quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Encruzilhadas

Algo aconteceu dentro do corpo da velha e o resultado para quem estava do lado de fora foi como se um pé de vento gelado houvesse atravessado o automóvel de um lado a outro. O garoto percebeu e, a despeito da idade, achou aquilo estranho. No mínimo gozado.

      — O que houve, vovó?

      Catarina fitou o rosto rosado do menino sentindo a corrente elétrica que trespassara seu corpo diminuir até esgotar por completo. Pousou de leve a mão manchada por sobre a pequenina do neto e disse com suavidade:

      — Nada. Não houve nadinha mesmo.

      — Você tremeu como se estivesse com frio. Ainda está arrepiada, olha aqui.  Apontou o braço da avó e sorriu encarando aqueles montículos que haviam se formado quase por vontade própria em toda a pele dela.

      Do lado de fora do carro, lojas, árvores e pessoas se misturavam imitando borrões coloridos numa pintura à óleo. O banco de trás do Aero Willys era grande e inteiriço, igualzinho ao dianteiro. Na frente, o pai e mãe do menino estavam entretidos demais tentando chegar a algum tipo de conclusão conjunta sobre o que fazer no próximo final de semana. Catarina estreitou o menino com o braço esquerdo e trouxe-o para junto de si, era quase um abraço. Abaixou a voz ainda mais, que passou a fluir como um sussurro.

      — Vovó não está com frio. Não foi isso. O dia está bonito demais para sentirmos frio, não está?

      — Bonito demais. - O garoto repetiu. O sol faiscava sobre a pintura branca do carro e fazia brilhar o interior charmoso forrado de vermelho. Não se fazem mais carros como este.

      — Pois então, por isso não sinto frio algum.

      — Hummm...

      A resposta não havia satisfeito o garoto e ele continuou encarando a avó, aguardando uma conclusão menos duvidosa que talvez nem existisse. Na idade dele ainda não era possível saber, contudo todos passam por isso de vez em quando. Uma sensação estranha que trespassa nosso corpo e faz com que fiquemos apreensivos sem motivo algum. Alguns dizem que quando isto acontece é por que estão falando de nós em algum canto. Ou alguém acabou de pisar sobre nossa sepultura. Na maioria das vezes não passa disso: uma sensação estranha que vai embora no segundo posterior. A diferença é que com Catarina a coisa não funcionava assim, era um pouco diferente.

      — Vem cá, olha por aqui. - O garoto foi para junto da janela do Aero Willys. A janela do carro do lado da avó. - Vê a esquina lá atrás?

      — Com toda aquela gente e a padaria?

      — Aquela mesma.

      — O que tem ela?

      — Passa um bocado de gente por ali. Um monte de carros também. É um lugar danado de movimentado. Conte rápido: quantas ruas têm ali?

      — Quatro. Cinco com aquela mais adiante. - O garoto exclamou rápido. A conversa continuava a fluir como uma brisa leve. Apenas entre os dois.

      — Pois eu te afirmo que existem mais do que cinco ruas naquela esquina. Muito mais do que cinco ruas. Contudo, algumas delas apenas eu posso contar. Os outros não as enxergam. É como se vovó possuísse um óculos especial que a tornasse capaz de ver coisas especiais, invisíveis aos olhos de quem não está usando óculos como os meus.

      A expressão no rosto do neto denunciou o que ele imaginava naquela hora e era algo mais ou menos como - espero não enlouquecer quando ficar mais velho, assim como minha pobre vó -. Catarina percebeu, mas não se abalou. Na realidade achou engraçado.

      — E saiba que vovó ainda não está com parafusos a menos. Não mesmo. Lembra do formigueiro que existe no jardim de sua mãe, onde ela tem aquelas Rosas e o coqueirinho que nunca deu cocos? Lembra de como você gosta de vê-las trabalhando, carregando insetos mortos, folhas cortadas e outro tanto de coisas?

      — Sim. Mas...

      — O que isto tem a ver, esta seria a sua pergunta. Muita coisa, vovó responde. Você as observa trabalhando, mas as pequeninas nem se dão conta disso. Não sabem que meu neto as observa enquanto elas vão de lá para acolá fazendo todo aquele trabalho. Mas você está bem ali ao lado delas, todo o tempo. Acho que é mais ou menos isso. Existem coisas por aí, coisas que apenas algumas pessoas são capazes de enxergar e não me pergunte por quê. Não saberia responder. Alguns chamam aquela esquina de encruzilhada. É onde o mundo dos que já se foram toca o mundo dos que ainda estão por aqui. Um lugar onde muitas e muitas estradas invisíveis se cruzam e onde coisas podem acontecer. Muitas delas inexplicáveis. Elas estão por toda a parte, as encruzilhadas.  Nem sempre nas esquinas de ruas próximas, mas dentro de casas, automóveis, no mar ou na floresta. Não consigo deixar de me arrepiar quando enxergo uma delas.

      — Tenho medo.

      — Não tenha. Não há motivo. Vovó garante que não há motivo para que você tenha medo de coisa alguma. Estamos todos bem inteirinhos aqui e nada vai acontecer. Nada nunca aconteceu.

      — Vovô estava ali naquela esquina?

      — Não. Ele não estava. Não desta vez.

      O garoto pôs-se de joelhos no banco do Aero Willys tentando fitar a esquina que se distanciava velozmente pela janela traseira. Já se tornara impossível de ser enxergada, mas a magia daquela conversa não permitia que ele desgrudasse os olhos do vidro do carro. Não falou mais coisa alguma e Catarina calou-se também. Depois que se sentou novamente no banco ela o estreitou com um abraço e fez cafuné em seus cabelos finos até que chegassem à casa. Julio ainda não sabia, mas aquela conversa seria lembrada em algum ponto de sua existência, num futuro ainda longínquo, entretanto inequívoco. E Julio também não tinha conhecimento de duas pequenas mentiras que sua vó Catarina havia lhe contado, talvez com o intuito de protegê-lo: coisas já haviam acontecido e existiam motivos para ter medo.

***

      O garoto estava chorando de novo. Qualquer mudança é aborrecida, mas esta parece ter mexido com os nervos de todos os três de maneira estranhamente peculiar. Mais ainda com o estado de espírito do pequenino Guilherme. Abria o berreiro pela terceira noite consecutiva, coisa que já não fazia desde quando completara dois anos. A luz do abajur faiscou na cabeceira oposta, trazendo incômodo aos olhos de Julio. Murmurou entre dentes:

      — Sua vez.

      — Ontem fui eu. Hoje é a sua vez.

      Resignou-se e foi até o quarto ao lado arrastando pés. Ainda se confundia com o apartamento novo, era cedo para se acostumar a caminhar por ele no escuro. Estavam ali há apenas três dias. Passou-se um tempo antes de Julio retornar trazendo nos braços o garoto, que soluçava em pequenos arrancos. Não chorava mais. Depositou Guilherme num colchão ao lado da cama de casal e o menino voltou a dormir logo após.

      — E então?

      — A mesma história.

      Leila coçou a cabeça desgrenhada. Apagou o abajur enquanto o marido punha-se novamente sob o lençol.

      — Acha que ele precisa de um médico?

