segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

A flor de U'zltrilix


    Uma chance.  Um único risco.  Mas não recuarei. Desde a grande viagem o perigo a que me sujeito é o de viver. Devo imergir na névoa e encontrar a Flor de U’zltrilix. Nela reside uma resposta. Um recomeço. Um fim.  No entanto, a areia liquefez-se em vários pontos, perscruto e não vejo a passagem. Muitas vezes me questiono se existo ainda, que vontade é essa que me anima e me fez seguir até aqui?

    Parada sobre a planície rochosa, tenho consciência de ser. Existo ao aço frio das armas que empunho. Existo ao veneno corroendo meu sangue, minha morte e vida. No entanto, a força que me faz prosseguir para por alguns instantes quando revejo a Cidadela dos Antigos em escombros. Um universo de imagens e lembranças inunda meus olhos.


   A pirâmide de Zh’olquyz permanece ainda, o triste ápice de uma civilização extinta. Banhada à luz de uma estrela dourada em seus últimos lamentos a cada volta insana do planeta L’zuli. Meus olhos reviram a paisagem e ao longo do caminho, voltam-se mais uma vez ao pináculo de outras eras. Tão próxima a pirâmide, a nave de meu pai. Ziurtiw enlouquecera antes da partida e tentara destruir a pirâmide onde os antigos repousavam. Sua punição com a morte foi um sinal de que a paz findara, apenas a nave permaneceu. Forjada nas longas viagens pelo mar de rocha líquida, paira sobre o deserto de areia, parecendo flutuar neste oceano de grãos, enquanto poucas torres escoram-se uma nas outras, resistindo ainda. Meus sensores brilham iridescentes: há vida na base de Zh’olquyz, um murmúrio animado oculto sob a nuvem de areia.  Aspiro em busca de coragem para descer e enfrentar meu destino. A mesma coragem de meu pai quando se negara a me deixar aqui.

    Enquanto meus pés se movem e mergulho na estranha porosidade, não deixo de pensar no mar que nunca vi, o mar de rochas liquidas de L’zuli que brilharia sob a luz como a cidadela morta aos raios que a cobrem. Estende-se em meu caminho um mar de areia, posso sentir a densidade pérfida a me espreitar, oculta sob as brumas amareladas, todavia, persisto. Os fragmentos de areia que se contraem e se movem sinuosos em torno das ruínas me envolvem numa recepção horrenda. Outrora, quando apenas uma garota frente ao inexorável, talvez meus instintos me fizessem desistir, mas a dúvida me intriga.  Serei de fato a última? Percebo em mim a vontade intrínseca de não estar só, de ser apenas uma em meio à multidão, um rosto na muralha espiando a vida passar. Entanto, esse direito não é o meu. A multidão já não existe, os resquícios da última viagem permanecem nas brumas de L’zuli, um som atemporal e terrível em sua beleza, a música do adeus me atormenta. Todos os outros desapareceram quando os zh’olquynez nos deixaram.

    Depois que se foram, fiz muitas pesquisas sobre lendas e seres desconhecidos em busca de uma explicação para a chegada dos antigos. Éramos então selvagens em guerras constantes, matéria bruta lentamente dilapidada em direção a suprema tecnologia para enfim, termos a paz.

    A tecnologia dos antigos consistia em juntar cada átomo e dessa misteriosa condensação construir o inimaginável. Este poder unificou as tribos e os zh’olquynez propiciaram o surgir de uma era iluminada, de cada mínima partícula os mestres criaram maravilhas. Elementos nunca vistos antes construíram nosso mundo, ampliaram o poder de nossa estrela já em decadência.

    Caminho entre as ruínas e a areia entranha-se em mim, mas meus olhos estão protegidos dos grãos cortantes, feitos por esses mesmos elementos que outrora nos maravilharam. Sou uma filha dos antigos. Há algo sob a minha pele que me salva a cada dia, cura meus ferimentos e impede que o tempo me leve. A regeneração molecular foi um presente para poucos, para escolhidos. Para os que seriam deixados para trás. Por que fiquei? Eis a resposta que busco na Flor de U’zltrilix. Cresci sob as muralhas de Zh’olquyz, quando os dias eram promissores e iluminados. Alguns rumores me despertam dos devaneios. Sinto uma força que deseja me deter e os grãos investem contra mim. Fustigam-me mas não podem me atingir.

    A cidade fantasma parece me espreitar. Os resquícios do antigo esplendor são grãos que se espalham como uma imensa epidemia enquanto a vida se esvai do planeta. Dilatam-se por toda parte. Nossa estrela se derrama sobre as ruínas e seu calor me traz vontade de chorar. Não lembro qual o gosto de uma lágrima. Não se pode chorar em L’zuli. As noites estão cada vez mais curtas e o planeta gira veloz, vazio da vida que nos corrompia, num eixo que altera-se inesperadamente. Ocasionalmente, as línguas de fogo emergem do céu e atravessam a névoa de areia e, assim, vejo os destroços de minha cidade natal e sombras de animais mutilados e acovardados que se ocultam num ultimo ranço de vida. Insetos minúsculos passeiam pela carcaça de arqysfs gigantesco. Onde ele chorou, acumularam diamantóides raros.  Guardo minhas armas e penso mais uma vez no mar desenhado na voz de meu pai. Eu nunca vi o mar. Apenas areia sobrevive em meus olhos e procuro por ela.

    Por muito tempo, a Flor de U’zltrilix foi uma lenda, um mito entre os que ficaram, mas eu estava presente quando o portal foi construído, vi quando exalou pela ultima vez seu perfume. O portal aumentava em uma junção de minúsculas partículas, cada fragmento de L’zuli se movimentava - alguns invisíveis para nós – unindo-se na construção da passagem e finalmente o caminho para as estrelas apresentava-se. Aquele fora um grande dia para todos, os antigos despertaram do seu longo sono e estavam cada vez mais próximos de nós. Deuses e servos unidos em um bem comum.

    Com o tempo, meus estudos revelaram que a mágica dos antigos possuía um nome, eram nossos deuses nanotecnólogos. Um conhecimento superior que nos parecia magia, pois quando ordenavam, toda matéria se reorganizava e maravilhas surgiam. Os senhores das miudezas eram na verdade uma etnia de cientistas colonizando o universo. Exploradores. Colonizadores. Nômades. Os zh’olquynez eram um povo pacifico, mas ávidos pelo novo, pela modernidade e principalmente, pela eternidade. Usavam a sabedoria e o conhecimento em busca da paz e quando a conseguiam, dormiam por longos anos, assim, eternizavam-se por eras e eras, no entanto, seu legado foi-nos terrível. Quando as caravanas deixaram Zh’olquyz, eu era ainda uma criança. Uma criança escolhida, bendita e amaldiçoada.

    No dia da grande viagem, por cima da muralha, espiávamos a passagem dos antigos. Seguiam lentamente enquanto os sons dos bambus cortavam o ar e ricocheteavam no silêncio que trazíamos. Pela primeira vez eu vi os grandes arqysfs, quando eles erguiam os olhos e suas longas presas cinza para nós, seus gritos ecoavam pelo deserto e uma dor que jamais esqueceríamos nascia-nos. Os arqyfs eram o mais antigo símbolo de L’zuli. Podíamos ouvir ainda os murmúrios dos anciãos e o grito das mães que ficavam. O sopro do chamado ultrapassava então as planícies e eles continuaram chegando por muitos sóis. Tribos de todos os lugares e os imensos arqyfs, animais tão grandes e sábios que apenas sua presença trazia-nos amor e a certeza de que nada mudaria. No entanto, eles emitiam seus lamentos junto ao som das flautas e tudo se impregnava de melancolia. Sob essa orquestra víamos o fim de nosso lar. Os zh’olquynez levariam uma grande parte da população com eles em busca de um novo mundo, mas muitos ficariam. Eu fiquei na cidade vítrea, que ainda resplandecia.

