sábado, 25 de fevereiro de 2017

Horror No Museu - H. P. Lovecraft

Foi apenas curiosidade o que levou Stephen Jones ao Museu Rogers pela primeira vez. Alguém lhe falara a respeito do estranho lugar subterrâneo na Southwark Street, do outro lado do rio, onde criaturas de cera muito mais horrendas que as piores efígies do Madame Tussaud estavam expostas; e num dia de abril ele resolveu entrar para conferir que tipo de desapontamento iria ter. Curiosamente, não se desapontou. Afinal, alguma coisa diferente e notável estava ali. Decerto, os velhos lugares-comuns sangüinários não poderiam faltar: Landru, Doutor Crippen, Madame Demers, Rizzio, Lady Jane Grey, infindáveis vítimas da guerra e da revolução, e monstros como Gilles de Rais e o Marquês de Sade; mas também outras coisas que aceleraram sua respiração e o fizeram permanecer até ouvir o toque de fechar. O homem que tinha montado aquela coleção não poderia ser um charlatão ordinário. Havia imaginação, e até um toque de genialidade doentia, em algumas das peças.

Mais tarde ele se informou sobre George Rogers. O homem tinha sido da equipe do Tussaud, mas algum problema ocorrera que resultara em sua demissão. Ouviram-se rumores acerca de sua sanidade mental e notícias sobre suas loucas formas de adoração secreta; embora, finalmente, o sucesso de seu próprio museu no porão acabasse embotando o gume de algumas críticas, ao mesmo tempo em que aguçava a ponta insidiosa de outras. Teratologia e iconografia do pesadelo eram seus passatempos; e ele teve mesmo a prudência de alojar discretamente algumas de suas piores efígies numa alcova especial, destinada somente aos adultos. Foi essa alcova que tanto fascinou Jones. Havia coisas híbridas e disformes que só a fantasia seria capaz de gerar, moldadas com arte diabólica e coloridas de um modo horrivelmente realístico.



Algumas eram figuras de mitos bem conhecidos: górgonas, quimeras, dragões, ciclopes e todos os seus arrepiantes congêneres. Outras tinham sido tiradas de mais obscuros e só furtivamente murmurados ciclos de lendas subtérreas: o negro e disforme Tsathoggua, o multitentacular Cthulhu, o trombudo Chaugnar Faugn, e outras indizíveis blasfêmias extraídas de livros proibidos como o Necronomicon, o Livro de Eibon ou o Unaussprechlichen Kulten, de Von Junzt. Mas as piores eram criações originais de Rogers, representando formas que nenhuma narrativa da antigüidade teria alguma vez ousado descrever. Muitas eram repulsivas paródias das formas da vida orgânica que conhecemos, enquanto outras pareciam ter sido sacadas de sonhos febris de outros planetas e galáxias. As mais selvagens pintadas por Clark Ashton Smith podem sugerir algumas; mas nada se compararia ao efeito de pungente, repelente terror gerado pelas suas grandes dimensões e delirante acabamento artesanal e pelas condições de luz diabolicamente perspicazes sob as quais eram exibidas.

Stephen Jones, como um descompromissado connoisseur do bizarro na arte, procurara Rogers pessoalmente no sombrio escritório e estúdio que ficava atrás do salão de teto abobadado do museu – uma cripta de aspecto demoníaco, obscuramente iluminada por janelas de correr poeirentas, dispostas horizontalmente no nível dos paralelepípedos de um pátio escondido. Nesse lugar é que se fazia a manutenção das imagens, e ali, também, algumas tinham sido produzidas.

Braços de cera, pernas, cabeças e torsos jaziam em grotesca desordem sobre vários bancos, ao passo que nas prateleiras das estantes se viam perucas, dentes e olhos mortiços de vidro espalhados indiscriminadamente. Vestimentas de todos os tipos pendiam de ganchos; e numa dada alcova havia grandes pilhas de cera cor-de-carne e prateleiras repletas de latas de tinta e pincéis de todos os formatos. No centro do cômodo estava a grande forja para preparar a cera a ser moldada, sua larga boca ocupada por um vasto container de ferro com alças, ao qual se ligava um tubo que permitiria despejar a cera derretida com um simples toque de dedo.

Outras coisas, na cripta penumbrosa, seriam mais difíceis de descrever: partes isoladas de entidades problemáticas cujas formas agrupadas eram fantasmas de delírio. Numa das extremidades via-se uma porta de madeira maciça, trancada por um cadeado de tamanho incomum, sobre a qual se achava pintado um símbolo bastante peculiar. Jones, que já tivera acesso ao temível Necronomicon, estremeceu involuntariamente ao reconhecer aquele símbolo. Este expositor, refletiu, deve ser alguém de um saber desconcertantemente vasto acerca dos assuntos dúbios e negros.

Também a palestra de Rogers não o desapontou. Era um homem alto, esguio e assaz desalinhado, os grandes olhos negros brilhando em combustão em meio a uma face pálida e mal barbeada. Não se incomodou com o aparecimento de Jones e antes pareceu saudar a ocasião de poder se abrir com uma pessoa interessada. Sua voz era de uma profundidade e de uma ressonância singulares, mal dissimulando uma ponta de intensidade represa, que bordejava mesmo com o fervor. Jones não se espantou de que muitos o tivessem julgado louco.

A cada nova visita (e as visitas se tornaram habituais com o passar das semanas), Jones encontraria Rogers mais comunicativo, mais inclinado às confidências. No princípio, tinha havido rumores de crenças e práticas estranhas, da parte do expositor, e mais tarde esses rumores se expandiram em histórias, não obstante umas poucas e estranhas fotografias corroborantes, cuja extravagância roçaria pelo cômico. Foi em junho, numa noite em que Jones trouxera uma garrafa de bom uísque e pôde conversar mais livremente com seu anfitrião, que o discurso realmente insano despontou. Antes disso, haviam surgido histórias delirantes demais – relatos de viagens ao Tibete, ao interior da África, ao deserto da Arábia, ao vale do Amazonas, ao Alasca e a certas ilhas pouco conhecidas do Pacífico Sul, além de declarações acerca de ter lido livros monstruosos como os fragmentos Pnacóticos e os cantos Dhol atribuídos ao maligno e inumano Leng -, mas nada disso fora tão inequivocamente insano quanto o que veio à tona, sob o influxo do uísque, naquele anoitecer de junho.

Mais abertamente, Rogers passou a se gabar de ter encontrado certas coisas na natureza que ninguém encontrara antes e de ter trazido à luz evidências de tais descobertas. De acordo com sua arenga, tinha ido mais longe do que qualquer outro na interpretação desses livros obscuros e primevos que estudara, e fora orientado por eles para certos lugares remotos onde insólitos remanescentes se ocultavam – remanescentes de éons de ciclos de vidas mais antigos que a humanidade e em alguns casos conectados com outras dimensões e outros mundos, mundos e dimensões com os quais a comunicação seria freqüente em dias pré-humanos. Jones se maravilhava com uma fantasia tão capaz de conjurar semelhantes noções e se perguntava qual seria a real história mental de Rogers. Teria sido o seu trabalho em meio ao grotesco mórbido do Madame Tussaud o ponto de partida para suas fugas imaginativas ou se tratava de uma tendência inata, da qual a escolha de sua ocupação fora apenas uma das manifestações? De qualquer modo, o trabalho do homem estava como que ligado a essas noções. Mesmo agora não havia que se equivocar com o curso de suas mais negras sugestões acerca das monstruosidades de pesadelo ocultas atrás da porta onde se lia “Para adultos somente”. Infenso ao ridículo, ele tentava sugerir que nem todas essas anormalidades demoníacas eram artificiais.

Foi mesmo o ceticismo e o espanto de Jones diante dessas declarações irrespondíveis que acabaram quebrando a crescente cordialidade. Rogers – estava claro – se levava muito a sério, pois agora se tornava moroso e ressentido, continuando a tolerar Jones somente ao preço de um incontido impulso de romper o muro de sua incredulidade urbana e complacente. Contos e sugestões delirantes de ritos e sacrifícios prestados a inomináveis deuses antigos continuavam; e aqui e ali Rogers mostraria ao hóspede uma das ultrajantes blasfêmias na alcova reservada e apontaria detalhes difíceis de conciliar mesmo com a mais refinada artesania humana. Jones prosseguiu, fascinado, com suas visitas, embora soubesse que tinha desmerecido os interesses de seu anfitrião. Às vezes, tentaria animar Rogers com um fingido assentimento a alguma sugestão ou asserção maluca, mas o magro expositor raramente se deixaria enganar por essas táticas.

A tensão atingiu o ápice mais tarde, em setembro. Jones entrou casualmente no museu, num certo entardecer, e perambulava pelos corredores sombrios, cujo horror lhe era agora familiar, quando ouviu um som bastante sinistro, proveniente do estúdio de Rogers. Outros o ouviram também e, nervosamente, saíram em disparada, enquanto os ecos reverberavam através do grande porão de teto arqueado. Os três assistentes trocaram olhares significativos; um deles, um sujeito negro e taciturno, com ar de estrangeiro, que sempre servira Rogers como reparador e desenhista assistente, sorriu de um modo que pareceu intrigar seus colegas e que tocou profundamente alguma faceta da sensibilidade de Jones. Parecia o ganido ou o uivo de um cão e era um som que só poderia ser produzido sob condições do mais extremo terror e agonia combinados. Seu frenesi agudo, angustiado, era impressionante de ouvir e, em toda a sua grotesca anormalidade, continha algo duplamente aterrorizante. Jones se lembrou de que não eram permitidos cachorros no museu.

Estava prestes a ir até a porta que conduzia ao estúdio, quando o atendente negro o deteve com uma palavra e um gesto. O Sr. Rogers – o homem disse, numa voz suave e algo acentuada que não escondia qualquer coisa de apologético e sardônico – tinha saído, e havia ordens expressas para não deixar que ninguém entrasse no estúdio durante sua ausência. Quanto àquele uivo, proviera certamente de alguma coisa lá fora, do pátio aos fundos do museu. A vizinhança estava cheia de vira-latas, cujas brigas costumavam ser chocantemente barulhentas. Não havia cães em parte alguma do museu. Mas, se o Sr. Jones quisesse ver o Sr. Rogers, poderia encontrá-lo antes da hora de fechar.

Depois disso, Jones galgou os velhos degraus de pedra até a rua e examinou com curiosidade os esquálidos arredores. Os edifícios magros, decrépitos – que uma vez foram residências, mas que agora eram na maioria lojas e armazéns – eram de fato muito antigos. Alguns deles eram de um tipo que parecia remontar à época dos Tudors, e um fedor algo miasmático pairava sutilmente por toda a região. Ao lado da casa sombria cujo porão servia de museu havia uma passagem em arco, não muito alta, cortada por um caminho de pedras escuras, e foi por ela que Jones enveredou na vaga expectativa de encontrar o pátio dos fundos e ajeitar em sua mente, de um modo mais confortável, o caso do cachorro. O pátio, obscurecido na fraca luz do entardecer, estava cercado ao fundo por muros mais feios e intangivelmente ameaçadores do que as fachadas decadentes do casario vetusto e maligno. Não se via nenhum cachorro. Jones se perguntou como o resultado de tamanho frenesi poderia ter se desvanecido tão depressa e tão completamente.

Apesar da declaração do assistente de que nenhum cachorro tinha estado no museu, Jones examinou com nervosismo as três pequenas janelas do estúdio subterrâneo, estreitos e horizontais retângulos colados ao piso onde a erva crescia, seus vidros ostensivos a mirar repulsivamente e sem curiosidade como os olhos de um peixe morto. À sua esquerda um lance carcomido de degraus conduzia a uma obscura porta de pesadas dobradiças. Um impulso lhe veio de se abaixar sobre os paralelepípedos úmidos e partidos e espiar lá dentro, na possibilidade de que os espessos cortinados verdes, movidos por longos cordões que desciam até um nível alcançável, não poderiam ser afastados. As superfícies externas estavam grossas de poeira, mas quando as esfregou com o lenço percebeu que não havia nenhuma cortina obstruindo a visão.

