quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A Guilhotina

Pio Neto despertou com a impressão de uma torquês espremendo os miolos, um sentimento de urgência indefinível lhe abarcava o peito, sentia a necessidade de encontrar uma perspectiva para a vida que escorreria imutável e desolada nas próximas vinte e quatro horas – durante toda a eternidade. Permeando a irrealidade estabelecida entre o sono e o despertar, a angústia era tão intensa que teve ímpetos de gritar como se o som de sua voz fosse uma lança de libertação exigindo arremesso.

O dia nascia, anunciado pelos pardais na árvore da calçada, uma maldita árvore que despejava camadas de flores na primavera, dilúvio de folhas no outono, torrentes de bagas inúteis e estalantes no verão e, no inverno, apresentava a tristeza de cão sarnento. Veio-lhe aos ouvidos batidas fortes numa porta e em seguida a voz possante, autoritária, do pai:


– Eleonora, quer sair já desse banheiro!

– Já vou, que diabo!

– Saia já! Vou perder o avião!

Mentalmente Pio Neto reproduziu a cena: seu pai, o influente deputado, grande como hipopótamo, a andar nervoso à frente do banheiro, as cuecas quase escondidas pela imensa barriga, a toalha jogada displicentemente sobre um dos ombros peludos. Por que o velho não se dirigia a outro banheiro? Na casa havia vários.

Minutos após a porta abriu-se e – splash! – o tapa ribombou seco pelo ambiente e quase no mesmo instante – splash! – veio a réplica. Pio encolheu-se na cama, os ouvidos queimando com as altercações dos dois, os palavrões, as mágoas, as acusações, o ódio explícito. Aquela violência o punha doente, fraco, desprotegido. Uma violência que muitas vezes extrapolava aquele universo dual e acabava sobrando para si – e tal coisa Pio sabia desde que se conhecia por gente.

Só muito tempo depois, quando o pai saiu junto com a mãe, ambos no mesmo carro – ela o levaria ao aeroporto e em seguida iria para sua loja, um antiquário – é que Pio Neto teve forças para mover-se. Sentou-se na borda da cama e com mãos trêmulas alisou os cabelos de um castanho avermelhado, cortado à escovinha. Esfregou o rosto, fervilhando de espinhas, onde a barba primeva atenuava as crateras e relevos furunculares – uma barba fulva e estacionada no mesmo ponto de crescimento há quase um ano. Como em todas as manhãs, acudiu-lhe o conselho lido numa revista pseudocientífica para que a raspasse diariamente, só assim os pêlos tonificar-se-iam. Mas, e as espinhas? Se metesse um aparelho de barbear nas faces, em pouco seu rosto se transformaria numa pasta sangrenta.

O corpo de Pio Neto içou-se da cama. De pé, apoiou as mãos à cintura e fez um pequeno exercício pendular – doíam-lhe as pernas, os braços e, sobretudo, a região do pescoço. Sabia que todas aquelas sensações estavam relacionadas ao sonho que tivera no decorrer da madrugada – um sonho repetitivo que jamais era capaz de reconstituir. Calçou os chinelos, ali, sobre o tapete felpudo e, vacilante como um junco em meio a ventanias, dirigiu-se ao banheiro. Quando ia arriar as calças do pijama, notou uma correição, um batalhão de formigas negras, cabeçudas, surgindo da fresta dum cantinho junto à banheira – um orifício minúsculo, do tamanho de um grão de ervilha. O batalhão cruzava toda a parede, subia no armarinho de Eleonora com seus produtos de beleza e higiene pessoal, infiltrava-se pior detrás do espelho e perdia-se em seus recônditos.

Tomado pela curiosidade, resolveu investigar o fenômeno. Abriu o armarinho e viu que a correição alojava-se numa caixa onde, presumivelmente, deveria haver uma escova para cabelos. Retirou a caixa e despejou o conteúdo na cuba da pia. Ao invés da escova caiu um crucifixo enorme, de prata lavrada. A mãe, ele sabia, era uma mulher que se apegava à fé porque não conseguia dominar seus demônios íntimos – o que ela precisava era de um psiquiatra, não de padres, sentenciou de si para si. Com vago sentimento de piedade, Pio Neto recolocou tudo de volta ao armarinho.

***

Pio Neto banhou-se; no quarto vestiu uma calça de brim, uma camiseta branca. Na cozinha preparou no micro-ondas uma xícara de chá, desses de saquinho, que tomou acompanhado de uma fatia de queijo. Pegou uma pêra no refrigerador e foi comê-la lá fora, sentado na guia da calçada. O inverno ainda não terminara, mas o vento matutino e o sol cálido e excessivamente brilhante eram de primavera. Notou que alguém estava de mudança para a casa vizinha – homens com uniforme de uma empresa transportadora retiravam móveis do caminhão: uns baús misteriosos, uma cama de ferro enorme, um guarda-roupa monstruoso envernizado de negro e, pelo jeito, de madeira maciça, dado ao esforço que faziam para carregá-lo. Uns móveis antigos, remotos, seculares.

Anteriormente naquela casa residiam os seus avós maternos – o velhinho morrera e no dia seguinte ao enterro Eleonora metera a mãe num asilo e no quintal da residência plantou uma placa de Aluga-se.

Da cabina do caminhão saltou uma mulher vestida de negro, um traje absurdo, mas a Pio Neto vagamente reconhecível: um chapéu emplumado, o vestido longo todo em veludo e rendas, tão armado que ele interrogou-se sobre como tudo aquilo coubera na boleia do veículo – o negror era faiscante. A mulher, vendo-o, acenou com a mão sem um sorriso nos olhos ou boca. O rosto era inacreditavelmente pálido e de supetão um calafrio percorreu a espinha dorsal de Pio Neto: Deus, aquela era a mulher que aparecia em seu sonhos obscuro que vinha tendo nas últimas noites!

No sonho ele, Pio Neto, estava ali mesmo, no quarto, envolto em penumbra – pela fresta da porta entreaberta filtrava a luz que na cozinha devia ser feérica. Com a luz, vinham as vozes ásperas de seus pais na eterna discussão surgida dos assuntos os mais triviais. Trêmulo, Pio Neto sabia que aquela violência acabaria convergindo para si. Então a porta era totalmente aberta com estrépito e seu pai, gordo como um capado, e sua mãe, de magreza histérica, apontavam-no em muda e acusação. Pio Neto conseguia fugir do quarto, alcançava o quintal, a rua. Uma chuva súbita começava a cair, o vento oscilava furiosamente as árvores – abocanhava o mundo. Era preciso proteger-se do tempo feroz, dos pais raivosos, de si mesmo. Dirigia-se à casa dos avós, penetrava por um alçapão aos fundos e que dava para o porão. Ali, no porão, o passatempo do avô: a coleção de objetos relacionados a Maria Antonieta, rainha de França: relógios, talheres, algumas cadeiras, sapatos, perucas, anéis, tiaras, fivelas, cintos, telas de pintura – no centro do porão, uma réplica da guilhotina. Pio Neto, tiritando de frio, encolhia-se num canto e logo surgia o avô, transcendental, sorrindo-lhe com doce e aconchegante ternura.

– Quer vir morar comigo? – perguntava o ancião.

– Quero sim, vovô – respondia Pio Neto, a voz ungida de felicidade e agradecimento. O avô então apontava a guilhotina – ao lado do instrumento de execução postava-se a mulher de negro. A soberana Maria Antonieta fazia um gesto convidativo e para o lado dela Pio Neto se encaminhava, determinado. Nesse preciso momento, acordava.

***

Eleonora chegou para o almoço por volta do meio-dia, ligou a um restaurante pedindo marmitex e trancou-se no quarto. Não tinham empregadas, exceto a mulher que aparecia três vezes por semana para a limpeza geral, cobrando diária. Empregadas fixas não ficavam nem duas semanas na casa, incompatibilizadas com o gênio de Eleonora. A última estava movendo ação criminal contra os patrões – fora sadicamente agredida por Eleonora, e como prova da violência trazia no busto a marca de quatro furos de um garfo.

