sexta-feira, 3 de março de 2017

O Círculo De Sal

"Meu Deus, como eu vou sair dessa agora?"
Sentada no chão, tendo à sua volta apenas um círculo feito de sal grosso, Thammires forçava o rosto contra as palmas das mãos, em desespero. E, diga-se de passagem, seu desespero era plenamente justificado pelos acontecimentos daquela noite.
Olhou a sua volta pela milésima vez: o pequeno porão, que os donos da casa haviam convertido em despensa, iluminado pela luz de uma velha lâmpada de sessenta watts, não apresentava mais nenhuma saída além da porta que a levaria de volta para o andar térreo da casa. E, naquela casa, ela nunca mais iria pôr os pés. Aliás, se tivesse seguido seu pressentimento inicial, não estaria ali agora. Não estaria naquela situação, agora. E Jared ainda estaria vivo.
A lembrança de Jared trouxe lágrimas novamente aos seus olhos, mas ela forçou-se a não chorar. Haveria tempo para isso mais tarde. Chorar agora seria um luxo que ela não podia sustentar. Precisava estar focada em sua sobrevivência.
Continuou observando o porão. Não havia janelas. Isso era bom. Não podiam entrar. Mas isso também era péssimo. Ela não podia sair. Mas também, sair iria resolver alguma coisa? Sua última tentativa de deixar a casa havia sido desastrosa. Ela estava encharcada. Enrolou-se em alguns panos de chão que encontrou no porão. Tinha que evitar a hipotermia a todo custo. Fosse devido ao frio ou ao cansaço, não podia dormir, tinha que estar atenta.