Tão penumbroso era o interior do porão que pouca coisa se podia ver, mas a grotesca parafernália se deixava lobrigar espectralmente aqui e ali, enquanto Jones observava janela por janela. Parecia evidente, a princípio, que ninguém estava dentro; no entanto, quando ele espiou através da janela da extrema direita – aquela mais próxima do caminho de entrada -, avistou um brilho ao fundo do compartimento que o fez estacar surpreendido. Não havia razão para que nenhuma luz estivesse ali. Tratava-se de uma parte interna do cômodo, e ele não podia lembrar-se de haver nenhuma lâmpada elétrica ou a gás perto daquele ponto. Uma outra olhadela definiu o brilho como sendo um largo retângulo vertical, e um pensamento lhe ocorreu. Era naquela direção que ele tinha sempre reparado na grande porta de madeira com o imenso cadeado – a porta que nunca era aberta e sobre a qual se estampava cruamente aquele pavoroso símbolo críptico proveniente dos documentos fragmentários de uma magia ancestral e proibida. Devia estar aberta agora, e havia uma luz lá dentro. Toda a sua especulação anterior sobre o lugar aonde aquela porta levaria e sobre o que haveria por trás foi então renovada, com uma intensidade triplamente inquietadora.

Jones perambulou a esmo pela opressiva localidade até próximo das seis horas, quando voltou ao museu para procurar Rogers. Dificilmente poderia dizer por que ansiava tanto em ver o homem assim de imediato; contudo devem ter influído nessa disposição algumas suspeitas subconscientes acerca daquele uivo canino da tarde, terrivelmente difícil de situar, e acerca do brilho naquela porta perturbadora do interior, que usualmente permanecia fechada com o maciço cadeado. Os assistentes estavam de saída quando ele chegou, e achou que Orabona, o negro assistente de aparência estrangeira, o olhava com uma curiosidade sub-reptícia e contida. Não gostava daquele olhar, mesmo tendo visto o sujeito dirigi-lo ao seu patrão noutras ocasiões.

O salão de teto abaulado parecia aterrorizante em seu abandono, mas ele o atravessou velozmente e bateu na porta do escritório e estúdio. A resposta demorou a vir, embora se ouvissem passos lá dentro. Finalmente, em resposta a uma segunda batida, a fechadura estalou, e o antigo portal de seis painéis rangeu relutantemente antes de pôr à mostra o vulto devastado e de olhar febricitante de George Rogers. Logo de saída ficou claro que o expositor se achava num estado de espírito incomum. Havia uma curiosa mistura de relutância e de real avidez em sua saudação, e seu modo de falar derivava para extravagâncias do tipo mais incrível e horripilante.

Antigos deuses sobreviventes – inomináveis sacrifícios – a outra natureza além daquela, artificial, dos horrores da alcova – toda a lengalenga usual, mas pronunciada num tom de confiança algo crescente. Obviamente, refletiu Jones, a loucura do pobre o estava dominando mais e mais. Vez por outra, Rogers lançaria olhadelas furtivas em direção à porta trancada no final do cômodo ou em direção a um pedaço de áspera aniagem que jazia no chão, não muito distante dele, sob o qual algum objeto pequeno parecia estar colocado. Jones ficou mais nervoso à medida que os momentos passavam e começou a se sentir tão hesitante em mencionar os estranhos eventos da tarde quanto há pouco tinha estado ansioso por fazê-lo.

O tom sepulcralmente grave da voz de Rogers quase se partia sob a excitação de seu delírio febril.

- Você se lembra – gritou – do que eu lhe contei acerca daquela cidade em ruínas da Indochina onde os tcho-tchos viviam? Teve de admitir que estive lá, quando viu as fotografias, mesmo se achasse que eu fiz às escuras aquele nadador oblongo de cera. Se você o tivesse visto contorcendo-se nos poços subterrâneos como eu vi…

“Bem, este é maior ainda. Nunca lhe falei sobre este, porque desejava trabalhar as últimas partes antes de fazer qualquer anúncio. Quando você vir os instantâneos, saberá que a geografia não poderia ter sido falsificada; e eu creio que tenho outro meio de prová-lo. Não se trata de nenhuma mistura de cera que fiz. Você nunca o viu, porque os experimentos não me permitiriam mantê-lo em exibição.”

O exibidor olhou de um modo estranho para a porta trancada.

-          Tudo provém daquele longo ritual no oitavo fragmento pnacótico. Quando me dei conta, vi que poderia ter apenas um significado. Havia coisas no norte antes que a terra de Lomar – antes que a humanidade existisse; e esta era uma delas. Vasculhamos tudo até o Alasca, partindo de Fort Morton até Nootak, mas a coisa estava lá, como sabíamos que estaria. Grandes ruínas ciclópicas, cobrindo acres inteiros. Havia sobrado menos do que esperáramos, mas após três milhões de anos o que se poderia desejar? E não estavam as lendas esquimós todas na direção certa? Não podíamos forçar um deles a ir conosco, e tivemos de esquiar de volta até Nome em busca de americanos. Orabona não tinha utilidade naquele clima, tornou-se taciturno e odioso.

“Mais tarde lhe contarei do modo como a encontramos. Quando removemos o gelo dos pilonos da ruína central, a escadaria era exatamente como pensamos que seria. Viam-se ainda alguns entalhes, e não houve problemas em impedir que os yankees nos seguissem ao entrarmos. Orabona tremia como uma folha – você nunca suporia, vendo o modos insolentes que ele exibe por aqui. Ele conhecia o bastante sobre as velhas lendas, para estar devidamente amedrontado. A luz externa tinha acabado, mas nossos archotes mostravam o bastante. Vimos os ossos de outros que tinham existido antes de nós éons atrás, quando o clima era quente. Alguns desses ossos eram de coisas que você não poderia sequer imaginar. No terceiro nível abaixo, encontramos o trono de marfim, do qual os fragmentos tanto falavam – e posso lhe dizer que não estava vazio.

“A coisa no trono não se movia, e então percebemos que Ele precisava ser alimentado por algum sacrifício. Mas não pretendíamos acordá-Lo. Melhor levá-Lo para Londres primeiro. Orabona e eu nos arrojamos à superfície da grande caixa, mas quando O embalamos, vimos que não poderíamos subir com Ele os três lances de degraus. Esses degraus não foram construídos para seres humanos, suas dimensões nos dificultavam. De qualquer modo, era pesado em excesso. Tivemos de chamar os americanos para O tirarmos de lá. Não estavam nada animados a entrar no lugar, mas certamente a coisa pior já estava dentro da caixa. Dissemos a eles que se tratava de uma peça de marfim esculpido, material arqueológico; e, ao verem o trono entalhado, provavelmente acreditaram em nós. É um espanto que não tenham suspeitado de um tesouro oculto e que não tenham exigido uma parte. Devem ter contado estranhas histórias acerca de Nome, mais tarde; embora eu duvide de que tenham retornado às ruínas, mesmo pelo trono de marfim.”

Rogers fez uma pausa, procurou em sua escrivaninha e tirou um envelope com fotografias de tamanho grande. Extraindo uma e colocando-a com a face virada para baixo à sua frente, passou as restantes a Jones. O conjunto era certamente espantoso: colinas cobertas de gelo, trenós puxados por cães, homens envolvidos em peles, e vastas ruínas decadentes contra um fundo de neve – ruínas cujos contornos bizarros e cujos blocos enormes de pedra dificilmente poderiam ser descritos. Uma vista à luz do flash mostrava uma incrível câmara interior com entalhes selvagens e um trono curioso cujas proporções não poderiam ter sido desenhadas para um ocupante humano. Os entalhes da alvenaria gigantesca – altas paredes peculiarmente abobadadas

-          eram grandemente simbólicos e envolviam tanto desenhos completamente desconhecidos quanto certos hieróglifos citados de modo sombrio em legendas obscenas.  Sobre o trono estampava-se o mesmo símbolo temerário que se via pintado acima da porta de madeira da oficina. Jones lançou um olhar nervoso àquele portal fechado. Com toda certeza, Rogers andara por lugares estranhos e vira coisas estranhas. Entretanto aquela fotografia louca do interior podia ser facilmente uma fraude – tirada de um cenário bem montado. Não se deve ser tão crédulo. Mas Rogers continuava.

-          Bem, embarcamos a caixa num navio que saía de Nome e chegamos a Londres sem nenhum problema. Foi a primeira vez em que trouxemos alguma coisa com chances de estar viva. Não o coloquei em exibição, porque havia algo mais importante a fazer por Ele. Precisava do alimento sacrificial, pois se tratava de um deus. Obviamente eu não poderia Lhe dar o tipo de sacrifícios que Ele costumaria receber em sua época, pois tais coisas não existem agora. Mas havia outras que podiam servir. O sangue é a vida, você sabe. Mesmo os lêmures e os elementais que são mais velhos do que a terra hão de vir quando o sangue de homens ou animais for oferecido sob as condições corretas.

A expressão na face do narrador estava se tornando mais e mais alarmante e repulsiva, o que fez Jones estremecer em sua cadeira. Rogers pareceu notar o nervosismo de seu hóspede e prosseguiu, com um sorriso distintamente mau:

-          Foi no último ano que O consegui e desde então tenho tentado ritos e sacrifícios. Orabona não tem sido de muita ajuda, pois esteve sempre contra a idéia de despertá-Lo. Ele O odeia, provavelmente porque teme o que Ele poderá vir a significar. Carrega uma pistola durante todo o tempo, para se proteger – tolo, como se houvesse proteção humana contra Ele! Se alguma vez o vir sacar a pistola, o estrangularei. Queria que eu O matasse e fizesse uma efígie d’Ele. Mas já tracei meus planos e estou chegando ao topo, a despeito de todos os covardes como Orabona e dos malditos céticos de nariz empinado como você, Jones! Já entoei os cantos e realizei certos sacrifícios, e na semana passada a transição ocorreu. O sacrifício foi – recebido e apreciado!

Rogers lambia mesmo os lábios, enquanto Jones se mantinha incomodamente rígido. O expositor parou e se ergueu, cruzando o cômodo em direção ao pedaço de aniagem para o qual vinha olhando freqüentemente. Abaixando-se, agarrou um dos cantos e voltou a falar:

-          Você já riu bastante de minha obra – e agora é hora de conhecer alguns fatos. Orabona me diz que você ouviu um cachorro ganir por aqui esta tarde. Sabe o que isso significava?

Jones olhava. Apesar de toda a sua curiosidade, teria preferido ir embora sem obter maiores luzes acerca do ponto que tanto o intrigara. Mas Rogers foi inexorável e começou a levantar o quadrado de aniagem. Debaixo dele jazia uma massa retorcida e quase disforme que Jones demorou a classificar. Seria alguma coisa que vivera e que algum agente comprimira, privara de todo o sangue, espicaçara em mil lugares e costurara num monte mole e desossado de puro grotesco? Após um instante, Jones compreendeu o que poderia ser. Era o que restara de um cachorro – um cachorro, talvez de tamanho considerável e de uma cor esbranquiçada. A raça estava além de qualquer reconhecimento, porque a distorção tinha acontecido de um modo inominável e ultrajante. Grande parte do pêlo fora queimada por algum tipo de ácido, e a pele exposta e exangue estava marcada por inumeráveis feridas de incisões circulares. A forma de tortura necessária para obter semelhantes resultados teria sido inimaginável.

Eletrizado por uma pura repulsa que ultrapassava seu crescente desgosto, Jones explodiu num grito:

-          Seu sádico maldito, seu demente, você faz uma coisa dessas e ainda ousa vir falar a um homem decente!