      — Não, não acho. Definitivamente: não. - A voz do homem um tom acima do desejado. Quase ríspido. As pilastras que sustentavam a harmonia do casal pareciam ruir, algum tipo de ferrugem muito corrosivo agia sorrateiramente e arruinava a estrutura antes sólida. Há quanto tempo isso acontecia? - tentou imaginar Julio. Há três dias. Isso vinha acontecendo há três dias, ele mesmo respondeu dentro da cabeça.

      — Meus Deus, Julio, o garoto chora há três noites seguidas. Não se faça de sonso, você sabe que ele dormia muito bem.

      — A mudança. Ele ainda não se acostumou com o novo ambiente. É apenas a droga da mudança. - Quase berrou. Temeu acordar novamente o filho, coisa que não aconteceu.

      — E quanto às histórias? Ele jamais foi de inventar histórias estapafúrdias ou de temer fantasmas. Talvez um médico...

      — Nada de médicos. - Deixou a esposa com o final da frase engasgada na garganta. - O guri vai melhorar.

      — Não gosto de ver meu próprio filho dizendo que alguém o visita durante a noite e o acorda. Não gosto de saber que ele não consegue dormir por temer os – visitantes -. Odeio isso tudo.

      — Não mais do que eu.

      — Ele está com medo, Julio.

      — É a mudança. A maldita mudança, você entende? Ele vai melhorar, vai acostumar com a casa nova e tudo vai voltar a ser como era.

     Leila virou para o outro lado e terminou a conversa.  Julio teve a nítida impressão de que ela tentava abafar um pranto baixinho. Ele sabia que havia algo errado. Alguma coisa terrivelmente errada estava acontecendo e chegava perto da família, imitava um crocodilo que se aproxima da presa completamente invisível sob água barrenta. Guilherme chorava sem escaramuças quando estava assustado. Mas o casal também estava e nenhum dos dois tinha a mínima idéia do porquê.

***

      — O garoto melhorou? Parece que continua a chorar durante a noite, não é?

      Aquele sujeito sempre estava ali no corredor quando Julio abria a porta do apartamento para fazer o que quer que seja. Neste caso, levava o lixo para fora e lá estava o velho, completamente calvo e com sua barriga que imitava um Papai Noel desgrenhado. A esposa dele, uma velha desdentada, sempre prostrada sob o umbral da porta que se mantinha semi-aberta. Observava enquanto apertava as mãos nervosamente, como quem faz uma mágica que nunca termina. Parecia ter nervos bastante abalados. O velho, por sua vez, sorria.

      Julio Neves entrou no recuo da lixeira e despejou sacos de plástico três andares lá para baixo. Escutou o baque surdo quando eles chegaram a seu destino. Não estava com humor para conversa fiada com vizinhos desconhecidos e as idéias eram desgovernadas dentro da cabeça. Mal completara uma semana da mudança e já se arrependera amargamente da decisão. Na verdade, nem mesmo recordava por que maldito motivo havia mudado para aquela redondeza e isso o intrigava. A presença do casal desocupado naquele instante o incomodava sem qualquer motivo especial, contudo profundamente. Respondeu tentando ser lacônico:

      — Ele continua a chorar, sim. Espero que isso não os perturbe. Sinto muito de verdade.

      — Não - o velho prosseguiu animado - não incomoda de jeito nenhum. Sabe como é, velhos dormem pouco. Não temos muito sono. Nada por aqui nos incomoda.

      — Eu sei como é. E fico agradecido pela gentileza. - Julio deu as costas, caminhado em direção ao próprio apartamento. Adoraria se a conversa terminasse por aqui. Além do mais, não era cedo. Passavam das onze horas.

      — Assim que o garoto acostumar com a mudança ele pára com a choradeira, não é isso mesmo? Não tivemos filhos, mas sabemos como são as coisas. Eu e minha Clara sabemos muito bem como são as coisas. - Julio lembrou da conversa que mantivera com Leila há alguns dias atrás. Naquele instante algo parece ter acontecido, entretanto, Julio sabia que não. Nada acontecera, ele apenas travava uma conversa tola com um vizinho ocioso. Clara, a esposa do homem careca, aquiesceu com um movimento da cabeça que imitava uma reverência numa missa. As mãos continuavam se enroscando como duas cobras que lutam.

      — Pois bem, nós sabemos como é. Garotos são assim mesmo, não são como nós, os adultos e os velhos.

      — Não são. - Julio repetiu.

      — Não se preocupe conosco, dormimos pouco e nada nos incomoda. Acho que já disse isso, não disse? É claro que disse, sim Senhor. E estamos bem aqui do lado para ajudar no quer que seja. Vizinhos servem pra isso, eu acho.— Obrigado, não vou esquecer. - Julio aguardou que o velho fizesse meia volta, fosse ao encontro da velha esposa e entrassem em casa. Não foi o que aconteceu. Ambos ficaram de pé onde estavam e prosseguiram fitando Julio Neves. Foi ele quem teve que entrar em seu apartamento. Bateu a porta por trás das costas sem olhar para trás. Não testou pelo olho mágico, mas juraria de pés juntos que ambos continuavam de pé no corredor.

***

      — Eles estavam lá?

      — Como sempre. Ambos.

      Encararam-se durante muito tempo. Não falavam nada, mas os olhos conversavam angústia. A irritação dos primeiros dias depois da mudança abria espaço para um poço de aflição que não permitia mais a exasperação. Estavam juntos em algo que não compreendiam e um time acuado sempre se une. É assim que a coisa funciona e eles não precisavam entender ou conversar sobre isso.

      — Jogou o lixo fora? - O lixo não importava, Leila simplesmente não sabia o que dizer. Julio estreitou a mão da mulher e foi quase um carinho. Não respondeu.

      — O garoto precisa dormir. Já passam das onze horas - disse o marido.

      — Sim. É tarde. - Ela concordou.

      — Ele ainda está no videogame?

      — Na sala. Jogando.Ainda ficaram de pé na cozinha e não saberiam responder por quanto tempo. Apenas um defronte ao outro. Olhos marejados e cabeças confusas. Foram juntos até a sala e Julio disse quando chegou lá:

      — Amanhã tem mais. Por hoje precisamos dormir, não é garotão?

      Guilherme soltou o joystick mecanicamente e encarou os pais. O brilho baço dos olhos passou da indiferença ao medo muito rápido. Mas o garoto não falou nada, caminhou em direção ao quarto com os pais marchando logo atrás em fila indiana. Enfiou-se por baixo das cobertas obedecendo a uma ordem que não precisou ser dada.

      — Até amanhã. Durma bem, meu filho. - Disse Julio. 

Guilherme não respondeu. Apenas cerrou os olhos e aguardou o casal apagar a luz e sair do quarto. Quando chegaram ao quarto ao lado encaram-se novamente. Novamente aquela conversa travada com a íris, em silêncio. Sabiam que o filho não dormiria bem. Tinham absoluta certeza quanto a isso. Nunca falaram nada, mas reconheciam odiosamente que ofereciam o garoto quase como num sacrifício. Uma oferenda a algum tipo de Deus ou demônio desconhecido e isso os enchia de rancor, entretanto o medo era sempre maior. Não acontecia nada, ele apenas acordaria chorando e então Julio o traria para dormir junto deles e assim evitavam que aquela coisa que visitava o garoto nessas noites estranhas viesse importuná-los pavorosamente. Uma covardia que acontecia e não precisava ser assumida.