    As grandes pirâmides, os navios, as naves e todo o centro de L’zuli estremeciam, um mundo abandonado e fustigado pelo tempo até transformar-se nesse mar dourado por onde caminho ainda hoje. Os poucos que ficaram pereceram, outros se foram para lugares distantes em busca de novos portais. Raros tornaram-se insanos em meio a solidão.

    Não sei quanto tempo se passou, mas finalmente eu a vejo. Sob a base da pirâmide de cristal, a flor se revela. Um gosto amargo confirma o que suspeitei desde o inicio de minha jornada. A flor de U’zltrilix é um montador universal. O centro da tecnologia dos zh’olquynez. Uma máquina capaz de construir infinitamente o que se desejar, programada para não replicar-se. No entanto, na busca por novos elementos, os resíduos de tanta evolução viajaram pela atmosfera do planeta, não havia distancia para impedir que espalhassem. Muitos morreram. E foi o fim de L’zuli. A vegetação morria aos poucos, logo as pessoas adoeceram. A vitalidade fora absorvida por aqueles seres imortais e somente a rosa pérfida permaneceria...

    Quando o deserto ameaçou o planeta, os antigos despertaram e a construção do portal começou. Houve então muita tristeza que jamais os lamentos do povo poderão deixar essa atmosfera. Um novo mundo, em outra galáxia, foi o escolhido.  Olho as estrelas e penso nos antigos. E por isso ficamos, a flor deve ser preservada para que o portal permaneça. Eis a minha função para que um dia, talvez, eles possam voltar em busca de novos mundos.

    E por isso devo destruí-la.

    O planeta azul não é desprovido de vida. Viviam lá humanóides em estado de selvageria. Um dia, as pirâmides irão se espalhar e mais uma vez alcançarão níveis inimagináveis de paz a um preço insano. Desconheço o destino dos que outrora chamei de meu povo. Se dormem com os deuses, ocultos em pirâmides de cristal tampouco, sei apenas que se foram e seu destino era o terceiro planeta em direção a uma estrela média, um sol menino. Neste planeta chamado Terra eles recomeçariam.

    E girarão vorazes mais uma vez, roubando a energia vital ou terão a chance de um novo mundo? Talvez outro portal me dê a resposta, este já não me permite a passagem, mas envio ainda assim a nossa saga, a história de um planeta que, outrora coberto por pirâmides e luz, adormece sob uma névoa de areia e murmúrios de outras eras.

    Um planeta por onde vago em busca de outras flores. Flores que devo destruir até que somente a areia cubra-nos e nunca mais o solo de L’zuli seja profanado. Pois sou apenas uma guardiã do infinito. 

Fonte: http://contosdelitfan.blogspot.com.br

domingo, 8 de janeiro de 2017

A Fazenda dos Florence


Sempre soube dos rumores a respeito da propriedade dos Florence. Na pequena cidade onde nasci nenhuma criança se aventurava ao longo da estradinha de terra que levava aos portões enferrujados da velha fazenda ao sul. Desde cedo, em suas residências, lhes era ensinado a temer a estranha família. Ao longo dos anos faziam com que acreditassem que os Florence eram malvados, perigosos, diabólicos. Mas era mais do que isso. Lembro-me de que, certa noite, ao pé da lareira com meu pai, o ouvi contar para todos nós, de sua casa, como a triste família se havia perdido nos caminhos das trevas; como havia trocado as bençãos de Deus pelas falsas promessas de fortuna feitas pelas coisas que andam no inferno e que eles evocavam graças aos poderes da velha matriarca. Ainda me causa calafrios a maneira como meu pai parecia acreditar em tudo o que contava e a forma como ele nos advertia para manter distância, pois aquelas pessoas eram monstros reais que, em noites enluaradas, vagavam soltos dentro dos limites da velha propriedade. "Foram os demônios que os mudaram, meus filhos" dizia meu pai, e seus olhos faiscavam iluminados pelas chamas vermelhas do fogo voraz na parede.

Depois que cresci, deixei a localidade e me mudei para a capital. Meus pensamentos se voltaram para coisas mais importantes. Estudei, graduei-me com honras no curso de Física e assinei um contrato com uma multinacional. Casei-me com uma mulher cuja beleza impossibilitava-me de admitir, mesmo lá em meu íntimo mais profundo (este que sempre acaba assomando em nós nas horas da madrugada), que pudesse haver no mundo algo tão horrendo quanto o que diziam existir em minha terra natal. Hoje entendo que estas histórias sempre me acompanharam e que todo o meu destino convergiu para a noite fatídica de que vos falarei agora.

A última lembrança que guardo de meus tempos de criança é de ouvir a gritaria das pessoas na praça central. Enfurecidas, elas corriam em torno de uma carroça numa noite de inverno. Havia armas nas mãos de muitos e a exigência de que os estranhos Florence devolvessem aos pais uma menina loura que desaparecera. Recordo-me do velho xerife tentando conter a massa que surpreendera alguns membros da amaldiçoada família tentando comprar medicamentos em uma farmácia.

Mas o que me toca mais profundamente até hoje é a lembrança do olhar que me lançou o mais novinho dos quatro que vi. Um garotinho enfermiço e de pele pálida e suja que me olhou de cima da carroça cercada por cidadãos ensandecidos. O pavor, o medo em seus olhos, causou-me repulsa àquelas pessoas; pois me fez sentir, de uma só vez, o peso dos anos de discriminação e banimento a que vinham sendo submetidos todos daquela fazenda isolada. Aquela criança, que como eu ainda olhava o mundo de baixo, já não era apenas mais um menino. Era um homem triste e assustado. Um pobre diabo acuado por todos os lados que perdera a infância antes mesmo de tê-la conhecido.

Nestes meus dias finais, quando não sei se o que me matará primeiro será a velhice, o câncer ou a vilania desta cidade grande e impiedosa, digo que o que havia de errado com aquelas pessoas dos Florence (a despeito daquilo que vi, à noite, em frente aos portões da velha fazenda - e que pode perfeitamente ter sido apenas o fruto de uma mente viciada) era tão somente o fato de eles serem pobres e, oriundos de distantes terras estrangeiras, manterem costumes diferentes dos da comunidade que tanto os demonizava. Penso comigo, em meio às minhas inúmeras reflexões de velho, se não foi pelo que presenciei naquela praça que resolvi, tempos depois, deixar a cidade. Acho que a vergonha cobriu meus passos desde então.

Foi assim que decidi, após a morte de todos que me eram caros, e quando a solidão deu asas à minha disposição para viajar, voltar à velha terra para saber o que afinal fora feito dos miseráveis fazendeiros. Sentia que pediria mil desculpas a qualquer deles que encontrasse pelo caminho.

Desembarquei no início da noite na mesma praça central que tanto povoara minhas más lembranças por mais de cinqüenta anos. O ônibus que me trouxera só perdia em decrepitude para aquele horrendo centro em ruínas. Espantava-me e me mortificava ver que nada mudara! Tudo permanecia exatamente como eu deixara e, por alguns instantes, esperei mesmo ver a carroça dobrando mais uma vez a esquina perseguida pelos vândalos locais.

Na verdade aproximava-se um veículo escuro do ponto em que a principal cruzava com a dezesseis. Parou diante de mim e o motorista abriu uma porta ruidosa que já tinha visto dias bem melhores.

— Ei, Chapa! – Era meu amigo Warren Nesbel. Não era mais apenas gordo como antes. Agora estava calvo e abatido.

Depois que conversamos e relembramos aquilo que ainda não havíamos relembrado ao falarmos ao telefone no dia anterior, agradeci sua hospitalidade recebendo-me por dois dias em sua residência e, sem muita cerimônia, lhe pedi o carro de empréstimo.

— O que vai fazer? – Perguntou ele mesmo sabendo do que se tratava. E emendou:

— Olhe, amigo, nós não queremos saber deles. Pelo que me consta nem existem mais. Aquela terra toda está abandonada. Ninguém vai lá! Assim como sempre foi.– E me olhou com uma expressão realmente apreensiva em seu semblante flácido. – ah, o garotinho.. .– continuou ele. – O que te olhou... Não sabemos nada dele. Pode ainda estar por lá. – Depois ele se calou diante de meu olhar impassivo. E entregou as chaves.