Sem ter muito mais a fazer, começou a rememorar os fatos, buscando algum detalhe que a ajudasse a sair daquela enrascada.
Oh, Jared, meu amado Jared, por que os homens sempre têm de bancar os imbecis?
***
Thammires nasceu no Rio de Janeiro, Jared era americano. A família dele mudou para cá por motivos religiosos, vieram trabalhar em obras da igreja nas comunidades do Rio de Janeiro. Os dois se conheceram e começaram a namorar na época do cursinho e agora estavam fazendo letras na UFRJ. Ela queria ser escritora e tinha um baita talento pra isso. Ele queria dominar a língua portuguesa pra ajudar nas aulas de alfabetização promovidas pela igreja.
Naquele ano, Thammires estava determinada a fazer algo diferente nas férias de julho. Estava maluca para conhecer a Serra Gaúcha. Ouvia Jared falar da neve caindo em sua cidade natal e ficava morrendo de curiosidade de saber como era. As previsões meteorológicas indicavam que ia ser o inverno mais frio nos últimos vinte anos. Isso significava neve. Talvez não tanto quanto na cidade natal do Jared, mas o suficiente para ela matar a sua curiosidade. E neve lembrava frio, que lembrava lareira, que lembrava romance e lembrava que finalmente ela e Jared iam ter um pouco de privacidade e poderiam namorar à vontade.
Através da internet, encontraram a família Gunther, um casal de velinhos muito simpáticos que possuía uma casa muito bonita e confortável numa região bem isolada da Serra Gaúcha. Apesar de terem achado a casa muito grande apenas para eles, adoraram o isolamento que ela proporcionava. Providenciaram a reserva, as passagens e estavam se divertindo muito em fazer todos os preparativos.
No dia da partida, as duas famílias os acompanharam até o aeroporto Santos Dumont, onde iam pegar um vôo até Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. De lá, tomariam um ônibus até Bento Gonçalves, onde pretendiam alugar um carro para o resto do passeio.
Ao despedir-se da mãe antes de fazer o check-in, Thammires sentiu uma estranha pontada de tristeza no coração. Uma tristeza tão grande que, por um momento, ela chegou a perder o equilíbrio e só não caiu porque a mãe a segurou. Uma vontade enorme de desistir da viagem passou por sua cabeça nessa hora.
- Thammi, você está bem?
- Estou ... estou... foi só uma tontura passageira. Acho que eu devia ter caprichado mais no café da manhã. – Thammires bem que tentou disfarçar com um sorrisinho amarelo, mas a mãe não engoliu aquela conversa. Se não fosse pela proximidade da hora da partida do vôo, com certeza a mãe ia pressioná-la até que ela explicasse o que era aquele mal estar súbito, assim do nada. Ih, será que a mãe achava que ela podia estar grávida? Era bom aproveitar bem a viagem, - pensou Thammires - porque na volta o interrogatório ia ser impiedoso.
Com exceção deste incidente, todo o resto da viagem foi absolutamente perfeito. Na chegada à casa que haviam alugado, o casal que fazia as vezes de caseiros deu todas as orientações para que eles pudessem aproveitar bem os quinze dias que passariam ali.
A única recomendação digna de nota, porém, foi a de não mexerem no último quarto do segundo andar, que era onde ficavam as coisas do casal de velhinhos donos daquela casa. Já muito idosos, haviam se mudado para Porto Alegre para ficarem mais perto da assistência médica de que precisavam com tanta freqüência, assim a casa ficara para ser alugada, como uma fonte auxiliar de renda.
Para Thammires, nem precisava falar nada, porque ela estava pouco ligando para quartos fechados e velhos pertences. Ela queria lareira, chocolate quente, fazer amor bem gostoso e dormir de colherinha.
Mas Jared era um fã incondicional de Indiana Jones. E, no terceiro dia em que estavam na casa, Thammires acordou e viu que estava sozinha na cama de casal. Onde Jared se metera?
O mistério não demorou a se resolver. Ao abrir a porta do quarto, foi só olhar para a esquerda e pegar Jared no flagra, tentando abrir a velha fechadura com um clipe desentortado.
- Jared Winston! – o uso do nome completo indicava o tamanho da irritação dela - O que está fazendo?
- Bom dia, amor! – ele fez a inevitável cara de idiota, tão adequada à situação.
- Bom dia? Como meu dia pode ser bom, se o homem que diz que me ama está aqui, tentando arrombar uma porta, ao invés de estar acordando ao meu lado?
- Curiosidade, Thammi, curiosidade. Você sabe que eu não resisto à uma porta que me disseram para não abrir.
- Você devia se ocupar em aprender a abrir o fecho do meu sutiã, onde você sempre se atrapalha, ao invés de abrir portas que não lhe pertencem.
O convite velado naquele comentário foi mais forte que a curiosidade. Ele se levantou e foi em direção a ela.
- Bom, então vamos começar meu treinamento agora. O que você acha?
- Agora você vai ter de se contentar em abrir meu roupão, porque eu não estou usando nada embaixo dele...
***
Mas Jared era persistente. E, mal caíra aquela noite, o clipe retorcido venceu a resistência da velha fechadura. Com um estalo, a porta abriu.
- Bingo! – exclamou Jared, feliz.
Enquanto Thammires estava tomando banho, e ela ia demorar pelo menos uma hora nesse processo, Jared tinha total liberdade para bancar o arqueólogo no quarto do casal de Herr e Frau Gunther.
O quarto se apresentava impecavelmente arrumado, apenas bastante empoeirado, o que era compreensível, já que ninguém entrava ali. Os caseiros arrumavam todo o resto da casa, mas sequer tinham a chave daquele quarto.
Numa agradável escrivaninha de estilo muito antigo, provavelmente da época da Segunda Guerra Mundial, encontravam-se alguns livros e um tipo de caderno com fecho, que Jared presumiu ser um diário.
Ao abrir, Jared percebeu que tinha em mãos uma pequena relíquia, de valor inestimável. Era o diário de Herr Gunther onde, em uma letra caprichada e em uma escrita muito meticulosa, ele desvendava interessantes segredos. Sentindo-se agora finalmente justificado por ter escolhido alemão como segunda língua de seu curso de letras, Jared começou a ler o diário.
Na verdade, a família não se chamava Gunther e sim Grover. E o motivo para troca de nomes era que o pai de Herr Gunther (ou Herr Grover, como queiram), Herr Joachim Grover, fora tenente da SS e durante dois anos trabalhou no campo de concentração de Dachau. Nesse período, ele havia trabalhado em interessantes experimentos no campo. Experimentos científicos, ligados não à ciência tradicional, mas às ciências ocultas. Jared já havia ouvido falar que os nazistas gostavam muito de ocultismo, mas sempre achara que isto era mais para fazer graça nos filmes do Indiana Jones do que uma verdade histórica.
Pelos relatos que fazia em seu diário, as pesquisas de Herr Grover haviam sido um sucesso fantástico, por um lado – e um retumbante fracasso, de outro.
Numa noite, Herr Joachim Grover, mais quinze funcionários do campo e um grupo de aproximadamente vinte prisioneiros foram até uma área desolada no meio da floresta próxima ao campo e executaram um ritual de magia negra. O objetivo era invocar demônios e tentar mantê-los sob controle. Os prisioneiros destinavam-se a servir de sacrifícios para os demônios invocados.
O ritual realmente atraiu os demônios, que destroçaram cruelmente os prisioneiros. O problema foi que, depois dos prisioneiros, os demônios avançaram sobre os funcionários do campo e também os destroçaram sem piedade. Herr Joachim Grover só sobreviveu por ter se precavido e ficado dentro de um círculo de sal grosso durante a execução do ritual.
Durante muitos anos, moradores da região comentavam de que haviam espíritos malignos naquelas florestas. Muitas foram as suas vítimas, dizia-se que até hoje ainda pessoas desapareciam por ali, vítimas dos demônios invocados pelos nazistas.
Independente do resultado do ritual, a Guerra acabou e Herr Joachim Grover teve de fugir com a família da Alemanha derrotada. Vagou pelas Américas Central e do Sul, até fixar residência entre as colônias alemãs na região da Serra Gaúcha. Abandonou as experiências com ciências ocultas, mas guardou seus apontamentos cuidadosamente, seguindo a tradicional disciplina alemã.
Jared ficou intrigado. Será que as notas do velho Grover ainda estavam por ali? Deviam estar...
- Eu não acredito que você está aqui dentro! Jared! Francamente!
O grito de censura de Thammi quase fez Jared cuspir o coração pela boca. Droga! Ficara lendo o diário do velho e esquecera a passagem do tempo.
Só escapou do sermão porque a curiosidade feminina falou mais alto:
- O que foi que você encontrou aí?
 ***
Na verdade, as notas sobre o ritual estavam muito fáceis de se encontrar. Enquanto contava para Thammires o que havia descoberto, Jared notou um papel dobrado, guardado num bolso na capa do diário.