Rogers repôs a aniagem com um ricto maligno de desdém e encarou sem furioso hóspede. Suas palavras portavam uma calma pouco natural:

-          Ora, seu tolo, pensa que eu fiz isto? O que dizer? Não é humano e não tem intenção de ser. Sacrificar é meramente oferecer. Eu dei a Ele o cachorro. O que aconteceu é obra d’Ele, não minha. Precisava ser alimentado com a oferta e a tomou à sua própria maneira. Mas deixe-me mostrar a você com o que Ele se parece.

Enquanto Jones hesitava, o outro foi até sua escrivaninha e apanhou a fotografia que tinha colocado com a face para baixo. Agora, estendia-a com um olhar curioso. Jones recebeu-a e examinou-a de um modo quase mecânico. Após um momento, o olhar do visitante se tornou mais concentrado e mais absorto, pois a força satânica do objeto representado tinha um efeito quase hipnótico. Certamente, Rogers tinha se superado em modelar o pesadelo feérico que a câmera capturara. A coisa era obra de um gênio férvido e infernal, e Jones se perguntou como o público reagiria quando fosse colocada em exibição. Algo tão monstruoso não tinha direito de existir – provavelmente a mera contemplação do mesmo, depois que fora feito, teria completado o desajuste na mente de quem o fizera, levando-o a uma adoração com sacrifícios brutais. Só uma firme sanidade poderia resistir à sugestão insidiosa de que tal blasfêmia era – ou teria sido -alguma forma exótica e mórbida de vida efetiva.

A coisa na imagem estava agachada ou se balançava sobre o que parecia ser uma engenhosa reprodução do trono monstruosamente entalhado da outra fotografia curiosa. Descrevê-la com qualquer palavra comum teria sido impossível, pois o que quer que seja de minimamente parecido com ela jamais ocorreu à imaginação da humanidade sã. Representava alguma forma vagamente conectada com os vertebrados deste planeta – embora não se pudesse ter certeza disso. Sua compleição era ciclópica, já que mesmo agachada sua altura dava quase duas vezes a de Orabona, o qual aparecia ao seu lado. Examinando atentamente, seria possível traçar suas aproximações com as feições corporais dos vertebrados superiores.

Havia um torso quase globular, com seis longos e sinuosos membros terminando em patas de crustáceo. Da extremidade superior protuberava, como uma bolha, um glóbulo subsidiário; seu triângulo de três olhos fixos de peixe, sua tromba de um pé de comprimento e evidentemente flexível, e um sistema lateral distendido, semelhante a guelras, sugerindo que se tratava de uma cabeça. Grande parte do corpo era coberta pelo que a princípio parecia ser pêlos, mas que a um exame mais atento provava ser uma densa floração de tentáculos negros e delgados ou filamentos de sucção, cada qual terminando numa boca que sugeriria uma cabeça de áspide. Sobre a cabeça e abaixo da tromba os tentáculos tendiam a ser mais longos e grossos, marcados com tiras espiraladas – sugerindo as tradicionais serpentes-madeixas da Medusa. Insinuar que aquilo podia ter uma expressão parece paradoxal; no entanto Jones sentiu que aquele triângulo de olhos protuberantes de peixe e aquela tromba pousada obliquamente exalavam um ar de ódio, voracidade e gritante crueldade, incompreensível aos humanos porque se misturava a outras emoções estranhas a este mundo e a este sistema solar. Nessa anormalidade bestial, refletiu, Rogers devia ter despejado de uma só vez toda a sua maligna insanidade e todo o seu inaudito gênio escultórico. A coisa era incrível – e, não obstante, a fotografia provava sua existência.

Rogers interrompeu suas divagações.

-          Bem, o que acha d’Ele? Ainda tem dúvidas sobre o que estraçalhou o cachorro e o sugou inteiro com um milhão de bocas? Precisava de alimento – e precisará de mais. Ele é um deus, e eu sou o primeiro sacerdote de Sua hierarquia final. Iä! Shub-Niggurath! O Bode com os seus Mil Jovens!

Jones baixou a fotografia, com desgosto e pena.

-          Olhe aqui, Rogers, é melhor abandonar isso. Existem limites, você sabe. É um grande trabalho, e tudo o mais, mas não faz bem a você. Melhor não o ver mais – deixar que Orabona o quebre e tentar esquecê-lo. E deixe-me rasgar essa reprodução bestial também.

Com um resmungo, Rogers arrebatou a fotografia e devolveu-a à escrivaninha.

-          Idiota – você – e ainda pensa que Ele seja uma fraude! Ainda acha que eu O fiz e ainda acha que minhas figuras não são mais que cera inerte! Ora, que se dane, você saberá. Não agora, porque Ele está descansando após o sacrifício, mas mais tarde. Oh, sim, você não duvidará de Seu poder então.

Enquanto Rogers olhava para a porta interna com o cadeado, Jones apanhou seu chapéu e sua bengala de um banco próximo.

-          Muito bem, Rogers, deixe para mais tarde. Preciso ir agora, mas o procurarei de novo amanhã ao entardecer. Reflita sobre meu conselho e veja se não faz sentido. Pergunte a Orabona o que ele acha também.

Rogers arreganhou os dentes de um modo animalesco.

-          Precisa ir agora, hein? Com medo, afinal! Com medo, apesar de toda a fanfarronice! Você diz que as efígies são apenas cera e, no entanto, dá o fora quando começo a provar que não o são. Você é como os demais que aceitam minha aposta de que não ousam passar uma noite inteira no museu – chegam valentemente, mas depois de uma hora gritam e esmurram a porta implorando para sair! Quer que eu consulte Orabona, hein? Vocês dois – sempre contra mim! Vocês querem barrar o estabelecimento de Seu reino vindouro!

Jones manteve a calma.

-          Não, Rogers, não há ninguém contra você. E não estou com medo de suas figuras, também, até porque admiro sua arte. Mas estamos ambos um pouco excitados esta noite, e imagino que algum descanso nos fará bem.

Outra vez Rogers barrou a saída de seu hóspede.

-          Sem medo, hein? Então por que está tão aflito em sair? Olhe aqui, você tem ou não tem coragem de ficar aqui sozinho no escuro? Por que tanta pressa, se você não acredita n’Ele?

Uma nova idéia parecia ter ocorrido a Rogers, e Jones olhou-o atentamente.

-          Ora, não tenho nenhuma pressa em especial; mas de que adiantaria eu permanecer sozinho aqui? O que isso provaria? Minha única objeção é que não é confortável para dormir. Que benefício traria para qualquer de nós?

Dessa vez, foi a Jones que ocorreu uma idéia. Ele prosseguiu, num tom de conciliação:

-          Pense bem, Rogers; apenas lhe perguntei o que seria provado se eu ficasse, quando nós dois o sabemos. Seria provado que suas efígies são apenas efígies, e que você não devia deixar sua imaginação fluir como tem fluído ultimamente. Suponha que eu fique. Se eu me mantiver firme  até o amanhecer, você aceitará uma nova visão das coisas, tirará umas férias e deixará que Orabona destrua essa sua nova coisa? Vamos lá, não é um jogo honesto?

A expressão na face do expositor era difícil de decifrar. Parecia óbvio que ele estivesse pensando rápido e que sobre um emaranhado de emoções conflitantes o triunfo maligno o estava dominando. Sua voz soou embargada, quando respondeu:

- Honesto o bastante! Se você se mantiver firme, aceitarei seu conselho. Sairemos para jantar e depois retornaremos. Trancarei você no cômodo de exibição e irei para casa. Pela manhã, retornarei antes de Orabona – ele chega meia hora antes dos outros – e verei como você está. Mas não o tente, a menos que esteja muito seguro de seu ceticismo. Outros fraquejaram – a oportunidade é sua. E suponho que umas batidas na porta de fora sempre trarão um policial. Você poderá não gostar, depois de algum tempo – e estará no mesmo edifício, mas não no mesmo cômodo que Ele.

Quando atravessaram a porta dos fundos em direção ao pátio sombrio, Rogers levou consigo o pedaço de aniagem com seu repulsivo conteúdo. Próximo ao centro do pátio havia um bueiro, cuja tampa o expositor ergueu em silêncio e com um acento de arrepiante familiaridade. Com invólucro e tudo, o fardo desceu ao oblívio de uma cloaca labiríntica. Jones estremeceu e instintivamente se esquivou ao contato da vampiresca figura ao seu lado, enquanto saíam para a rua.

Num tácito consentimento mútuo, não jantaram juntos, mas concordaram em se encontrar às sete diante do museu.

Jones apanhou um táxi e respirou aliviado depois que cruzou a Ponte Waterloo e sentiu que se aproximava da Strand alegremente iluminada. Satisfez-se com um café frugal e em seguida se recolheu a casa em Portland Place, para tomar um banho e apanhar algumas coisas. Perguntou-se, um tanto improficuamente, o que Rogers estaria fazendo. Tinha ouvido que o homem possuía uma casa vasta e penumbrosa em Walworth Road, repleta de livros obscuros e proibidos, parafernálias ocultas e imagens de cera que preferia não colocar em exposição. Orabona, sabia-se, vivia num setor separado dessa mesma casa.

Às onze, Jones encontrou Rogers à sua espera junto à porta do porão na Southwark Street. Trocaram escassas palavras, mas cada qual parecia lutar com uma tensão ameaçadora. Concordaram em que somente o salão de exibição deveria compor o cenário da vigília, e Rogers não insistiu para que o outro se alojasse na alcova “para adultos” dos supremos horrores. O expositor, após apagar todas as luzes do estúdio, fechou a porta daquela cripta com uma das chaves de seu volumoso molho. Sem sequer um aperto de mãos, atravessou a porta da rua, trancou-a atrás de si e galgou os desgastados degraus que conduziam ao pavimento lá fora. Enquanto o som de suas passadas esmorecia, Jones se deu conta de que a longa e tediosa vigília havia começado.

Mais tarde, na treva absoluta do grande porão arqueadado, Jones amaldiçoou sua própria ingenuidade infantil, que o tinha colocado ali. Durante a primeira meia hora, acendeu e apagou sua lanterna de bolso a intervalos regulares, mas estar sentado agora num dos bancos do expositor, em plena escuridão, tornara-se uma tarefa enervante. A cada vez que a lanterna faiscava, algum objeto mórbido e grotesco aparecia – uma guilhotina, algum inominável monstro híbrido, uma face barbada, repleta de malignidade, ou um corpo com emanações vermelhas escorrendo de uma garganta cortada. Jones sabia que nenhuma realidade sinistra se ligava a essas coisas, mas após a primeira meia hora preferiu não as ver mais.

Por que se dera ao trabalho do provocar aquele maluco ele mal podia dizer. Teria sido muito mais simples deixá-lo entregue a si mesmo ou ter chamado um especialista. Provavelmente, refletiu, influenciara-o o sentimento de empatia que um artista tem por outro. Havia suficiente genialidade em Rogers para torná-lo merecedor de toda oportunidade possível de que alguém o ajudasse a se livrar de sua crescente mania. Qualquer homem que pudesse imaginar e construir as coisas incrivelmente vivas que ele tinha produzido não estaria distante de uma real grandeza. Ele tinha a fantasia de um Sime ou de um Doré reunida ao artesanato minucioso e científico de um Blatschka. Com efeito, ele dera ao mundo do pesadelo aquilo que os Blatschkas, com seus modelos de plantas maravilhosamente acurados, feitos com vidro finamente retorcido e colorido, tinham dado ao mundo da botânica.