      — O que está havendo? Por Deus, Julio, o que está acontecendo conosco?

Enfurnaram-se debaixo dos lençóis. Quase choravam. E de novo Julio não precisou responder.

***

      Naquela noite, depois de Julio colocar o garoto para dormir ao lado do casal, nenhum dos dois conseguiu pegar no sono e ficaram lado a lado, porém acordados. Nunca a coisa acontecera daquela maneira. O som de passos no quarto ao lado sugeria pelo menos uma pequena multidão caminhando por ali. Era impossível discernir o que se falava, mas as vozes estavam lá também. Algumas tão graves como urros de dor, outras imitavam assobios leves ao vento da tarde.  Alguns sussurros tocavam de leve o casal, como confissões feitas ao pé do ouvido. A mão do homem procurou a de Leila e estreitaram-se num aperto por baixo da coberta. A porta do quarto estremeceu e quase abriu. A maçaneta girou uma ou duas vezes. Continuou fechada e parou de tremer. Tremeu novamente. A mão de Julio suava e o suor misturava com o da esposa. Não era mais medo. Era outra coisa. Alguma outra coisa completamente diferente e inexplicável. Diferente e terrível.

      — Há quantos dias você não vai trabalhar?Era uma pergunta desconexa e estranha, contudo Julio não a interpretou dessa forma. Fazia muito sentido e ele não sabia por quê.

      — Não lembro. Acho que faz tempo.

      — Guilherme dormiu?

      — Sim. Ele dormiu.

      Leila estremeceu e então perguntou:

      — Eles vão embora agora, não vão?  Eles sempre nos deixam em paz depois que ele dorme, meu Deus. Por que não vão embora? - Ela gritou para o teto no escuro do quarto. A pergunta não foi feita a Julio. - Por que não nos deixam em paz para sempre? - Ela berrou novamente.

       — Por que estamos aqui? - Indagou Julio. - Por que viemos morar nesse lugar?

      — Não lembro.

      — Eu tenho que ir lá, não tenho? Preciso ir até lá, não é isso? Preciso ir até o quarto de nosso filho agora. Não é?

      — Mas se você for até lá, promete que vai retornar?Ele não respondeu. O ruído era insuportável agora. Passos, bramidos de dor e aflição. A porta do quarto deles chacoalhava de leve.

      — São assombrações. Fantasmas. Eles estão atrás de nós desde que chegamos aqui. Todos eles! São fantasmas e querem nos machucar. Demônios! - A mulher urrou novamente.

      — Ambos sabemos que tenho que ir até lá. - Julio Neves desvencilhou-se do aperto que aquecia sua mão e pôs-se de pé. - De uma vez por todas, precisamos passar por isso.

Deu às costas para Leila, agarrou a maçaneta que ainda rangia, torceu-a e saiu do quarto, batendo a porta a sua passagem. Tudo se aquietou e o silêncio reinou novamente.

***

      Leila não parecia calma. Ela mesma não saberia avaliar o próprio estado. Não compreendia nada mais com isenção e equilíbrio. O vizinho careca a fitava com olhos brilhantes, sorrindo como um esquizofrênico. Ao lado, Clara trançava as mãos como quem embaralha cartas invisíveis e parecia triste. Era dona de um olhar que perdera algo e algo muito importante. Talvez a vida. Julio Neves sussurrava imitando um padre numa igreja vazia, tentando explicar algo que até então era completamente ininteligível aos ouvidos da esposa. Ao lado dele, bem junto ao braço direito do marido, uma jovem que disse se chamar Catarina fitava diretamente os olhos de Leila. O quarto do casal estava escuro e frio. Como nunca antes.

      — Alguns chamam aquele quarto de encruzilhada. É onde o mundo dos que já se foram toca o mundo dos que ainda estão por aqui. Um lugar onde muitas e muitas estradas invisíveis se cruzam e onde coisas podem acontecer. Muitas delas inexplicáveis. Elas estão por toda a parte, as encruzilhadas.  Nem sempre nos quartos das crianças, mas dentro de casas, automóveis, no mar ou na floresta. - Depois que Julio Neves completou a frase, a jovem Catarina, a seu lado, concordou com um movimento do queixo. Leila ainda não compreendia coisa alguma. O vizinho careca completou:

      — Estamos aqui apenas para ajudar, compreende? Vizinhos servem para isso, eu acho. Eu e minha Clara sabemos como são as coisas, de verdade. Não sabemos, querida?

      Clara respondeu sem abrir a boca. Os olhos mortos e ausentes, as mãos entretidas na interminável batalha maníaca.

      — Uma encruzilhada. É onde estamos, entende, mulher bonita?  O vizinho falou com seu sorriso doente e sem propósito. — É bem onde estamos. Minha Clara sabe disso. Não tivemos filhos nem nada, mas sabemos como são as coisas.

      A jovem Catarina apanhou a mão de Leila e levou até a boca. Deu um beijo de sonho, ele não existiu, mas esteve lá. Esteve bem molhado na mão de Leila, aquele beijo.

      — Não tenha medo. Não há motivo. Garanto que não há motivo para que você tenha medo de coisa alguma. - Catarina falou e nesse momento parecia velha e acabada. Mais do que uma avó de noventa anos. Muitos anos mais.

      Leila encarou o marido e lembrou da promessa que havia pedido. - Mas se você for até lá, promete que vai retornar? - Quase repetiu o pedido. Não precisou fazer isso.        

      O olhar de Julio era fixo, fitava com calma o da esposa e não parecia temer coisa alguma. Não receava mais o que quer que fosse. Uma lágrima escorreu e molhou a face alva da mulher dentro do quarto escuro.

       — De que lado da encruzilhada estamos? Onde nós estamos, Julio? O que aconteceu conosco?

A resposta silenciosa fluiu através dos olhos, nenhuma palavra mais. Leila fitou a sua volta e, num átimo, num pequeno pedaço de tempo, percebeu que havia ali dentro daquele quarto, muito, muito mais do que seis pessoas.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2014/01/encruzilhadas.html

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Charles Dickens - Paixões Violentas


Charles Dickens – dizia um periódico fluminense do século XIX –, célebre romancista inglês, inspirou a muitas de suas leitoras paixões violentas. E só podemos atribuir tais paixões arrebatadoras – paixões de vida e morte - ao imenso poder de sedução que irradiava não da figura do escritor, mas de seus contos e romances, publicados em jornais ingleses, na forma de folhetim.


Vejamos dois casos interessantes.

O primeiro narra-o o Diário de Notícias, edição de 12 de agosto de 1870:

“Uma mulher de vida escandalosa, que tinha dirigido ao romancista vinte cartas apaixonadas, não tendo obtido resposta, tentou apunhalá-lo à saída de um teatro. Para arredá-la das testemunhas dessa tentativa, salvando-a assim, Dickens recolheu-a em seu carro, e mandou levá-la para sua própria casa, até pô-la ao abrigo de todas as pesquisas”.

O jornal “A Constituição”, em edição de 1º de setembro do mesmo ano, reproduziu a seguinte notícia do “Parlament”:


“Em consequência de um trabalho excessivo, que lhe causara uma singular exaltação nas faculdades inventivas, Dickens caiu em um estado de prostração notável.

Não podia dormir mais de duas horas, nem conservar-se mais de cinco minutos na mesma posição.