Ao abrir o papel, viu que nele haviam vários símbolos desconhecidos e cinco palavras.
- O que está escrito aí, Jared?
-Não sei. Isto aqui não é alemão.
- E o que é?
- Não sei que língua é esta, mas tem uma nota de rodapé, aqui. Parece que é um guia de pronúncia das tais palavras.
Um enorme sentimento de tristeza invadiu o coração de Thammires, do mesmo jeito que sentira no aeroporto ao se despedir da mãe.
- Jared, não pronuncia essas coisas, não. Por favor, amor! Vamos trancar de volta este quarto e deixar essa história prá lá, por favor! – Ao chegar ao final da frase, Thammires já estava em prantos.
- Ei, ei! Calma! Tá bom, meu amor! Vamos deixar isso prá lá, a história acaba aqui.
Jared abraçou Thammires e foram em direção a porta, quando ouviram uma voz fantasmagórica, vinda do nada:
- Não é necessário pronunciar. A simples mentalização destas palavras já nos trouxe aqui.
Antes que o jovem casal pudesse esboçar alguma reação, o ar dentro do quarto explodiu num violento vendaval. Atirados para fora, Jared bateu violentamente contra a parede e Thammires rolou pela escada abaixo.
Apesar da violência do choque, Jared ainda tentava levantar-se e gritou para a namorada:
- Thammi, foge! Eu vou segurá-los aqui!
- Os anjos do Paraíso não foram capazes de nos segurar. Quem és tu para acreditar que podes fazê-lo?
O som daquela voz parecia vir de todos os lugares e de lugar nenhum, ao mesmo tempo. O ar dentro da casa continuava movendo-se com alta velocidade, jogando objetos para todos os lados.
Sem nenhuma origem identificável, uma força irresistível levantou Jared do chão. Sem que Thammires pudesse fazer nada, foi obrigada a assistir, imóvel, enquanto o namorado era violentamente estripado e desmembrado. Ouviu seus gritos de dor, ouviu-o gritar seu nome. Mas ela nada pôde fazer para salvá-lo.
Quando terminou de destroçar Jared, a voz voltou a pronunciar-se:
- É chegada a tua hora, criança humana...
A ameaça fez Thammires recuperar o raciocínio e fugir em desabalada carreira até alcançar o porão. Fechou a porta com muito custo atrás de si, pois o vento a fustigava com fúria. Sabia porém que uma barreira física não teria efeitos contra o que quer que fosse aquilo que estava atrás dela. Lembrando-se do que Jared lhe contara dos diários do tal nazista, a resposta veio num lampejo:
- Sal, eu preciso de sal!
Ao olhar em volta, Thammires deu graças a Deus por estar no Rio Grande do Sul, um estado tão afeiçoado ao churrasco. Nas prateleiras, entre vários outros itens que se encontram em uma despensa, uma grande quantidade de sacos de sal grosso aguardavam pelo próximo churrasco.
Rapidamente, a garota desceu a pequena escada do porão e apanhou um saco de sal. Correu de volta até a porta, que parecia estar sendo atacada por um touro violento. Rasgou a ponta de um saco de sal com os dentes e espalhou o sal formando uma linha rente à porta.
O efeito foi imediato. Pararam de avançar contra a porta.
Thammires rapidamente desceu outra vez as escadas e, bem no centro do aposento, espalhou o resto do sal, formando um círculo ao seu redor.
Ainda ofegante pelo esforço, apanhou o celular no bolso, apesar de saber que estava fora da área de cobertura. Queria saber as horas. Eram apenas nove da noite. O nascer do sol ainda estava distante. Mortalmente distante.
O passar das horas foi aumentando seu desespero. Não poderia ficar ali para sempre. Tinha de tentar fugir. Por volta das duas horas da manhã, o silêncio do outro lado da porta e o medo de ficar encurralada ali para sempre a fizeram arriscar uma tentativa de fuga.
Munindo-se de todos os sacos de sal que pode carregar, Thammires decidiu usar a proteção como munição. Encheu os bolsos de sua calça jeans e também os de sua jaqueta com o sal protetor.
Ao abrir a porta do porão, a primeira coisa que fez foi atirar um punhado de sal antes de sair. Não houve reação nenhuma.
Estranhamente, a casa voltara a seu estado normal. A sala, que deveria estar revirada pela força do vendaval, estava novamente arrumada, como se nada tivesse acontecido.
Ao chegar a escada, Thammires viu que o corpo de Jared não estava mais onde havia sido abandonado. Não havia sequer sinais de sangue nas paredes ou no piso. Aquilo ficava cada vez mais estranho...
Mas Thammires confiava em si mesma e sabia o que havia visto. Sabia que não estava louca e não ia se deixar enganar.Iria tratar de alcançar o carro que haviam alugado. Estava estacionado perto da porta de entrada, não seria difícil. A chave estava no para-sol. Era chegar até ele e deixar o pesadelo para trás.
Lá fora, a noite fria mas estrelada fora substituída por uma chuva torrencial. Até alcançar o carro, Thammires já estava encharcada. Tiritando de frio, entrou no carro e abaixou o para-sol, procurando pelas chaves.
- É isto que você está procurando, meu amor? - pelo retrovisor, ela viu Jared segurando as chaves.
Não havia tempo sequer para gritar. Por puro reflexo, ela abriu a porta e se jogou para fora do carro, correndo em louca disparada. Jared, ou o que quer que fosse aquilo atrás dela, também começou a correr.
Próxima a porta de entrada da casa, Thammires percebeu que estava sendo alcançada. Quando sentiu que uma mão tocava seu ombro, apanhou um punhado de sal e voltou-se rapidamente, atirando o sal no rosto de seu perseguidor.
O efeito foi fascinante e aterrorizante ao mesmo tempo. A pele do rosto de Jared descolou-se completamente, revelando não os músculos e ossos que se esperariam encontrar ali, mas um imenso e profundo vazio. Vazio de onde brotou um grito de agonia:
- Ahhhhhhhh, maldita vadia humana! Ousas me causar dor? Vais sentir a dor que te causarei! Rasgarei tua alma em pedaços!
Pouco se importando com as ameaças que lhe faziam, Thammires aproveitou a dianteira que conquistara e correu. Jogou-se para dentro do porão, fechando a porta atrás de si com um estrondo.
Sentando-se novamente no centro do círculo de sal, voltou a concentrar-se em ficar acordada, aguardando a vinda da manhã.
Durante toda a noite, ouviu a voz de Jared implorando socorro, pedindo para que ela abrisse a porta do porão. Ignorá-lo durante tanto tempo foi o maior suplício que sofreu em toda a sua vida.
***
Quando finalmente o relógio do celular despertou, avisando que eram sete horas da manhã, Thammires voltou a municiar-se com todo o sal que pôde juntar e dirigiu-se novamente para o carro.
Ao contrário da tentativa de fuga anterior, nada a atrapalhou desta vez. A casa mantivera o seu estado de natural arrumação, não havia nenhum sinal de Jared ou de sua morte, absolutamente nada.
Ao chegar em Bento Gonçalves, Thammires deu continuidade ao seu plano. Apesar do medo, livrou-se do sal que estava carregando. Mais tarde daria um jeito de conseguir mais, mas naquele momento não podia aparecer diante do mundo com aquela absurda quantidade de sal. Não teria como explicar aquilo, e sua vida agora dependia das explicações que daria dali para frente.
Ao chegar a delegacia, Thammires deu queixa de que um grupo de ladrões havia invadido a casa. Disse que Jared havia gritado para que ela trancasse a porta do porão, onde havia descido para apanhar ingredientes para um bolo. Trancada no porão, ouviu várias vozes perguntando por dinheiro e objetos de valor. Mas não havia nada realmente valioso na casa, então ela ouviu que os homens iam levar Jared e pedir resgate. Disse que os ladrões haviam tentado arrombar a porta do porão para pegá-la, mas não haviam tido sucesso.
A mentira convenceu os policiais. Jared foi considerado vítima de seqüestro. Um grupo de policiais foi até a casa e não encontrou nada que indicasse o paradeiro do rapaz. No dia seguinte, o corpo de Jared foi encontrado, completamente destroçado, em um matagal próximo à casa.
O crime causou comoção e chamou a atenção da imprensa. Mas, passado o tempo, o caso acabou sendo fechado e esquecido, pois não foram encontradas pistas que levassem aos assassinos de Jared.
Thammires fechou-se em seu silêncio. Não podia contar o que houvera realmente. Foi melhor daquela forma. Embora agora pesasse sobre seus ombros a mentira que fora obrigada a inventar, pelo menos ela lhe permitiria passar o resto da vida fora de uma prisão ou de uma instituição para doentes mentais. Tinha certeza que era para onde seria mandada se tentasse contar a verdade. Passaria de vítima a assassina.
Thammires não tem a menor idéia de porque os demônios libertados naquela noite a deixaram partir. Também não entendeu como a porta do porão pôde resistir ao ataque de criaturas tão poderosas. Não sabe também se algum dia pretendem voltar a atormentá-la. Mas agora, todas as noites, antes de dormir, ela desenha um círculo de sal ao redor de sua cama.