A meia-noite as batidas de um relógio distante filtraram-se através da escuridão, e Jones se sentiu animado pela mensagem de um mundo exterior que ainda vivia. A câmara de teto arqueado do museu assemelhava-se a um túmulo – perturbadora em sua extrema solidão. Mesmo um camundongo teria sido uma companhia razoável; e, no entanto, Rogers aventara que – por “certas razões”, conforme dissera – camundongos ou quaisquer insetos jamais se aproximaram do lugar. Era bastante curioso, conquanto parecesse verdade. A imobilidade e o silêncio eram virtualmente totais. Se ao menos alguma coisa produzisse um som! Ele agitou os pés, e os ecos repercutiram na quietude absoluta. Tossiu, mas havia o que quer que fosse de zombeteiro nas reverberações em staccato. Ele não podia, reconheceu, simplesmente conversar consigo mesmo. Isso significaria uma desintegração nervosa. O tempo parecia escoar com uma lentidão anormal e desconcertante. Ele poderia jurar que horas inteiras tinham transcorrido desde que acendera a lanterna pela última vez durante a vigília, porém mal havia batido meia-noite.

Teria desejado que seus sentidos não fossem tão extraordinariamente aguçados. Alguma coisa na quietude e na escuridão parecia tê-los afiado, de modo que respondiam às mais ligeiras excitações com uma nitidez que dificilmente se consideraria normal. Seus ouvidos pareciam, às vezes, captar um débil, evasivo sussurro que não se poderia sem erro identificar como sendo o rumor das ruas esquálidas lá fora; e ele pensou em coisas vagas e irrelevantes, como a música das esferas ou a vida ignota, inacessível, de dimensões alienígenas pressionando contra a nossa. Rogers não raro especulava sobre tais coisas.

Os espectros de luz flutuante sobre seus olhos repletos de treva pareciam inclinados a assumir curiosas simetrias de padrão e movimento. Ele freqüentemente se indagara acerca desses estranhos raios provenientes do insondável abismo que cintila diante de nós na ausência de toda iluminação terrestre, mas nunca conhecera nenhum que se comportasse tal como esses se comportavam. Faltava-lhes a repousante errância das manchas de luz ordinária – como se sugerindo alguma vontade ou propósito além de qualquer concepção terrestre.

Então veio aquela sugestão de estranhos estremecimentos. Nada estava aberto; no entanto, a despeito da geral imobilidade do ar, Jones sentiu que a atmosfera não parecia uniformemente parada. Havia variações intangíveis de pressão – não decididas o suficiente para sugerir o repugnante patear de entidades desconhecidas. Estava anormalmente frio também. Ele não gostou de nada disso. O ar pareceu-lhe salgado, como se se houvesse misturado à salinidade de águas subterrâneas, e havia a vaga impressão de algum odor de inefável mofo. Durante o dia, ele nunca reparara que as figuras de cera tivessem odor. Mesmo agora aquela impressão incerta não correspondia ao cheiro que figuras de cera devessem ter. Assemelhava-se mais ao discreto odor dos espécimes num museu de história natural. Curioso, em vista das declarações de Rogers de que suas figuras não eram de todo artificiais – de fato, tal declaração é que levava a imaginação a conjurar a suspeita olfativa. É preciso que se reaja aos excessos da imaginação – não foram tais coisas que puseram louco o pobre Rogers?

No entanto a extrema solidão do lugar era amedrontadora. Mesmo as badaladas mais distantes pareciam provir de golfos cósmicos. Isso fez com que Jones se lembrasse daquela fotografia insana que Rogers lhe mostrara – a câmara horrendamente entalhada com o trono críptico que o sujeito alegara ser parte de uma ruína de três milhões de anos localizada em ermos temidos e inacessíveis do Ártico. Talvez Rogers tivesse ido ao Alasca, mas aquela foto não seria mais que uma encenação. Não havia como ser de outro modo, com todos aqueles entalhes e aqueles símbolos terríveis. E aquela forma monstruosa, que se supunha ter sido encontrada sobre o trono – que arroubo de mórbida fantasia! Jones se perguntou a que distância realmente estaria da insana obra-prima de cera – provavelmente ela estaria guardada atrás daquela maciça porta com o cadeado, que levava a algum recesso para além da oficina. Mas de nada serviria conjeturar acerca de uma imagem de cera. Não estava aquela mesma sala repleta de tais coisas, algumas delas pouco menos horríveis do que o temível “Ele”? E, para além de um delgado biombo à esquerda, estava a alcova “Para adultos somente”, com seus inomináveis fantasmas de delírio.

A proximidade das inumeráveis formas de cera começou a bulir mais e mais com os nervos de Jones à medida que os minutos avançavam. Ele conhecia o museu bem o bastante para não se sentir livre de suas imagens usuais nem mesmo na escuridão total. Na verdade, a escuridão tinha o efeito de adicionar às imagens lembradas algumas nuanças imaginativas realmente perturbadoras. A guilhotina parecia ranger, e a face barbada de Landru – o carrasco de suas cinqüenta esposas – se contorcia em expressões de monstruosa ameaça. Da garganta cortada de Madame Demers parecia emanar um horrível som borbulhante, enquanto a vítima sem cabeça e pernas de um esquartejador tentava se aproximar mais e mais sobre suas amputações sangrentas. Jones passou a fechar seus olhos na expectativa de que isso pudesse afastar as imagens, mas descobriu que era inútil. Além disso, quando ele fechava os olhos os padrões estranhos e despropositados das manchas de luz se tornavam mais pronunciados e inquietadores.

Então, subitamente, ele começou a tentar reter as imagens que antes tinha se esforçado para banir. Tentou retê-las porque estavam dando lugar a outras mais assustadoras. Contra a vontade, sua memória se pôs a reconstruir as blasfêmias não-humanas que espreitavam pelos cantos mais obscuros, e essas demoníacas formações híbridas se enroscavam e se sacudiam em sua direção como se tentando envolvê-lo num círculo. O negro Tsathoggua se converteu, de uma gárgula semelhante a um sapo, numa linha longa e sinuosa com centenas de pés rudimentares; e um delgado e flexível abutre noturno estendeu suas asas como se para avançar e sufocar o vigilante. Jones segurou-se para não gritar. Reconheceu que estava revertendo aos terrores tradicionais de sua infância e determinou usar sua razão adulta para conter os fantasmas. Ajudou um pouco, percebeu, piscar a luz novamente. Por medonhas que fossem as imagens mostradas, não o eram tanto quanto as que sua fantasia sacava da extrema escuridão.

Mas houve recaídas. Mesmo à luz da lanterna ele não podia deixar de suspeitar que um furtivo e ligeiro tremor se verificava no biombo que escondia a terrível alcova “para adultos, somente”. Sabia o que estava ali atrás e estremecia. A imaginação evocava as formas chocantes do fabuloso Youg-Sothoth – um mero aglomerado de globos iridescentes, mas ainda assim estupendo em sua maligna sugestividade. Não estaria aquela massa amaldiçoada flutuando lentamente em sua direção e se chocando contra a divisória em seu caminho? Uma pequena protuberância na tela à direita sugeria o chifre pontudo de Gnoph-keh, a coisa peluda, mitológica, dos gelos de Greenland, que às vezes caminhava sobre duas pernas, às vezes sobre quatro, e às vezes sobre seis. Para tirar isso da cabeça, Jones se arrojou num ímpeto contra a alcova infernal, com a lanterna acesa à sua frente. Certamente, nenhum de seus receios se comprovou. No entanto não estariam os longos tentáculos faciais do grande Cthulhu movendo-se realmente, de um modo lento e insidioso? Sabia que eram flexíveis, mas não havia notado que o sopro de ar causado pelo seu próprio avanço fosse suficiente para colocá-los em movimento.

Retornando a seu assento do lado de fora da alcova, fechou os olhos e deixou que as manchas simétricas de luz fizessem seu estrago. O relógio distante deu uma única batida. Teria sido apenas uma? Acendeu a lanterna sobre seu relógio e viu que era precisamente uma hora. Seria penoso, decerto, esperar até de manhã. Rogers só chegaria por volta das oito horas, antes mesmo de Orabona. Haveria luz lá fora, no porão principal, bem antes que isso ocorresse, mas nenhum raio penetraria ali. Todas as janelas neste porão tinham sido bloqueadas pelas três mais pequenas que davam para o pátio. Uma péssima vigília, ao que tudo indicava.

Seus ouvidos captavam maiores alucinações agora – pois ele poderia jurar que estava ouvindo passadas furtivas e inexoráveis na oficina, para além da porta trancada. Não havia que ficar pensando no horror chamado “Ele”, que Rogers se privara de exibir. A coisa era uma contaminação – havia enlouquecido o seu criador e agora mesmo a sua imagem suscitava atemorizantes fantasias. Jazia, obviamente, por detrás daquela pesada porta de madeira com o cadeado. As passadas seriam, certamente, pura imaginação.

Então julgou ter ouvido a chave girar na porta do estúdio. Acendendo a lanterna, nada mais viu que o vetusto portal de seis folhas em sua posição costumeira. Outra vez apelou para a treva e fechou seus olhos, mas veio em seguida uma alucinante ilusão de rangido – não a guilhotina, desta vez, mas o lento e furtivo abrir-se da porta do estúdio. Ele não gritaria. Se gritasse, estaria perdido. Ouviu-se uma espécie de patear ou de remexer, e estava avançando lentamente em direção a ele. Precisava manter o controle sobre si mesmo. Não fizera o mesmo quando o inominável em forma de cérebro tentou acuá-lo? A movimentação parecia mais próxima, e sua resolução lhe faltava. Ele não gritou, mas apenas gaguejou uma intimação:

- Quem está aí? Quem é você? O que você quer?

Não houve resposta, porém a agitação prosseguia. Jones não soube o que mais temia fazer – se acender a lanterna ou se ficar quieto no escuro, enquanto a coisa avançava sobre ele. Esta coisa era diferente – sentiu no fundo – dos outros terrores do anoitecer. Seus dedos e sua garganta funcionavam espasmodicamente. O silêncio era impossível, e o suspense da escuridão extrema começava a se revelar a mais intolerável das condições. Outra vez gritou, histericamente: “Alto! Quem está aí?” – enquanto acendia o facho esclarecedor. Então, paralisado pelo que viu, deixou cair a lanterna e gritou – não uma só, mas muitas vezes.

Vinha contorcendo-se em sua direção a forma gigantesca e blasfema de algo que não era inteiramente macaco nem inteiramente um inseto. Sua carapaça pendia solta sobre o corpo, e o seu rudimento rugoso de cabeça – olhos mortiços – balançava de um lado para o outro como a de um bêbado. Suas patas dianteiras estavam estendidas, com as garras abertas, e todo o seu corpo exalava malignidade, a despeito de sua completa ausência de expressão. Após os gritos e a volta da escuridão, a criatura saltou e, num instante, manteve Jones preso ao chão. Não houve luta, porque o vigilante desmaiou.

A inconsciência de Jones não deve ter durado mais que um instante, pois a coisa inominável o estava arrastando através da escuridão quando ele começou a se recobrar. O que o despertou foram os sons que a coisa emitia – ou, antes, a voz com que os produzia. Era uma voz humana e algo familiar. Somente uma criatura viva poderia estar por trás daqueles acentos ásperos e febris que entoavam cantos a algum horror desconhecido.

 - Iä! Iä! – uivava. – Estou chegando, ó Rhan-Tegoth, chegando com o alimento. Tu esperaste muito e te alimentaste mal, mas agora terás o que foi prometido. E ainda mais, pois que, em vez de Orabona, terás alguém de alto nível que duvidou de ti. Poderás espremê-lo e sugá-lo, com todas as suas dúvidas, e te fortalecerás assim. E após, entre os homens, ele há de ser mostrado como um monumento à tua glória. Rhan-Tegoth, infinito e invencível, sou teu escravo e teu sumo sacerdote. Estás faminto, e te alimentarei. Li o sinal e te conduzi. Com sangue te nutrirei, e hás de me nutrir com poder. Iä! Shub-Niggurath! O Bode com os Mil Jovens!