Ao meio dia e meia Pio Neto e a mãe estavam frente a frente à mesa, comendo em silêncio. Era o que mais atingia Pio Neto: aquele silêncio sepulcral o punha nervoso, apreensivo, constrangido. Gostaria de ouvir a voz da mãe – quem sabe vislumbrar um sorriso? Já vira Eleonora sorrir às amigas, ao poeta José Petrarca – o jovem que se esgueirava para o quarto dela de madrugada, na ausência do marido, e que desaparecia invariavelmente às cinco da manhã, ao apito combinado com o guarda-noturno. Já vira a mãe sorrir para o entregador de pizza, para desconhecidos que eventualmente a cumprimentavam na rua. Mas dentro de casa era aquilo: silêncio e cara fechada – um abismo inexplicável de ódio e rancor.

– Para quem você alugou a casa do vovô? – indagou Pio Neto. Eleonora ergueu uns olhos interrogativos.

– Minha casa, você quer dizer. E quem falou que a casa foi alugada? – como a voz dela estava prenhe de acidez, Pio Neto respondeu baixinho:

– Eu vi a mudança.

Eleonora sorriu e, sarcástica:

– Viu? Ora, meu rapaz, você não tem mais idade para ficar criando fantasias.

– Eu vi – teimou Pio Neto.

– Viu porra nenhuma.

– Se eu disse que vi, foi porque vi.

Eleonora perdeu a paciência. Jogou os talheres sobre a comida e levantou-se. Foi ao quarto. Em dois minutos estava de volta, um molho de chaves na mão.

– Então vamos verificar essa mudança, seu retardado.

***

A mãe tinha razão. Além de um gasto chinelo esquecido num canto e das brancas teias de aranha nos ângulos das paredes – a casa estava fechada há dois anos – só o silêncio persistia nos aposentos invadidos pelas sombras. Eleonora esbofeteou o garoto e deixou o local, furiosa. Pio Neto pegou no chão o chinelo, com delicadeza limpou-o do pó e levou-o ao nariz, sentindo o cheiro dos pés do avô, um odor que lhe lembrava os córregos barrentos da fazenda onde iam pescar bagres e lambaris. Resolveu visitar o porão. Dirigiu-se ao quarto que fora de despejos e desceu pela escadinha, pressionou o interruptor de luz na parede e a forte claridade expôs aos seus olhos a desolação do ambiente. Eleonora havia levado para o seu antiquário a preciosa coleção do velho – mas a guilhotina continuava, solene e inquisitiva, imperando no centro do vasto cômodo. Seu avô sempre gostara de marcenaria e aquela guilhotina, construída por ele ali mesmo, era um colosso artístico. Para desmontá-la seria preciso alguém especializado – tantos encaixes, pinos, parafusos, arruelas – e Eleonora, talvez por inércia, foi adiando sua remoção e por fim dela acabara se esquecendo.

Pio Neto caminhou para o centro do porão e pôs-se a acariciar a guilhotina, suas colunas de sustentação. Riu saudosamente para si mesmo ao tocar a longa corda que liberava a grossa lâmina de aço cujo fio agudíssimo continuava rebrilhando. Embalado por nostálgicas lembranças do avô, Pio Neto vasculhou o ambiente com o olhar, a cata de outros detalhes memoriais. A um canto viu a velha manta de lã – a cama do cão Carnaval. Foi sentar-se onde o boxer do avô costumava dormir, lembrando-se do dia em que o velho surgira com o cachorro, um bicho miseravelmente magro e sarnento. A avó, odiando todo e qualquer animal doméstico, fizera um escarcéu monumental. Então, para que pudesse dividir o porão com o companheiro, que em pouco tempo ganhou pelugem brilhante e peso acima do normal, o avô fizera uma escadinha ligando o cômodo subterrâneo ao jardim através de um alçapão – o alçapão atualmente estava com a portinhola apodrecida. Com a morte do avô, fulminado por um ataque cardíaco, o cão não teve melhor sorte. Eleonora enterrou o pai, jogou a mãe num asilo e mandou um veterinário muito filho da mãe sacrificar o animal. Pio Neto a tudo assistira incapaz de um gesto de revolta, um grito de desespero – só teve lágrimas por sua irremediável covardia perante aquelas ações tão desumanas. Por que não brigara para que, ao menos, enviassem o bicho para a fazenda?

Pio Neto já estava a um bom tempo encolhido naquele canto quando começou a ouvir sons lamentosos, um cão gania, velhos choravam, crianças gritavam. Tapou os ouvidos com as mãos, encolheu-se ainda mais e começou a chorar baixinho.

Às dez da noite Pio Neto chegou à conclusão de que sua mãe não viria jantar em casa. Abriu o refrigerador: ali, um pedaço de queijo, verduras, legumes – só. Foi ao quarto de Eleonora em busca de algum dinheiro para um lanche qualquer. Encontrou no porta-jóias sobre a penteadeira alguns trocados – mas onde estavam os brincos de diamante, os anéis de variadas pedras preciosas, o colar de rubis e esmeraldas, as pulseiras, o reloginho Cartier de ouro cravejado de brilhantes?

Se bem que intrigado com o desaparecimento de tais preciosidades, achou que não tinha motivos para maiores preocupações: a mãe certamente as guardara no cofrinho ali na parede, sob um pequeno e autêntico quadro de Guignard – não lhe chamou a atenção o fato de, no lugar da tela, haver agora a foto emoldurada de Eleonora e o deputado, ele vestindo fraque, ela com o vestido de noiva.

***

Na lanchonete pediu pedaços de pizza e guaraná. Enquanto esperava o serviço, ficou a examinar o local e foi assim que deu com os olhos no artista plástico Antônio Palmeira, um mulato forte que, sabia Pio Neto, fora substituído nos lençóis de Eleonora pelo poeta José Petrarca – Pio Neto não compreendia o fascínio da mãe por pessoas assim: jovens dizendo-se artistas e inexoravelmente fadados ao fracasso. Palmeira, sozinho numa mesa e tendo à frente um copinho de cachaça e uma garrafa de cerveja, fez-lhe sinal, solicitando companhia.

Só depois de ver Pio Neto acabar de comer a pizza e tomar o guaraná, é que Palmeira deixou de falar de si mesmo e do futuro majestoso que o aguardava para dar vazão à mágoa.

– A vaca da sua mãe finalmente fez a maior besteira da vida... – E ante o olhar perplexo de Pio Neto, exclamou: – Vai dizer que não sabe?

Pio Neto apenas balançou a cabeça, não, não sabia de nada.

– Mas que vagabunda! – indignou-se Palmeira, bebadamente. – A cadela nem deixou um bilhete para o filho! Pois eu lhe digo, garoto: ela deu no pé com o Petrarca, o poetinha de merda. Foi embora, sumiu, escafedeu-se!

Pediu um conhaque à garçonete.

– Politicamente, seu pai vai se foder. Se pouca gente sabia que ele era um corno manso, agora a coisa vai sair nos jornais, a merda vai feder. Eu, pelo menos, espero que assim aconteça, torço feito um desgraçado. Vem cá, garoto, ela tem mesmo toda aquela dinheirama que arrota? Porque, é o que digo, o poetinha não tem onde cair morto. Tem fiado em todos os botecos da cidade... Vai moer toda a grana da ordinária e depois dar um solene pontapé naquele traseiro de tábua. É o que digo: a biscate da sua mãe se ferrou...

Um relâmpago riscou o céu, seguido dos trovões.

– Que tempo mais cagado – disse Palmeira –, durante o dia um sol de assar miolos, de noite esse vômito da natureza. Aliás, tudo isso tem a ver com meu estado de espírito... Porra, eu gostava demais da prostituta da sua mãe, garoto... – Súbito, começou a chorar. Chorou por uns dois minutos e em seguida limpou as lágrimas com a barra da camisa. – Eu estou bêbado, garoto, não tenha nojo de mim. Acho que já bebi mais de um litro de conhaque, não sei quantas pingas, dúzias de cerveja. Daqui a pouco o pessoal dessa espelunca vai ter que me arranjar um táxi, ora, eles já estão acostumados, regalias de freguês especial...

Pio Neto levantou-se. O artista plástico olhou-o, pela primeira vez tomando consciência do drama a desenrolar-se naquele cérebro juvenil. Quis dizer alguma coisa reconfortante, chegou a grunhir um lamento ininteligível, depois, com um sorriso compassivo, acenou um desolado adeus.

Assim que pôs os pés na calçada, o dilúvio começou.