Fonte : http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/o-circulo-de-sal.html

quarta-feira, 1 de março de 2017

O Caso de Gabriel Orwell

"Estou escrevendo estes fatos para manter a sanidade que ainda resta em mim. Cada dia sinto que ela está escapando entre meus dedos, como se eu tentasse segurar água em minhas mãos.

Escrever sobre a minha situação é muito mais fácil do que falá-la, porque leva mais tempo até as pessoas acharem que eu sou maluco. Não, eu não sou louco. De primeira, eu não soube como lidar com isso. De fato, eu ainda me lembro a primeira vez que eu vi, ou melhor, quando ele me viu.
Eu tinha muita estrada ainda pela frente. Já era por volta da 1h da manhã. Não tinha dormido na noite anterior por estar em uma festa, então achei que a melhor ideia seria parar em um hotel de beira de estrada. Depois de uma breve conversa esquisita na recepção, eu estava sentado na cama do quarto 250. O colchão era de mola; a televisão era antiga; o cheiro do quarto era terrível; o lugar era uma bosta. Entretanto, eu não reclamei. A exaustão estava tomando conta de mim e, de qualquer jeito, eu iria ficar ali apenas uma noite. Logo caí em sono pesado.

Que barulho foi esse? Acordei não por causa do barulho do despertador do meu celular, e sim por causa do da estática. Meus olhos se focaram no horário do relógio digital; marcava 3:33 da manhã.
O quarto estava levemente iluminado. Me sentei e vi a TV com a familiar estática preto e branca. Eu devia ter rolado por cima do controle remoto. Procurei rapidamente por ele, querendo voltarn para o meu sono tranquilo. Levantei a coberta e olhei em volta, mas não achei nada. Descendo as cobertas novamente, pulei. A TV não mostrava mais estáticas. Ao invés disso um rosto masculino de meia-idade. recortado para mostrar apenas seus olhos; ele piscou. As sobrancelhas não faziam o parecer ter uma conduta maligna, mas eu estava inexplicavelmente aterrorizado.

Parecia que o controle tinha caído no chão, então o peguei rapidamente e tentei mudar o que estava na tela. Números verdes - representando os canais - apareceram no canto superior direito. Os números mudavam, mas a imagem não. Sem tentar investigar mais nada, desliguei a televisão. Tive dificuldade de dormir o resto daquela noite.

De primeira achei que era apenas uma brincadeira. Não podia ser. Se chance. Quando estava indo devolver as chaves para o dono, atrás dele ficava uma televisão. Mostrava o mesmo rosto; ele piscou. Eu perguntei ao senhor do balcão o que ele achava sobre o que aparecia na tela. "É, eu te digo que o tempo está piorando para uma longa viagem." Meu sangue gelou. Ele não estava vendo aqueles olhos? "Tá tudo bem com você, garoto?"

No meu caminho para a universidade, raciocinei com mais calma. O hotel não deveria ter TV a cabo, aquilo era a única coisa passando e o senhor estava zoando com a minha cara. Tinha que ser isso. Isso foi, é claro, antes que o som começasse. Tentando desviar meu pensamento do que acontecera, liguei o rádio. Estática. Melhor eu colocar meu CD do Frank Sinatra, então. Estática. Ótimo, pensei, o som do meu carro está todo ferrado. Ah, como eu queria que fosse só isso.

Só comecei a questionar minha sanidade quando cheguei na universidade. No restaurante universitário, todas as televisões mostravam aquele rosto. No laboratório de informática, todos os monitores mostravam aquele rosto. A nova televisão HD do meu colega de quarto, mostrava aquele rosto; ele piscou. É óbvio que eu perguntei sobre para todo mundo. Todos ficavam me olhando espantados, confusos. Alguns riam, achando que era brincadeira. Tudo que eu podia ouvir era estática.

Meu Ipod não tocava música nenhuma. Não conseguia ligar para ninguém com meu celular pois tudo que ouvia era estática. Estática... era só isso no começo. Logo, o som começou a mudar. Um dia, ao invés de estática, ouvi uma voz masculina falando uma série de números em um tom monótono. Uma semana depois ouvi uma mulher gritando enquanto era esfaqueada. Eu podia ouvir a lâmina contra sua carne, os passos do assassino. O som mudou, mas a imagem na tela não. Todas as telas mostravam apenas aquele rosto; ele piscou. Estou perdendo a cabeça.

Hoje ouço um homem falando uma língua sem nexo. Fico sentado no meu quarto, olhando fundo em seus olhos que olham de volta para mim no monitor do meu computador. Agora entendo porque estou enlouquecendo. Não são só os sons ou os olhos que me observam, hoje ouço um homem falando uma língua sem nexo. Fico sentado no meu quarto, olhando fundo em seus olhos que olham de volta para mim no monitor do meu computador.

Agora entendo porque estou enlouquecendo. Não são os sons ou os olhos que me observam, e sim o porquê. Por que eu? O que eu fiz para merecer isso? Foi porque eu parei de ir na igreja? Foi porque eu
fiquei naquele hotel? De quem é o maldito rosto que vejo na tela? Todas essas perguntas sem respostas são o que estão acabando com minha sanidade.

Não consigo mais aguentar. Os sons, o rosto (ele piscou), como eu finjo que tudo está bem. Eu não durmo faz dias. Eu rezo pela sensação de paz e quietude. Sem mais ataques aos meus sentidos. Fico pensando em Van Gogh..."

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Essas páginas escritas a mão foram encontradas espalhadas pelo quarto de Gabriel Orwell - no mesmo local em que tirou a própria vida. Investigadores encontraram-no deitado no chão; seus olhos tinham sido arrancados, ambos tímpanos perfurados e seus pulsos cortados. Haviam também dois monitores HD no quarto; ambos estavam quebrados e danificados possivelmente pelas próprias mãos de Orwell.

Fonte:http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/11/o-caso-de-gabriel-orwell.html

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O Apartamento 73

Era uma tarde normal de quinta-feira quando estávamos nos preparando para encerrar nosso expediente naquela repartição pública. Eu e mais duas funcionárias conversávamos, aguardando a saída da diretora que ainda estava na sua sala salvado arquivos e desligando o computador. Com um assunto bem corriqueiro, eu e a outras duas servidoras conversávamos sobre a crescente violência na cidade:

– Vale a pena pagar mais para morar num prédio, justamente pela presença de um porteiro e das câmeras.

– É apenas uma sensação de conforto, porque os bandidos também são atraídos pela facilidade e acumulo de bens nos condomínios.

– Isso é verdade, porém eu acho que residir em casa e bem pior.

– Eu sempre residi em casa e só entraram no meu quintal uma vez, para roubar minha bicicleta. Também vão roubar mais o quê na casa de um favelado como eu?

– Foi por isso que mandei fazer um muro bem alto, além do cachorro que avisa quando alguém está próximo. – neste instante surge a nossa chefe já tirando da bolsa a chave do seu carro, quando eu perguntei – A senhora mora em apartamento, não é Dona Josefa? Já teve problemas com a segurança?

A elegante diretora arregalou os olhos verdes esculpidos em um rosto orgulhoso, meditou por dois segundos e se posicionando à nossa frente dando início a este testemunho:



A experiência que eu tenho de apartamentos é apenas uma, já que fui morar nesse que estou assim que me casei. Até os últimos anos jamais tive do que me queixar. O prédio é da década de 1960, época em que meu computador era uma máquina de escrever que cheirava óleo Singer; porém agora eu estou querendo vender meu lar. Sabe aquele lugar onde você passou boa parte dos seus momentos felizes, vi meus filhos crescerem brincado, as visitas das pessoas que tenho afeto, cada recinto e cada parte tem uma recordação agradável. Tudo isso agora já está se apagando. Sendo substituído por uma insatisfação, além da vontade de mudar daquele prédio o quanto antes.