Num instante, todos os terrores da noite abandonaram Jones como um manto que se despe. Ele se tornou de novo senhor de sua mente, pois reconhecia o perigo muito terreno e material com que tinha de lidar. Não era nenhum monstro de fábula, mas um louco perigoso. Era Rogers, vestindo alguma fantasia de pesadelo produzida por seu próprio engenho insano, e prestes a realizar algum apavorante sacrifício ao deus-demônio que ele mesmo moldara na cera. Claramente, ele devia ter penetrado na oficina pela porta do pátio, envergado seu disfarce e então avançado para sua vítima acuada e alquebrada pelo medo. Sua força era prodigiosa, e se ele devia ser impedido, cumpria agir rapidamente. Contando com a confiança do louco em sua inconsciência, Jones decidiu surpreendê-lo, aproveitando-se de um relaxamento do abraço. O contato com alguma mobília mostrou-lhe que estava cruzando o cômodo em direção às trevas do estúdio.

Com a força que nos concede o medo mortal, Jones deu um súbito arranco, saindo da posição meio deitada na qual estava sendo arrastado. Por um instante, viu-se livre das mãos do maníaco atônito, e num outro instante um golpe de sorte na escuridão colocou suas próprias mãos na goela oculta do perseguidor. Simultaneamente, Rogers o agarrou de novo, e sem maiores avisos estavam os dois atracados numa luta desesperada de vida e morte. O preparo atlético de Jones, sem sombra de dúvida, era sua única salvação; pois seu louco adversário, livre de qualquer inibição com respeito a jogo limpo, decência ou mesmo autopreservação, era uma máquina de selvagem destruição tão formidável quanto qualquer lobo ou pantera.

Urros guturais pontuavam às vezes a horrível peleja na treva. Sangue jorrava, vestes rasgavam-se, e Jones por fim sentiu de fato, entre os dedos, a garganta do maníaco, despida de sua máscara espectral. Não disse palavra alguma, mas aplicou cada fragmento de sua energia na defesa de sua vida. Rogers chutava, esmurrava, cabeceava, mordia, arranhava e se debatia – e no entanto encontrava forças para emitir algumas frases ocasionais. A maior parte do que dizia aflorava num jargão repleto de referências ao “Ele” ou “Rhan-Tegoth”, e para os nervos desgastados de Jones era como se os gritos ecoassem rosnados e latidos demoníacos a uma infinita distância. Por último, estavam rolando no chão, revirando bancos ou se chocando contra as paredes e as fundações de tijolos da fornalha central. Próximo ao fim, Jones não estava certo de poder se salvar, mas o acaso interveio a seu favor. Um golpe de seu joelho contra o peito de Rogers produziu um relaxamento geral, e no momento seguinte ele reconheceu que tinha vencido.

Embora mal pudesse agüentar-se, Jones se levantou e apalpou as paredes à procura do interruptor – pois sua lanterna sumira juntamente com grande parte de suas roupas. Enquanto avançava, arrastou consigo seu oponente inerte, temendo um ataque súbito quando o mesmo se recobrasse. Encontrando a caixa dos interruptores, remexeu-a até que deparou com o acionador direito. Então, quando a caótica desordem do estúdio explodiu numa súbita cintilação, pôs-se a amarrar Rogers com cordas e correias que facilmente descobriu à sua volta. O disfarce do sujeito

-          ou o que restara dele – parecia feito de uma espécie estranhíssima de couro. Por alguma razão, a carne de Jones se retraiu ao tocá-lo; e parecia exalar-se daquilo um odor ferruginoso e alienígena. Por baixo, entre as roupas normais, estava o molho de chaves de Rogers, que o exaltado vencedor arrebatou como seu passaporte final para a liberdade. As cortinas sobre as pequenas janelas de correr estavam todas cuidadosamente cerradas, e ele as deixou ficar assim.

 Lavando o sangue da batalha com uma bacia conveniente, Jones vestiu as mais ordinárias -sempre ruins – roupas que conseguiu encontrar nos cabides do vestuário. Experimentando a porta para o pátio, descobriu que a tranca não exigia uma chave pelo lado de dentro. No entanto ele conservou consigo o molho de chaves, de modo a poder voltar com ajuda – pois, obviamente, o melhor a fazer era chamar um alienista. Não havia telefone no museu, mas não seria demorado encontrar um restaurante noturno ou uma farmácia que dispusesse de um. Tinha quase aberto a porta, quando uma torrente de repulsivas imprecações, proveniente do cômodo, lhe informou que Rogers – cujos ferimentos mais visíveis se restringiam a um sulco longo e profundo na face esquerda – recobrara a consciência.

-          Tolo! Filhote de Noth-Yidik e eflúvio de K’thun! Filho dos cães que uivam no maelstrom de Azathoth! Você teria sido sagrado e imortal, e agora está traindo a Ele e ao Seu sacerdote! Mas cuidado – pois Ele tem fome! Teria sido Orabona – aquele maldito cão traiçoeiro, sempre pronto a me trair a mim e a Ele – mas darei a honra a você. Agora, ambos precisamos ter cuidado, pois Ele não é gentil com seu sacerdote.

“Iä! Iä! A vingança está próxima! Sabe que você teria se tornado imortal? Olhe para a fornalha! Há um fogo pronto a ser aceso, e existe cera no caldeirão. Eu teria feito com você o que fiz com outras criaturas outrora viventes. Eh! Você, que declarou serem apenas cera todas as minhas efígies, teria se tornado uma efígie de cera também! A fornalha estava preparada! Depois que Ele se houvesse nutrido, e você tivesse ficado como aquele cachorro que lhe mostrei, eu teria tornado imortais os seus restos compactados e perfurados! A cera seria o bastante. Não viu como sou um grande artista? Cera sobre cada poro – cera sobre cada polegada de você – Iä! Iä! E para todo o sempre o mundo teria olhado para a sua carcassa mofina e se espantado de que eu pudesse imaginar e produzir semelhante coisa! Eh! e Orabona teria sido o próximo, e outros depois dele -e assim cresceria minha família de cera!

“Cão – ainda acha que fiz todas as efígies? Por que não dizer: preservei? Reconhece agora os estranhos lugares pelos quais andei e as coisas estranhas que trouxe comigo. Covarde – você nunca teria peito para encarar o rastejante dimensional cuja pele eu vesti para assustá-lo – a mera visão de sua forma viva, ou sequer um pensamento dela, o mataria de medo num instante! Iä! Iä! Ele aguarda faminto pelo sangue que é vida!”

Rogers, encostado à parede, oscilava para a frente e para trás em suas amarras.

-          Ouça, Jones, se eu o deixar ir, você me deixará ir também? É preciso que Seu sumo sacerdote cuide d’Ele. Orabona será suficiente para mantê-Lo vivo. Podia ter sido você, mas você rejeitou a honra. Não o importunarei mais. Deixe-me ir, e compartilharei com você o poder que Ele me trará. Iä! Iä! Grande é Rhan-Tegoth! Deixe-me ir! Deixe-me ir! Ele está morrendo de fome lá embaixo, atrás daquela porta, e se Ele morrer os Antigos nunca mais retornarão. Eh! Eh! Deixe- me ir!

Jones apenas balançou a cabeça, embora a enormidade das idéias do expositor o revoltasse. Rogers, olhando agora alucinadamente para a porta de madeira com o cadeado, batia mais e mais com a cabeça contra a parede de tijolos e esmurrava com os cotovelos bem atados. Jones temeu que ele se machucasse, e avançou para amarrá-lo um pouco mais firmemente a algum objeto estacionário. Encolhendo-se, Rogers se desviou dele e começou a emitir uma série de uivos frenéticos, cuja inumanidade extrema e monstruosa era estarrecedora e cujo volume agudo era quase inacreditável. Parecia impossível que uma garganta humana produzisse ruídos tão altos e cortantes, e Jones sentiu que se continuassem não haveria necessidade de pedir ajuda por telefone. Não demoraria para que um policial viesse investigar, mesmo admitindo-se que não havia vizinhos para ouvir entre os armazéns daquele distrito deserto.

Aquela criatura toda amarrada, que tinha começado a se contorcer ao longo do piso, agora alcançava a porta com o cadeado e batia trovejantemente com a cabeça contra ela. Jones receou amarrá-lo ainda mais e desejou que a luta o tivesse deixado exausto o suficiente. Essa seqüência violenta dava-lhe horrivelmente nos nervos, e ele começou a sentir o retorno das indescritíveis inquietações que havia sentido no escuro. Tudo o que presenciara acerca de Rogers e do museu era tão infernalmente mórbido e sugestivo de negras visões de além vida! Era inquietador pensar na obra-prima em cera, de genialidade anormal, que naquele momento deveria estar à espreita, quase à mão, na escuridão que havia do outro lado da pesada porta com o cadeado.

Então, alguma coisa aconteceu que trouxe mais um arrepio à espinha de Jones e fez com que cada pêlo de seu corpo – mesmo os suaves tufos nos dorsos das mãos – se arrepiasse com um vago medo que não permitia classificação. Rogers, subitamente, parara de gritar e de bater com a cabeça contra a maciça porta de madeira e lutava para se assentar, a cabeça pendida para um lado como se ouvindo alguma coisa com atenção. Inopinadamente, um sorriso de diabólico triunfo se estampou em seu rosto, e ele começou a falar de um modo ininteligível outra vez -agora num sussurro grave que contrastava estranhamente como seu anterior uivo estentórico.

-          Escute, tolo! Escute bem! Ele me ouviu e está vindo. Pode ouvi-Lo chapinhar para fora de seu tanque lá no fundo da eclusa? Eu a fiz bem funda, porque não havia nada melhor para Ele. Trata-se de um anfíbio, sabe? – você viu as guelras na fotografia. Chegou à terra vindo da plúmbea Yuggoth, onde as cidades jazem no fundo de um mar aquecido. Não pode ficar de pé ali – alto demais -, tem de se sentar ou de se agachar. Dê-me as chaves – precisamos deixá-Lo sair e nos ajoelharmos diante dele. Então sairemos à procura de um cão ou de um gato – ou quem sabe de algum bêbado – para lhe dar o sustento de que Ele precisa!

Não foi tanto o que o doido dissera, mas o modo como o dissera, que atingiu Jones tão profundamente. A confiança e a sinceridade extremas, insanas, que havia naquele sussurro louco eram lamentavelmente contagiantes. A imaginação, tremendo estímulo, acharia uma ameaça ativa naquela demoníaca figura de cera que espreitava oculta para além das grossas tábuas. Mirando a porta com inusitado fascínio, Jones reparou que ela exibia várias rachaduras, conquanto nenhum sinal de tratamento violento era visível daquele lado. Ele se perguntou que dimensões teria o cômodo ou despensa por trás dela e de que modo estaria colocada a figura de cera. A idéia do maníaco de um tanque com uma eclusa era tão conjeturável quanto todas as suas outras fabulações.

Logo, num instante terrível, Jones não teve forças sequer para respirar. A correia de couro que segurava para dar o último laço em Rogers escorregou de suas mãos, e um espasmo de tremor convulsionou-o da cabeça aos pés. Devia saber que o lugar o levaria à loucura, como fizera com Rogers – e agora estava louco. Estava louco, pois agora sofria alucinações mais esquisitas do que quaisquer outras que o tinham assaltado naquela noite. O louco convocava-o a ouvir o chapinhar de um monstro mítico no tanque que estava para além da porta – e agora, Deus poderoso, ele o ouvia!

Rogers percebeu o espasmo de horror que se estampou no rosto de Jones e o transformou numa máscara de expectativa e de medo. Casquinou:

-          Afinal, tolo, acredita! Afinal você sabe! Ouve-O, e Ele vem! Dê-me as chaves, tolo -precisamos fazer a reverência e Lhe servir!

Mas Jones estava longe de prestar atenção em quaisquer palavras humanas, loucas ou sãs. Uma paralisia fóbica o colocou imóvel e semi-inconsciente, imagens selvagens precipitando-se de modo fantasmagórico em sua imaginação. Ouviu-se um chapinhar. Ouviu-se um patear ou um bulício, como o de grandes patas úmidas contra uma superfície sólida. Alguma coisa se aproximava. Suas narinas foram invadidas por um fedor, proveniente das frinchas daquela porta de pesadelo, ao mesmo tempo semelhante e distinto daquele que emana das jaulas dos mamíferos nos jardins zoológicos do Regent’s Park.