Quando ia saindo da frente de seu endereço, ele me segurou pelo braço.

— Wilfred, por favor não vá lá. Deixe amanhecer pelo menos. Aquele lugar é um horror à noite.”

Mas eu estava irredutível e fiz menção de soltar meu braço de suas mãos. Ele afrouxou a pressão e, por fim, me largou.

Depois que dei a partida no motor, no entanto, ele bateu à janela do passageiro.

—Wilfred – disse ele. – Não saia do carro. Você não sabe o que anda por lá, no escuro! – Depois me deu as costas e entrou na casa bem iluminada. Eu sabia que ele me aguardaria e que, se houvesse alguma demora que julgasse inaceitável, chamaria a polícia e a mandaria em meu encalço.

Devo confessar que não foi sem um mínimo de apreensão que tomei a estrada abandonada que levava à fazenda dos Florence. Era de terra batida e dominada por árvores de copas tão espessas que tornavam a escuridão da noite ainda mais pétrea e intransponível. Tudo o que se podia delinear na escuridão fora do carro eram os raios de uma lua cheia que fazia vazar seus raios por entre as árvores e lançava, aqui e ali, barras de luz amarelada na estrada adiante. A fantasmagórica luminosidade ocre me possibilitava divisar vagamente partes do sombrio interior da floresta que margeava o caminho.

Em certos trechos a estrada era tão estreita que eu tinha a impressão de que o veículo não conseguiria seguir adiante, pois ficaria preso às margens altas pelos retrovisores. Do nível do solo, um observador a pé se sentiria como se subjugado por aqueles morros que se elevavam desde a beira do caminho e partiam terreno a dentro até atingirem as elevações mais altas no horizonte. A região era, assim, sem dúvida, terreno fértil para as fantasias do povo simples local e ali já haviam sido avistadas todo tipo de abominações horrendas atribuídas, obviamente, à maldição diabólica dos Florence.

De repente, a despeito de minha situação bizarra, vagando em alta madrugada por uma estrada abandonada em direção ao local onde diziam que monstros erravam ferozes e famintos, surpreendi-me buscando na memória algo que quebrasse a aura negativa que aquele lugar insistia em moldar em meu imaginário. Lembrei então de quando eu era um garoto de cerca de nove ou dez anos e Ernest Florence costumava brincar nas terras de nossa família. Saía da propriedade de seus pais e atravessava a cidade até alcançar nossa fazenda. Ali, pulava a cerca e escalava o grande carvalho que havia num ponto ermo da propriedade. Algumas vezes eu o avistava ao longe recortado contra o poente, magro, cabisbaixo, solitário em meio aos galhos balouçantes. Recordei a vez em que eu fora ao seu encontro. Por algum motivo ele não se apressou em se afastar como normalmente fazia quando alguém tentava se aproximar; também por esta época a perseguição brutal e imoral a que sua família era submetida ainda não alcançara os paroxismos do famigerado “dia da praça”.

Ele simplesmente saltou dos galhos da árvore e ficou lá parado me observando diminuir a distância entre nos dois. Era louro, tinha olhos azuis aguados e um rosto afilado marcado por sarnas. Notei um número exagerado e inusitado de pelos escuros que brotavam precocemente de seu pescoço e aquilo me levou a crer que fosse bem mais velho do que eu imaginara ao vê-lo apenas de longe.

De repente ele sorriu para mim. Era algo estranho o seu semblante; como se, na verdade, não soubesse sorrir e se esforçasse para emitir uma imitação canhestra de um sorriso. Seu rosto, neste momento, me lembrou os dos manequins das lojas do centro. Depois ele me deu as costas e correu. Com incrível agilidade saltou por sobre a cerca e desapareceu rapidamente pela estrada.

Fiquei parado em baixo do velho carvalho imaginando como seria a vida de um garoto como aquele; nos motivos pelos quais diziam que ele e os seus eram monstros. E minha imaginação ia muito além do que costumavam chegar as imaginações das crianças de dez anos de meu tempo!

De súbito um brilho incomum me fez despertar deste semi-transe em que eu mergulhara, em meio às minhas recordações, e me trouxe bruscamente de volta à estranheza daquela estrada escura. Pareceu-me notar um reflexo amarelado e cintilante à margem esquerda do caminho. A velocidade do veículo, no entanto, não me permitiu vislumbrar nada com exatidão e, provavelmente, forneceu-me uma impressão errônea de ter avistado, na verdade, dois olhos enormes me espreitando do escuro. Perscrutei o retrovisor, mas nada mais pude divisar no trecho por onde passara.

À minha frente surgiu então o portão principal da propriedade dos Florence. O vento aumentara consideravelmente e ao estacionar o carro no acostamento, e desligar o motor, mesmo com os vidros erguidos pude ouvir os gemidos que ele provocava quando passava por entre as árvores na floresta. Mantive os faróis acesos pois percebera que a cerca de madeira da fazenda balouçava muito embalada pela forte movimentação do ar. No entanto a escuridão era tamanha que pouco as luzes do carro me ajudavam. Resolvi ignorar os avisos de meu amigo da cidade e saltei para fora do carro.

O cenário no exterior era insuportável. Não havia, de fato, alma crente que ali se postasse sem sentir no coração as fisgadas de um medo sobrenatural que eram incontroláveis e involuntárias. De minha parte senti meu corpo sendo percorrido por calafrios que jamais imaginei serem possíveis.

Ao longe a sede da fazenda se encontrava envolta numa escuridão tão densa que seu peso parecia incidir violentamente sobre minhas costas. A gigantesca silhueta negra da construção rústica fazia lembrar algum deus mitológico adormecido e mergulhado nas trevas; num caos de ventos violentos e gemidos agonizantes.

Fiquei parado diante dos portões de madeira apodrecida. Não podia acreditar que as pessoas da cidade simplesmente não sabiam o que ocorria naquela fazenda; ou não sabiam sequer se estava ou não habitada.

Subitamente minha atenção foi atraída por um movimento na cerca de arame que passara a se agitar de uma forma que não condizia com o sopro do vento. Arqueara-se como se pressionada para baixo por algum peso extraordinário. Olhei para a escuridão que se estendia ao longo, para o lado esquerdo, e com esforço pude divisar um vulto grande equilibrando-se sobre a malha farpada de aço. Assemelhava-se á uma grande ave que, empoleirada na cerca, tivesse as asas abaixadas. Depois o vulto emitiu um pio agourento que me pôs em corrida desesperada na direção do carro. De lá os faróis iluminavam parte do terreno para além do portão de entrada. E, banhadas pela luz difusa, avistei paradas na escuridão criaturas que por um momento me tiraram a sanidade. Eram como imensas corujas negras que me fitavam com imensos olhos amarelados.

Entrei no automóvel e tranquei as portas imediatamente. Logo minha respiração ofegante e descompassada encarregou-se de embaçar os vidros das janelas. E não pude ver exatamente as coisas que me cercavam do lado de fora. Sei que bem ouvi seus gritos e risadelas. E ouvi quando piaram lamentosamente do alto da cerca e de dentro da fazenda. Depois creio que desmaiei ou o pavor me conduziu para mundos dos quais depois não tive qualquer recordação.

Quanto retornei à lucidez ainda estava dentro do carro. A luz do dia já ia alta e eu continuava parado diante dos portões da fazenda dos Florence.

Havia um homem do lado de fora. Ele olhava curioso para o interior do veículo e quando me viu abrir os olhos deu um salto para trás como se assustado. Algo em seu rosto me era extremamente familiar e tão logo me recompus e o olhei bem pude reconhecer o rosto do estranho garoto que me fitara na praça central. Estava bastante idoso, assim como eu, mas sua compleição física era a de um homem mil anos mais velho.