A chuva estava tão forte, tão gélida, que o mundo era apenas uma espessa mortalha branca. O vento uivava e as árvores estalavam, um e outro galho eram arrancados e iam de roldão à enxurrada com mais de palmo de altura, fazendo rio das ruas. Uma mão forte segurou o braço de Pio Neto e arrastou-o para baixo de uma marquise de cimento armado de uma farmácia.

– Que faz no meio desse temporal, menino? – perguntou o guarda-noturno, embrulhado em sua capa de chuva. De repente lembrou-se de que por certo Pio Neto já deveria estar sabendo da fuga da mãe com o poeta. Acabrunhou-se.

– A vida é assim mesmo, garoto. Talvez aqueles dois a esta hora já estejam arrependidos. O Petrarca não vai aguentar sua mãe, pode ter certeza. Como ela é geniosa! – Calou-se, consciente de estar falando um monte de besteiras. Deu um tapinha nas costas de Pio Neto, e ordenou: – Vá, menino, vá para casa, toma um banho quente e se enfie debaixo das cobertas. Tudo vai acabar bem, você vai ver...

Mergulhado de novo no aguaceiro, Pio Neto aproximou-se da casa dos avós. Saltou o muro, deu a volta na residência e, aos fundos, ergueu a tampa apodrecida do alçapão e penetrou no porão. Dirigiu-se ao interruptor na parede e acendeu a luz.

– Quer morar comigo? – indagou o avô.

– Sim – disse Pio Neto. E determinado caminhou para o estrado, enfiou a cabeça na abertura entre as balizas do aparelho de execução. A rainha Maria Antonieta surgiu de repente a seu lado, suavemente tomou-lhe a mão e a conduziu para a corda que destravava a lâmina da guilhotina.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/08/a-guilhotina.html

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A flor de U'zltrilix


    Uma chance.  Um único risco.  Mas não recuarei. Desde a grande viagem o perigo a que me sujeito é o de viver. Devo imergir na névoa e encontrar a Flor de U’zltrilix. Nela reside uma resposta. Um recomeço. Um fim.  No entanto, a areia liquefez-se em vários pontos, perscruto e não vejo a passagem. Muitas vezes me questiono se existo ainda, que vontade é essa que me anima e me fez seguir até aqui?

    Parada sobre a planície rochosa, tenho consciência de ser. Existo ao aço frio das armas que empunho. Existo ao veneno corroendo meu sangue, minha morte e vida. No entanto, a força que me faz prosseguir para por alguns instantes quando revejo a Cidadela dos Antigos em escombros. Um universo de imagens e lembranças inunda meus olhos.


   A pirâmide de Zh’olquyz permanece ainda, o triste ápice de uma civilização extinta. Banhada à luz de uma estrela dourada em seus últimos lamentos a cada volta insana do planeta L’zuli. Meus olhos reviram a paisagem e ao longo do caminho, voltam-se mais uma vez ao pináculo de outras eras. Tão próxima a pirâmide, a nave de meu pai. Ziurtiw enlouquecera antes da partida e tentara destruir a pirâmide onde os antigos repousavam. Sua punição com a morte foi um sinal de que a paz findara, apenas a nave permaneceu. Forjada nas longas viagens pelo mar de rocha líquida, paira sobre o deserto de areia, parecendo flutuar neste oceano de grãos, enquanto poucas torres escoram-se uma nas outras, resistindo ainda. Meus sensores brilham iridescentes: há vida na base de Zh’olquyz, um murmúrio animado oculto sob a nuvem de areia.  Aspiro em busca de coragem para descer e enfrentar meu destino. A mesma coragem de meu pai quando se negara a me deixar aqui.

    Enquanto meus pés se movem e mergulho na estranha porosidade, não deixo de pensar no mar que nunca vi, o mar de rochas liquidas de L’zuli que brilharia sob a luz como a cidadela morta aos raios que a cobrem. Estende-se em meu caminho um mar de areia, posso sentir a densidade pérfida a me espreitar, oculta sob as brumas amareladas, todavia, persisto. Os fragmentos de areia que se contraem e se movem sinuosos em torno das ruínas me envolvem numa recepção horrenda. Outrora, quando apenas uma garota frente ao inexorável, talvez meus instintos me fizessem desistir, mas a dúvida me intriga.  Serei de fato a última? Percebo em mim a vontade intrínseca de não estar só, de ser apenas uma em meio à multidão, um rosto na muralha espiando a vida passar. Entanto, esse direito não é o meu. A multidão já não existe, os resquícios da última viagem permanecem nas brumas de L’zuli, um som atemporal e terrível em sua beleza, a música do adeus me atormenta. Todos os outros desapareceram quando os zh’olquynez nos deixaram.

    Depois que se foram, fiz muitas pesquisas sobre lendas e seres desconhecidos em busca de uma explicação para a chegada dos antigos. Éramos então selvagens em guerras constantes, matéria bruta lentamente dilapidada em direção a suprema tecnologia para enfim, termos a paz.

    A tecnologia dos antigos consistia em juntar cada átomo e dessa misteriosa condensação construir o inimaginável. Este poder unificou as tribos e os zh’olquynez propiciaram o surgir de uma era iluminada, de cada mínima partícula os mestres criaram maravilhas. Elementos nunca vistos antes construíram nosso mundo, ampliaram o poder de nossa estrela já em decadência.

    Caminho entre as ruínas e a areia entranha-se em mim, mas meus olhos estão protegidos dos grãos cortantes, feitos por esses mesmos elementos que outrora nos maravilharam. Sou uma filha dos antigos. Há algo sob a minha pele que me salva a cada dia, cura meus ferimentos e impede que o tempo me leve. A regeneração molecular foi um presente para poucos, para escolhidos. Para os que seriam deixados para trás. Por que fiquei? Eis a resposta que busco na Flor de U’zltrilix. Cresci sob as muralhas de Zh’olquyz, quando os dias eram promissores e iluminados. Alguns rumores me despertam dos devaneios. Sinto uma força que deseja me deter e os grãos investem contra mim. Fustigam-me mas não podem me atingir.

    A cidade fantasma parece me espreitar. Os resquícios do antigo esplendor são grãos que se espalham como uma imensa epidemia enquanto a vida se esvai do planeta. Dilatam-se por toda parte. Nossa estrela se derrama sobre as ruínas e seu calor me traz vontade de chorar. Não lembro qual o gosto de uma lágrima. Não se pode chorar em L’zuli. As noites estão cada vez mais curtas e o planeta gira veloz, vazio da vida que nos corrompia, num eixo que altera-se inesperadamente. Ocasionalmente, as línguas de fogo emergem do céu e atravessam a névoa de areia e, assim, vejo os destroços de minha cidade natal e sombras de animais mutilados e acovardados que se ocultam num ultimo ranço de vida. Insetos minúsculos passeiam pela carcaça de arqysfs gigantesco. Onde ele chorou, acumularam diamantóides raros.  Guardo minhas armas e penso mais uma vez no mar desenhado na voz de meu pai. Eu nunca vi o mar. Apenas areia sobrevive em meus olhos e procuro por ela.

    Por muito tempo, a Flor de U’zltrilix foi uma lenda, um mito entre os que ficaram, mas eu estava presente quando o portal foi construído, vi quando exalou pela ultima vez seu perfume. O portal aumentava em uma junção de minúsculas partículas, cada fragmento de L’zuli se movimentava - alguns invisíveis para nós – unindo-se na construção da passagem e finalmente o caminho para as estrelas apresentava-se. Aquele fora um grande dia para todos, os antigos despertaram do seu longo sono e estavam cada vez mais próximos de nós. Deuses e servos unidos em um bem comum.

    Com o tempo, meus estudos revelaram que a mágica dos antigos possuía um nome, eram nossos deuses nanotecnólogos. Um conhecimento superior que nos parecia magia, pois quando ordenavam, toda matéria se reorganizava e maravilhas surgiam. Os senhores das miudezas eram na verdade uma etnia de cientistas colonizando o universo. Exploradores. Colonizadores. Nômades. Os zh’olquynez eram um povo pacifico, mas ávidos pelo novo, pela modernidade e principalmente, pela eternidade. Usavam a sabedoria e o conhecimento em busca da paz e quando a conseguiam, dormiam por longos anos, assim, eternizavam-se por eras e eras, no entanto, seu legado foi-nos terrível. Quando as caravanas deixaram Zh’olquyz, eu era ainda uma criança. Uma criança escolhida, bendita e amaldiçoada.