Só conciliava o sono alto dia, depois de percorrer Londres das 11 horas ou meia-noite até quase de madrugada.

Nas primeiras noites de sua peregrinação, notou que uma senhora, de aparência honesta, aparecia-lhe nas horas em que as senhoras de vida regular estão recolhidas em suas casas. Depois encontrou-a mais duma vez na mesma noite.

Toda vez que a senhora encontrava Dickens, encaminhava-se para ele como se quisesse falar-lhe; mas de repente mudava de rumo, talvez envergonhada ou amedrontada.

Afinal aproximou-se dele com resolução, e acharam-se defronte doutro.

Ela lhe disse:

– Charles Dickens, o Sr. fez muito mal... Não tenho mais descanso... Olhe para mim, para ver se se lembra quem eu sou... Mereço uma lembrança de sua parte... e juro-lhe que nunca mais há de me ver.

A mulher fugiu; Dickens acompanhou-a de longe, e soube que era casada com um coronel inglês, que residia nas Índias.

Nunca mais a encontrou nas ruas.

Quatro dias e quatro noites se passaram assim.

No quinto dia Dickens recebeu um retrato em um quadro de alto valor.

Preso ao retrato acompanhava uma medalha de marfim e ébano que continha uma basta trança de cabelos pretos.

Nessa medalha havia também um bilhete, com cinco linhas. O bilhete dizia:

 Amei-te loucamente. Mas o meu amor era criminoso, porque pertencia a outro mundo, onde poderei, sem trair ninguém, pensar em ti. Lastima-me, pois.

O bilhete era assinado por: 'A mulher de umas das noites passadas'.

Dickens correu à casa dessa mulher. Ao chegar ali, soube que ela tinha acabado de expirar, apunhalando-se com um estilete!"

Dickens, cuja pena era mágica, quase sobrenatural, parecia mesmo mexer a fundo no coração das pessoas. Uma delas, sentindo-se desprezada pelo escritor, tentou matá-lo, mas ele, humanamente, a livrou da forca; a outra, não pôde Dickens salvar da morte, posto que a dama apaixonada, vendo a impossibilidade de seu amor, de si fez o próprio carrasco, no firme desígnio de amá-lo, desimpedidamente, do além.

Parece que tais trágicos incidentes ocorreram em algum momento não muito distante da morte do escritor, ocorrida em 9 de junho de 1870. Dickens tinha 58 anos.

Fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2014/01/charles-dickens-paixoes-violentas.html

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Campo De Batalha - Stephen King

A voz do recepcionista deteve-o a meio caminho do elevador e Renshaw voltou-se, impaciente, passando a maleta de vôo de uma mão para outra. O envelope em seu bolso, cheio de notas de vinte e cinqüenta dólares, estalou audivelmente. O trabalho correra bom e o pagamento fora excelente ― mesmo depois da redução dos 15% de comissão cobrados pela Organização como taxa de agenciamento. Agora, tudo que ele queria era um chuveiro quente, um gim-tônica e dormir. 

― O que é? 

― Uma encomenda, senhor. Quer assinar o recibo, por favor? 

Renshaw assinou e fitou pensativamente o pacote retangular. Seu nome e endereço estavam escritos na etiqueta gomada, numa caligrafia inclinada que lhe parecia familiar. 

Balançou o pacote sobre a superfície imitando mármore do balcão e algo produziu um leve ruído metálico lá dentro. 

― Quer que eu mande levar lá em cima, Sr. Renshaw? 

― Não. Está bem assim. 

O pacote tinha cerca de meio metro de comprimento e se ajustava um tanto desajeitadamente sob seu braço. Renshaw deixou-o sobre o espesso tapete que cobria o chão do elevador e girou a sua chave na abertura correspondente ao apartamento de cobertura, que ficava acima dos botões dos andares normais. O elevador subiu, silencioso e macio. Renshaw fechou os olhos e reviu o trabalho na tela escura de sua mente. 

Primeiro, como sempre, um telefonema de Cal Bates: 

― Está disponível, Johnny? 

Ele estava disponível duas vezes por ano, preço mínimo dez mil dólares. Era muito competente, muito confiável, mas o que seus clientes realmente pagavam era pelo infalível talento de predador. John Renshaw era um gavião humano, condicionado tanto pela genética como pelo meio ambiente para desempenhar de modo soberbo duas funções: matar e sobreviver. 

Depois do telefonema de Cal Bates, o envelope de papel pardo aparecera na caixa postal de Renshaw. Um nome, um endereço, uma fotografia. Tudo foi guardado na memória; depois, as cinzas do envelope e seu conteúdo foram para a lixeira. 

Desta vez, o resto fora o de um pálido homem de negócios de Miamì, chamado Hans Morris, fundador e proprietário da Fábrica de Brinquedos Morris. Alguém desejava tirar Morris do caminho e procurara a Organização. A Organização, na pessoa de Calvin Bates, falara com John Renshaw. Bum! E favor não enviar flores. 

As portas do elevador se abriram e ele pegou o pacote do chão, saindo para o hall. 

Destrancou o apartamento e entrou. Àquela hora do dia, pouco depois das três da tarde, a espaçosa sala de visitas estava banhada pela luz do sol de abril. Renshaw parou um instante, saboreando-a. Em seguida, colocou o pacote sobre a mesinha ao lado da porta e foi ao terraço. 

Abriu a porta corrediça de vidro e saiu para o ar livre. Estava frio e o vento penetrava através de seu sobretudo fino. Não obstante, parou um momento, olhando a cidade da mesma maneira que um general observaria um país capturado. O tráfego percorria as ruas como besouros. Ao longe, quase escondida pela névoa da tarde, a Ponte da Baía faiscava como a miragem de um louco. A leste, quase perdidos por detrás dos arranha-céus do centro da cidade, os cortiços atulhados de gente, com suas florestas de antenas de TV. Era melhor aqui. Melhor que nas sarjetas. 

Renshaw voltou à sala, fechou a porta de vidro e foi ao banheiro para um prolongado banho de chuveiro quente. 

Quarenta minutos depois, quando se sentou para fitar o pacote com um drinque na mão, as sombras haviam avançado até a metade do tapete cor de vinho e o melhor da tarde já se fora. 

Era uma bomba. 

Claro que não era, mas a gente procedia como se fosse. Por esse motivo ele se mantivera ereto e bem nutrido, enquanto outros haviam ido para aquela grande aglomeração de desempregados lá no céu. 

Se era uma bomba, não tinha relógio. Totalmente silenciosa; impassível e enigmática. 

De todo modo, o explosivo plástico era mais usado atualmente. Menos temperamental que as molas de relógio fabricadas pela Westclox e Big Ben. 

Renshaw olhou para o carimbo do correio. Miami, 5 de abril. Há cinco dias. Portanto, a bomba não era de tempo. Nesse caso, teria explodido no cofre do hotel. 

Miami. Sim. E aquela caligrafia inclinada. Havia uma fotografia emoldurada sobre a mesa do pálido homem de negócios. A foto era de uma velha ainda mais pálida, usando um xale. A dedicatória na parte inferior dizia: "Os melhores votos da garota de idéias brilhantes ― Mamãe." 

Que tipo de idéia brilhante é esta, Mamãe? Uma armadilha assassina feita em casa? 