Saí do carro e fiquei diante daquele esboço de dias longínquos. Seu semblante era tão cansado e triste que me mortificou ainda mais que a lembrança do horror da noite anterior. Não disse nada e simplesmente ergueu uma das mãos na qual trazia um copo com água que me entregou. Depois, com um sorriso tímido, me deu as costas e caminhou para o portão entreaberto onde o aguardavam outras pessoas tão tristes e assustadiças quanto ele próprio. Não carregavam, entretanto, nenhum traço das monstruosidades que eu avistara na escuridão.

Deixaram-me parado na estrada ensolarada repleto de pensamentos estranhos e conflitantes. Será mesmo que havia monstros naquele lugar? Ou minha imaginação, movida pelo medo, trabalhara contra mim naquela noite?

Foi assim, confuso e abalado, que retornei à cidade, devolvi o veículo emprestado sem dizer uma palavra e nunca mais voltei.

Agora, que já não tenho mais muito tempo nesta vida, sinto que se romperam em mim muitas das convicções de outrora. E já não sou mais capaz de sair de casa à noite sem primeiro esquadrinhar cuidadosamente os céus e os lugares escuros ao meu alcance para me certificar de que não estou sendo vigiado por estranhos e imensos olhos amarelados.

Autor: Henry Evaristo
Fonte: http://contosdelitfan.blogspot.com.br

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A Coleção De Bonecas

O céu estava azul e limpo, nem se quer uma nuvem no céu apaziguava o sol leve, porém intenso. O trigo dourado refulgia sob seus raios, tombado pela leve e gélida brisa que soprava durante a manhã. A pequena camponesa, tão branca quanto à neve que cairia nos próximos meses, com as bochechinhas gorduchas rosadas pelo frio e de cabelos tão dourados quanto o trigo, andava pelo meio da plantação, olhando os pequenos insetos que por ali ficavam. Eventualmente tropeçava em um ou outro buraco.

– Bom dia, senhor Espantalho!- disse ela contente para o velho, murcho e esfarrapado espantalho que ela tanto insistira para a mãe costurar. – Você nunca me responde não é mesmo?

O espantalho permaneceu imóvel, na sua quietude de farrapos e migalhas.

– Hum vou andar mais um pouco. Ainda não fui falar bom dia ao senhor Coelho.

Além da plantação, por de trás da cerca e das moitas, um par de olhos azuis muito intensos observava cada passo da menina. Ela sempre fugia dele, talvez fosse pelo seu cheiro rançoso ou por sua aparência desgrenhada, ou pelos dois.

A menina por sua vez chegara à outra moita onde embaixo se escondia um coelho não tão grande nem tão pequeno. Era branco, salpicado de manchas pretas. Os olhos aguados olhavam a menina. Acostumado com a sua presença, não fugira quando a garota se ajoelhara para olhar em baixo da moita.

– Bom dia senhor Coelho! Vê como os trigos estão grandes e bonitos? Logo estarão prontos para a colheita e vovó fará pães e bolos. Te trarei como sempre é só não sair daí. Até logo senhor Coelho!

A menina levantou-se, limpando a saia e joelhos sujos de terra. Já ia partindo quando uma voz atrás de si disse:

– E a mim, não diz bom dia?

A menina parou gélida.

– Por que não me responde? Você não é como o espantalho.

Continuou imóvel.

– Vamos meu anjo, olhe minha face. Nunca te fiz mal, por que reagir assim?

– Sai daqui. Vou chamar minha avó!– disse com a voz chorosa.

– Mas ela está tão bem lá dentro, em seus afazeres. Acho que ela não vai gostar se você chamá-la.

– Pare…

– Vamos, venha comigo… Você não quer brincar? Eu tenho muitas bonecas…

Assustada, a garota saiu correndo pelo trigal, fazendo seu cabelo farfalhar, confundindo-se com o trigo. O homem permaneceu parado, olhando a menina fugir mais uma vez. Era a última vez que ela fugiria. Sorriu expondo seus dentes podres e limosos e virou-se, partindo para sua gruta.

A menina entrou correndo dentro da casa. Chorava copiosamente.

– VOVÓÓÓ. VOVÓÓÓÓÓ!

Uma senhora de aparência doce e calma veio correndo de encontro enquanto limpava as mãos no avental. A menininha assustada abraçou-a pela cintura.

– O que foi meu anjo? – perguntou, abaixando-se para abraçar a menina assustada. – Você se machucou querida?

– Vo-vovó… O homem… O homem da gru-gruta vovó... – e caiu em pranto novamente.

A avó puxou uma cadeira e sentou a menina no colo, ninando-a.

– Meu amor… Não existe ninguém naquela gruta meu anjo.

– Tem sim!

– Calma, calma... Eu vou mandar o vô ir lá ver assim que chegar amanhã pode ser?

–Pode…

– Agora vai lá na sala assistir TV.

– Ta…

Pelo resto do dia a menina ficou dentro de casa. Esquecia-se do acontecido conforme as horas passavam. Se estivesse saído, teria visto que o espantalho que tanto esperava falar havia sumido do trigal.

Logo a noite caíra e chegara a hora de a menina dormir. Ajeitou-se confortavelmente em sua cama, puxara o ursinho e submergira em seu mundo de sonhos e fantasias.

Acordou algum tempo depois. Na escuridão, ouvia algum barulho estranho. Um cheiro conhecido de capim velho invadia o quarto.

– Vó? – disse com a voz fraquinha.

A luz acendeu-se. Por um momento a menina pareceu confusa e logo após aterrorizada. Bem na sua frente estava o homem da gruta, vestido de espantalho, aqueles olhos azuis penetrantes a olhando.

– Olá. – disse ele suavemente.

A menina abrirá a boca para gritar quando ele deu-lhe um soco na cabeça, fazendo com que caísse desacordada. Enfiou a menina em um saco de estopa e saiu calmamente.

– Você vai ficar linda na minha coleção de bonecas… Linda… – falou bem baixinho.

Caminhou com a garota no colo por uns dez minutos até chegar a sua gruta. Era razoavelmente grande e uma fogueira garantia a iluminação. Em cima da fogueira, uma panela enferrujada borbulhava um líquido.

Repousou a menina em um canto, tirando-a de dentro do saco. Dirigiu-se a panela, remexendo o líquido dentro. Já havia formado uma película por cima. Solidificava-se com extrema facilidade.

Meio zonza, a menina abriu os olhos. Onde estava? O cheiro de… Palha velha! Arregalou os olhos.

Nas paredes, a forma de varias meninas com tamanho parecido ao seu sobressaíam-se. Eram formas de resina… Plástico, algo do tipo. Podia ver por entre a capa que as protegiam os seus restos. Algumas estavam terrivelmente apodrecidas, verdes, inchadas, com os ossos aparentes, com vermes as decompondo… Porém de outras só restara os ossos amontoados. A resina que as cobria garantia que seus traços delicados não se perdessem no tempo.

Horrorizada, mal podia se mexer, muito menos balbuciar qualquer coisa.
– Lindas não? – falou o homem.

Assustou-se. Havia praticamente esquecido da presença do homem. Levantou-se de um pulo e tentou correr, mas o homem a segurou pelo braço.

– Shhhiiu. Não fuja. As minhas bonecas querem uma irmãzinha…

– Me larga! Me larga! Eu vou contar pra minha avó e…

Sentia o mundo girar. Agora via o homem segurando uma seringa muito velha e vazia nas mãos. Ele havia lhe aplicado uma injeção…

Sentiu-se carregada até ser encostada em um vão na parede, ao lado de uma menina em estado de putrefação.

O mundo girava lento… Não tinha forças pra se mexer ou querer se quer correr. Era tudo tão cansado… E o ficará devendo um pão ao senhor Coelho… E nem vira o senhor Espantalho falar…

O homem voltara com a panela que fervia no fogo e derramou o líquido contido sobre a menina. Ela sentiu lentamente aquilo escorrendo por seu corpo e rosto, mas não sentiu dor nem medo. Antes que o líquido terminasse de percorrer seu corpo os sentidos finais já havia lhe abandonado. Fazia então, parte da coleção de bonecas.

fonte: http://conteudoperverso.blogspot.com.br/2013/09/a-colecao-de-bonecas.html

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Final)



— Partiremos dentro de meia hora — anunciou o alto-falante, exatamente como um aviso comum de estação.