    No dia da grande viagem, por cima da muralha, espiávamos a passagem dos antigos. Seguiam lentamente enquanto os sons dos bambus cortavam o ar e ricocheteavam no silêncio que trazíamos. Pela primeira vez eu vi os grandes arqysfs, quando eles erguiam os olhos e suas longas presas cinza para nós, seus gritos ecoavam pelo deserto e uma dor que jamais esqueceríamos nascia-nos. Os arqyfs eram o mais antigo símbolo de L’zuli. Podíamos ouvir ainda os murmúrios dos anciãos e o grito das mães que ficavam. O sopro do chamado ultrapassava então as planícies e eles continuaram chegando por muitos sóis. Tribos de todos os lugares e os imensos arqyfs, animais tão grandes e sábios que apenas sua presença trazia-nos amor e a certeza de que nada mudaria. No entanto, eles emitiam seus lamentos junto ao som das flautas e tudo se impregnava de melancolia. Sob essa orquestra víamos o fim de nosso lar. Os zh’olquynez levariam uma grande parte da população com eles em busca de um novo mundo, mas muitos ficariam. Eu fiquei na cidade vítrea, que ainda resplandecia.

    As grandes pirâmides, os navios, as naves e todo o centro de L’zuli estremeciam, um mundo abandonado e fustigado pelo tempo até transformar-se nesse mar dourado por onde caminho ainda hoje. Os poucos que ficaram pereceram, outros se foram para lugares distantes em busca de novos portais. Raros tornaram-se insanos em meio a solidão.

    Não sei quanto tempo se passou, mas finalmente eu a vejo. Sob a base da pirâmide de cristal, a flor se revela. Um gosto amargo confirma o que suspeitei desde o inicio de minha jornada. A flor de U’zltrilix é um montador universal. O centro da tecnologia dos zh’olquynez. Uma máquina capaz de construir infinitamente o que se desejar, programada para não replicar-se. No entanto, na busca por novos elementos, os resíduos de tanta evolução viajaram pela atmosfera do planeta, não havia distancia para impedir que espalhassem. Muitos morreram. E foi o fim de L’zuli. A vegetação morria aos poucos, logo as pessoas adoeceram. A vitalidade fora absorvida por aqueles seres imortais e somente a rosa pérfida permaneceria...

    Quando o deserto ameaçou o planeta, os antigos despertaram e a construção do portal começou. Houve então muita tristeza que jamais os lamentos do povo poderão deixar essa atmosfera. Um novo mundo, em outra galáxia, foi o escolhido.  Olho as estrelas e penso nos antigos. E por isso ficamos, a flor deve ser preservada para que o portal permaneça. Eis a minha função para que um dia, talvez, eles possam voltar em busca de novos mundos.

    E por isso devo destruí-la.

    O planeta azul não é desprovido de vida. Viviam lá humanóides em estado de selvageria. Um dia, as pirâmides irão se espalhar e mais uma vez alcançarão níveis inimagináveis de paz a um preço insano. Desconheço o destino dos que outrora chamei de meu povo. Se dormem com os deuses, ocultos em pirâmides de cristal tampouco, sei apenas que se foram e seu destino era o terceiro planeta em direção a uma estrela média, um sol menino. Neste planeta chamado Terra eles recomeçariam.

    E girarão vorazes mais uma vez, roubando a energia vital ou terão a chance de um novo mundo? Talvez outro portal me dê a resposta, este já não me permite a passagem, mas envio ainda assim a nossa saga, a história de um planeta que, outrora coberto por pirâmides e luz, adormece sob uma névoa de areia e murmúrios de outras eras.

    Um planeta por onde vago em busca de outras flores. Flores que devo destruir até que somente a areia cubra-nos e nunca mais o solo de L’zuli seja profanado. Pois sou apenas uma guardiã do infinito. 

Fonte: http://contosdelitfan.blogspot.com.br

domingo, 8 de janeiro de 2017

A Fazenda dos Florence


Sempre soube dos rumores a respeito da propriedade dos Florence. Na pequena cidade onde nasci nenhuma criança se aventurava ao longo da estradinha de terra que levava aos portões enferrujados da velha fazenda ao sul. Desde cedo, em suas residências, lhes era ensinado a temer a estranha família. Ao longo dos anos faziam com que acreditassem que os Florence eram malvados, perigosos, diabólicos. Mas era mais do que isso. Lembro-me de que, certa noite, ao pé da lareira com meu pai, o ouvi contar para todos nós, de sua casa, como a triste família se havia perdido nos caminhos das trevas; como havia trocado as bençãos de Deus pelas falsas promessas de fortuna feitas pelas coisas que andam no inferno e que eles evocavam graças aos poderes da velha matriarca. Ainda me causa calafrios a maneira como meu pai parecia acreditar em tudo o que contava e a forma como ele nos advertia para manter distância, pois aquelas pessoas eram monstros reais que, em noites enluaradas, vagavam soltos dentro dos limites da velha propriedade. "Foram os demônios que os mudaram, meus filhos" dizia meu pai, e seus olhos faiscavam iluminados pelas chamas vermelhas do fogo voraz na parede.

Depois que cresci, deixei a localidade e me mudei para a capital. Meus pensamentos se voltaram para coisas mais importantes. Estudei, graduei-me com honras no curso de Física e assinei um contrato com uma multinacional. Casei-me com uma mulher cuja beleza impossibilitava-me de admitir, mesmo lá em meu íntimo mais profundo (este que sempre acaba assomando em nós nas horas da madrugada), que pudesse haver no mundo algo tão horrendo quanto o que diziam existir em minha terra natal. Hoje entendo que estas histórias sempre me acompanharam e que todo o meu destino convergiu para a noite fatídica de que vos falarei agora.

A última lembrança que guardo de meus tempos de criança é de ouvir a gritaria das pessoas na praça central. Enfurecidas, elas corriam em torno de uma carroça numa noite de inverno. Havia armas nas mãos de muitos e a exigência de que os estranhos Florence devolvessem aos pais uma menina loura que desaparecera. Recordo-me do velho xerife tentando conter a massa que surpreendera alguns membros da amaldiçoada família tentando comprar medicamentos em uma farmácia.

Mas o que me toca mais profundamente até hoje é a lembrança do olhar que me lançou o mais novinho dos quatro que vi. Um garotinho enfermiço e de pele pálida e suja que me olhou de cima da carroça cercada por cidadãos ensandecidos. O pavor, o medo em seus olhos, causou-me repulsa àquelas pessoas; pois me fez sentir, de uma só vez, o peso dos anos de discriminação e banimento a que vinham sendo submetidos todos daquela fazenda isolada. Aquela criança, que como eu ainda olhava o mundo de baixo, já não era apenas mais um menino. Era um homem triste e assustado. Um pobre diabo acuado por todos os lados que perdera a infância antes mesmo de tê-la conhecido.

Nestes meus dias finais, quando não sei se o que me matará primeiro será a velhice, o câncer ou a vilania desta cidade grande e impiedosa, digo que o que havia de errado com aquelas pessoas dos Florence (a despeito daquilo que vi, à noite, em frente aos portões da velha fazenda - e que pode perfeitamente ter sido apenas o fruto de uma mente viciada) era tão somente o fato de eles serem pobres e, oriundos de distantes terras estrangeiras, manterem costumes diferentes dos da comunidade que tanto os demonizava. Penso comigo, em meio às minhas inúmeras reflexões de velho, se não foi pelo que presenciei naquela praça que resolvi, tempos depois, deixar a cidade. Acho que a vergonha cobriu meus passos desde então.

Foi assim que decidi, após a morte de todos que me eram caros, e quando a solidão deu asas à minha disposição para viajar, voltar à velha terra para saber o que afinal fora feito dos miseráveis fazendeiros. Sentia que pediria mil desculpas a qualquer deles que encontrasse pelo caminho.

Desembarquei no início da noite na mesma praça central que tanto povoara minhas más lembranças por mais de cinqüenta anos. O ônibus que me trouxera só perdia em decrepitude para aquele horrendo centro em ruínas. Espantava-me e me mortificava ver que nada mudara! Tudo permanecia exatamente como eu deixara e, por alguns instantes, esperei mesmo ver a carroça dobrando mais uma vez a esquina perseguida pelos vândalos locais.

Na verdade aproximava-se um veículo escuro do ponto em que a principal cruzava com a dezesseis. Parou diante de mim e o motorista abriu uma porta ruidosa que já tinha visto dias bem melhores.