Renshaw olhou o pacote com total concentração, imóvel, as mãos cruzadas. Indagações estranhas, tais como a maneira pela qual a garota de idéias brilhantes de Morris descobrira seu endereço, não lhe ocorreram. Ficavam para mais tarde, para Cal Baker. 

Agora, não importavam. 

Com um movimento repentino, quase distraído, tirou da carteira um pequeno calendário de plástico e o inseriu habilmente sob o barbante grosso que dava várias voltas sobre o papel-pardo do embrulho. Enfiou-o por baixo da fita gomada que prendia uma extremidade do papel. A ponta do papel se soltou, relaxando-se de encontro ao barbante. 

Renshaw aguardou algum tempo, observando. Depois, debruçou-se para perto do pacote e cheirou. Papelão, papel, barbante. Nada mais. Andou em volta do embrulho, agachouse com facilidade e repetiu o processo. A penumbra invadia o apartamento com dedos cinzentos e sombrios. 

Uma das pontas do papel escapou do barbante, deixando à mostra uma caixa de cor verde fosca. Metal. Com dobradiças. Renshaw tirou um canivete do bolso e cortou o barbante. Este caiu e alguns movimentos com a ponta da lâmina abriram o papel, revelando a caixa. 

Era verde com letras pretas. Na frente, pintadas em branco, estavam as palavras: BAÚ DO SOLDADO JOE. Logo abaixo: 20 Infantes, 10 Helicópteros, 2 Artilheiros c/ Fuzis Automáticos, 2 Atiradores de Bazuca, 2 Padioleiros, 4 Jipes. Mais abaixo: Decalque de Bandeira. Ainda mais abaixo, no canto: Fábrica de Brinquedos Morris, Miami, Flórida. 

Renshaw estendeu a mão para tocar na caixa, mas tornou a encolhê-la. Algo se mexeu dentro do baú. 

Renshaw levantou-se sem pressa e recuou através da sala, na direção da cozinha e do corredor. Acendeu as luzes. 

O baú militar do tipo usado no Vietnã estava balançando, fazendo chocalhar o papel pardo por baixo dele. De repente, ultrapassou a posição de equilíbrio e caiu no tapete com um baque surdo, ficando em pé sobre uma das extremidades. A tampa com dobradiças se entreabriu, uma fresta de cerca de cinco centímetros. 

Pequenos soldados de infantaria, com três centímetros e meio de altura, começaram a rastejar para o tapete. Renshaw os observava sem pestanejar. Sua mente não fazia qualquer esforço para enfrentar o aspecto real ou irreal do que ele via ― só se preocupava com as possíveis conseqüências para sua sobrevivência. 

Os soldados usavam minúsculos uniformes de combate, capacetes e mochilas. Traziam pequenos fuzis a tiracolo. Dois deles olharam rapidamente através da sala na direção de Renshaw. Seus olhos, não maiores que pontas de lápis, brilhavam. 

Cinco, dez, doze, todos os vinte. Um deles comandava os outros por meio de gestos. 

Alinharam-se ao longo da fresta que a queda abrira na tampa da caixa metálica e começaram a empurrar. A fresta começou a aumentar. 

Renshaw pegou uma das grandes almofadas do sofá e se encaminhou para eles. O oficial em comando virou-se e gesticulou. Os outros giraram e empunharam os fuzis. 

Renshaw ouviu leves ruídos, quase como estalidos, e sentiu-se repentinamente picado por abelhas. 

Golpeou com a almofada, que atingiu os soldadinhos, jogando-os no tapete. Então, acertou na caixa, escancarando-a. Como insetos, produzindo um zumbido agudo, uma esquadrilha de helicópteros em miniatura, pintados de verde-oliva, levantou vôo da caixa 

Leves sons ― puft! puft! ― chegaram aos ouvidos de Renshaw e este viu clarões de disparos, pequenos como cabeças de alfinete, saindo das portas abertas dos helicópteros. 

Pontas de agulha picaram-lhe a barriga, o braço direito, o lado do pescoço. Levantou a mão e pegou um dos helicópteros ― uma repentina dor nos dedos; sangue começando a brotar. As pás das hélices tinham-lhe cortado a carne até os ossos, em lanhos diagonais que sangravam. Os demais aparelhos voaram para fora de seu alcance, rodeando-o como libélulas. O helicóptero atingido caiu no tapete e permaneceu imóvel. 

Uma súbita dor aguda no pé fez Renshaw gritar. Um dos infantes estava em pé no seu sapato, enfiando-lhe a baioneta no pé. O rostinho minúsculo olhava para cima, sorridente. 

Renshaw desferiu-lhe um pontapé e o pequeno corpo voou através da sala, espatifando-se contra a parede. Não deixou sangue, mas uma viscosa mancha vermelha. Ocorreu uma pequena explosão e uma dor cruciante o atingiu na coxa. Um dos atiradores de bazuca saíra do baú. Um tênue filete de fumaça se erguia preguiçosamente da boca da arma. Renshaw baixou os olhos e viu um buraco negro e fumegante nas calças, do tamanho de uma moeda de vinte e cinco centavos. A pele por baixo estava chamuscada. 

O pequeno filho de uma puta atirou em mim! 

Renshaw virou-se e correu para o corredor, entrando em seu quarto. Um dos helicópteros passou-lhe rente à bochecha, as hélices zumbindo. O leve matraquear de um fuzil automático. Depois, afastou-se. 

O revólver sob o travesseiro de Renshaw era um 44 Magnum, com potência bastante para abrir um buraco do tamanho de dois punhos cerrados em qualquer coisa que acertasse. Renshaw virou-se, empunhando a arma com ambas as mãos. Compreendeu friamente que estaria atirando contra um alvo móvel não muito maior que uma lâmpada voadora. 

Dois dos helicópteros entraram zumbindo no quarto. Sentado na cama, Renshaw disparou uma vez. Um dos helicóteros explodiu, pulverizado. Com este, são dois, pensou Renshaw. Apontou para o segundo... apertou o gatilho... 

Emperrou! Diabo, emperrou! 

O helicóptero mergulhou em direção a ele num súbito arco mortífero, as hélices zumbindo com uma velocidade incrível. Renshaw viu de relance um dos atiradores de fuzil automático agachado perto da porta do aparelho, disparando a arma em rajadas curtas e letais. Então, atirou-se ao chão e rolou. 

Meus olhos! O miserável apontava contra os meus olhos! 

Parou de rolar deitado de costas junto à parede oposta, empunhando o revólver à altura do peito. Mas o helicóptero se afastava. Deu a impressão de parar um instante no ar e inclinar-se em reconhecimento ao superior poder de fogo de Renshaw. Depois, desapareceu na direção da sala de visitas. 

Renshaw levantou-se, fazendo uma careta quando apoiou o peso do corpo na perna ferida, que sangrava abundantemente. E por que não? refletiu ele sombriamente. Não é todo mundo que se vê atingido à queima-roupa por uma bazuca e vive para contar a estória. 

Então, Mamãe era a garota das idéias brilhantes, hem? Era tudo isso e ainda mais. 

Renshaw tirou a fronha de um travesseiro e rasgou-a para improvisar uma atadura. 

Depois, pegou o espelho de barbear-se que estava em cima da cômoda e foi à porta do corredor. Ajoelhando-se, empurrou o espelho pelo tapete, formando um ângulo, e espiou. 