O trem parou. O som das rodas nos trilhos, o deslocamento de ar da sua passagem, aos quais Kaufman já se havia acostumado, desapareceram de repente.Só ouvia o zumbido do alto-falante. Nada via na escuridão. Então, um som sibilante. As portas estavam se abrindo. Um cheiro invadiu o carro, tão cáustico que Kaufman levou a mão ao rosto para se defender dele. Ficou em silêncio, a mão sobre a boca durante o que lhe pareceu uma vida. Não ver o mal. Não ouvir o mal. Não falar o mal. Então, viu um lampejo luminoso fora da janela. Desenhou a silhueta do batente da porta e aumentava gradualmente. Logo a luz no carro era suficiente para que Kaufman visse o corpo encolhido do Açougueiro a seus pés e os lívidos pedaços de carne dependurados em volta dele.



Ouviu um murmúrio também, vindo do escuro, fora do trem, um conjunto de vozes fracas, como vozes de insetos. No túnel, arrastando os pés na direção do trem, caminhavam seres humanos. Kaufman via seus contornos agora. Alguns carregavam tochas que queimavam com uma luz marrom mortiça. O ruído era talvez dos pés na terra úmida, talvez suas línguas estalando, talvez as duas coisas. Kaufman não era mais o homem ingênuo de uma hora atrás. Não podia haver dúvida quanto â intenção daquelas coisas que saíam das trevas e caminhavam para o carro do trem. O Açougueiro havia abatido os homens e as mulheres para
servir de alimento aos canibais, e eles estavam chegando, como que atendendo ao gongo do carro-restaurante. Kaufman inclinou-se e apanhou o cutelo do Açougueiro. O barulho das
criaturas aproximava-se cada vez mais. Ele recuou para o lado oposto das portas abertas, mas descobriu que as outras estavam abertas também, e o murmúrio vinha dos dois lados, aproximando-se dele.

Encolheu-se contra um dos bancos e estava a ponto de se esconder debaixo de um deles quando uma mão, magra e frágil, quase transparente, apareceu na porta. Não podia desviar os olhos. Não que estivesse paralisado pelo terror, como quando olhou pela porta entre os carros. Simplesmente queria ver. A criatura subiu no carro. As tochas atrás dela deixavam seu rosto na sombra, mas os contornos podiam ser vistos claramente. Não havia nada de notável. Dois braços, duas pernas, a cabeça de formato normal. O corpo era pequeno, e o esforço de subir no trem a fazia respirar asperamente. Parecia mais geriátrica do que psicótica; gerações de canibais fictícios não o haviam preparado para aquela comovente vulnerabilidade.

Atrás da primeira, criaturas semelhantes começaram a surgir das trevas,subindo no trem. Na verdade, entravam por todas as portas. Kaufman estava encurralado Sopesou o cutelo nas mãos, pronto para a luta contra aqueles monstros antigos. Uma tocha fora levada para o carro e iluminava os rostos dos líderes. Eram completamente calvos. A pele cansada dos rostos esticava-se sobre os ossos, brilhando com a tensão. Havia manchas de podridão e doença, e em alguns lugares o músculo tinha se transformado em pus negro, através do qual apareciam
os ossos da têmpora ou da face. Alguns deles estavam nus como bebês, os corpos, uma massa informe e sifilítica, quase assexuados. Os que tinham sido seios carregavam sacos ressecados pendendo dos ombros, os órgãos genitais murchos, quase inexistentes.

Mais impressionantes do que os nus eram os que usavam roupas. Kaufman percebeu logo que eram feitas de pele humana e pendiam dos ombros ou estavam amarradas na cintura. Não apenas uma, mas uma dúzia ou mais de peles amontoadas ao acaso sobre os corpos das criaturas, como patéticos troféus. Os líderes daquela grotesca fila para a refeição tinham chegado aos corpos, e as mãos delicadas tocavam a carne dependurada, passando de cima a baixo nos corpos sem pêlos, com gestos que sugeriam prazer sensual. Línguas dançavam fora das bocas, perdigotos caíam sobre a carne. Os olhos dos monstros dardejavam de
um lado para o outro, com fome e excitação. Finalmente um deles viu Kaufman.

Os olhos pararam por um momento, fixando-se nele. Uma expressão interrogativa surgiu no rosto, uma paródia de perplexidade:

— Você — disse a coisa. A voz era tão devastada quanto os lábios de onde saía.

Kaufman ergueu um pouco o cutelo, calculando suas chances. Havia uns trinta deles no carro e muitos mais lá fora. Mas pareciam tão fracos, e não tinham armas, a não ser pele e osso. O monstro falou outra vez, a voz bem modulada, sob controle agora, a entonação de um homem antes culto, antes encantador:

— Você veio à procura do outro, não é?

Olhou para o corpo de Mahogany. Evidentemente compreendeu a situação
com rapidez.

— Ele já estava mesmo velho — disse a criatura, os olhos lacrimejantes postos mais uma vez em Kaufman, estudando cuidadosamente.

— Foda-se! — disse Kaufman.

A criatura tentou um sorriso irônico, mas a técnica estava quase esquecida, e o resultado foi uma careta, expondo os dentes sistematicamente limados em ponta.

— Agora será você quem terá de fazer isto para nós — disse o monstro com seu sorriso bestial. — Não podemos sobreviver sem comida.

A mão deu pancadinhas na nádega de carne humana. Kaufman não tinha resposta para aquela ideia. Olhou com repugnância para as unhas que deslizavam entre as nádegas, sentindo o músculo tenro.

— Isto nos repugna tanto quanto a você — disse a criatura. — Mas somos obrigados a comer esta carne, do contrário morreremos. Deus sabe que não gosto dela.

Mas a coisa estava babando.

Kaufman conseguiu falar, afinal. Sua voz saiu fraca, mais por uma confusão de sentimentos do que por medo.

— O que são vocês? — Lembrou-se do homem barbado na lanchonete. — São algum tipo de acidente?

— Somos os patriarcas da Cidade — disse a coisa. — Bem como as mães, as filhas e os filhos. Os construtores, os legisladores. Nós fizemos esta cidade.

— Nova York? — perguntou Kaufman. — O Palácio das Delícias?

— Antes de você nascer. Antes do nascimento de qualquer pessoa viva.

Enquanto falava, a criatura passava as unhas sob a pele do corpo aberto, soltando a fina camada elástica do músculo apetitoso. Atrás de Kaufman, as outras criaturas estavam tirando os corpos das alças, as mãos acariciando com prazer os seios macios e os flancos. Eles também começavam a esfolar os corpos.

— Você nos trará mais — disse o primeiro. — Mais carne para nós. O outro fornecedor estava fraco.

Kaufman olhou para o monstro, incrédulo.

— Eu? — disse ele. — Alimentar vocês? O que pensa que sou?

— Deve fazer por nós, e para os mais velhos do que nós. Para aqueles de antes de a cidade ser imaginada, quando a América era só florestas e desertos.

A mão frágil fez um gesto, apontando para fora do trem.

Kaufman acompanhou com os olhos a direção apontada. Havia alguma coisa na escuridão que ele não vira antes; muito maior do que qualquer ser humano. O bando de criaturas abriu um espaço para que ele pudesse examinar melhor o que estava lá fora, mas seus pés não se moveram.

— Ande — disse o patriarca.

Kaufman pensou na cidade que tinha amado. Seriam aqueles realmente seus antigos fundadores, seus filósofos, seus criadores? Tinha que acreditar. talvez houvesse pessoas na superfície.— burocratas, políticos, todo tipo de autoridade — que conheciam esse terrível segredo, e cujas vidas eram dedicadas a preservação daquela coisa abominável, alimentando as criaturas, como os selvagens ofereciam ovelhas aos deuses. Havia uma terrível familiaridade naquele ritual. Despertava uma lembrança — não na mente consciente de Kaufman, mas no outro ego mais profundo, mais antigo.