— Ei, Chapa! – Era meu amigo Warren Nesbel. Não era mais apenas gordo como antes. Agora estava calvo e abatido.

Depois que conversamos e relembramos aquilo que ainda não havíamos relembrado ao falarmos ao telefone no dia anterior, agradeci sua hospitalidade recebendo-me por dois dias em sua residência e, sem muita cerimônia, lhe pedi o carro de empréstimo.

— O que vai fazer? – Perguntou ele mesmo sabendo do que se tratava. E emendou:

— Olhe, amigo, nós não queremos saber deles. Pelo que me consta nem existem mais. Aquela terra toda está abandonada. Ninguém vai lá! Assim como sempre foi.– E me olhou com uma expressão realmente apreensiva em seu semblante flácido. – ah, o garotinho.. .– continuou ele. – O que te olhou... Não sabemos nada dele. Pode ainda estar por lá. – Depois ele se calou diante de meu olhar impassivo. E entregou as chaves.

Quando ia saindo da frente de seu endereço, ele me segurou pelo braço.

— Wilfred, por favor não vá lá. Deixe amanhecer pelo menos. Aquele lugar é um horror à noite.”

Mas eu estava irredutível e fiz menção de soltar meu braço de suas mãos. Ele afrouxou a pressão e, por fim, me largou.

Depois que dei a partida no motor, no entanto, ele bateu à janela do passageiro.

—Wilfred – disse ele. – Não saia do carro. Você não sabe o que anda por lá, no escuro! – Depois me deu as costas e entrou na casa bem iluminada. Eu sabia que ele me aguardaria e que, se houvesse alguma demora que julgasse inaceitável, chamaria a polícia e a mandaria em meu encalço.

Devo confessar que não foi sem um mínimo de apreensão que tomei a estrada abandonada que levava à fazenda dos Florence. Era de terra batida e dominada por árvores de copas tão espessas que tornavam a escuridão da noite ainda mais pétrea e intransponível. Tudo o que se podia delinear na escuridão fora do carro eram os raios de uma lua cheia que fazia vazar seus raios por entre as árvores e lançava, aqui e ali, barras de luz amarelada na estrada adiante. A fantasmagórica luminosidade ocre me possibilitava divisar vagamente partes do sombrio interior da floresta que margeava o caminho.

Em certos trechos a estrada era tão estreita que eu tinha a impressão de que o veículo não conseguiria seguir adiante, pois ficaria preso às margens altas pelos retrovisores. Do nível do solo, um observador a pé se sentiria como se subjugado por aqueles morros que se elevavam desde a beira do caminho e partiam terreno a dentro até atingirem as elevações mais altas no horizonte. A região era, assim, sem dúvida, terreno fértil para as fantasias do povo simples local e ali já haviam sido avistadas todo tipo de abominações horrendas atribuídas, obviamente, à maldição diabólica dos Florence.

De repente, a despeito de minha situação bizarra, vagando em alta madrugada por uma estrada abandonada em direção ao local onde diziam que monstros erravam ferozes e famintos, surpreendi-me buscando na memória algo que quebrasse a aura negativa que aquele lugar insistia em moldar em meu imaginário. Lembrei então de quando eu era um garoto de cerca de nove ou dez anos e Ernest Florence costumava brincar nas terras de nossa família. Saía da propriedade de seus pais e atravessava a cidade até alcançar nossa fazenda. Ali, pulava a cerca e escalava o grande carvalho que havia num ponto ermo da propriedade. Algumas vezes eu o avistava ao longe recortado contra o poente, magro, cabisbaixo, solitário em meio aos galhos balouçantes. Recordei a vez em que eu fora ao seu encontro. Por algum motivo ele não se apressou em se afastar como normalmente fazia quando alguém tentava se aproximar; também por esta época a perseguição brutal e imoral a que sua família era submetida ainda não alcançara os paroxismos do famigerado “dia da praça”.

Ele simplesmente saltou dos galhos da árvore e ficou lá parado me observando diminuir a distância entre nos dois. Era louro, tinha olhos azuis aguados e um rosto afilado marcado por sarnas. Notei um número exagerado e inusitado de pelos escuros que brotavam precocemente de seu pescoço e aquilo me levou a crer que fosse bem mais velho do que eu imaginara ao vê-lo apenas de longe.

De repente ele sorriu para mim. Era algo estranho o seu semblante; como se, na verdade, não soubesse sorrir e se esforçasse para emitir uma imitação canhestra de um sorriso. Seu rosto, neste momento, me lembrou os dos manequins das lojas do centro. Depois ele me deu as costas e correu. Com incrível agilidade saltou por sobre a cerca e desapareceu rapidamente pela estrada.

Fiquei parado em baixo do velho carvalho imaginando como seria a vida de um garoto como aquele; nos motivos pelos quais diziam que ele e os seus eram monstros. E minha imaginação ia muito além do que costumavam chegar as imaginações das crianças de dez anos de meu tempo!

De súbito um brilho incomum me fez despertar deste semi-transe em que eu mergulhara, em meio às minhas recordações, e me trouxe bruscamente de volta à estranheza daquela estrada escura. Pareceu-me notar um reflexo amarelado e cintilante à margem esquerda do caminho. A velocidade do veículo, no entanto, não me permitiu vislumbrar nada com exatidão e, provavelmente, forneceu-me uma impressão errônea de ter avistado, na verdade, dois olhos enormes me espreitando do escuro. Perscrutei o retrovisor, mas nada mais pude divisar no trecho por onde passara.

À minha frente surgiu então o portão principal da propriedade dos Florence. O vento aumentara consideravelmente e ao estacionar o carro no acostamento, e desligar o motor, mesmo com os vidros erguidos pude ouvir os gemidos que ele provocava quando passava por entre as árvores na floresta. Mantive os faróis acesos pois percebera que a cerca de madeira da fazenda balouçava muito embalada pela forte movimentação do ar. No entanto a escuridão era tamanha que pouco as luzes do carro me ajudavam. Resolvi ignorar os avisos de meu amigo da cidade e saltei para fora do carro.

O cenário no exterior era insuportável. Não havia, de fato, alma crente que ali se postasse sem sentir no coração as fisgadas de um medo sobrenatural que eram incontroláveis e involuntárias. De minha parte senti meu corpo sendo percorrido por calafrios que jamais imaginei serem possíveis.

Ao longe a sede da fazenda se encontrava envolta numa escuridão tão densa que seu peso parecia incidir violentamente sobre minhas costas. A gigantesca silhueta negra da construção rústica fazia lembrar algum deus mitológico adormecido e mergulhado nas trevas; num caos de ventos violentos e gemidos agonizantes.

Fiquei parado diante dos portões de madeira apodrecida. Não podia acreditar que as pessoas da cidade simplesmente não sabiam o que ocorria naquela fazenda; ou não sabiam sequer se estava ou não habitada.

Subitamente minha atenção foi atraída por um movimento na cerca de arame que passara a se agitar de uma forma que não condizia com o sopro do vento. Arqueara-se como se pressionada para baixo por algum peso extraordinário. Olhei para a escuridão que se estendia ao longo, para o lado esquerdo, e com esforço pude divisar um vulto grande equilibrando-se sobre a malha farpada de aço. Assemelhava-se á uma grande ave que, empoleirada na cerca, tivesse as asas abaixadas. Depois o vulto emitiu um pio agourento que me pôs em corrida desesperada na direção do carro. De lá os faróis iluminavam parte do terreno para além do portão de entrada. E, banhadas pela luz difusa, avistei paradas na escuridão criaturas que por um momento me tiraram a sanidade. Eram como imensas corujas negras que me fitavam com imensos olhos amarelados.

Entrei no automóvel e tranquei as portas imediatamente. Logo minha respiração ofegante e descompassada encarregou-se de embaçar os vidros das janelas. E não pude ver exatamente as coisas que me cercavam do lado de fora. Sei que bem ouvi seus gritos e risadelas. E ouvi quando piaram lamentosamente do alto da cerca e de dentro da fazenda. Depois creio que desmaiei ou o pavor me conduziu para mundos dos quais depois não tive qualquer recordação.

Quanto retornei à lucidez ainda estava dentro do carro. A luz do dia já ia alta e eu continuava parado diante dos portões da fazenda dos Florence.

