito menos expor minha própria pele às surras de cinto da minha mãe. Porém, tinha consciência de que algo deveria ser feito. Pensando assim foi que resolvi escrever um bilhete anônimo, relatando o suposto paradeiro do Aluado.

No silêncio da noite, quando todos já haviam se recolhido, saltei a janela do quarto e, cuidando para fazer o mínimo de barulho possível, caminhei até a "Toca dos Aluados". Lá chegando, fiz passar o bilhete por baixo da porta. Cheguei a ouvir os soluços daquela senhora a sofrer dentro da casa. Voltei para o meu quarto apressado, no entanto, tive o cuidado de, antes de entrar em casa, jogar uma pequena pedra no telhado da tia do Vitor no intuito de chamar sua atenção. Até esse momento, tudo funcionava exatamente como planejei. Apaguei a lâmpada do quarto e fiquei de vigília. A ansiedade tomava conta de mim quando, de súbito, percebi que a luz interna da casa se acendera para, logo em seguida, ver a tia Aluada abrir a porta e sair em direção a casa mal assombrada. Portava em uma das mãos uma folha de papel que deduzi ser o meu bilhete. Na outra mão, levava um objeto que parecia ser uma pequena caixa. Estranhamente, ela não mais gritava pelo nome do sobrinho. Contrariamente a momentos atrás, parecia fazer questão do silêncio, como se não quisesse ser notada. Olhava desconfiada para todos os lados, atravessando a rua sorrateiramente. Parou em frente ao portão da casa 666 e, ignorando o meu olhar perplexo, tirou de um dos bolsos um molho de chaves e passou a experimentá-las na enferrujada fechadura. É claro que ela não vai conseguir, pensei comigo mesmo. Como ela poderia ter uma chave que abrisse aquele portão? A possibilidade, pelos meus cálculos, era uma em milhões. Porém, a minha perplexidade chegou ao extremo ao ver, boquiaberto, pela primeira vez em minha vida, aquele portão ser descerrado. Lentamente, a tia Aluada puxava aquela imensa estrutura que, parecendo querer denunciá-la, fazia ecoar um triste rangido metálico no silêncio da noite. Admirado com a coragem daquela mulher, vi quando adentrou àquele lugar assustador. Fiquei na expectativa de vê-la sair correndo, a exemplo do que acontecera comigo e meus amigos. Os minutos que se seguiram foram angustiantes para mim. Um silêncio ensurdecedor ofendia meus ouvidos. Esperei o que me pareceu uma eternidade para, em lugar de uma fuga alucinada, testemunhar o tranqüilo retorno daquela senhora. Tamanha foi a minha felicidade ao perceber que, conduzido pela mão, trazia seu sobrinho Aluado. Ver aqueles dois atravessarem a rua, abraçados, foi como tirar um imenso fardo das minhas costas. Porém, na minha cabeça curiosa, nem tudo estava resolvido. O que teria acontecido lá dentro? O que era aquele objeto que a tia Aluada levou para o sobrado e não mais portava quando da sua saída? Só mesmo o sono, altas horas da madrugada, veio a encerrar meus questionamentos. Adormeci remoendo planos: amanhã irei investigar. Vou descobrir tudo.

Acordei pela manhã mais cedo que de costume. Cheguei a deixar minha mãe desconfia.

—O que você andou aprontando ou pretende aprontar?

Minha querida mãe, com toda a razão, sempre desconfiada; era capaz de perceber, em meus olhos de menino traquinas, a iminência de uma travessura. Na verdade, a vontade que eu tinha era de correr até a casa do Aluado e perguntar sobre o acontecido na noite anterior. Mas como fazer isso sem levantar suspeita? Decidi então que esperaria a oportunidade de encontrá-lo na rua. Reuni a turma e comuniquei o retorno do Aluado. Contei-lhes que vi quando ele voltou para casa em companhia da tia. Omiti, porém, tê-la flagrado entrando na casa 666, temendo passar por mentiroso. Reconhecia que era uma estória difícil de acreditar. Passei o resto do dia em frente à "Toca dos Aluados" na esperança de ver o Vitor e esclarecer minhas dúvidas. Quando anoiteceu, vi surgir, no fim da rua, uma enorme lua cheia. Sinal de que o Aluado passaria os próximos dias sem botar a cara na rua. A minha presença constante à frente daquela casa chamou a atenção da tia do Vitor que, sentindo-se incomodada, foi reclamar com a minha mãe que eu estava a observá-la. Levei nova surra de cinto e, para completar, fui colocado 15 dias de castigo, sem sair de casa. Não sei como consegui passar todo aquele tempo em companhia de tanta curiosidade. Quando, finalmente, acabou o meu período de reclusão, um novo acontecimento me pegou de surpresa: os moradores da "Toca dos Aluados" mudaram-se da rua; sumiram sem deixar pistas. Ouvi comentários de que teriam partido às escuras. Senti-me condenado, portanto, a passar o resto da vida sem saber o que havia acontecido durante o resgate do Aluado pela sua tia, na noite em que entramos na casa mal assombrada. Algumas semanas depois, o velho casarão foi demolido e, em seu lugar, construíram uma igreja evangélica. A casa em que o Aluado morava, a exemplo do velho sobrado, também foi vendida e transformada em uma escola. Causou-me estranheza o fato de a tal escola pertencer à igreja que ocupou o terreno da antiga casa 666. Com a destruição daquele velho imóvel, a minha esperança de desvendar a morte da senhora Margot também pereceu.