Seus pés, não mais obedecendo à mente, mas à força do instinto para adorar, moveram-se. Atravessou aquele corredor de corpos e saiu do trem. A luz das tochas iluminava agora fracamente a escuridão lá fora. O ar parecia sólido, espesso, com o cheiro de terra muito antiga. Mas Kaufman não sentia cheiro algum. Inclinou a cabeça para a frente, o máximo que podia fazer para não desmaiar outra vez. Lá estava; o precursor do homem. O americano original, a quem a terra pertencia antes mesmo dos Passamaquoddy ou dos Cheyenne. Seus olhos, se é que aquilo tinha olhos, estavam fixos nele.

Kaufman estremeceu, Seus dentes bateram uns contra os outros. Ouviu o ruído da anatomia daquela coisa: tiquetaqueando, estalando, soluçando. Ela fez um pequeno movimento no escuro. O som era apavorante. Como urna montanha acomodando-se.

O rosto de Kaufman estava erguido para o vulto e, sem pensar no que fazia, sem saber por que, caiu de joelhos na imundície na frente do Patriarca dos Patriarcas. Cada dia da sua vida o havia levado para aquele dia, cada movimento apressando-o para aquele instante incalculável de terror sagrado. Se houvesse luz suficiente naquele inferno para ele ver tudo, talvez seu coração, frágil coração, tivesse explodido. Porém, vendo só o que podia ver, sentiu
um adejar tremulo no peito. Era um gigante. Sem cabeça ou membros. Sem nenhum traço humano, sem um órgão que tivesse sentido, sem sentidos. Se ela parecia com alguma coisa, era com um cardume de peixes.

Milhares de bocas movendo-se em uníssono, brotando, florescendo murchando ritmadamente. Era iridescente como madrepérola, mas as vezes predominava uma cor mais profunda do que todas as que Kaufman conhecia e cujo nome sabia!

Era tudo que Kaufman podia ver, seria mais do que ele desejava ver. Havia muito mais na escuridão, bruxuleando e estalando. Mas ele não podia olhar mais. Virou-se e nesse momento urna bola de futebol foi atirada do trem e rolou, parando na frente do Patriarca. Não menos ele pensou que era uma bola, até olhar com mais atenção e reconhecer uma cabeça humana, a cabeça do Açougueiro. A pele do corpo fora arrancada em tiras. A cabeça cintilava sangrenta diante do seu Senhor. Kaufman desviou os olhos e voltou para o trem. Cada parte do seu corpo parecia estar chorando, exceto os olhos. Estavam quentes demais com o que tinham visto, e as lágrimas ferviam e se evaporavam neles. Lá dentro, as criaturas já tinham começado a ceia. Uma delas arrancava pitéu doce e azul do olho de uma das mulheres. Outra escava com uma mão na boca. Aos pés de Kaufman jazia o corpo decapitado do Açougueiro sangrando ainda profusamente onde fora cortado o seu pescoço.
O pequeno patriarca que havia falado antes, colocou-se na frente de Kaufman.

— Vai nos servir? — perguntou ele, gentilmente, como se pedisse a uma vaca para segui-lo.

Kaufman olhava para o cutelo, o símbolo da profissão de Açougueiro. As criaturas saíam do carro agora, arrastando os corpos semi-devorados. As tochas saíam com elas, e a escuridão voltava ao interior do carro. Mas antes que as luzes desaparecessem completamente o patriarca estendeu o braço e segurou o rosto de Kaufman, obrigando-o a olhar para a própria imagem refletida no vidro sujo do carro. Era um reflexo fraco, mas Kaufman pôde ver o quanto tinha mudado. Mais pálido do que se pode imaginar qualquer ser humano e coberto de sangue e sujeira. A mão do patriarca segurava ainda com força o rosto de Kaufman com o indicador enfiado na sua boca até tocar-lhe a garganta. Kaufman sentiu náusea, mas
não tinha forças para repelir o ataque.

— Deve servir — disse a criatura. — Em silêncio.

Tarde demais Kaufman compreendeu a intenção daqueles dedos... De repente a criatura agarrou sua língua e a torceu. Com o choque Kaufman largou o cutelo. Tentou gritar, mas não saiu nenhum som. Sua garganta estava cheia  de sangue, ouvia a carne sendo rasgada, foi dominado pelas convulsões da agonia. Então a mão saiu da sua boca, aqueles dedos vermelhos e cobertos de saliva diante dos seus olhos, segurando a língua entre o polegar e o indicador. Kaufman não podia falar.

— Deve servir. — disse o patriarca, e enfiou a língua de Kaufman na própria boca, mastigando-a com evidente satisfação. Kaufman caiu de joelhos, vomitando o sanduíche.

O patriarca já ia desaparecendo na escuridão; o resto dos anciãos já havia regressado também ao covil, para outra noite de espera.

O alto-falante estalou.

— Para casa — disse o maquinista.

As portas se fecharam. Sibilando, e o som do motor fez vibrar o trem. As luzes piscaram ao se acenderem, apagaram-se e acenderam outra vez. O trem começou a se mover.

Kaufman estava deitado no chão, as lágrimas escorrendo pelo rosto, lágrimas de dor e resignação. Ia sangrar até a morte, resolveu, ali mesmo onde estava. Não lhe importava morrer agora. Era, afinal, um mundo sórdido.

O maquinista o acordou. Kaufman abriu os olhos. O rosto acima do seu era negro e amistoso. Deu um largo sorriso, Kaufman tentou dizer alguma coisa, mas sua boca estava selada com sangue seco. Agitou a cabeça, como um retardado que estivesse tentando falar. Conseguiu apenas rosnar... Não estava morto. Não tinha sangrado até a morte. O maquinista o ajudou a se ajoelhar, falando como se ele fosse um garoto de três anos.

— Você tem um trabalho a fazer, meu velho; eles estão satisfeitos com você.

O maquinista lambeu as pontas dos dedos e passou-os nos lábios inchados de Kaufman, tentando abri-los. Muito o que aprender. Muito o que aprender. Conduziu Kaufman para fora do trem. Estavam numa estação que ele nunca vira antes. Toda de azulejos brancos, absolutamente imaculada; o Nirvana de um guarda de estação. Não havia grafitti desfigurando as paredes. Não havia guichês de passagens, mas também não havia portões nem passageiros. Uma linha onde passava apenas o Trem da Carne.

Uma turma de faxineiros lavava com mangueiras o sangue dos bancos e do chão do trem. Alguém tirava a roupa do corpo do Açougueiro, preparando-o para ser despachado para Nova Jersey. Em torno de Kaufman, todos trabalhavam. Um leque da luz do alvorecer entrava por uma abertura no teto da estação. Partículas de poeira dançavam nos raios de sol, girando e girando. Kaufman olhou para elas, enlevado. Não via uma coisa tão bonita desde criança. Linda poeira. Girando e girando, girando e girando.

O maquinista conseguiu finalmente separar os lábios de Kaufman. A boca estava ferida demais para se mover, mas pelo menos podia respirar com facilidade. E a dor começava a diminuir. O condutor sorriu para ele, depois voltou-se para os homens que trabalhavam na estação.

— Quero apresentar-lhes o substituto de Mahogany. Nosso novo Açougueiro — anunciou ele.

Os trabalhadores olharam para Kaufman. Havia nos rostos deles uma certa deferência que o agradou. Kaufman olhou para a luz do sol que o envolvia agora. Moveu a cabeça, indicando que queria ir para cima, para o ar livre. O maquinista fez um gesto de assentimento e o conduziu por uma escada, depois por um corredor e, afinal, para fora, para a calçada. O dia estava lindo. O céu brilhante sobre Nova York, riscado por filamentos de nuns rosa pálido e o ar tinha cheiro de manhã. O dia estava lindo. O céu brilhante sobre Nova York, riscado por filamentos de nuvens rosa pálido, e o ar tinha cheiro da manhã.