Ele não sabia mais se Rogers estava falando ou não. Tudo o que fosse real se desvanecera, e ele era uma estátua ob sedada por sonhos e alucinações tão antinaturais que se tornavam quase objetivas e independentes dele. Pensou ter ouvido um farejar ou um grunhir proveniente do abismo para além da porta; quando um súbito ruído, como o de um latido ou de uma trombeta, assaltou seus ouvidos, não teve certeza se teria vindo do maníaco amarrado, cuja imagem dançava diante de sua vista abalada. A fotografia daquela maldita coisa oculta de cera insistia em flutuar através de sua consciência. Tal coisa não tinha o direito de existir. Não o havia deixado louco?

Mesmo enquanto refletia, uma nova evidência de loucura lhe ocorreu. Alguma coisa, pensou, estava bulindo com a tranca da pesada porta com o cadeado. Estava batendo e arranhando e empurrando as grandes tábuas. Ouvia-se um martelar contra a madeira resistente, que se tornou mais e mais pronunciado. A fedentina era horrível. E agora o assalto contra aquela porta pelo lado de dentro se tornava uma saraivada maligna, determinada, como os ribombos num campo de batalha. Houve um ominoso estrondo – um despedaçamento – uma onda de fedor – uma tábua que caía – uma pata negra terminando numa pinça de caranguejo…

- Socorro! Socorro! Deus me ajude!… Aaaaaaa!.

Com grande esforço Jones consegue, hoje em dia, recordar-se de que sua paralisia fóbica explodiu na liberação de um súbito frenesi de fuga automática. Ora, ele provavelmente viveu uma daquelas fugas loucas e selvagens dos mais loucos pesadelos, pois parece que atravessou num ímpeto a cripta em desordem, de um único salto, escancarou a porta de saída, que se fechou e se trancou às suas costas com um estampido, disparou escada acima, saltando de três em três degraus, e cruzou alucinada e desorientadamente o pátio calçado de pedras em direção às ruas esquálidas de Southwark.

Aqui a memória pára. Jones não sabe como chegou a casa, e não há evidências de que tenha apanhado um táxi. Provavelmente, venceu todo o trajeto guiado por um instinto cego – através da Ponte Waterloo, ao longo do Strand e de Charing Cross, até as alturas de Haymarket e Regent Street e até sua própria vizinhança. Ele ainda usava a inusitada barafunda das roupas do museu, quando se tornou consciente o bastante para chamar o médico.

Uma semana mais tarde, os especialistas em nervos permitiram que ele deixasse o leito e saísse ao ar livre.

Mas ele não contou muita coisa aos especialistas. Sobre toda a sua experiência pendia um véu de loucura e pesadelo, e ele concluiu que o silêncio era a melhor opção. Quando se levantou, perscrutou atentamente todos os papéis que se acumularam desde aquela noite medonha, mas não encontrou nenhuma referência a nada de estranho no museu. O quanto, afinal, de tudo aquilo tinha sido realidade? Onde terminava a realidade e começava o sonho mórbido? Teria sua mente se despedaçado naquela escura câmara de exibição, e teria sido toda a luta com Rogers apenas uma fantasmagoria da febre? Teria ajudado em sua recuperação se ele conseguisse assentar alguns desses pontos enlouquecedores. Ele devia ter visto aquela maldita fotografia da imagem de cera denominada “Ele”, pois cérebro algum senão o de Rogers seria capaz de conceber semelhante blasfêmia.

Duas semanas transcorreram antes que ele tivesse coragem de retornar a Southwark Street. Partiu durante uma manhã, quando o maior volume de atividade sã estava ocorrendo naqueles antigos arredores de lojas e armazéns. A placa do museu ainda estava lá, e quando se aproximou viu que o lugar ainda estava aberto. O porteiro fez uma aceno de aprazível reconhecimento, enquanto ele cobrava coragem para entrar, e na câmara arqueada lá embaixo um assistente tocou animadamente no quepe. Talvez tudo tivesse sido apenas um sonho. Ousaria bater na porta do estúdio e procurar por Rogers?

Então Orabona avançou para cumprimentá-lo. Sua negra cara lambida tinha algo de sardônico, mas Jones sentiu que não era inamistosa. O outro falou, com uma ponta de sotaque:

-          Bom dia, Sr. Jones. Faz tempo que não o vemos por aqui. Deseja ver o Sr. Rogers? Lamento, mas ele não se encontra. Foi chamado para algum negócio na América e teve de ir. Sim, foi bem repentino. Estou no comando agora, aqui e na casa. Procuro manter o alto padrão do Sr. Rogers -até que ele volte.

O estrangeiro sorriu – talvez apenas por afabilidade. Jones mal sabia o que responder, mas se esforçou para balbuciar algumas perguntas sobre o dia seguinte à sua última visita. Orabona pareceu interessado nas perguntas, e teve o maior cuidado ao responder.

-          Oh, sim, Sr. Jones, o vinte e oito do mês passado. Lembro-me dele por muitas razões. Pela manhã – antes que o Sr. Rogers chegasse, você compreende? – encontrei o estúdio numa verdadeira barafunda. Havia muita – limpeza – por fazer. O trabalho da noite anterior durara até tarde, veja você. Um importante espécime novo, dado o seu processo secundário de cozimento. Assumi todo o controle quando cheguei.

“Era um espécime difícil de preparar – mas, naturalmente, o Sr. Rogers havia me ensinado o bastante. Ele é, como se sabe, um grande artista. Quando chegou, ajudou-me a completar o espécime – ajudou-me bem materialmente, lhe asseguro – mas saiu logo, sem sequer cumprimentar os homens. Como lhe disse, foi chamado de repente. Havia importantes reações químicas envolvidas. Faziam muito barulho – de fato, algumas pessoas lá fora imaginam ter ouvido vários tiros de pistola – uma idéia bem peculiar!

“Quanto ao novo espécime – é um assunto lamentável. Trata-se de uma grande obra-prima, desenhada e executada, você compreende, pelo Sr. Rogers. Ele verá o que aconteceu quando retornar.”

Outra vez Orabona sorriu.

A polícia, você sabe. Nós o colocamos em exibição há uma semana, e aconteceram dois ou três desmaios. Um pobre coitado teve um ataque epilético diante dele. Compreende, um pouquinho – mais forte – que o resto. Maior, por causa de uma coisa. Naturalmente, estava na alcova ‘para adultos’. No dia seguinte, dois homens da Scotland Yard deram uma olhada e disseram que era mórbido demais para ser exibido. Disseram que tínhamos de removê-lo. Foi um grande embaraço – tamanha obra-prima de arte – mas eu não me senti com autoridade para recorrer à justiça na ausência do Sr. Rogers. Ele detestaria semelhante publicidade, com a polícia envolvida mas quando retornar – quando retornar…

 Por uma ou outra razão, Jones sentiu uma onda crescente de desconforto e repulsa. Mas Orabona prosseguia:

-          Você é um conhecedor, Sr. Jones. Estou certo de que não violo nenhuma lei oferecendo-lhe uma demonstração particular. Pode ser que – de acordo, evidentemente, com a vontade do Sr. Rogers – venhamos a destruir o espécime algum dia – mas seria um crime.

Jones teve um forte ímpeto de recusar ver a coisa e fugir precipitadamente, mas Orabona já o conduzia pelo braço com um entusiasmo de artista. A alcova “adulta”, apinhada de inomináveis horrores, não tinha visitantes. Num canto distante, um largo nicho fora coberto por uma cortina, e em direção a ele é que avançou o sorridente auxiliar.

Você deve saber, Sr. Jones, que o título deste espécime é “O Sacrifício a Rhan-Tegoth”. Jones ficou violentamente abalado, mas Orabona não pareceu notar.

O deus colossal e informe é uma personagem de certas lendas obscuras que o Sr. Rogers tinha estudado. Tudo bobagem, com certeza, como você tantas vezes asseverou ao Sr. Rogers. Supõe-se que tenha vindo do espaço sideral e que tenha vivido no Ártico há três milhões de anos. Tratava seus sacrifícios de modo bastante peculiar e horrível, como verá. O Sr. Rogers o realizou com muita vivacidade e imaginação – mesmo quanto à face da vítima.

Em meio a violentos tremores, Jones se agarrou ao corrimão de bronze em frente ao nicho velado. Esteve mesmo para erguer a mão e impedir Orabona quando viu a cortina deslizar, mas um conflituoso impulso o deteve. O estrangeiro sorria triunfalmente.

-          Contemple!

Jones sentiu-se girar, mesmo agarrado ao corrimão.

-          Deus! – Deus do céu!

Com bons dez pés de altura, a despeito de sua postura agachada, rastejante, expressiva de infinita malignidade cósmica, uma monstruosidade de horror inacreditável aparecia saindo de um trono ciclópico de marfim coberto de relevos grotescos. No par central de suas seis pernas, segurava uma coisa amassada, esmagada, distorcida e exangue, perfurada por um milhão de picadelas e em alguns pontos corroída por algum ácido pungente. Somente a macilenta cabeça da vítima, pendendo invertida num dos lados, dava mostras de representar qualquer coisa de humana.

O monstro em si dispensaria qualquer título, para quem tivesse visto certa fotografia infernal. Aquela desgraçada imagem tinha sido mais que fiel e no entanto não podia comportar todo o horror que havia no gigantesco objeto real. O torso globular – a sugestão de cabeça algo semelhante a uma bolha – a tromba de um pé de comprimento – as guelras salientes – a monstruosa penugem das ventosas em forma de áspide – os seis membros sinuosos com suas patas negras e pinças de caranguejo – Deus! a familiaridade da pata negra terminando numa pinça de caranguejo!…

O sorriso de Orabona era simplesmente hediondo. Jones engasgou e fitou aquela exibição medonha com um fascínio crescente que o perturbou e o deixou perplexo. Que irrevelado horror o estava prendendo e forçando a olhar por mais um pouco e a procurar por detalhes? Aquilo tinha enlouquecido Rogers… Rogers, o artista supremo… disse que não eram artificiais…

Então ele localizou a coisa que o atraía. Era a cabeça pendente da macilenta vítima de cera e alguma coisa que ela implicava. Essa cabeça não era inteiramente destituída de uma face, e aquela face era familiar. Parecia-se com a face enlouquecida do pobre Rogers. Jones examinou melhor, mal sabendo por que o fazia. Não era natural que um egotista moldasse suas próprias feições em sua obra-prima? Haveria alguma coisa mais que a visão subconsciente tivesse capturado e ultrapassado em infinito terror?

A cera da face ressequida tinha sido manuseada com inigualável destreza. Aquelas picadas -quão perfeitamente reproduziam a miríade de feridas de algum modo infligidas àquele pobre cão! Mas havia algo mais. Na bochecha esquerda podia-se vislumbrar uma irregularidade que parecia transcender o esquema geral – como se o escultor tivesse procurado cobrir um defeito de sua primeira modelagem. Quanto mais Jones olhava para ela, mais ela o terrificava misteriosamente – e então, de súbito, ele se lembrou de uma circunstância que levou seu horror ao ápice. Aquela noite de abominação – a luta – o louco amarrado – e o corte longo e profundo na face esquerda do verdadeiro Rogers vivo…

Jones, abandonando o desesperado apoio do corrimão, tombou num desmaio total. Orabona continuava a sorrir.


fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/h-p-lovecraft-horror-no-museu.html

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Encruzilhadas

Algo aconteceu dentro do corpo da velha e o resultado para quem estava do lado de fora foi como se um pé de vento gelado houvesse atravessado o automóvel de um lado a outro. O garoto percebeu e, a despeito da idade, achou aquilo estranho. No mínimo gozado.