Com os diabos! Os soldados estavam acampando perto do baú. Os homenzinhos em miniatura corriam de um lado para outro, armando barracas. Jipes com dois centímetros de altura rodavam com ar imponente. Um padioleiro cuidava do soldado que Renshaw atingira com o pontapé. Os oito helicópteros restantes davam cobertura aérea ao acampamento, voando em círculos à altura da mesinha de centro. 

De repente, eles perceberam o espelho e três dos infantes se apoiaram sobre um joelho e começaram a atirar. Segundos depois, o espelho se quebrou em quatro pedaços. 

Está bem, está bem, então. 

Renshaw voltou à cômoda e pegou a pesada caixa de miudezas de mogno que Linda lhe dera no Natal. Sopesou-a, meneou afirmativamente a cabeça, foi até a porta e saiu de repente para o corredor. Contraiu-se e atirou a caixa como um lançador de beisebol. A caixa descreveu uma trajetória certeira e esmagou soldadinhos como uma bola de boliche derrubando os pinos. Um dos jipes capotou duas vezes. Renshaw avançou até a porta da sala, mirou num dos soldados caídos e atirou. 

Vários dos outros se tinham recobrado. Alguns estavam ajoelhados e atiravam formalmente. Outros procuraram abrigo. Ainda outros voltaram ao interior do baú. 

As picadas de abelha começaram a atingir as pernas e torso de Renshaw, mas nenhuma delas o pegou acima da caixa torácica. Talvez a distância fosse demasiada. Não importava; ele não estava disposto a se deixar rechaçar. Agora, era pra valer. 

Errou o tiro seguinte ― eles eram tão miudinhos ― mas o outro derrubou um soldado, partindo-o em pedaços. 

Os helicópteros zumbiam ferozmente em direção a ele. Então, as minúsculas balas começaram a atingi-lo no rosto, acima e abaixo dos olhos. Acertou o helicóptero da frente, depois o segundo. Pontadas de dor turvaram-lhe os olhos. 

Os seis helicópteros remanescentes se afastaram em dois grupos de três. O rosto de Renshaw estava molhado de sangue e ele o enxugou com o antebraço. Estava pronto para recomeçar a atirar, mas fez uma pausa. Os soldados que haviam recuado para o interior do baú estavam puxando algo para fora. Algo que parecia... 

Houve um silvo cegante de fogo amarelo e uma súbita explosão de madeira e reboco produziu-se na parede à esquerda de Renshaw... um lançador de foguetes! 

Renshaw disparou um tiro apressado contra a arma e errou. Girando nos calcanhares, correu para o banheiro na extremidade oposta do corredor. Bateu a porta e trancou-a. No espelho do banheiro, um índio o encarou com olhos atônitos e amedrontados, um índio enlouquecido pela batalha, com filetes de tinta vermelha escorrendo de buracos menores que grãos de pimenta. Uma tira de pele rasgada pendia de uma bochecha. Havia um fundo vergão em seu pescoço. 

Estou perdendo! 

Passou a mão trêmula pelos cabelos. A porta da frente estava isolada. O mesmo ocorria com o telefone e com a extensão na cozinha. Eles tinham um maldito lançador de foguetes e um impacto direto lhe arrancaria a cabeça. 

Diabo! Aquilo nem mesmo constava da lista pintada na caixa! 

Começou a inalar profundamente o ar, mas soltou-o de repente num grunhido quando surgiu na porta um buraco do tamanho de um punho, acompanhado de uma explosão que lançou longe lascas de madeira chamuscada. Pequenas labaredas brilharam brevemente nas bordas irregulares do buraco e Renshaw viu o forte relâmpago quando eles lançaram novo foguete. Outro buraco e mais madeira voou, lançando lascas em brasa no tapete do banheiro. Ele apagou as brasas com os pés e dois helicópteros zumbiram raivosamente através do buraco. Minúsculas balas de fuzil automático costuraram-lhe o peito. 

Com um sibilante gemido de fúria, Renshaw bateu em um deles com a mão nua, sofrendo uma série de cortes profundos na palma da mão. Em repentina e desesperada improvisação, atacou o helicóptero com uma pesada toalha de banho. O aparelho caiu no chão, ainda funcionando, e Renshaw o pisoteou até estraçalhá-lo. Sua respiração era arquejante, ruidosa. O sangue caiu num dos olhos, quente e fazendo arder. Ele o limpou com as costas da mão. 

Aí está, com os diabos! Aí está. Isto os fará pensar. 

Na verdade, deu a impressão de que eles tinham parado para pensar. Não houve movimento durante quinze minutos. Renshaw sentou-se na beirada da banheira, pensando febrilmente. Tinha que haver uma escapatória daquele beco sem saída. Tinha que haver. Se ao menos existisse um modo de flanqueá-los... 

Virou de repente a cabeça e olhou para a pequena janela acima da banheira. Existia um modo. Claro que existia. 

Seu olhar desceu até a lata de fluido de isqueiro em cima do armário de remédios. 

Estava estendendo a mão para pegá-la quando escutou o barulho. 

Virou-se depressa, levantando o Magnum... mas era apenas um pedacinho de papel enfiado por baixo da porta. Renshaw notou sombriamente que a fresta sob a porta era pequena demais para que até mesmo um deles conseguisse passar. 

No papel estava escrito, com letra muito miúda: Renda-se 

Renshaw sorriu com ar sinistro e guardou o fluido de isqueiro no bolso do peito. 

Encontrando um coto de lápis, escreveu a resposta no pedacinho de papel e o empurrou por baixo da porta. A resposta era: VÃO À MERDA 

Seguiu-se uma súbita e cegante barragem de foguetes e Renshaw recuou. Os foguetes descreviam trajetórias curvas, entrando pelo buraco na porta, e explodiam contra os azulejos azul-claros acima do cabide de toalhas, transformando a elegante parede num panorama lunar em miniatura. Renshaw cobriu os olhos com a mão para proteger-se dos estilhaços de azulejo e reboco que voavam para todos os lados. Sua camisa apresentava buracos fumegantes e suas costas ficaram pipocadas. 

Quando a barragem cessou, Renshaw entrou em ação. Subiu na beirada da banheira e abriu a janela corrediça. Estrelas frias piscavam para ele. Era uma janela estreita, com um estreito ressalto horizontal pelo lado externo do prédio. Mas não havia tempo para pensar nisso. 

Renshaw içou-se para a janela. O ar frio castigou-lhe o rosto e o pescoço lacerados como uma mão espalmada. Estava inclinado sobre o ponto de equilíbrio das mãos, olhando diretamente para baixo. Quarenta andares de altura. Dali, a rua parecia mais estreita que os trilhos de uma ferrovia de brinquedo. As luzes brilhantes e cintilantes da cidade pareciam faiscar loucamente, como pedras preciosas jogadas a esmo. 

Com a agilidade de ginasta bem treinado, Renshaw ergueu os joelhos até apoiá-los no peitoril da janela. Sim, se um daqueles pequenos helicópteros entrasse agora pelo buraco na porta, um tiro no traseiro seria o bastante para que ele caísse verticalmente, gritando através do espaço. 

Mas nenhum entrou. 