As ruas e avenidas estavam praticamente vazias. Ao longe, um táxi ou outro passavam no cruzamento, o motor murmurando; um corredor passou no outro lado da rua. Logo aquelas calçadas desertas estariam cheias de gente. A cidade continuada sua vida, na ignorância do que havia embaixo dela sem saber ao que devia sua existência. Sem hesitação, Kaufman caiu de joelhos e beijou o asfalto imundo com os lábios sangrentos, silenciosamente jurando lealdade eterna a sua continuação.

O Palácio das Delicias recebeu a adoração sem comentários.

Fonte: Livro "Livros de Sangue"
Autor: Clive Barker

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O Trem de Carne da Meia-Noite - Clive Barker (Parte 4)


O instinto dirigiu sua ação. Kaufman afundou-se mais sob o banco, o corpo transformado numa bola minúscula, o rosto pálido virado para a parede. Depois cobriu a cabeça com as mãos e fechou os olhos com força, como um garoto com medo do bicho-papão. A porta deslizou, abrindo-se. Clique. Suash. Uma lufada de ar veio dos trilhos. Um cheiro diferente de todos que Kaufman já havia sentido, e mais frio. O ar em suas narinas era algo primitivo, hostil e indescritível. Kaufman estremeceu.

A porta se fechou. Clique.

O Açougueiro estava perto, Kaufman sabia. Devia estar em pé, a poucos centímetros dele. Estaria olhando para as costas de Kaufman? Inclinando-se, a faca na mão, para tirar Kaufman do esconderijo, como um caramujo arrancado da concha? Nada aconteceu. Não sentiu qualquer bafo no pescoço. Sua espinha não foi aberta de alto a baixo. Apenas o som de passos perto da cabeça de Kaufman, depois o mesmo som afastando-se.

O ar preso nos seus pulmões, que estavam a ponto de estourar, foi expelído asperamente entre os dentes. Mahogany ficou quase desapontado ao ver que o homem adormecido tinha
desembarcado na Rua 4. Esperava ter mais uma tarefa a realizar naquela noite, que o mantivesse ocupado até o fim da linha. Mas não. O homem se fora. A vítima em potencial não parecia mesmo muito saudável, pensou. Provavelmente um anêmico contador judeu. A carne não devia ser de primeira qualidade. Mahogany atravessou o carro na direção da cabine do maquinista. Passaria o resto da viagem ali.

Cristo, pensou Kaufman, ele vai matar o maquinista.
A porta da cabine se abriu. Então ouviu a voz do Açougueiro baixa e rouca:

— Oi

— Oi.

Eles se conheciam.

— Tudo feito?

— Tudo feito.

Kaufman ficou chocado com o que havia de rotineiro naquela troca de palavras. Tudo feito? O que queria dizer tudo frito? Não ouviu as palavras seguintes, porque o trem passou por uma parte muito barulhenta dos trilhos. Kaufman não resistiu mais. Cuidadosamente desvirou o corpo e olhou por sobre o ombro para a porta do carro. Só podia ver as pernas do Açougueiro e a parte de baixo da porta da cabine aberta. Diabo! Queria ver outra vez o rosto do monstro.

Ouvia risadas agora.

Kaufman calculou os riscos da sua situação; a matemática do pânico. Se ficasse onde estava, mais cedo ou mais tarde o Açougueiro o veria, e ele seria transformado em picadinho. Por outro lado, se saísse do esconderijo, arriscava-se a ser visto e perseguido. O que seria pior, a imobilidade e depois a morte, encurralado num buraco, ou tentar a fuga e enfrentar o Juízo Final no meio do carro?

Kaufman surpreendeu-se com a própria coragem: escolheu sair dali. Com lentidão infinita arrastou-se de sob o banco, os olhos pregados nas costas do Açougueiro. Uma vez fora, começou a se arrastar para a porta. Cada palmo era um tormento, mas o Açougueiro parecia muito entretido com a conversa.

Kaufman chegou a porta. Começou a se levantar, tentando se preparar para o que ia ver no Carro Dois. Segurou a maçaneta, e a porta se abriu mansamente. O barulho das rodas aumentou, e uma onda de ar viciado e úmido, um fedor que não existia na terra o envolveu. Será que o Açougueiro iria ouvir algum ruído, ou sentir o cheiro? Será que se voltaria? Mas não. Kaufman passou pela pequena abertura da porta para a câmara ensangüentada.

O alívio fez com que se descuidasse. Não fechou a porta ao passar, e ela começou a se abrir com os movimentos do trem. Mahogany enfiou a cabeça para fora da cabine e olhou para a porta.

— Que diabo é isso? — disse o maquinista.

— Não fechei bem a porta. Nada mais.

Kaufman ouviu os passos do Açougueiro na direção da porta. Agachou-se, uma bola de pânico, contra a parede entre os dois carros, percebendo de repente que seus intestinos estavam cheios. A porta foi puxada do outro lado, e os passos se afastaram. Salvo, pelo menos por mais alguns minutos. Kaufman abriu os olhos, preparando-se para a carnificina que ia ver. Não podia evitá-lo.

Apossou-se de todos os seus sentidos: o cheiro das entranhas abertas, a visão dos corpos, a sensação do líquido no chão sob seus dedos, o som das alças de couro estalando ao peso dos corpos, até o ar com o gosto salgado de sangue. Estava naquele cubículo diante da morte absoluta, correndo velozmente, cortando as trevas.

Mas não sentiu náusea agora. Nenhuma sensação sobrou a não ser uma leve repugnância. Chegou a examinar os corpos com curiosidade. A carcaça mais próxima era o que restava do jovem espinhento do Carro Um. O corpo estava de cabeça para baixo, balançando para a frente e para trás ao ritmo do trem, em uníssono com os três companheiros; uma obscena dança macabra. Os braços pendiam molemente dos ombros, onde dois cortes com dois centímetros mais ou menos de profundidade tinham sido feitos, para que os corpos ficassem mais em ordem assim dependurados.

Cada parte da anatomia do garoto ondulava, acompanhando o ritmo do trem. A língua pendia da boca aberta. A cabeça balançava no pescoço cortado. Até o pênis sacudia de um lado para o outro na virilha pelada. Do ferimento na cabeça e do corte da jugular o sangue pingava ainda no balde preto. Havia uma certa elegância em tudo aquilo, a marca de um trabalho bem-feito. Ao lado do primeiro estavam os corpos de duas mulheres brancas e outro de um rapaz de pele morena. Kaufman inclinou a cabeça para olhar os rostos deles. Não tinham qualquer expressão. Uma das jovens era muito bonita. Achou que o homem devia ser porto-riquenho. Todos sem cabelo e sem pêlos. Na verdade, o ar estava repleto do cheiro pungente da tosa. Kaufman ergueu-se, encostado na parede do carro, e o corpo de uma das mulheres girou, mostrando as costas para ele.

Não estava preparado para aquele horror final. A carne das costas estava aberta do pescoço até as nádegas, e o músculo fora retirado para expor as vértebras brilhantes. O triunfo final da arte do Açougueiro. Ali estavam dependurados aqueles pedaços retalhados, tosados, sangrados de humanidade, abertos como peixes, prontos para serem devorados... Kaufman quase sorriu ante a perfeição daquele horror. Sentiu a sugestão de insanidade fazendo cócegas na base do seu crânio, tentando-o para o vazio, prometendo uma indiferença total para com o mundo. Começou a tremer incontrolavelmente. Suas cordas vocais tentavam formar um grito. Era intolerável; porém, gritar seria ver-se transformado numa das criaturas ali dependuradas.

— Foda-se — ele disse, em voz mais alta do que pretendia; depois, desencostando-se da parede começou a andar pelo carro entre os corpos balouçantes, observando as pilhas de roupas cuidadosamente dobradas ao lado dos outros objetos, nos bancos, ao lado dos donos. Sob seus pés o chão estava pegajoso, coberto de bile quase seca. 