Havia um homem do lado de fora. Ele olhava curioso para o interior do veículo e quando me viu abrir os olhos deu um salto para trás como se assustado. Algo em seu rosto me era extremamente familiar e tão logo me recompus e o olhei bem pude reconhecer o rosto do estranho garoto que me fitara na praça central. Estava bastante idoso, assim como eu, mas sua compleição física era a de um homem mil anos mais velho.

Saí do carro e fiquei diante daquele esboço de dias longínquos. Seu semblante era tão cansado e triste que me mortificou ainda mais que a lembrança do horror da noite anterior. Não disse nada e simplesmente ergueu uma das mãos na qual trazia um copo com água que me entregou. Depois, com um sorriso tímido, me deu as costas e caminhou para o portão entreaberto onde o aguardavam outras pessoas tão tristes e assustadiças quanto ele próprio. Não carregavam, entretanto, nenhum traço das monstruosidades que eu avistara na escuridão.

Deixaram-me parado na estrada ensolarada repleto de pensamentos estranhos e conflitantes. Será mesmo que havia monstros naquele lugar? Ou minha imaginação, movida pelo medo, trabalhara contra mim naquela noite?

Foi assim, confuso e abalado, que retornei à cidade, devolvi o veículo emprestado sem dizer uma palavra e nunca mais voltei.

Agora, que já não tenho mais muito tempo nesta vida, sinto que se romperam em mim muitas das convicções de outrora. E já não sou mais capaz de sair de casa à noite sem primeiro esquadrinhar cuidadosamente os céus e os lugares escuros ao meu alcance para me certificar de que não estou sendo vigiado por estranhos e imensos olhos amarelados.

Autor: Henry Evaristo
Fonte: http://contosdelitfan.blogspot.com.br

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A Coleção De Bonecas

O céu estava azul e limpo, nem se quer uma nuvem no céu apaziguava o sol leve, porém intenso. O trigo dourado refulgia sob seus raios, tombado pela leve e gélida brisa que soprava durante a manhã. A pequena camponesa, tão branca quanto à neve que cairia nos próximos meses, com as bochechinhas gorduchas rosadas pelo frio e de cabelos tão dourados quanto o trigo, andava pelo meio da plantação, olhando os pequenos insetos que por ali ficavam. Eventualmente tropeçava em um ou outro buraco.

– Bom dia, senhor Espantalho!- disse ela contente para o velho, murcho e esfarrapado espantalho que ela tanto insistira para a mãe costurar. – Você nunca me responde não é mesmo?

O espantalho permaneceu imóvel, na sua quietude de farrapos e migalhas.

– Hum vou andar mais um pouco. Ainda não fui falar bom dia ao senhor Coelho.

Além da plantação, por de trás da cerca e das moitas, um par de olhos azuis muito intensos observava cada passo da menina. Ela sempre fugia dele, talvez fosse pelo seu cheiro rançoso ou por sua aparência desgrenhada, ou pelos dois.

A menina por sua vez chegara à outra moita onde embaixo se escondia um coelho não tão grande nem tão pequeno. Era branco, salpicado de manchas pretas. Os olhos aguados olhavam a menina. Acostumado com a sua presença, não fugira quando a garota se ajoelhara para olhar em baixo da moita.

– Bom dia senhor Coelho! Vê como os trigos estão grandes e bonitos? Logo estarão prontos para a colheita e vovó fará pães e bolos. Te trarei como sempre é só não sair daí. Até logo senhor Coelho!

A menina levantou-se, limpando a saia e joelhos sujos de terra. Já ia partindo quando uma voz atrás de si disse:

– E a mim, não diz bom dia?

A menina parou gélida.

– Por que não me responde? Você não é como o espantalho.

Continuou imóvel.

– Vamos meu anjo, olhe minha face. Nunca te fiz mal, por que reagir assim?

– Sai daqui. Vou chamar minha avó!– disse com a voz chorosa.

– Mas ela está tão bem lá dentro, em seus afazeres. Acho que ela não vai gostar se você chamá-la.

– Pare…

– Vamos, venha comigo… Você não quer brincar? Eu tenho muitas bonecas…

Assustada, a garota saiu correndo pelo trigal, fazendo seu cabelo farfalhar, confundindo-se com o trigo. O homem permaneceu parado, olhando a menina fugir mais uma vez. Era a última vez que ela fugiria. Sorriu expondo seus dentes podres e limosos e virou-se, partindo para sua gruta.

A menina entrou correndo dentro da casa. Chorava copiosamente.

– VOVÓÓÓ. VOVÓÓÓÓÓ!

Uma senhora de aparência doce e calma veio correndo de encontro enquanto limpava as mãos no avental. A menininha assustada abraçou-a pela cintura.

– O que foi meu anjo? – perguntou, abaixando-se para abraçar a menina assustada. – Você se machucou querida?

– Vo-vovó… O homem… O homem da gru-gruta vovó... – e caiu em pranto novamente.

A avó puxou uma cadeira e sentou a menina no colo, ninando-a.

– Meu amor… Não existe ninguém naquela gruta meu anjo.

– Tem sim!

– Calma, calma... Eu vou mandar o vô ir lá ver assim que chegar amanhã pode ser?

–Pode…

– Agora vai lá na sala assistir TV.

– Ta…

Pelo resto do dia a menina ficou dentro de casa. Esquecia-se do acontecido conforme as horas passavam. Se estivesse saído, teria visto que o espantalho que tanto esperava falar havia sumido do trigal.

Logo a noite caíra e chegara a hora de a menina dormir. Ajeitou-se confortavelmente em sua cama, puxara o ursinho e submergira em seu mundo de sonhos e fantasias.

Acordou algum tempo depois. Na escuridão, ouvia algum barulho estranho. Um cheiro conhecido de capim velho invadia o quarto.

– Vó? – disse com a voz fraquinha.

A luz acendeu-se. Por um momento a menina pareceu confusa e logo após aterrorizada. Bem na sua frente estava o homem da gruta, vestido de espantalho, aqueles olhos azuis penetrantes a olhando.

– Olá. – disse ele suavemente.

A menina abrirá a boca para gritar quando ele deu-lhe um soco na cabeça, fazendo com que caísse desacordada. Enfiou a menina em um saco de estopa e saiu calmamente.

– Você vai ficar linda na minha coleção de bonecas… Linda… – falou bem baixinho.

Caminhou com a garota no colo por uns dez minutos até chegar a sua gruta. Era razoavelmente grande e uma fogueira garantia a iluminação. Em cima da fogueira, uma panela enferrujada borbulhava um líquido.

Repousou a menina em um canto, tirando-a de dentro do saco. Dirigiu-se a panela, remexendo o líquido dentro. Já havia formado uma película por cima. Solidificava-se com extrema facilidade.

Meio zonza, a menina abriu os olhos. Onde estava? O cheiro de… Palha velha! Arregalou os olhos.

Nas paredes, a forma de varias meninas com tamanho parecido ao seu sobressaíam-se. Eram formas de resina… Plástico, algo do tipo. Podia ver por entre a capa que as protegiam os seus restos. Algumas estavam terrivelmente apodrecidas, verdes, inchadas, com os ossos aparentes, com vermes as decompondo… Porém de outras só restara os ossos amontoados. A resina que as cobria garantia que seus traços delicados não se perdessem no tempo.

Horrorizada, mal podia se mexer, muito menos balbuciar qualquer coisa.
– Lindas não? – falou o homem.

Assustou-se. Havia praticamente esquecido da presença do homem. Levantou-se de um pulo e tentou correr, mas o homem a segurou pelo braço.

– Shhhiiu. Não fuja. As minhas bonecas querem uma irmãzinha…

– Me larga! Me larga! Eu vou contar pra minha avó e…

Sentia o mundo girar. Agora via o homem segurando uma seringa muito velha e vazia nas mãos. Ele havia lhe aplicado uma injeção…

Sentiu-se carregada até ser encostada em um vão na parede, ao lado de uma menina em estado de putrefação.

O mundo girava lento… Não tinha forças pra se mexer ou querer se quer correr. Era tudo tão cansado… E o ficará devendo um pão ao senhor Coelho… E nem vira o senhor Espantalho falar…

O homem voltara com a panela que fervia no fogo e derramou o líquido contido sobre a menina. Ela sentiu lentamente aquilo escorrendo por seu corpo e rosto, mas não sentiu dor nem medo. Antes que o líquido terminasse de percorrer seu corpo os sentidos finais já havia lhe abandonado. Fazia então, parte da coleção de bonecas.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/a-colecao-de-bonecas.html

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Final)



— Partiremos dentro de meia hora — anunciou o alto-falante, exatamente como um aviso comum de estação.