      — O que houve, vovó?

      Catarina fitou o rosto rosado do menino sentindo a corrente elétrica que trespassara seu corpo diminuir até esgotar por completo. Pousou de leve a mão manchada por sobre a pequenina do neto e disse com suavidade:

      — Nada. Não houve nadinha mesmo.

      — Você tremeu como se estivesse com frio. Ainda está arrepiada, olha aqui.  Apontou o braço da avó e sorriu encarando aqueles montículos que haviam se formado quase por vontade própria em toda a pele dela.

      Do lado de fora do carro, lojas, árvores e pessoas se misturavam imitando borrões coloridos numa pintura à óleo. O banco de trás do Aero Willys era grande e inteiriço, igualzinho ao dianteiro. Na frente, o pai e mãe do menino estavam entretidos demais tentando chegar a algum tipo de conclusão conjunta sobre o que fazer no próximo final de semana. Catarina estreitou o menino com o braço esquerdo e trouxe-o para junto de si, era quase um abraço. Abaixou a voz ainda mais, que passou a fluir como um sussurro.

      — Vovó não está com frio. Não foi isso. O dia está bonito demais para sentirmos frio, não está?

      — Bonito demais. - O garoto repetiu. O sol faiscava sobre a pintura branca do carro e fazia brilhar o interior charmoso forrado de vermelho. Não se fazem mais carros como este.

      — Pois então, por isso não sinto frio algum.

      — Hummm...

      A resposta não havia satisfeito o garoto e ele continuou encarando a avó, aguardando uma conclusão menos duvidosa que talvez nem existisse. Na idade dele ainda não era possível saber, contudo todos passam por isso de vez em quando. Uma sensação estranha que trespassa nosso corpo e faz com que fiquemos apreensivos sem motivo algum. Alguns dizem que quando isto acontece é por que estão falando de nós em algum canto. Ou alguém acabou de pisar sobre nossa sepultura. Na maioria das vezes não passa disso: uma sensação estranha que vai embora no segundo posterior. A diferença é que com Catarina a coisa não funcionava assim, era um pouco diferente.

      — Vem cá, olha por aqui. - O garoto foi para junto da janela do Aero Willys. A janela do carro do lado da avó. - Vê a esquina lá atrás?

      — Com toda aquela gente e a padaria?

      — Aquela mesma.

      — O que tem ela?

      — Passa um bocado de gente por ali. Um monte de carros também. É um lugar danado de movimentado. Conte rápido: quantas ruas têm ali?

      — Quatro. Cinco com aquela mais adiante. - O garoto exclamou rápido. A conversa continuava a fluir como uma brisa leve. Apenas entre os dois.

      — Pois eu te afirmo que existem mais do que cinco ruas naquela esquina. Muito mais do que cinco ruas. Contudo, algumas delas apenas eu posso contar. Os outros não as enxergam. É como se vovó possuísse um óculos especial que a tornasse capaz de ver coisas especiais, invisíveis aos olhos de quem não está usando óculos como os meus.

      A expressão no rosto do neto denunciou o que ele imaginava naquela hora e era algo mais ou menos como - espero não enlouquecer quando ficar mais velho, assim como minha pobre vó -. Catarina percebeu, mas não se abalou. Na realidade achou engraçado.

      — E saiba que vovó ainda não está com parafusos a menos. Não mesmo. Lembra do formigueiro que existe no jardim de sua mãe, onde ela tem aquelas Rosas e o coqueirinho que nunca deu cocos? Lembra de como você gosta de vê-las trabalhando, carregando insetos mortos, folhas cortadas e outro tanto de coisas?

      — Sim. Mas...

      — O que isto tem a ver, esta seria a sua pergunta. Muita coisa, vovó responde. Você as observa trabalhando, mas as pequeninas nem se dão conta disso. Não sabem que meu neto as observa enquanto elas vão de lá para acolá fazendo todo aquele trabalho. Mas você está bem ali ao lado delas, todo o tempo. Acho que é mais ou menos isso. Existem coisas por aí, coisas que apenas algumas pessoas são capazes de enxergar e não me pergunte por quê. Não saberia responder. Alguns chamam aquela esquina de encruzilhada. É onde o mundo dos que já se foram toca o mundo dos que ainda estão por aqui. Um lugar onde muitas e muitas estradas invisíveis se cruzam e onde coisas podem acontecer. Muitas delas inexplicáveis. Elas estão por toda a parte, as encruzilhadas.  Nem sempre nas esquinas de ruas próximas, mas dentro de casas, automóveis, no mar ou na floresta. Não consigo deixar de me arrepiar quando enxergo uma delas.

      — Tenho medo.

      — Não tenha. Não há motivo. Vovó garante que não há motivo para que você tenha medo de coisa alguma. Estamos todos bem inteirinhos aqui e nada vai acontecer. Nada nunca aconteceu.

      — Vovô estava ali naquela esquina?

      — Não. Ele não estava. Não desta vez.

      O garoto pôs-se de joelhos no banco do Aero Willys tentando fitar a esquina que se distanciava velozmente pela janela traseira. Já se tornara impossível de ser enxergada, mas a magia daquela conversa não permitia que ele desgrudasse os olhos do vidro do carro. Não falou mais coisa alguma e Catarina calou-se também. Depois que se sentou novamente no banco ela o estreitou com um abraço e fez cafuné em seus cabelos finos até que chegassem à casa. Julio ainda não sabia, mas aquela conversa seria lembrada em algum ponto de sua existência, num futuro ainda longínquo, entretanto inequívoco. E Julio também não tinha conhecimento de duas pequenas mentiras que sua vó Catarina havia lhe contado, talvez com o intuito de protegê-lo: coisas já haviam acontecido e existiam motivos para ter medo.

***

      O garoto estava chorando de novo. Qualquer mudança é aborrecida, mas esta parece ter mexido com os nervos de todos os três de maneira estranhamente peculiar. Mais ainda com o estado de espírito do pequenino Guilherme. Abria o berreiro pela terceira noite consecutiva, coisa que já não fazia desde quando completara dois anos. A luz do abajur faiscou na cabeceira oposta, trazendo incômodo aos olhos de Julio. Murmurou entre dentes:

      — Sua vez.

      — Ontem fui eu. Hoje é a sua vez.

      Resignou-se e foi até o quarto ao lado arrastando pés. Ainda se confundia com o apartamento novo, era cedo para se acostumar a caminhar por ele no escuro. Estavam ali há apenas três dias. Passou-se um tempo antes de Julio retornar trazendo nos braços o garoto, que soluçava em pequenos arrancos. Não chorava mais. Depositou Guilherme num colchão ao lado da cama de casal e o menino voltou a dormir logo após.

      — E então?

      — A mesma história.

      Leila coçou a cabeça desgrenhada. Apagou o abajur enquanto o marido punha-se novamente sob o lençol.

      — Acha que ele precisa de um médico?

      — Não, não acho. Definitivamente: não. - A voz do homem um tom acima do desejado. Quase ríspido. As pilastras que sustentavam a harmonia do casal pareciam ruir, algum tipo de ferrugem muito corrosivo agia sorrateiramente e arruinava a estrutura antes sólida. Há quanto tempo isso acontecia? - tentou imaginar Julio. Há três dias. Isso vinha acontecendo há três dias, ele mesmo respondeu dentro da cabeça.

      — Meus Deus, Julio, o garoto chora há três noites seguidas. Não se faça de sonso, você sabe que ele dormia muito bem.

      — A mudança. Ele ainda não se acostumou com o novo ambiente. É apenas a droga da mudança. - Quase berrou. Temeu acordar novamente o filho, coisa que não aconteceu.

      — E quanto às histórias? Ele jamais foi de inventar histórias estapafúrdias ou de temer fantasmas. Talvez um médico...

      — Nada de médicos. - Deixou a esposa com o final da frase engasgada na garganta. - O guri vai melhorar.

      — Não gosto de ver meu próprio filho dizendo que alguém o visita durante a noite e o acorda. Não gosto de saber que ele não consegue dormir por temer os – visitantes -. Odeio isso tudo.

      — Não mais do que eu.

      — Ele está com medo, Julio.

      — É a mudança. A maldita mudança, você entende? Ele vai melhorar, vai acostumar com a casa nova e tudo vai voltar a ser como era.

     Leila virou para o outro lado e terminou a conversa.  Julio teve a nítida impressão de que ela tentava abafar um pranto baixinho. Ele sabia que havia algo errado. Alguma coisa terrivelmente errada estava acontecendo e chegava perto da família, imitava um crocodilo que se aproxima da presa completamente invisível sob água barrenta. Guilherme chorava sem escaramuças quando estava assustado. Mas o casal também estava e nenhum dos dois tinha a mínima idéia do porquê.

***

      — O garoto melhorou? Parece que continua a chorar durante a noite, não é?

      Aquele sujeito sempre estava ali no corredor quando Julio abria a porta do apartamento para fazer o que quer que seja. Neste caso, levava o lixo para fora e lá estava o velho, completamente calvo e com sua barriga que imitava um Papai Noel desgrenhado. A esposa dele, uma velha desdentada, sempre prostrada sob o umbral da porta que se mantinha semi-aberta. Observava enquanto apertava as mãos nervosamente, como quem faz uma mágica que nunca termina. Parecia ter nervos bastante abalados. O velho, por sua vez, sorria.

      Julio Neves entrou no recuo da lixeira e despejou sacos de plástico três andares lá para baixo. Escutou o baque surdo quando eles chegaram a seu destino. Não estava com humor para conversa fiada com vizinhos desconhecidos e as idéias eram desgovernadas dentro da cabeça. Mal completara uma semana da mudança e já se arrependera amargamente da decisão. Na verdade, nem mesmo recordava por que maldito motivo havia mudado para aquela redondeza e isso o intrigava. A presença do casal desocupado naquele instante o incomodava sem qualquer motivo especial, contudo profundamente. Respondeu tentando ser lacônico:

      — Ele continua a chorar, sim. Espero que isso não os perturbe. Sinto muito de verdade.

      — Não - o velho prosseguiu animado - não incomoda de jeito nenhum. Sabe como é, velhos dormem pouco. Não temos muito sono. Nada por aqui nos incomoda.

      — Eu sei como é. E fico agradecido pela gentileza. - Julio deu as costas, caminhado em direção ao próprio apartamento. Adoraria se a conversa terminasse por aqui. Além do mais, não era cedo. Passavam das onze horas.

      — Assim que o garoto acostumar com a mudança ele pára com a choradeira, não é isso mesmo? Não tivemos filhos, mas sabemos como são as coisas. Eu e minha Clara sabemos muito bem como são as coisas. - Julio lembrou da conversa que mantivera com Leila há alguns dias atrás. Naquele instante algo parece ter acontecido, entretanto, Julio sabia que não. Nada acontecera, ele apenas travava uma conversa tola com um vizinho ocioso. Clara, a esposa do homem careca, aquiesceu com um movimento da cabeça que imitava uma reverência numa missa. As mãos continuavam se enroscando como duas cobras que lutam.

      — Pois bem, nós sabemos como é. Garotos são assim mesmo, não são como nós, os adultos e os velhos.

      — Não são. - Julio repetiu.

      — Não se preocupe conosco, dormimos pouco e nada nos incomoda. Acho que já disse isso, não disse? É claro que disse, sim Senhor. E estamos bem aqui do lado para ajudar no quer que seja. Vizinhos servem pra isso, eu acho.— Obrigado, não vou esquecer. - Julio aguardou que o velho fizesse meia volta, fosse ao encontro da velha esposa e entrassem em casa. Não foi o que aconteceu. Ambos ficaram de pé onde estavam e prosseguiram fitando Julio Neves. Foi ele quem teve que entrar em seu apartamento. Bateu a porta por trás das costas sem olhar para trás. Não testou pelo olho mágico, mas juraria de pés juntos que ambos continuavam de pé no corredor.

***

      — Eles estavam lá?