Vai completar um ano das minhas ultimas férias, no primeiro dia eu estava jantando com meu marido na sala de estar, a TV ligada passava o último telejornal. Sabe as habitações projetadas naquela época? Ela tem áreas bem amplas, justamente para satisfazer os anseios de conforto através do espaço. Então, eu comia de costa para a televisão e de frente para o Roberto quando ouvi os sarilhos pela primeira vez. Eram barulhos que viam do teto, como o de uma bola pesada rolando no piso de cima ou, quem sabe, uma criança correndo. Sarilhos, sim, um som igual a alguma coisa rolando bem acelerada. Depois que eu fui deitar escutei novamente os sons do apartamento de cima. Foi no silencio da noite que passei a distinguir tais barulhos, uma vez que não conseguia dormir sob aquela indecifrável intriga. O problema é que não vinham as minhas lembranças nenhum nome dos prováveis moradores lá de cima, meu tempo era muito corrido e quando chagava em casa tinha tantos afazeres que não sobrava nenhum momento para o convívio social com meus vizinhos. Com certeza teriam estes novos moradores um cachorro pequeno. Não, o som assemelhava-se ao de crianças brincado. Mas brincando madrugada adentro?

Nos meus primeiros meses de casada, quando fui morar ali no condomínio, quem residia naquele andar era Dona Margô. Sim, agora lembrei, Dona Margô do 73. Ela sempre estava nas reuniões de condomínio com sua cadeira de rodas, exigindo que colocassem uma rampa no lugar das escadarias na entrada. “O prédio foi construído em 1960, não dava para mudar mais sua arquitetura. – dizia o sindico da época”. Dona Margô quase nunca saía, graças às duas escadarias que o empreendimento possuía, a primeira no hall após o elevadores e a segunda que dava para a rua. Dona Margô era uma senhora sozinha e rabugenta, com suas razões, sempre gritando nas áreas comuns, pedindo ajuda porque queria descer as escadas... Uma vez ela até caiu da cadeira de rodas e arrastou-se pelos degraus gritando palavrões aos moradores que passavam. Esta foi a última vez que ela apareceu em público. Na mesma época que fiquei grávida do meu primeiro filho, soube que Dona Margô tinha morrido dentro de seu apartamento, este que fica em cima do meu, o 73. Depois disso passei anos sem ouvir ruídos lá de cima.

Conforme descansava nas minhas férias, os barulhos das crianças do apartamento 73 tornaram-se algo corriqueiro, que não incomodava muito e nem me espantava mais. Na quarta-feira, quando eu retornava do mercado, encontrei no elevador a minha vizinha do lado. Tivemos aquela conversa básica de vizinhos até chegar ao assunto que também aborrecia a senhora Vera: “As crianças do andar de cima ficam brincado de bola até de madrugada, você consegue dormir?” Respondi que também ouvia mas não me atrapalhavam muito, conclui a conversa já com a minha porta aberta e disse que iria alertar o zelador. Assim que entre interfonei para a portaria quando veio à surpresa, o porteiro confirmou convictamente que não morava ninguém no apartamento 73. Como assim, e os sarilhos que a vizinha e eu ouvíamos?

Bati na porta da senhora Vera para relatar o que tinha me dito o porteiro, ela também ficou pasmada. Resolvemos subir discretamente as escadarias até o andar de cima e tentar distinguir se os sarilhos realmente vinham lá de dentro. Nos aproximamos da porta do apartamento quando sentimos um cheiro forte de coisa suja, como roupas suadas que estavam um bom tempo sem lavar. Assim tivemos a constatação que colocou Dona Vera e eu em alarde, os barulhos vinham lá de dentro! Não pode ser possível, depois de anos o espírito daquela bruaca deficiente retornou para assombrar nosso prédio!

Eu contei sobre o caso para meu marido no mesmo instante que ele chegou em casa, mas a notícia do fantasma do apartamento 73 já estava sendo comentada até pelas crianças na área de recreação. A fofoqueira da Dona Vera tinha propago para todos os moradores sobre os barulhos que vinham lá de cima, isto porque ela queria uma solução imediata. Meu marido Roberto tentou me tranquilizar dizendo que iria ligar para o sindico depois que tomasse um banho, e assim fez. Como resposta o sindico afirmou que talvez fosse algum casal de adolescentes que entrava naquele apartamento para momentos de intimidade, porém aquela farra iria acabar porque no dia seguinte ele iria chamar a administradora do condomínio para entrar no apartamento 73.

O stress que tive naquele dia me fez desabar na cama sem ouvir mais nada, eu acreditava que meu sono viesse junto com a situação resolvida, antes mesmo da reação do sindico. A última coisa que refleti acordada foi em qual das duas coisas era pior: ser assombrada por um encosto senil com rodinhas ou saber que tinha um antro de orgia sobre meu teto?

Enquanto eu tentava levar uma vida de dona de casa, colocando as roupas na máquina e dando um jeito na cozinha, minha campainha tocou. A Dona Vera estava acompanhada do sindico para trazer a noticia de que o condomínio do apartamento 73 esta em dia, no entanto ligaram para o proprietário e este disse que não iria vir para o litoral abrir o apartamento; que contratasse um chaveiro e colocasse a conta no boleto para ele pagar; soube também que o dono do apartamento tinha muitas outras habitações desabitadas, ele era uma pessoa de posses. Assim ambos estavam aguardando a chegada do chaveiro para forçar a tranca daquela intrigante morada.

Me arrepio toda só de lembrar o que vi naquele apartamento aberto! Seria melhor eu ter visto a face do próprio diabo do que aquilo, pelo menos eu não teria a repulsa para ajoelhar-me e pedir perdão a Jesus por minha alma. Eu não pretendia nem estar pisando naquele chão imundo, quanto menos ficar de joelhos para uma prece. A imundice ali dentro era colossal. Tivemos dificuldade em abrir a porta devido a uma pequena crosta de sujeira no piso, desta camada sórdida que cobria o carpete brotava uma rala vegetação devido ao grande tempo de clausura. A madeira da entrada, paredes, estofados, mesa de centro e o móvel do bar estavam imundos e arranhados; igual a alguém que rastejasse há décadas por toda aquela moradia no intuito de levantar-se. Foi quando nós vimos o primeiro, caminhando devagar da cozinha, guinando várias vezes o focinho para cima, tentando farejar-nos... e depois vimos outro, mais outro, e logo eram dezenas! Estávamos paralisados, como um momento de transe antes do acidente, transe que foi interrompido pelo clamor ao Cristo ressuscitado saído dos lábios da Dona Vera; corremos para fora do apartamento quando eles estavam a uns dez metros da gente, selando novamente a porta para talvez nunca mais abrir.

Sabe aquela porra toda? A maior pestilência do mundo bem perto de onde eu durmo! O cheiro, eu ainda sinto o cheiro de ratos podre quando estou concentrada nos meus afazeres domésticos. É o pior odor que já senti. Uma sensação contaminante que se espalha por toda a casa num fedor e causa repúdio; igual uma moléstia que contamina para depois matar... Como exterminar aquela contaminação de roedores?