Com o passar do tempo, minha alma de criança perguntadora acalmou-se. Tornei-me adulto e acreditava ter exorcizado, para sempre, meu espírito infantil. Eis que justamente hoje, no meu 42º aniversário, ganho, de presente, os fantasmas da infância embrulhados na revelação do mistério sobre a morte da senhora Margot. Minha mãe contou-me que a dona Margot era uma senhora que, apesar da idade avançada e seus muitos quilos, trazia no rosto traços de uma mulher muito bonita. Muito vaidosa, adorava andar bem vestida e coberta de jóias. Parecia ter preferência por anéis, já que sempre trazia os gordos dedos repletos deles. Eram todos muito caros, feitos de ouro e cravejados com pedras preciosas. Com o falecimento do seu marido, sentiu a necessidade de arranjar companhia. Resolveu alojar, em sua casa, um menino que afirmava ser seu sobrinho. A criança aparentava uns 9 anos e, proibida por dona Margot, quase nunca saía de casa. Só era vista na rua quando, sob ordens, ia comprar alguma coisa na mercearia da esquina, voltando rapidamente para casa. Apesar de ser um menino obediente, dona Margot costumava castigá-lo ou, até mesmo, aplicar-lhe pesadas sovas. Nessas ocasiões, seus berros podiam ser ouvidos por toda a vizinhança. Trazia em seu rosto muitas marcas, que os vizinhos especulavam serem causadas pela pesada mão da viúva repleta de anéis. Toda a rua ficou horrorizada quando, numa manhã, ouvindo gritos de socorro vindos da casa 666, alguns moradores a invadiram e se depararam com uma cena horrível: dona Margot caída ao pé da escada, totalmente ensangüentada. Seus braços e pernas apresentavam fraturas expostas. E, em suas mãos, ausência total dos dedos. Todos foram decepados e levados, juntamente com seus preciosos anéis. A viúva deixava a todos perplexos pelo fato de, com tantos e tão sérios ferimentos, não demonstrar preocupação com o seu estado gravíssimo. Repetia exaustivamente uma única frase: "eu quero meus anéis". Os médicos foram chamados e dona Margot, depois de sedada, foi conduzida ao hospital, onde passou por várias cirurgias. Após poucos dias, não suportando o sofrimento, veio a falecer. Nas investigações policiais, o pequeno sobrinho figurava como principal suspeito, já que sumira por ocasião do ocorrido. Após 15 dias de busca, a polícia conseguiu encontrá-lo, esmolando pelas ruas do centro da cidade. As suspeitas tornaram-se fato quando o menino confessou ter matado a tia. Não ficaram dúvidas da sua culpa, pois o mesmo levou a polícia até o local onde escondera a arma do crime: um pequeno machado com o qual executara o brutal ataque. Em seus depoimentos, somente um fato ficou sem ser esclarecido: onde teriam ido parar os dedos e anéis da senhora Margot? Quando questionado, simplesmente respondia que os havia perdido. Considerado insano, foi conduzido para tratamento psicológico em um manicômio, de onde teria conseguido fugir para nunca mais ser encontrado.

Ouvindo o relato desses acontecimentos foi que consegui entender e concordar com as palavras ditas pela minha mãe há trinta anos: "é uma história muito triste para se contar a uma criança". Os adultos partilhavam a opinião de que um crime tão bárbaro, praticado por uma criança, deveria ficar em segredo. Tinham medo que, de certa forma, fôssemos afetados ou influenciados por ele. Foi preciso passar todo esse tempo para, finalmente, conseguir resolver um velho mistério. Porém, nesse exato momento, pego-me pensativo e convicto de que tal revelação não passa da ponta do fio de um grande novelo que, novamente instigado pelo meu espírito juvenil e curioso, sinto necessidade de desenrolar. Com as palavras da minha mãe, depois de tantos anos esquecidos, inúmeros detalhes voltam à minha mente: a frase ouvida no casarão, a chave do portão, a pequena caixa conduzida para a casa 666 pela tia do Aluado, a mudança súbita no meio da noite, a aquisição dos dois imóveis pelo mesmo comprador. Sinto que preciso passar naquela igreja e, quem sabe, fazer algumas perguntas. Acho que, aos 42 anos, não corro mais o risco de ser surrado pela minha mãe.

Autor: Elenildo Pereira
Fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/10/o-fantasma-da-casa-666.html