Renshaw torceu o corpo, lançou uma perna para fora e esticou a mão para o ressalto superior, segurando-o com firmeza. Um segundo depois, estava em pé no ressalto exterior à altura do peitoril. 

Evitando deliberadamente pensar na queda horrível sob seus calcanhares ou no que aconteceria se um dos helicópteros saísse para persegui-lo, Renshaw esgueirou-se em direção à esquina do prédio. 

Cinco metros... três... Pronto! Parou, o peito comprimido de encontro à parede, as mãos espalmadas sobre a superfície áspera. Podia sentir a lata de fluido de isqueiro no bolso do peito e o peso do Magnum enfiado na cintura das calças. 

Agora, contornar a maldita esquina. 

Suavemente, ele deslizou um pé em torno da esquina e passou o peso do corpo para ele. 

Agora, o ângulo reto estava comprimido como o gume de uma navalha contra seu tórax e abdome. Na pedra áspera em frente a seus olhos havia uma mancha de excremento de aves. Cristo! ― refletiu ele loucamente. ― Eu não sabia que voavam tão alto. 

Seu pé esquerdo escorregou. 

Por um instante incrível, que lhe pareceu eterno, Renshaw vacilou na beirada, o braço direito remando doidamente para recuperar o equilíbrio. Então, agarrou os dois lados do prédio num abraço de amante, o rosto espremido contra a quina dura, a respiração trêmula e ofegante. 

Pouco a pouco, fez o outro pé contornar a esquina. 

A nove metros de distância, projetava-se o terraço de sua sala de visitas. 

Renshaw chegou silenciosamente até lá, respirando de leve. Por duas vezes foi obrigado a parar quando fortes rajadas de vento ameaçaram arrancá-lo do ressalto. 

Então, atingiu o terraço, agarrando-se às grades de ferro. 

Pulou-as sem fazer ruído. Deixara as cortinas meio abertas por dentro da porta corrediça de vidro e agora espiou cautelosamente para o interior da sala. Eles estavam exatamente como ele queria ― de costas. 

Quatro soldados e um helicóptero tinham ficado de guarda ao baú. O resto estaria em frente à porta do banheiro, com o lançador de foguetes. 

Muito bem. Invadir como a polícia, exterminar os que estavam perto do baú e fugir pela porta da frente. Então, um táxi até o aeroporto e um vôo direto até Miami, para encontrar a garota de idéias brilhantes de Morris. Refletiu que gostaria de queimar a cara dela com um lança-chamas. Seria justiça poética. 

Tirou a camisa e rasgou uma comprida tira da manga. Largou o resto, que lhe caiu aos pés, e mordeu a ponta de plástico da lata de fluido de isqueiro. Enfiou uma ponta do trapo na lata, retirou-o e depois enfiou a outra ponta, empurrando o pano até que restavam apenas quinze centímetros de tecido embebido em fluido fora da lata. 

Pegou o isqueiro, respirou fundo e o acendeu. Levou a chama ao trapo e, quando este se inflamou, abriu violentamente a porta de vidro e mergulhou para dentro da sala. 

O helicóptero reagiu imediatamente, dando um vôo rasante suicida contra Renshaw enquanto este rastejava pelo tapete, largando respingos de fogo líquido. Renshaw golpeou-o com o braço, não se importando com o choque de dor quando as lâminas lhe rasgaram a carne. 

Os pequenos infantes fugiram para o interior do baú. 

Depois disso, tudo aconteceu depressa. 

Renshaw jogou a lata de fluido de isqueiro. A lata se incendiou, transformando-se numa bola de fogo. Logo em seguida, ele recuou, correndo em direção à porta da frente. 

Jamais soube o que o atingiu. 

Foi como o baque de um cofre de aço caindo de uma altura respeitável. Só que aquele baque sacudiu todo o arranha-céu de apartamentos, vibrando pela estrutura de aço. 

A porta da frente do apartamento de cobertura voou das dobradiças, chocando-se com a parede oposta do hall. 

Um casal que caminhava de mãos dadas na calçada olhou para cima a tempo de ver um grande relâmpago branco, como se uma centena de flashes fotográficos fossem disparados simultaneamente. 

― Alguém causou um curto-circuito ― disse o homem. ― Creio que... 

― O que é aquilo? ― perguntou a garota. 

Algo caía preguiçosamente na direção deles; o homem estendeu a mão e pegou no ar. 

― Cristo! É a camisa de alguém. Cheia de furinhos. E de sangue, também. 

― Isso não me agrada ― disse a moça, nervosa. ― Chame um táxi, está bem, Ralph? Se aconteceu alguma coisa lá em cima, teremos que falar com a polícia e meus pais não sabem que saí com você. 

― Claro. 

O homem olhou em volta, avistou um táxi e assoviou para chamá-lo. As luzes de freio se acenderam e o casal correu para o veículo. 

Atrás deles, sem ser visto, um pequeno pedaço de papel desceu lentamente do alto do prédio e caiu perto dos restos da camisa de John Renshaw. Trazia escrito numa caligrafia inclinada: 

Ei, garotada! Um brinde especial neste baú do Vietnã! 

(Promoção por prazo limitado) 

Lançador de Foguetes 

20 Mísseis terra-ar "Twister" 

1 Arma Termonuclear em Escala.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Bruxaria


Palha no fogo, e ele sobe, aumenta, esquenta meus pés. Remexo e giro o líquido, no outro sentido, e as bolhas tornam-se lentas, a estourar preguiçosas. Tornam-se grossas, azuis, e índigo também é a fumaça que agora se desprende, em espirais loucas, alucinadas, deixando a visão turvada, visão que não é minha, inflando o lugar em êxtase. Uma bolha estoura, minha pele sua, tremendo de gozo pelas carícias da fumaça, ansiando as delícias cantadas em seu aroma. Mas espero, me contenho, ou outras vontades o fazem, pois já não sou eu, mas instrumento. Meu braço treme, lento, envolvido pelas finas brumas, que devagar giram o líquido, perdido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.


Então, sem aviso, anúncio ou sinal, a fumaça muda, descolore para um negro sepulcral, escurece a sala. Tudo se apaga, as paredes, o fogo, os sons. Sou apenas eu, eu e o líquido, que gira. Já não há bolhas, mas uma camada lisa, fina, frágil qual espelho, a deslindar certeiro uma cena ao luar. Sim, vejo a Lua, a mãe, brilhando entre os prédios cinzentos, brigando com a luz dos postes um direito a iluminar. E numa viela escura, fedendo a sangue e urina – sim eu sinto – vejo uma menina, miúda, vítima do desejo do homem que a segura, que rasga suas vestes e procura seu corpo. Sinto o gosto de sangue na boca da menina, vejo o sangue escorrer de seu queixo. Ela grita, não há som mas a ouço, ela grita, mas só eu a ouço. Os braços fortes lutam contra o corpo frágil, ela chora, ele ri, animal afoito, ri e se esfrega nojento. As sombras a minha volta se agitam – ou seriam as brumas? – e sinto o cheiro de morte. Morte. A menina grita, o homem ri, ri satisfeito e finalmente a deixa. A garota morre, e a cena treme, turva e se desfaz, o passado é frágil na superfície de um caldeirão. Agito o líquido, ansiosa. E sinto a angústia que a menina deve ter vivido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.