A primeira equipe de controle de pragas fez uma visita ao local e recusou o serviço, não quiseram indicar nenhuma outra empresa e saíram do prédio assustadíssimos. A segunda empresa também não quis o trabalho, porém nos orientou a chamarmos algum biólogo ou alguém da prefeitura porque aquilo era algo a ser analisado. Foi assim que vieram os técnicos da universidade, convocados pelo controle de zoonoses da cidade. Depois de dois dias de estudos descobriram que aquela era uma colônia de ratos diferente, uma que não sentia medo do ser humano porque nunca tiveram contato conosco. Como indicação pediram que fosse jogada uma isca especial que matasse depois de cinco dias, algo jogado pela janela por pessoas que descessem em cordas para eliminar toda a ninhada sem serem incomodados. Assim foi feito, com um grupo vindo da capital. O prédio todo permaneceu na expectativa, esperando o veneno fazer efeito de maneira eficiente. Agora, o cheiro que eu tinha sentido apenas lá dentro daquela habitação era também percebido por todos os condôminos. Odor que nos fez perceber que o inevitável estava próximo, a morte deteriorada, o consumo da carne adoente. Eu deveria esta satisfeita com a mortandade dos roedores, só que sentia o oposto e tudo aquilo me fez refletir muito sobre minha existência como um ser frágil também. Eu sou alguém que está no topo porém posso sumir num instante, como uma bolha flutuante de sabão. Graças a meu marido que, ao retornar do trabalho à noite, me tirou daquele purgatório de odor reflexivo e doentio, levando-me para passar uns dias no hotel.

Assim eu percebi que o maligno não surge das trevas e nem de qualquer umbral, mas está nesta própria terra.


Eu fiz uma pesquisa detalhada e descobri que este tipo de praga expõe os ratos mais vulneráveis para fazer a coleta dos alimentos que encontram, além de deixarem os ratos mais frágeis comerem primeiro, assim caso a comida esteja contaminada será o elo fraco da colônia que vai morrer. Agora me responda: Quem me garante que aquela grande ninhada de roedores foi completamente exterminada? Nesta consulta eu encontrei uma teoria de um tal Bulwer Lytton – acho que é este o nome – onde diz que "os instintos das criaturas irracionais detectam ameaças letais à sua existência". Provavelmente os membros mais fortes devem ter fugidos da mesma forma que chegaram. Os bichos pestilentos ficaram mais astutos quando depararam com a necessidade de manterem-se vivos e reproduzindo-se.


Nesses últimos dias eu não consigo mais descansar direito, qualquer barulho que escuto já imagino que são aqueles bichos famintos e ordinários. O pior é que os ruídos vêm dos lugares mais ocultos da minha casa, como atrás do guarda roupa, na parte interna das portas ou até dentro dos ralos; algo que só escuto durante o silencio da noite. Sinto que uma coisa de ruim está oculta dentro do meu lar, alguma influência coagida, presente e indiferente ao ser humano. Apesar de ninguém do prédio me dar crédito eu acredito que estão escondidos dentro da minha casa. Já coloquei o apartamento a venda, enquanto isso permaneço numa vigília constante em minhas madrugadas.

Nós assistíamos aquele depoimento hipnotizante da diretora, olhávamos o mover de sua boca, juntamente com os gestos eufóricos das suas mãos e seus olhos verdes mareados. Para quebrar toda tensão gélida, eu concluí dizendo:

– Ah, tá bom! Boa desculpa para chegar atrasada, só que comigo não funciona.

Todos ali riram de forma pesada, Dona Josefa ergueu a cabeça, retornando a ser a discreta e ajuizada senhora de sempre. Assim cada um partiu daquela repartição pública para suas vidas privadas. No dia seguinte a diretora entrou com um pedido de afastamento médico, permanecendo ausente até aposentar-se.

Fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/11/o-apartamento-73.html

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O Amigo de Seis Semanas

Um dos piores sons deste mundo é ouvir um bocado de terra cair sobre a tampa do caixão onde está seu amigo. Após presenciarem seu colega, que em pouco tempo já tinha uma relação fraternal, descansar eternamente embaixo da terra ele partiu de mãos dadas com a mulher chorosa mais a criança. Seguiram para fora do cemitério sem dizerem uma única palavra, em respeito ao morto. Sejamos racionais: Quem nunca acreditou ou iludiu-se com alguém? Seria melhor recapitular este caso para que possamos compreender o que vale em uma amizade.


Seis semanas antes Virgílio, sem aviso prévio, sofreu um mal súbito quando seguia para o trabalho. Ele sentiu uma forte ardência no braço direito, acompanhada pela falta de fôlego, perdeu os sentidos e desabou no piso da lotada estação de metrô. Sua parada cardiorrespiratória virou atração para todos os passageiros, um bom assunto que muitos iriam expor no trabalho. Assim o corpo de Virgílio perdia suas energias vitais no meio daquelas centenas de gente aguardando o próximo trem. A alma do recém-defunto desprendera-se da carne desamparada e doente, ficando ao chão somente um corpo abatido, com coração infartado e ventrículo fibrilando.


– Nada mais pode ser feito, ele já está morto. – sussurrou o médico socorrista para o segurança da estação que estava ao seu lado, mesmo assim ele continuava procurando sinais no infartado.


– Não doutor, o senhor deve fazer uma massagem cardíaca.


– Não dá mais tempo. Ele está sem respirar por mais de dez minutos; já houve a morte do cérebro. Nem o desfibrilador resolve agora.


– Mesmo assim acho que devemos ter fé e fazer uma massagem cardíaca! – disse o segurança tentando assumir o controle do atendimento.


– O médico ainda sou eu e... – dando uma pausa para olhar toda aquela gente em volta, continuou a discutir em voz baixa com o outro ao seu lado – você é o segurança desta estação. Então afaste as pessoas, porque quero tirar o corpo deste tumulto todo.


Os dois se entreolharam numa disputa de autoridade, um conflito entre opiniões distintas. O paramédico estava preocupado com a aglomeração que diariamente agitava a estação, enquanto o segurança queria dar assistência tardia ao morto. O profissional da saúde se levantou e seguiu em direção das pessoas aglomeradas, ordenando de forma irritante e prepotente que afastassem do cadáver e entrassem no trem que se aproximava.


– Olha, ele conseguiu – disse uma moça espantada, apontando sobre o ombro do socorrista.


A população entrou em alvoroço, aplaudindo com grande euforia, olhando na direção onde estava o defunto. O sujeito que deveria resgatar aquele enfartado olhou para trás, notando que o segurança do metrô dava assistência ao moribundo que acabara de despertar dos mortos. O infartado ainda permanecia deitado no chão, mas agora estava consciente e dialogando com seu novo amigo que trabalhava de segurança, única pessoa a fazer uma massagem cardíaca nele.


Virgílio seguiu direto para o hospital mais próximo. Quando a noite chegou, ele assistia as reportagens sobre seu ataque cardíaco em todos os telejornais da TV. As câmeras de monitoramento da estação filmaram toda a ação do profissional da segurança, este estava sendo elogiado na matéria como um verdadeiro herói. Em outro canal específico uma moça era entrevistada – a mesma que apontou por sobre o ombro do socorrista – dizendo que o homem do resgate era mau profissional e todos viram ser negligente com a vida que sofria agonizante na plataforma de embarque do metrô. Os dias trilhavam durante a semana sempre se falando no mesmo assunto, de modo a tomar proporções internacionais, havia até debates calorosos nos programas televisivos da tarde, além da cobrança da opinião publica por uma explicação pela má conduta da equipe de resgate.