      — Como sempre. Ambos.

      Encararam-se durante muito tempo. Não falavam nada, mas os olhos conversavam angústia. A irritação dos primeiros dias depois da mudança abria espaço para um poço de aflição que não permitia mais a exasperação. Estavam juntos em algo que não compreendiam e um time acuado sempre se une. É assim que a coisa funciona e eles não precisavam entender ou conversar sobre isso.

      — Jogou o lixo fora? - O lixo não importava, Leila simplesmente não sabia o que dizer. Julio estreitou a mão da mulher e foi quase um carinho. Não respondeu.

      — O garoto precisa dormir. Já passam das onze horas - disse o marido.

      — Sim. É tarde. - Ela concordou.

      — Ele ainda está no videogame?

      — Na sala. Jogando.Ainda ficaram de pé na cozinha e não saberiam responder por quanto tempo. Apenas um defronte ao outro. Olhos marejados e cabeças confusas. Foram juntos até a sala e Julio disse quando chegou lá:

      — Amanhã tem mais. Por hoje precisamos dormir, não é garotão?

      Guilherme soltou o joystick mecanicamente e encarou os pais. O brilho baço dos olhos passou da indiferença ao medo muito rápido. Mas o garoto não falou nada, caminhou em direção ao quarto com os pais marchando logo atrás em fila indiana. Enfiou-se por baixo das cobertas obedecendo a uma ordem que não precisou ser dada.

      — Até amanhã. Durma bem, meu filho. - Disse Julio. 

Guilherme não respondeu. Apenas cerrou os olhos e aguardou o casal apagar a luz e sair do quarto. Quando chegaram ao quarto ao lado encaram-se novamente. Novamente aquela conversa travada com a íris, em silêncio. Sabiam que o filho não dormiria bem. Tinham absoluta certeza quanto a isso. Nunca falaram nada, mas reconheciam odiosamente que ofereciam o garoto quase como num sacrifício. Uma oferenda a algum tipo de Deus ou demônio desconhecido e isso os enchia de rancor, entretanto o medo era sempre maior. Não acontecia nada, ele apenas acordaria chorando e então Julio o traria para dormir junto deles e assim evitavam que aquela coisa que visitava o garoto nessas noites estranhas viesse importuná-los pavorosamente. Uma covardia que acontecia e não precisava ser assumida.

      — O que está havendo? Por Deus, Julio, o que está acontecendo conosco?

Enfurnaram-se debaixo dos lençóis. Quase choravam. E de novo Julio não precisou responder.

***

      Naquela noite, depois de Julio colocar o garoto para dormir ao lado do casal, nenhum dos dois conseguiu pegar no sono e ficaram lado a lado, porém acordados. Nunca a coisa acontecera daquela maneira. O som de passos no quarto ao lado sugeria pelo menos uma pequena multidão caminhando por ali. Era impossível discernir o que se falava, mas as vozes estavam lá também. Algumas tão graves como urros de dor, outras imitavam assobios leves ao vento da tarde.  Alguns sussurros tocavam de leve o casal, como confissões feitas ao pé do ouvido. A mão do homem procurou a de Leila e estreitaram-se num aperto por baixo da coberta. A porta do quarto estremeceu e quase abriu. A maçaneta girou uma ou duas vezes. Continuou fechada e parou de tremer. Tremeu novamente. A mão de Julio suava e o suor misturava com o da esposa. Não era mais medo. Era outra coisa. Alguma outra coisa completamente diferente e inexplicável. Diferente e terrível.

      — Há quantos dias você não vai trabalhar?Era uma pergunta desconexa e estranha, contudo Julio não a interpretou dessa forma. Fazia muito sentido e ele não sabia por quê.

      — Não lembro. Acho que faz tempo.

      — Guilherme dormiu?

      — Sim. Ele dormiu.

      Leila estremeceu e então perguntou:

      — Eles vão embora agora, não vão?  Eles sempre nos deixam em paz depois que ele dorme, meu Deus. Por que não vão embora? - Ela gritou para o teto no escuro do quarto. A pergunta não foi feita a Julio. - Por que não nos deixam em paz para sempre? - Ela berrou novamente.

       — Por que estamos aqui? - Indagou Julio. - Por que viemos morar nesse lugar?

      — Não lembro.

      — Eu tenho que ir lá, não tenho? Preciso ir até lá, não é isso? Preciso ir até o quarto de nosso filho agora. Não é?

      — Mas se você for até lá, promete que vai retornar?Ele não respondeu. O ruído era insuportável agora. Passos, bramidos de dor e aflição. A porta do quarto deles chacoalhava de leve.

      — São assombrações. Fantasmas. Eles estão atrás de nós desde que chegamos aqui. Todos eles! São fantasmas e querem nos machucar. Demônios! - A mulher urrou novamente.

      — Ambos sabemos que tenho que ir até lá. - Julio Neves desvencilhou-se do aperto que aquecia sua mão e pôs-se de pé. - De uma vez por todas, precisamos passar por isso.

Deu às costas para Leila, agarrou a maçaneta que ainda rangia, torceu-a e saiu do quarto, batendo a porta a sua passagem. Tudo se aquietou e o silêncio reinou novamente.

***

      Leila não parecia calma. Ela mesma não saberia avaliar o próprio estado. Não compreendia nada mais com isenção e equilíbrio. O vizinho careca a fitava com olhos brilhantes, sorrindo como um esquizofrênico. Ao lado, Clara trançava as mãos como quem embaralha cartas invisíveis e parecia triste. Era dona de um olhar que perdera algo e algo muito importante. Talvez a vida. Julio Neves sussurrava imitando um padre numa igreja vazia, tentando explicar algo que até então era completamente ininteligível aos ouvidos da esposa. Ao lado dele, bem junto ao braço direito do marido, uma jovem que disse se chamar Catarina fitava diretamente os olhos de Leila. O quarto do casal estava escuro e frio. Como nunca antes.

      — Alguns chamam aquele quarto de encruzilhada. É onde o mundo dos que já se foram toca o mundo dos que ainda estão por aqui. Um lugar onde muitas e muitas estradas invisíveis se cruzam e onde coisas podem acontecer. Muitas delas inexplicáveis. Elas estão por toda a parte, as encruzilhadas.  Nem sempre nos quartos das crianças, mas dentro de casas, automóveis, no mar ou na floresta. - Depois que Julio Neves completou a frase, a jovem Catarina, a seu lado, concordou com um movimento do queixo. Leila ainda não compreendia coisa alguma. O vizinho careca completou:

      — Estamos aqui apenas para ajudar, compreende? Vizinhos servem para isso, eu acho. Eu e minha Clara sabemos como são as coisas, de verdade. Não sabemos, querida?

      Clara respondeu sem abrir a boca. Os olhos mortos e ausentes, as mãos entretidas na interminável batalha maníaca.

      — Uma encruzilhada. É onde estamos, entende, mulher bonita?  O vizinho falou com seu sorriso doente e sem propósito. — É bem onde estamos. Minha Clara sabe disso. Não tivemos filhos nem nada, mas sabemos como são as coisas.

      A jovem Catarina apanhou a mão de Leila e levou até a boca. Deu um beijo de sonho, ele não existiu, mas esteve lá. Esteve bem molhado na mão de Leila, aquele beijo.

      — Não tenha medo. Não há motivo. Garanto que não há motivo para que você tenha medo de coisa alguma. - Catarina falou e nesse momento parecia velha e acabada. Mais do que uma avó de noventa anos. Muitos anos mais.

      Leila encarou o marido e lembrou da promessa que havia pedido. - Mas se você for até lá, promete que vai retornar? - Quase repetiu o pedido. Não precisou fazer isso.        

      O olhar de Julio era fixo, fitava com calma o da esposa e não parecia temer coisa alguma. Não receava mais o que quer que fosse. Uma lágrima escorreu e molhou a face alva da mulher dentro do quarto escuro.

       — De que lado da encruzilhada estamos? Onde nós estamos, Julio? O que aconteceu conosco?

A resposta silenciosa fluiu através dos olhos, nenhuma palavra mais. Leila fitou a sua volta e, num átimo, num pequeno pedaço de tempo, percebeu que havia ali dentro daquele quarto, muito, muito mais do que seis pessoas.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2014/01/encruzilhadas.html

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Charles Dickens - Paixões Violentas


Charles Dickens – dizia um periódico fluminense do século XIX –, célebre romancista inglês, inspirou a muitas de suas leitoras paixões violentas. E só podemos atribuir tais paixões arrebatadoras – paixões de vida e morte - ao imenso poder de sedução que irradiava não da figura do escritor, mas de seus contos e romances, publicados em jornais ingleses, na forma de folhetim.


Vejamos dois casos interessantes.

O primeiro narra-o o Diário de Notícias, edição de 12 de agosto de 1870:

“Uma mulher de vida escandalosa, que tinha dirigido ao romancista vinte cartas apaixonadas, não tendo obtido resposta, tentou apunhalá-lo à saída de um teatro. Para arredá-la das testemunhas dessa tentativa, salvando-a assim, Dickens recolheu-a em seu carro, e mandou levá-la para sua própria casa, até pô-la ao abrigo de todas as pesquisas”.

O jornal “A Constituição”, em edição de 1º de setembro do mesmo ano, reproduziu a seguinte notícia do “Parlament”:


“Em consequência de um trabalho excessivo, que lhe causara uma singular exaltação nas faculdades inventivas, Dickens caiu em um estado de prostração notável.

Não podia dormir mais de duas horas, nem conservar-se mais de cinco minutos na mesma posição.

Só conciliava o sono alto dia, depois de percorrer Londres das 11 horas ou meia-noite até quase de madrugada.

Nas primeiras noites de sua peregrinação, notou que uma senhora, de aparência honesta, aparecia-lhe nas horas em que as senhoras de vida regular estão recolhidas em suas casas. Depois encontrou-a mais duma vez na mesma noite.

Toda vez que a senhora encontrava Dickens, encaminhava-se para ele como se quisesse falar-lhe; mas de repente mudava de rumo, talvez envergonhada ou amedrontada.

Afinal aproximou-se dele com resolução, e acharam-se defronte doutro.

Ela lhe disse:

– Charles Dickens, o Sr. fez muito mal... Não tenho mais descanso... Olhe para mim, para ver se se lembra quem eu sou... Mereço uma lembrança de sua parte... e juro-lhe que nunca mais há de me ver.

A mulher fugiu; Dickens acompanhou-a de longe, e soube que era casada com um coronel inglês, que residia nas Índias.

Nunca mais a encontrou nas ruas.

Quatro dias e quatro noites se passaram assim.

No quinto dia Dickens recebeu um retrato em um quadro de alto valor.

Preso ao retrato acompanhava uma medalha de marfim e ébano que continha uma basta trança de cabelos pretos.

Nessa medalha havia também um bilhete, com cinco linhas. O bilhete dizia:

 Amei-te loucamente. Mas o meu amor era criminoso, porque pertencia a outro mundo, onde poderei, sem trair ninguém, pensar em ti. Lastima-me, pois.

O bilhete era assinado por: 'A mulher de umas das noites passadas'.

Dickens correu à casa dessa mulher. Ao chegar ali, soube que ela tinha acabado de expirar, apunhalando-se com um estilete!"

Dickens, cuja pena era mágica, quase sobrenatural, parecia mesmo mexer a fundo no coração das pessoas. Uma delas, sentindo-se desprezada pelo escritor, tentou matá-lo, mas ele, humanamente, a livrou da forca; a outra, não pôde Dickens salvar da morte, posto que a dama apaixonada, vendo a impossibilidade de seu amor, de si fez o próprio carrasco, no firme desígnio de amá-lo, desimpedidamente, do além.

Parece que tais trágicos incidentes ocorreram em algum momento não muito distante da morte do escritor, ocorrida em 9 de junho de 1870. Dickens tinha 58 anos.

Fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2014/01/charles-dickens-paixoes-violentas.html