O trem parou. O som das rodas nos trilhos, o deslocamento de ar da sua passagem, aos quais Kaufman já se havia acostumado, desapareceram de repente.Só ouvia o zumbido do alto-falante. Nada via na escuridão. Então, um som sibilante. As portas estavam se abrindo. Um cheiro invadiu o carro, tão cáustico que Kaufman levou a mão ao rosto para se defender dele. Ficou em silêncio, a mão sobre a boca durante o que lhe pareceu uma vida. Não ver o mal. Não ouvir o mal. Não falar o mal. Então, viu um lampejo luminoso fora da janela. Desenhou a silhueta do batente da porta e aumentava gradualmente. Logo a luz no carro era suficiente para que Kaufman visse o corpo encolhido do Açougueiro a seus pés e os lívidos pedaços de carne dependurados em volta dele.



Ouviu um murmúrio também, vindo do escuro, fora do trem, um conjunto de vozes fracas, como vozes de insetos. No túnel, arrastando os pés na direção do trem, caminhavam seres humanos. Kaufman via seus contornos agora. Alguns carregavam tochas que queimavam com uma luz marrom mortiça. O ruído era talvez dos pés na terra úmida, talvez suas línguas estalando, talvez as duas coisas. Kaufman não era mais o homem ingênuo de uma hora atrás. Não podia haver dúvida quanto â intenção daquelas coisas que saíam das trevas e caminhavam para o carro do trem. O Açougueiro havia abatido os homens e as mulheres para
servir de alimento aos canibais, e eles estavam chegando, como que atendendo ao gongo do carro-restaurante. Kaufman inclinou-se e apanhou o cutelo do Açougueiro. O barulho das
criaturas aproximava-se cada vez mais. Ele recuou para o lado oposto das portas abertas, mas descobriu que as outras estavam abertas também, e o murmúrio vinha dos dois lados, aproximando-se dele.

Encolheu-se contra um dos bancos e estava a ponto de se esconder debaixo de um deles quando uma mão, magra e frágil, quase transparente, apareceu na porta. Não podia desviar os olhos. Não que estivesse paralisado pelo terror, como quando olhou pela porta entre os carros. Simplesmente queria ver. A criatura subiu no carro. As tochas atrás dela deixavam seu rosto na sombra, mas os contornos podiam ser vistos claramente. Não havia nada de notável. Dois braços, duas pernas, a cabeça de formato normal. O corpo era pequeno, e o esforço de subir no trem a fazia respirar asperamente. Parecia mais geriátrica do que psicótica; gerações de canibais fictícios não o haviam preparado para aquela comovente vulnerabilidade.

Atrás da primeira, criaturas semelhantes começaram a surgir das trevas,subindo no trem. Na verdade, entravam por todas as portas. Kaufman estava encurralado Sopesou o cutelo nas mãos, pronto para a luta contra aqueles monstros antigos. Uma tocha fora levada para o carro e iluminava os rostos dos líderes. Eram completamente calvos. A pele cansada dos rostos esticava-se sobre os ossos, brilhando com a tensão. Havia manchas de podridão e doença, e em alguns lugares o músculo tinha se transformado em pus negro, através do qual apareciam
os ossos da têmpora ou da face. Alguns deles estavam nus como bebês, os corpos, uma massa informe e sifilítica, quase assexuados. Os que tinham sido seios carregavam sacos ressecados pendendo dos ombros, os órgãos genitais murchos, quase inexistentes.

Mais impressionantes do que os nus eram os que usavam roupas. Kaufman percebeu logo que eram feitas de pele humana e pendiam dos ombros ou estavam amarradas na cintura. Não apenas uma, mas uma dúzia ou mais de peles amontoadas ao acaso sobre os corpos das criaturas, como patéticos troféus. Os líderes daquela grotesca fila para a refeição tinham chegado aos corpos, e as mãos delicadas tocavam a carne dependurada, passando de cima a baixo nos corpos sem pêlos, com gestos que sugeriam prazer sensual. Línguas dançavam fora das bocas, perdigotos caíam sobre a carne. Os olhos dos monstros dardejavam de
um lado para o outro, com fome e excitação. Finalmente um deles viu Kaufman.

Os olhos pararam por um momento, fixando-se nele. Uma expressão interrogativa surgiu no rosto, uma paródia de perplexidade:

— Você — disse a coisa. A voz era tão devastada quanto os lábios de onde saía.

Kaufman ergueu um pouco o cutelo, calculando suas chances. Havia uns trinta deles no carro e muitos mais lá fora. Mas pareciam tão fracos, e não tinham armas, a não ser pele e osso. O monstro falou outra vez, a voz bem modulada, sob controle agora, a entonação de um homem antes culto, antes encantador:

— Você veio à procura do outro, não é?

Olhou para o corpo de Mahogany. Evidentemente compreendeu a situação
com rapidez.

— Ele já estava mesmo velho — disse a criatura, os olhos lacrimejantes postos mais uma vez em Kaufman, estudando cuidadosamente.

— Foda-se! — disse Kaufman.

A criatura tentou um sorriso irônico, mas a técnica estava quase esquecida, e o resultado foi uma careta, expondo os dentes sistematicamente limados em ponta.

— Agora será você quem terá de fazer isto para nós — disse o monstro com seu sorriso bestial. — Não podemos sobreviver sem comida.

A mão deu pancadinhas na nádega de carne humana. Kaufman não tinha resposta para aquela ideia. Olhou com repugnância para as unhas que deslizavam entre as nádegas, sentindo o músculo tenro.

— Isto nos repugna tanto quanto a você — disse a criatura. — Mas somos obrigados a comer esta carne, do contrário morreremos. Deus sabe que não gosto dela.

Mas a coisa estava babando.

Kaufman conseguiu falar, afinal. Sua voz saiu fraca, mais por uma confusão de sentimentos do que por medo.

— O que são vocês? — Lembrou-se do homem barbado na lanchonete. — São algum tipo de acidente?

— Somos os patriarcas da Cidade — disse a coisa. — Bem como as mães, as filhas e os filhos. Os construtores, os legisladores. Nós fizemos esta cidade.

— Nova York? — perguntou Kaufman. — O Palácio das Delícias?

— Antes de você nascer. Antes do nascimento de qualquer pessoa viva.

Enquanto falava, a criatura passava as unhas sob a pele do corpo aberto, soltando a fina camada elástica do músculo apetitoso. Atrás de Kaufman, as outras criaturas estavam tirando os corpos das alças, as mãos acariciando com prazer os seios macios e os flancos. Eles também começavam a esfolar os corpos.

— Você nos trará mais — disse o primeiro. — Mais carne para nós. O outro fornecedor estava fraco.

Kaufman olhou para o monstro, incrédulo.

— Eu? — disse ele. — Alimentar vocês? O que pensa que sou?

— Deve fazer por nós, e para os mais velhos do que nós. Para aqueles de antes de a cidade ser imaginada, quando a América era só florestas e desertos.

A mão frágil fez um gesto, apontando para fora do trem.

Kaufman acompanhou com os olhos a direção apontada. Havia alguma coisa na escuridão que ele não vira antes; muito maior do que qualquer ser humano. O bando de criaturas abriu um espaço para que ele pudesse examinar melhor o que estava lá fora, mas seus pés não se moveram.

— Ande — disse o patriarca.

Kaufman pensou na cidade que tinha amado. Seriam aqueles realmente seus antigos fundadores, seus filósofos, seus criadores? Tinha que acreditar. talvez houvesse pessoas na superfície.— burocratas, políticos, todo tipo de autoridade — que conheciam esse terrível segredo, e cujas vidas eram dedicadas a preservação daquela coisa abominável, alimentando as criaturas, como os selvagens ofereciam ovelhas aos deuses. Havia uma terrível familiaridade naquele ritual. Despertava uma lembrança — não na mente consciente de Kaufman, mas no outro ego mais profundo, mais antigo.