Em um dos quartos, no segundo andar do hospital, Virgílio estava esperançoso pois acabava de receber alta. Junto com ele estava sua linda esposa, o filhinho de cinco anos e seu mais novo amigo, o segurança Pedro. Foi Pedro quem devolveu sua vida, lhe fez massagem cárdica enquanto muitos se benziam crendo não haver mais esperança para o infartado. Todos os dias Pedro visitava Virgílio em seu leito porque agora ambos tinham uma comunhão de vida e confiança.


Quando Virgílio passou pela portaria do hospital, acompanhado de sua família mais Pedro, vários jornalistas os aguardavam do lado de fora.


– Estou retornando à minha casa com minha esposa, meu filho e junto com meu novo irmão Pedro. Eu nasci de novo, ressuscitei nos braços deste homem que devo minha vida! – Talvez fosse exagero por parte de Virgílio, mas eram palavras repletas de emoção, faladas perto dos microfones. Com lágrimas nos olhos, abraçando seu filho, esposa e também Pedro, o infartado continuou dando entrevista – Agora tenho que manter minha saúde tomando remédios, fazendo uma dieta saudável e praticar exercícios físicos... Sim, tudo está bem agora... Não guardo magoas de ninguém... Já perdoei aquele socorrista!


Tentando reestabelecer sua rotina decomposta pela doença, toda família tentava conviver com as mudanças que Virgílio faria. Sempre que ele retornava do trabalho fazia uma pausa na estação, tempo para aguardar o termino do expediente de Pedro. Chegando em casa, o infartado fazia uma leve refeição, em seguida corria pelas ruas do bairro com o colega. Pedro adorava conviver com a família de Virgílio, sempre esteve sozinho no mundo, morava em um apartamento alugado junto com um funcionário do trabalho. Em determinados dias da semana o segurança tinha folga, quando Virgílio chegava do serviço encontrava com satisfação o amigo sentado à mesa, tomando café junto com sua mulher. Sem abalar-se o infartado abraçava seu amigo, ainda grato pela nova vida.


– Já está pronto para corrida? – Perguntava o segurança.


– Claro que sim, só espera eu trocar de roupa.


– Querido você acabou de chegar, descanse um pouquinho primeiro – falava a esposa, deixando transparecer que precisava da companhia do marido também, depois completava – aquele filme que você queria assistir no cinema vai passar daqui a pouquinho na TV.


– Não posso assistir, tenho que me manter saudável. Dizia Virgílio sem preocupar-se com a carência da mulher.


Sem dar mais ouvidos, os dois saíram em maratona pela noite. Porém a corrida foi impedida porque o médico socorrista, aquele mesmo que não prestou assistência ao infartado, aguardava os dois na rua com aparência intimidadora.


– O quê está fazendo na frente da minha casa?


O sujeito com expressão de ódio no rosto saca um revolver de trás das costas, aponta para o segurança e, junto com uma grande quantidade de saliva, passa cuspir ofensas:


– Por causa deste filho da égua minha vida está arruinada! Eu fui demitido por uma alegação de incompetência... Sabe o que significa isto... seu guardinha de merda!? Que eu não tenho mais nada a perder!!!


– Calma cara, todos nós cometemos falhas naquele dia. – disse Pedro com as mãos espalmadas para seu inimigo, tentando inutilmente tranquilizá-lo e rematou – nos podemos resolver esta situação juntos, vamos hoje mesmo aos jornais, é apenas um mal-entendido que iremos resolver!


– Você não assistiu? Quando saí do hospital eu disse que tinha te perdoado. Concluiu Virgílio!


– Isto não é com você, sabe por quê? – gritava fora de controle o sujeito armado, apontando o cano para o chão ele prossegue – Porque era para você estar morto... Um defunto que ajudaria todos à sua volta!!!


– Cara isto não é certo, aquela não era a hora de Virgílio. Ele precisava ser reanimado! Falou o segurança.


– Você é mesmo um monte de bosta! Sabe quanto tempo eu estou aqui? Vigiando esta casa? Como tem coragem de dizer que eu estou errado! Toma desgraçado!!!


O assassino descarregou o tambor do revolver contra Pedro, porém Virgílio decidiu que seu herói não deveria morrer, era uma divida que possuía. Assim o pai de família avançou no meio da linha de fogo, tragando todo o aço que entrava em seu corpo. Um bucólico escudo humano defendeu seu salvador, Virgílio blindou seu amigo e desabou agonizando no meio da rua.


*****

Virgílio sobreviveu, novamente estava deitado no mesmo quarto do hospital, recuperando-se misteriosamente de outro choque contra sua vida. Em menos de um mês ele enfartou na plataforma lotada do metrô, foi desenganado por um socorrista que deveria fazer-lhe uma massagem cardíaca, teve sua vida devolvida pelo segurança Pedro e agora tinha tomado seis tiros para proteger este novo amigo. Estava sem paradeiros o criminoso que lhe feriu a tiros, desapareceu como um crápula que era.


Através da janela, notava-se a noite reinar neste lado do Globo. Virgílio abriu os olhos, reparando que o amigo estava sentado ao seu lado a dizer:


– Bem-vindo ao mundo pela terceira vez!


– Olá, tudo bem com meu herói?


– Nada disso, agora estamos quites! Eu te salvei e você empatou tudo. Só o doido que atirou em você ainda esta foragido, fugiu depois que te acertou.


– Pedro, você tem que se prevenir, eu suponho que ele possa voltar para te pegar!


– Que nada, todos os canais de televisão estão divulgando seu retrato, ele deve estar bem longe agora. – Pedro deu uma pausa para criar coragem de fazer a pergunta que já tinha ensaiado, respirou fundo e soltou – Por que você entrou no meio dos tiros? Eu sou um homem que tem quase nada para abrir mão, não tenho nenhum compromisso familiar ou missão neste mundo. Por que Virgílio você fez isto? Não pensou na sua esposa ou filho?


– Você é meu amigo...


– Não é só isso... Qualquer um sabe que outro em seu lugar jamais morreria pelo colega que conhece há pouco tempo. Por quê?


Virgílio olhou a noite que estava do lado de fora, fazendo uma leve careta de repudio, depois encarou seu amigo com afeição e disse:


– Quando você me reanimou na estação, acreditando que eu ainda tinha chances de viver, eu também lutava em outro plano. A sua ressuscitação sobre meu corpo na plataforma do metrô não era a única desavença. Eu estava ali também em outra dimensão, não queria morrer, não era minha hora. Assim, como qualquer outro mortal, eu tentava resistir perante o anjo da morte que queria me levar para o mundo dos falecidos. Só que ninguém mais conseguia vê-lo, somente eu existia contra aquele monstro em forma de gente. Enquanto eu implorava por mais alguns dias nesta carne, a morte caminhava junto com a noite e disse que trazia a solução para todos meus males, pois iria por um fim nas minhas amarguras; novamente eu lhe disse que não queria morrer ainda! O bicho olhou para meu corpo estirado no chão e lá estava você, tentando inutilmente me reanimar, foi você que de alguma forma convenceu a morte em devolver meu espírito. A morte então olhou para mim perguntando se eu desejava testar minhas resistências contra o destino de todos os mortais. Eu respondi suplicante que sim. Em seguida ela fragmentou-se na escuridão, porém antes  disse-me que caso eu sentisse medo ela retornaria para me levar instantaneamente! Eu acordei sentido uma grande comunhão contigo, igual uma ligação entre dois irmãos. Foi por isso que impedi o bandido de acertar você, porque eu temeria pela sua agonia em continuar a viver. Enquanto eu não sentir medo acredito que serei imortal, mas isto é um sarcasmo diabólico pois penso que estou sendo constantemente testado.