Mesmo com os olhos quase fechados, via o sangue nos baldes com extrema clareza; era grosso e embriagador, com pontos de poeira girando dentro dele. Passou pelo jovem e viu a porta do Carro Três. Tudo o que tinha a fazer era percorrer a aterrorizante fileira de atrocidades. Obrigou-se a seguir em frente, tentando ignorar os horrores, concentrando-se na porta que o levaria de volta a sanidade. Passou pela primeira mulher. Mais alguns metros, disse para si mesmo, dez passos no máximo; menos, se caminhasse confiantemente.

Então as luzes se apagaram.

— Jesus Cristo — disse ele.

O trem inclinou-se para um lado, e Kaufman perdeu o equilíbrio.Na escuridão completa procurou apoio e os braços frenéticos abraçaram ocorpo mais próximo. Antes que pudesse evitar, sentiu as mãos mergulharem nacarne macia e os dedos agarrando a borda aberta do músculo das costas da mulhermorta, as pontas tocando o osso da espinha. Seu rosto estava encostado na carne sem pêlos da virilha.

Ele gritou e estava gritando ainda quando as luzes se acenderam. E quando as luzes voltaram, piscando, e o grito morreu na sua garganta, ouviu o ruído dos passos do Açougueiro atravessando o Carro Um em direção à porta. Largou o corpo que abraçava. Seu rosto estava sujo do sangue da perna da mulher morta. Kaufman o sentia como se fosse uma pintura de guerra dos índios. O grito havia desanuviado sua mente, e sentiu de repente uma espécie de
força. Não ia haver perseguição por todo o trem, ele sabia; não ia haver covardia, não agora. Ia haver um confronto primitivo, dois seres humanos, face a face. E não haveria truque — qualquer truque — que ele não estivesse disposto a usar para derrotar o inimigo. Era uma questão de sobrevivência, pura e simples.

A maçaneta da porta girou.

Kaufman olhou em volta, procurando uma arma, os olhos firmes e calculadores. Viu a pilha de roupas ao lado do corpo do porto-riquenho. Havia uma faca entre os anéis de pedras falsas e cordões imitando ouro. Uma arma limpa e imaculada de lâmina longa, orgulho e alegria de um homem. Estendendo o braço para além do corpo jovem e musculoso, Kaufman apanhou-a. Era uma sensação agradável, segurá-la; na verdade, extremamente excitante. A porta estava sendo aberta, e o rosto do Açougueiro apareceu.

Kaufman olhou para Mahogany através do matadouro. Não era terrivelmente assustador; apenas outro homem cinqüentão, gordo, meio calvo. Rosto pesado, olhos fundos. A boca, pequena para o rosto e lábios delicados. Na verdade, uma boca feminina. Mahogany não podia entender de onde tinha surgido aquele intruso, mas sabia que era outro dos seus descuidos, outro sinal de incompetência crescente. Precisava despachar aquela criatura imperfeita imediatamente. Afinal, não deviam estar a mais de dois ou três quilômetros do fim da linha. Precisava retalhar o homenzinho e dependurá-lo pelos tornozelos antes de chegar ao seu destino.

Entrou no Carro Dois.

— Você estava dormindo — disse, reconhecendo Kaufman. — Eu o vi.

Kaufman não disse nada.

— Devia ter saído do trem. O que estava tentando fazer? Queria se esconder de mim?

Kaufman continuou em silêncio.

Mahogany segurou o cabo do cutelo que pendia do cinto de couro muito usado. Estava sujo de sangue, bem como o avental de cota de malha, o martelo e a serra.

— Agora — disse ele — tenho de liquidar você também.

Kaufman ergueu a faca. Parecia pequena comparada as armas do Açougueiro.

— Foda-se — ele disse.

Mahogany sorriu das pretensões de defesa do homenzinho.

— Não devia ter visto isto; não é para gente como você — disse ele, dando outro passo para Kaufman. — E um segredo.

Oh, ele se julga um tipo inspirado por Deus, certo? — pensou Kaufman. Isso explica muita coisa.

— Foda-se — repetiu.

O Açougueiro franziu a testa. Não gostava da indiferença do homenzinho por seu trabalho, por sua reputação.

— Todos nós temos de morrer um dia — ele disse. —Você devia estar satisfeito, não vai ser liquidado como a maioria deles. Posso usar você. Para alimentar os Patriarcas.

A única resposta de Kaufman foi um sorriso. Não estava mais aterrorizado com aquele monstro grosseiro e desajeitado.

O Açougueiro tirou o cutelo do cinto e o brandiu no ar.

— Um judeuzinho imundo como você — disse ele —devia agradecer por poder ser útil; ser carne é o melhor que pode desejar.

Sem nenhum aviso, o Açougueiro atacou. O cutelo dividiu o ar com velocidade, mas Kaufman recuou para longe do alcance da arma. O cutelo raspou a manga do seu paletó, cortando-a e foi se enterrar na nádega do porto-riquenho. O impacto quase decepou a perna, e o peso do corpo abriu mais o talho. A carne exposta da coxa era como carne da melhor qualidade, suculenta e apetitosa. O Açougueiro começou a retirar o cutelo do corpo e nesse momento Kaufman atacou. A faca moveu-se velozmente para o olho de Mahogany, mas por um erro de cálculo atingiu o pescoço. Atravessou a coluna e apareceu do outro lado, com uma pequena gota de sangue. O pescoço atravessado. Com um único golpe. De um lado ao outro.

Mahogany sentiu a lâmina no pescoço como uma sensação sufocante, quase como se tivesse um osso de galinha atravessado na garganta. Emitiu um som ridículo de tosse. O sangue escorreu dos seus lábios, pintando-os como batom numa boca de mulher. O cutelo caiu no chão. Kaufman retirou a faca. Dos dois ferimentos o sangue jorrou, em arco. Mahogany caiu de joelhos, olhando para a faca que o havia matado. O homenzinho o observava passivamente. Dizia alguma coisa, mas Mahogany estava surdo para as palavras, como se estivesse embaixo d’água.

De repente Mahogany ficou cego. Sabia, com uma nostalgia dos sentidos, que jamais ia ver ou ouvir outra vez. Isto era a morte. Estava com ele, sem dúvida. Porém a mão sentia ainda o pano da calça, e os borrifos quentes na sua pele. A vida parecia andar na ponta dos pés, enquanto os dedos agarravam-se aos últimos sentidos... e então o corpo desmoronou, e as mãos, a sua vida e seu dever sagrado desapareceram sob o peso da carne cinzenta.

O Açougueiro estava morto.

Kaufman respirou profundamente o ar viciado e segurou uma das alças de couro para se equilibrar. Lágrimas obscureciam a visão da cena que o rodeava. Passou-se algum tempo; não sabia dizer quanto se demorou perdido num sonho de vitória. Então o trem começou a diminuir a velocidade. Sentiu e ouviu os freios sendo acionados. Os corpos dependurados foram lançados para a frente quando o trem deslizou, diminuindo a marcha, as rodas guinchando nos trilhos suados e pegajosos.

Kaufman foi dominado pela curiosidade.

O trem ia desviar-se agora para o abatedouro subterrâneo do Açougueiro, decorado com as carnes que ele havia colecionado em toda a sua carreira. E o maquinista risonho, tão indiferente ao massacre, o que faria quando o trem chegasse ao seu destino? O que quer que acontecesse agora era acadêmico. Kaufman podia enfrentar qualquer coisa; olhar e ver.

O alto-falante estalou. A voz do maquinista:

— Fim da linha, cara. Melhor ir para o seu lugar, hein?

Ir para o seu lugar? O que significava isso? O trem estava quase parando agora. Lá fora tudo estava escuro, como sempre. As luzes piscaram, depois se apagaram. Dessa vez não acenderam novamente.

Kaufman estava em completa escuridão.

(Continua)