A sala escurece mais, se é possível. Vejo minha mão erguer o punhal, terrível, e estendo o outro braço. A pele chora o sangue que derrama, avermelhando o líquido. A dor é grande, mas não é sequer um traço, da que está por vir. O líquido desprende rubra fumaça, que inflama instintos assassinos, instintos tentadores, mas que renego. Ouço a bruma exigir mais sangue, meu corpo sua de raiva e ódio, minha mão ferida treme por vingança. Ouço a bruma que dança, mas nada faço, senhora que já não sou de mim. Enfaixo o braço ferido, e vejo nova cena na superfície carmesim, e na cena vejo um homem, o mesmo de antes, dormindo tranqüilo seu sono impune. Vejo minha mão – já não a minha – buscar um pequeno estojo num bolso do vestido. Sinto uma tontura. Dentro do estojo, um fio de cabelo, da mesma cor escura dos cabelos da menina, morta há sete dias, naquela noite fria, nas sombras da rua. O fio brilha na fumaça rubra, o cabelo da vítima. E dói meu braço. A dor é grande, mas não é sequer um traço, da que está por vir. O homem contrai o rosto, como se esperasse. E jogo o fio na cena rubra, e o líquido borbulha, e borbulha e borbulha. Mexo o caldeirão. Ouço enfim, claro, um grito, de dor acometido. O líquido gira, e também giram meus sentidos.

Com força eu giro, e a cada volta o grito aumenta, a dor aumenta, o desespero vem. Sinto o medo, o medo dele, o medo que sente, eu sinto também. Agora sou ele, ele eu, sinto os lençóis ásperos de sua cama, e o suor frio de seu corpo. O grito acaba, morre em minha garganta, e acordo assustada, tremendo ainda o sonho que tive. Ouço, ouço claro, um barulho à minha janela, e vejo a Lua, e sinto medo. Então, no vidro refletido, vejo meu rosto, o rosto dele, o pânico crescendo. Pois vejo, no reflexo, uma sombra se erguendo, atrás de mim, a sombra de uma menina, pálida. Ela me olha, me odeia, e eu sequer tenho coragem de voltar meu rosto. É ela, descubro, é ela, a menina da noite escura! A menina que feri, que invadi e abandonei, é ela, como pode? É ela! Eu a vejo andar, no reflexo da janela, devagar, sair das sombras à passos leves – não ouço passos, mas o roçar de tecido. Ela voltou, voltou pelo crime cometido, veio cobrar o sangue que lhe derramei. Sinto o colchão tornar-se morno, molhando minhas pernas e o lençol, encharcando a cama com urina. Ela estende o braço, vejo no reflexo, em minha direção. Desesperada, eu grito: Não!, e  me viro finalmente. A dor é tremenda, o desespero, maior! Vejo o terror nunca antes visto, e ouço o grito que grito, terrível, perfurando meus ouvidos. E vejo enfim minhas mãos, minhas mãos que giram, giram o líquido, de tom verde agora, como era no início. E vejo as brumas se dispersarem, como se ali nunca estivessem, deixando a sala, o caldeirão, a mim. Sinto o cansaço pelo encantamento proferido, volto a ser eu, eu mesma, eu bruxa. E vejo minha mão que teima em girar o caldeirão.  A saudade da filha é menor, o culpado foi punido. O líquido gira, e ainda giram meus sentidos.

Fonte: http://contosdelitfan.blogspot.com.br

Brincando com o Desconhecido


Sexta-feira, 23h50min. Acenderam algumas velas vermelhas pelos cantos da sala, sete amigos sentados formando um círculo e, no centro deles, uma tábua contendo todos os algarismos, todos os números de 0 a 9, um SIM e um NÃO. Temerosos, mas excitados com o que poderia acontecer, olham um na face do outro. Com um sinal de concordância dado por Michel, o mais velho entre eles, Rafael colocou sua mão sobre o copo virgem que se encontrava com a boca para baixo sobre a tábua: 


   -Tem alguém aí? Tem alguém aí?

   - Nada, nenhum movimento do copo, apenas uma tremedeira causada pela mão do jovem Rafael. Todos olhavam em volta, sentindo um leve calafrio que lhe percorriam a espinha. Um leve vento frio entrou janela adentro. Núbia, a única garota do grupo, pediu para pararem, mas foi alvo das chacotas de Michel:

   - Sabia que não deveríamos trazer uma mulher com a gente!

   - Está com medinho?

   - Corre para debaixo da saia da mamãe e deixe que os homens continuem aqui.

   Núbia abaixou sua cabeça, encobrindo a vergonha, mas não se levantou. Na verdade, todos ali estavam com medo, mas nada diziam temerante às gozações de Michel. Sob a ordem dele, Rafael voltou a pôr a mão sobre o copo e novamente questionar:

   - Tem alguém aí? Tem alguém aí?

   A janela bate quase derrubando a parede; um vento forte e gélido corre por entre a sala como se em círculos; as luzes piscam. Núbia foi tomada por um desespero. Chorava e, aos gritos, pedia para pararem com aquilo, mas não foi ouvida. Rafael, também amedrontado, tentou tirar a mão do copo, mas foi impedido pelas mãos de Michel:

   - Vai, continua! Continua!

   Núbia se levantou aos prantos e correu para a cozinha. Seu pavor estava totalmente fora de controle. Rafael, ainda obedecendo ao amigo, continuou:

   - Tem alguém aí?

   Antes que perguntasse novamente, o copo se moveu: SIM. Todos ficaram paralisados. As mãos trêmulas de Rafael já não conseguiam mais segurar o copo. Todos os seis se juntaram ainda mais, um se se encostando ao outro, espremidos em seu medo, mas atentos à tábua. Rafael, em soluços, voltou novamente a questionar:

   - Quem é você? Quem é você?

   O copo voltou a mexer indo em direção aos algarismos. Tomados pelo medo e pela curiosidade, eles fixaram os olhos na tábua, enquanto o copo continuava a se mover: E, U, P, E, D, I, P, A, R, A, P, A, R, A, R, E, M, Michel repetiu a frase soletrada:

   - Eu pedi para pararem...

   Todos olharam em direção à cozinha, para onde Núbia teria corrido, mas se depararam com a jovem em pé atrás deles, segurando uma faca de cozinha nas mãos. Com um só golpe, cortou a garganta de Michel, jorrando sangue em todos os outros. Rafael se levantou em direção da amiga tentando segurá-la, mas a força da jovem, naquele momento, era incrível. Atirou Rafael na parede e lhe estocou a faca em sua barriga. Os outros se agruparam no canto da sala, aos berros. Queriam correr pra fora, mas Núbia estava posicionada na única passagem possível.

    Os berros que vinham da casa chamaram a atenção dos vizinhos. Um deles, mais do que depressa, chamou a polícia, que chegaram 30 minutos depois. Quando já não se ouvia mais nada vindo de dentro da casa, uma multidão se formou defronte à residência. Com o aparecimento da polícia, todos queriam saber o que aconteceu. Um dos policiais abriu a porta da sala com os pés. Deparou-se com Núbia sentada no sofá, coberta por pedaços de corpos e sangue, como se em estado de catatonia apenas repetia a frase:

    - Eu pedi para eles pararem! Eu pedi para eles pararem! Eu pedi...

Fonte: http://lercontosdeterror.blogspot.com.br