Pedro ouvia atônito cada palavra do outro deitado sobre a maca. Acontecimento para se duvidar, porém seu amigo falava com uma convicção veemente, além da situação não ser a propicia para mentir. Ele então olha Virgílio e diz em tom confiante:


– É difícil de acreditar, só que as evidencias estão cicatrizando na sua pele. – colocando as mãos na cabeça, maravilhado pelo discurso do amigo, Pedro levanta e completa – Cara... Muita gente não pensa desta forma, isto pode ser uma experiência pós-traumática... Mas quem sou eu para falar que tal dádiva pode ser fatídica para você!


– Será mesmo uma alucinação? É melhor não pagar pra ver. Contudo não posso ao menos ter um sonho ruim, senão caio duro.


– De uma forma ou outra isto é um milagre! Se for sério como diz então eu queria muito estar no seu lugar!!!


Três dias depois Virgílio retornou para casa, sob os holofotes da imprensa. Uma motivação o contagiava porque não estaria desamparado, seu amigo sabia seu segredo e não deixaria abalar-se. Uma definição mais especifica para amizade é a confiança, sentimento que Pedro não deveria receber já que era amante da mulher do outro. Enquanto Virgílio estava internado, aquele que dizia ser amigo seduziu sua esposa. O paramédico tentou inutilmente alertá-lo, porém a cegueira da desilusão encobria os fatos e suspeitas.


– Como matar alguém que tem parceria até com a morte? – pensava Pedro durante o almoço de ação de graça na casa do amigo, concluindo seu raciocínio de maneira traiçoeira – Tenho que tocar em seu ponto fraco!


A manhã seguinte foi a mais conclusiva, uma manhã de segunda-feira quando o infartado entrou em um dos vagões do metrô para seguir ao trabalho. Sentado distraidamente ele não reparou que o ex-funcionário do resgate acomodou-se ao seu lado. Ele jamais esperava um encontro assim, o cara que por duas vezes quis levá-lo para o cemitério o cumprimentou:


– Virgílio, precisamos conversar. – Virgílio ficou agitado ao perceber o outro no seu lado. De forma branda nas palavras o ex-paramedico quis contê-lo – Escuta o que tenho para dizer, você sabe que eu não lhe farei mal.


– O que você quer maluco? Fala logo, senão eu grito para todos quem é você.


– Rodney, meu nome é Rodney. Eu sei que estou correndo risco, não só o perigo em ser preso mais também que talvez você não possa acreditar em mim, entretanto o cara que diz ser seu amigo está tentando roubar sua família.


– Isto não é verdade! Pedro é como um irmão pra mim.


– Lembra a vez que eu quis matar Pedro e acabei acertando você? Eu passei três dias seguindo ele, acompanhando a rotina dele quando vi...


– O que você viu?


– Eu não posso dizer, você tem que voltar para casa e tirar suas próprias conclusões. – Rodney estendeu a mão e mostrou um embrulho para Virgílio, continuando – Leve isto, você sabe o que é, vai precisar e não hesite em usar.


O infartado pegou o embrulho, sentindo que era pesado e consistente devido à densidade do metal contido dentro. Virgílio olhou para o outro, tentando não abalar-se e disse:


– O que é isso? Você tem ideia do que está querendo?


Rodney olhou no fundo dos olhos de Virgílio, tentando mostrar que a comunhão dele pelo amigo não valia à pena:


– Você venera tanto aquele sujeito e não enxerga o que está a sua frente, não é? – e pressionando as mãos que agarrava o embrulho, encostando no peito de quem segurava, Rodney persistiu – Quando você passou pela estação não viu seu camarada, sabe onde ele está?


– Ele está de folga. Balbuciou Virgílio, já deixando transparecer suas duvidas.


– Volta para casa homem. Sua família está com aquele bandido!


Seguindo a contramão do fluxo que trilhava para o labor cotidiano, o infartado decide retornar para casa, tentando manter a cabeça fria e razão alinhada no autocontrole. Se bem que falar em razão para uma pessoa que morrerá quando sentir medo é bem contraditório. Realmente descobrir que está sendo traído pela esposa, junto com o melhor amigo e flagrar os dois é ato que coloca toda valentia de um homem a prova.


Virgílio entrou em casa próximo das nove horas, encontrando seu filhinho sozinho na sala assistindo televisão. O pai abraça sua criança, indagando onde estaria sua mãe. O menino apenas aponta para o quarto do casal que estava com a porta trancada. Ele deixa o menino no sofá e segue de arma em punho na direção do dormitório. Quando encostou o rosto na porta escuta nitidamente os gemidos prazerosos da sua mulher. Em uma ação de bravura, junto com as forças das pernas de corredor, Virgílio arromba a porta com dois chutes e enxerga o que era esperado. Ele deparou-se com os dois pelados sobre a cama, uma traição que fez a ferida dentro do seu coração reabrir novamente, embora agora não era uma dor cardiovascular que sentia e sim a decepção de flagrar seu precioso amor num ato de infidelidade. Virgílio mal conseguiu reprimir o que sentia, seu coração estava quebrantado...


*****


Estavam os dois adultos saindo com a criança do cemitério, homem e mulher caminhavam sem dizer uma palavra em memória ao morto. Não há som pior que ouvir o barulho oco da terra caindo sobre a tampa de um caixão. Um taxi os aguardava na saída, então Virgílio abriu a porta de trás do veículo para a mulher entrar com seu filho e seguiu para sentar ao lado do motorista.


Ninguém estava feliz naquele dia, mas havia alívio pelo pesado fardo que ambos deixaram de carregar. Virgílio foi forte para matar o colega a quem devia sua vida, só que a mesma bravura não foi capaz de ter com sua mulher. Ele temia viver sem ela, assim morreria também. Agora Virgílio tinha um propósito para sua imortalidade: Tentar fazer sua mulher feliz, dar assistência que a esposa nunca teve. Porém, quando ela ficar fraca pela velhice, não resistindo ao destino de todos os viventes e morrer, ele então temerá sua perda e será enterrado junto com sua amada.


– Obrigado Rodney! Pensou o infartado enquanto o taxi partia.


Rodney estava observando o carro sair, escondido entre as árvores do cemitério. Sobre ele recaiu a culpa pela morte de Pedro. Foi esta a versão dada em depoimento à polícia.

Fonte:http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/12/o-amigo-de-seis-semanas.html