Seus pés, não mais obedecendo à mente, mas à força do instinto para adorar, moveram-se. Atravessou aquele corredor de corpos e saiu do trem. A luz das tochas iluminava agora fracamente a escuridão lá fora. O ar parecia sólido, espesso, com o cheiro de terra muito antiga. Mas Kaufman não sentia cheiro algum. Inclinou a cabeça para a frente, o máximo que podia fazer para não desmaiar outra vez. Lá estava; o precursor do homem. O americano original, a quem a terra pertencia antes mesmo dos Passamaquoddy ou dos Cheyenne. Seus olhos, se é que aquilo tinha olhos, estavam fixos nele.

Kaufman estremeceu, Seus dentes bateram uns contra os outros. Ouviu o ruído da anatomia daquela coisa: tiquetaqueando, estalando, soluçando. Ela fez um pequeno movimento no escuro. O som era apavorante. Como urna montanha acomodando-se.

O rosto de Kaufman estava erguido para o vulto e, sem pensar no que fazia, sem saber por que, caiu de joelhos na imundície na frente do Patriarca dos Patriarcas. Cada dia da sua vida o havia levado para aquele dia, cada movimento apressando-o para aquele instante incalculável de terror sagrado. Se houvesse luz suficiente naquele inferno para ele ver tudo, talvez seu coração, frágil coração, tivesse explodido. Porém, vendo só o que podia ver, sentiu
um adejar tremulo no peito. Era um gigante. Sem cabeça ou membros. Sem nenhum traço humano, sem um órgão que tivesse sentido, sem sentidos. Se ela parecia com alguma coisa, era com um cardume de peixes.

Milhares de bocas movendo-se em uníssono, brotando, florescendo murchando ritmadamente. Era iridescente como madrepérola, mas as vezes predominava uma cor mais profunda do que todas as que Kaufman conhecia e cujo nome sabia!

Era tudo que Kaufman podia ver, seria mais do que ele desejava ver. Havia muito mais na escuridão, bruxuleando e estalando. Mas ele não podia olhar mais. Virou-se e nesse momento urna bola de futebol foi atirada do trem e rolou, parando na frente do Patriarca. Não menos ele pensou que era uma bola, até olhar com mais atenção e reconhecer uma cabeça humana, a cabeça do Açougueiro. A pele do corpo fora arrancada em tiras. A cabeça cintilava sangrenta diante do seu Senhor. Kaufman desviou os olhos e voltou para o trem. Cada parte do seu corpo parecia estar chorando, exceto os olhos. Estavam quentes demais com o que tinham visto, e as lágrimas ferviam e se evaporavam neles. Lá dentro, as criaturas já tinham começado a ceia. Uma delas arrancava pitéu doce e azul do olho de uma das mulheres. Outra escava com uma mão na boca. Aos pés de Kaufman jazia o corpo decapitado do Açougueiro sangrando ainda profusamente onde fora cortado o seu pescoço.
O pequeno patriarca que havia falado antes, colocou-se na frente de Kaufman.

— Vai nos servir? — perguntou ele, gentilmente, como se pedisse a uma vaca para segui-lo.

Kaufman olhava para o cutelo, o símbolo da profissão de Açougueiro. As criaturas saíam do carro agora, arrastando os corpos semi-devorados. As tochas saíam com elas, e a escuridão voltava ao interior do carro. Mas antes que as luzes desaparecessem completamente o patriarca estendeu o braço e segurou o rosto de Kaufman, obrigando-o a olhar para a própria imagem refletida no vidro sujo do carro. Era um reflexo fraco, mas Kaufman pôde ver o quanto tinha mudado. Mais pálido do que se pode imaginar qualquer ser humano e coberto de sangue e sujeira. A mão do patriarca segurava ainda com força o rosto de Kaufman com o indicador enfiado na sua boca até tocar-lhe a garganta. Kaufman sentiu náusea, mas
não tinha forças para repelir o ataque.

— Deve servir — disse a criatura. — Em silêncio.

Tarde demais Kaufman compreendeu a intenção daqueles dedos... De repente a criatura agarrou sua língua e a torceu. Com o choque Kaufman largou o cutelo. Tentou gritar, mas não saiu nenhum som. Sua garganta estava cheia  de sangue, ouvia a carne sendo rasgada, foi dominado pelas convulsões da agonia. Então a mão saiu da sua boca, aqueles dedos vermelhos e cobertos de saliva diante dos seus olhos, segurando a língua entre o polegar e o indicador. Kaufman não podia falar.

— Deve servir. — disse o patriarca, e enfiou a língua de Kaufman na própria boca, mastigando-a com evidente satisfação. Kaufman caiu de joelhos, vomitando o sanduíche.

O patriarca já ia desaparecendo na escuridão; o resto dos anciãos já havia regressado também ao covil, para outra noite de espera.

O alto-falante estalou.

— Para casa — disse o maquinista.

As portas se fecharam. Sibilando, e o som do motor fez vibrar o trem. As luzes piscaram ao se acenderem, apagaram-se e acenderam outra vez. O trem começou a se mover.

Kaufman estava deitado no chão, as lágrimas escorrendo pelo rosto, lágrimas de dor e resignação. Ia sangrar até a morte, resolveu, ali mesmo onde estava. Não lhe importava morrer agora. Era, afinal, um mundo sórdido.

O maquinista o acordou. Kaufman abriu os olhos. O rosto acima do seu era negro e amistoso. Deu um largo sorriso, Kaufman tentou dizer alguma coisa, mas sua boca estava selada com sangue seco. Agitou a cabeça, como um retardado que estivesse tentando falar. Conseguiu apenas rosnar... Não estava morto. Não tinha sangrado até a morte. O maquinista o ajudou a se ajoelhar, falando como se ele fosse um garoto de três anos.

— Você tem um trabalho a fazer, meu velho; eles estão satisfeitos com você.

O maquinista lambeu as pontas dos dedos e passou-os nos lábios inchados de Kaufman, tentando abri-los. Muito o que aprender. Muito o que aprender. Conduziu Kaufman para fora do trem. Estavam numa estação que ele nunca vira antes. Toda de azulejos brancos, absolutamente imaculada; o Nirvana de um guarda de estação. Não havia grafitti desfigurando as paredes. Não havia guichês de passagens, mas também não havia portões nem passageiros. Uma linha onde passava apenas o Trem da Carne.

Uma turma de faxineiros lavava com mangueiras o sangue dos bancos e do chão do trem. Alguém tirava a roupa do corpo do Açougueiro, preparando-o para ser despachado para Nova Jersey. Em torno de Kaufman, todos trabalhavam. Um leque da luz do alvorecer entrava por uma abertura no teto da estação. Partículas de poeira dançavam nos raios de sol, girando e girando. Kaufman olhou para elas, enlevado. Não via uma coisa tão bonita desde criança. Linda poeira. Girando e girando, girando e girando.

O maquinista conseguiu finalmente separar os lábios de Kaufman. A boca estava ferida demais para se mover, mas pelo menos podia respirar com facilidade. E a dor começava a diminuir. O condutor sorriu para ele, depois voltou-se para os homens que trabalhavam na estação.

— Quero apresentar-lhes o substituto de Mahogany. Nosso novo Açougueiro — anunciou ele.

Os trabalhadores olharam para Kaufman. Havia nos rostos deles uma certa deferência que o agradou. Kaufman olhou para a luz do sol que o envolvia agora. Moveu a cabeça, indicando que queria ir para cima, para o ar livre. O maquinista fez um gesto de assentimento e o conduziu por uma escada, depois por um corredor e, afinal, para fora, para a calçada. O dia estava lindo. O céu brilhante sobre Nova York, riscado por filamentos de nuns rosa pálido e o ar tinha cheiro de manhã. O dia estava lindo. O céu brilhante sobre Nova York, riscado por filamentos de nuvens rosa pálido, e o ar tinha cheiro da manhã.

As ruas e avenidas estavam praticamente vazias. Ao longe, um táxi ou outro passavam no cruzamento, o motor murmurando; um corredor passou no outro lado da rua. Logo aquelas calçadas desertas estariam cheias de gente. A cidade continuada sua vida, na ignorância do que havia embaixo dela sem saber ao que devia sua existência. Sem hesitação, Kaufman caiu de joelhos e beijou o asfalto imundo com os lábios sangrentos, silenciosamente jurando lealdade eterna a sua continuação.

O Palácio das Delicias recebeu a adoração sem comentários.

Fonte: Livro "Livros de Sangue"
Autor: Clive Barker